O sol se escondia por trás das nuvens, a brisa fria dava um tom sombrio ao fim de tarde. Lett olhava através da janela de seus aposentos, ainda um pouco sonolenta, se deitou em sua cama com seus lençóis macios e confortáveis. Fechou os olhos e sentiu um aperto no coração, há dois dias esperava atentamente o rapaz que a levaria em segurança ate Chyre, o reino de seu tio que, há muito era conhecido como uma fortaleza impenetrável. Lett era filha mais nova do rei Rossi, desde que sua irmã morrera, Rossi decretou que a jovem deveria ser mantida sob vigilância até que os reinos estivessem em aliança de paz.

- Princesa? — Uma jovem ruiva a chamou tirando de seus devaneios — O arqueiro de Chyre chegou esta pronta?

- Acho que sim — Lett levantou e voltou à janela — Não quero ir, estou com medo.

- Seu pai sabe — Disse a jovem tentando amenizar as coisas — Mas se ele confia nesse rapaz, acredito que deveria se sentir segura. Ficará bem. — A ruiva retorceu a boca impotente.

- Filha? — O rei entrou no quarto interrompendo a conversa — Retire-se Lucy, quero conversar com a minha filha, a sós. — Lucy se retirou do quarto e fechou a porta.

- Pai, eu não quero ir.

- Eu sei, mas deve ir. Vamos, levante que Diaz já esta esperando — A jovem se levantou e pegou uma mochila com algumas coisas que havia arrumado uns dias antes. Abraçada com seu pai desceu até o pátio próximo ao portão. Diaz estava de costas, checando os cavalos. — Pronto. Aqui esta ela.

- Certo — Ele a olhou medindo-a — Podemos ir? — A garota assentiu, abraçou o pai e subiu no cavalo. O arqueiro subiu em um cavalo ao lado — Sabe cavalgar?

- É claro que sei — Disse ela em um tom hostil.

- Então vamos, temos uma longa viagem pela frente. — Com alguns estralar de dedos os cavalos começaram a andar.

A noite estava escura, Claire caminhava com cuidado. Com medo do barulho das folhas secas no chão chamarem a atenção de saqueadores, o ferimento em sua perna dificultava seus movimentos. Pegou o arco que carregava e o jogou com toda sua força em cima de uma arvore de copa fechada. Abaixou-se e respirou fundo, pegou a adaga que levava na cintura e cravou na arvore. Usou de apoio para subir, ainda um pouco fraca. Recuperou a adaga e a guardou depois de subir até ficar completamente escondida. Tirou o cinto e se prendeu a arvore, apoiou a aljava em sua perna e deixou o arco pronto caso precisasse usar. “Eu só preciso descansar um pouco" pensou ela "amanhã ficarei bem". Apesar da dor que sentia, tentou cochilar. O frio a fazia ranger os dentes, seu ferimento latejava, agora um pouco mais forte. Fechou os olhos e depois de algum tempo, adormeceu.

- Por que aqui? — Uma voz embaixo da arvores fez com quem Claire acordasse, olhou pra baixo procurando a origem da voz sem ser vista.

- Aqui me parece seguro — Respondeu uma voz masculina — Nós passaremos a noite aqui e partiremos ao amanhecer. — Claire preparou uma flecha no arco "a ultima coisa que quero, é companhia" pensou "e, aliás, posso usar um desses cavalos". Olhou em volta, certificou-se que era apenas um casal. Mirou a flecha no rapaz "ele me daria mais problemas do que uma jovem indefesa".

- Diaz! — A garota o chamou com um tom de medo na voz.

- Agora não — Respondeu ele olhando em volta. Claire soltou a flecha com o olhar fixo em Diaz. Ele abaixou a cabeça como se estivesse alongando o pescoço, a flecha acertou a arvore atrás dele. — Fácil demais — Disse ele sorrindo, puxou seu arco e atirou uma flecha na direção de Claire rapidamente. A flecha acertou o cinto da jovem. Claire despencou e Diaz correu em sua direção, apesar de seu ferimento correu o mais rápido que pode. O arqueiro se aproximou da arvore.

- Diaz! — Gritou a princesa, o arqueiro imaginou que alguém à estivesse atacando e correu de volta para perto dela. Quando se aproximou a princesa o abraçou chorando. — Eu estou com medo.

- Esta brincando comigo? — Ele olhou em volta, já não havia nenhum sinal de Claire. — Por que gritou?

- Porque fiquei com medo, é claro. — Ela respirou fundo e o soltou. — Vamos sair daqui?

- Vamos combinar uma coisa, só grite o meu nome se estiver em perigo, entendeu? — Lett assentiu enxugando suas lágrimas. — Mais uma coisa, solta seu cabelo, e amanhã a gente passa numa vila e você se veste como uma camponesa. Já fomos surpreendidos uma vez, uma princesa valeria muito em época de guerra.

Diaz checou os cavalos mais uma vez e os dois prosseguiram por quase 20 minutos, em silêncio Diaz manteve a atenção ao seu redor até que viu alguém poucos metros à frente correndo para trás de uma arvore, fez um gesto para que Lett esperasse um pouco e continuou mais um pouco.

- Quem esta ai? — Questionou Diaz — Já o vi — Esperou uns instantes, mas não obteve resposta, preparou uma flecha em seu arco e atirou em um galho — Este foi um tiro de aviso, saia daí — Sua voz agora entoava um tom de fúria.

- Espera! — Gritou uma voz feminina pouco enfraquecida — Eu vou sair, espera! — De trás da arvore saiu uma garota de longos cabelos negros, ela estava curvada com uma das mãos sob a perna. Suas mãos estavam ensanguentadas. Ela carregava um arco e sua aljava arrastava no chão. "Esse não é um arco de caça simples" pensou ele "quem é essa garota?".

- Quem é você? — Disse ele sem baixar o arco.

- Meu nome é Claire — Ela o olhou avaliando-o — Fui atacada por alguns. — Claire caiu de joelhos, mas antes que atingisse o chão Diaz se aproximou e a segurou. Ela estava desacordada, ele a pegou no colo e a tirou da estrada, ao deita-la no chão notou as adagas que ela carregava na cintura.

- Lett, tire os cavalos da estrada, traga-os para cá e os amarre. — A princesa o obedeceu em silêncio. — Vamos cuidar de você — Ele tirou as adagas e o arco de Claire e os colocou de lado. Desamarrou o lenço que Claire havia usado para fazer um curativo improvisado. Foi até uma bolsa de couro amarrada em um dos cavalos e pegou um frasco pequeno com um liquido escuro. Se aproximou de Claire novamente, abriu o frasco e derramou um pouco sob o ferimento, era um corte não muito longo, porém fundo. Claire se retorceu de dor, agora acordada tentou empurrar as mãos do arqueiro.

- Estou te ajudando — Disse ele com a voz calma. Ela mordia os lábios enquanto o rapaz finalizava o curativo. — Acabei. — Ela olhou com um olhar de agradecimento, mas sem forças não disse uma só palavra. — Vou levar você pra uma vila segura.

Pegou o arco e as adagas de Claire e os amarraram junto a seus pertences, novamente a ergueu em seus braços e a subiu em seu cavalo. Subiu no cavalo e a aconchegou de lado, deitada em cima de seu peito.

- Ela vai com a gente mesmo? — Indagou Lett.

- Sim, esta pronta? — Lett assentiu.

Prosseguiram por mais algumas horas até que o dia começara a amanhecer. Diaz observou o arco e as adagas de Claire "Esse não é um arco pra uma jovem indefesa" pensou ele "Quem é você, Claire?".

- Claire? — Diaz chamou em voz baixa, ela olhou esperando que ele continuasse. — De quem é esse arco?

- Meu — Respondeu ela — Por quê?

- Onde o conseguiu?

- Meu pai me deu, ele mesmo fez. – Diaz observou o arco.

- Gostei do arco, ele tem talento.

- Tinha – Claire corrigiu e Diaz achou melhor encerrar o assunto ali.

- Sinto muito.

O trio prosseguiu por mais algumas horas até chegar a um vilarejo ao sul de Chyre. Era um lugar calmo e escondido, com poucas pessoas. As casas eram simples e o gado extremamente limitado. Havia algumas crianças brincando juntas perto de uma senhora que os observava sorrindo. O trio entrou na vila, Diaz que há muito tempo conhecia o vilarejo se dirigiu uma casa no final da rua. Ajudou Claire a descer e depois amarrou os cavalos.

- Conhece alguém daqui? – Lett o questionou com a voz sonolenta e o olhar baixo.

- É um dos vilarejos mais calmos do Sul. Vamos descansar um pouco aqui. — As garotas se entre olharam e Claire deu de ombros.

As duas se acomodaram na casa, Lett se cobriu e adormeceu rápido. Claire, por outro lado fincou rangendo um pouco os dentes após pegar no sono. Diaz se aproximou de Claire e a cobriu com sua capa. Deitou-se em uma rede próxima a porta e adormeceu.

Claire levantou no meio da noite, notou a capa em volta dela e correu o olhar pelo quarto procurando Diaz e Lett, Lett dormia em uma cama ao lado. Levantou-se devagar e se sentou na cama. Desfez o curativo de Diaz, seu ferimento já estava melhor. Forçou um pouco e viu que estava apenas dolorido. “Já posso ir” pensou sozinha, se levantou da capa e pegou a capa. Andou até a cozinha e notou que Diaz estava dormindo perto da porta, pendurado em uma rede. Em cima da mesa estavam todas as armas do trio. Claire se aproximou lentamente e em silencio, prendeu suas adagas no cinto, ajeitou a aljava em suas costas e pegou seu arco. Chegou ao lado de Diaz e decidiu não acorda-lo, jogou a capa por cima dele e sussurrou:

- A gente se vê, garoto arqueiro.