Will corria pela leve chuva que caia a seu redor. Ele estava pensativo. Ás vezes queria esquecer de seu passado, de seus medos, de suas revoltas. Queria apenas viver.

Não se lembrava do ocorrido de quando caiu, mas se lembrava de uma frase. De um flash. Uma única lembrança em meio às sombras de seu passado.

"É sua segunda chance, Jahoel, não falhe. Salve-nos."

Jahoel.

Will sentiu seu corpo tremer. Foi tomado por pavor, mas a emoção se esvaiu ao ver as portas se abrirem em sua frente.

O garoto entrou no enorme saguão, mas não reparou nos detalhes, nem nas pessoas que ali estavam. Seus olhos estavam pesados demais, ele queria fechá-los e... por um tempo, fazer tudo sumir.

–Senhor, posso ajudá-lo? -Perguntou a atendente atrás do balcão.

Will piscou e tentou focar na imagem. Seus músculos ardiam pedindo descanso.

–Um quarto... -Murmurou ele.

–Apenas para o senhor?

–Sim.

–E quantas noites pretende...

–Só me dê um quarto! -Ele tirou do bolso uma quantia de dinheiro e colocou sobre o balcão. A mulher arregalou os olhos e suas mãos alcançaram a quantia rapidamente.

Logo ela entregou à Will uma chave com o número 7. O menino fez uma careta, o tal número não lhe trazia boas lembranças.

–Seu quarto fica...

A moça tentou dizer, mas Will já havia tomado sua caminhada em direção à escadaria principal. Passou por corredores e salas, até chegar a uma porta de madeira escura com um pequeno 7 em dourado. Sacudiu a cabeça e girou a chave. Um clique. A ´porta se abriu.

O local estava escuro, tomado apenas por alguns contornos vindos da luz da janela. Ele pegou a chave e adentrou o cômodo.

A porta se fechou atrás dele. Andou até a cama e retirou os sapatos preguiçosamente. Seu corpo caiu no confortável colchão. Puxou o amontoado de cobertas para si. Não havia notado o frio, a chuva deveria tê-lo deixado resfriado.

Fechou os olhos e finalmente se permitiu descansar. Mas ele sabia bem o que o sono lhe traria...

–AAAAAAH! -O berro vinha de longe, mas ele o ouvia. Suas pernas ardiam de tanto correr, mas ele não pararia, não podia. Só tinha certeza disso.

As imagens à sua frente não eram nítidas, tudo o que queria era correr.

Chegou à imensa sala. Viu as criaturas aladas. Anjos, ele já fora um deles. O chão branco estava manchado de dourado, como se houvessem derramado tinta. Mas não era tinta, era...

–Jahoel, o que faz aqui? -Perguntou um deles se virando e encarando Will. Suas pernas bambearam ele não ouvia mais o grito, sabia que não fora rápido o suficiente. -Jahoel, responda!

Will foi consumido pela ira. Segurou o anjo pelo pescoço e lançou-o longe. O líquido dourado escorreu na parede atrás dele.

–Jahoel, como ousa...

–Cale-se, foi você quem fez isso com ela! -Berrou Will correndo até ele e dando-lhe um soco.

–Irmão? O que houve? -Perguntou uma voz familiar. Will se virou.

"Angelo" Berrou em seus pensamentos, mas não foi ouvido

–Uriel, disse que era meu aliado, essa é sua chance de provar. Arranque as asas dele! -Disse o anjo à Angelo.

Angelo... Uriel, olhava para Will com agustia. Ele costumava fazer isso quando Will se metia em roubadas, era preferível levar uma surra, acredite.

–Uriel? Você não é um deles! -As palavras sairam da boca de Will, mas ele não as entendia.

Uriel fechou os olhos.

–Não consegue apenas seguir as regras, irmão? -Falou ele mais pra si do que pra Will.

–Seguir as regras? Acha que quero obedecer regras dele? -Apontou para o anjo arremessado. Que o encarou com fúria.- Viu o que ele fez com ela, irmão, acha isso justo? -Implorou.

–Esta ficando cego, Jahoel, não podemos sentir esse tipo de coisa... -Falou Uriel em um sussurro

–O que esta esperando? Faça! -Esbravejou o anjo, novamente.

Uriel ergueu as mãos e firmou-as no ombro de Will, empurrando-o pra baixo. Ele já ouvira falar disso, você tinha de se ajoelhar, como se clamasse por alguma piedade. Para não cair...

–Não! Eu mesmo faço isso. -As palavras saíram outra vez.

Uriel o encarou com espanto nos olhos. Will não esperou sua reação, apenas correu, até que seus pés não tocassem o chão. Até que sentisse apenas o vento. Até que nada mais importasse. Tinha suas asas outra vez. Eram imensas e negras. Sombrias como ele mesmo sempre havia sido, ainda assim eram livres.

Mas a liberdade não durou o esperado. Logo sentiu uma dor imensa no peito. Seus olhos arderam e não conseguia respirar. O ar não lhe trazia mais conforto, agora o puxava ao chão, como fizera Uriel. Estava caindo.

Suas asas estavam se desfazendo, as que restaram pálidas, cinzas, sem vida. Will se debateu até que o ar de seus pulmões acabasse e seu corpo mergulhasse na escuridão.

Sentia-se morto, mas o pequeno fio de vida ainda se agarrava nele. Sentiu a calma tomar conta de si. Fora treinado para ser um guerreiro, para nunca baixar a guarda, mas ali, se sentia protegido. Sem raiva ou dor, só paz.

"É sua segunda chance, Jahoel, não falhe. Salve-nos" A voz falou como um sussurro. A frase que ele tanto temia agora vinha com uma amarga lembrança. De quando deixou suas assas para trás. De quando desistiu de tudo por alguém que ele não fazia ideia de quem era. A voz ainda pesava em sua mente, seu corpo estava queimando. Ele gritou.

Abriu os olhos. Voltara ao quarto. Respirava com dificuldade. O lugar parecia estar girando. Deveria ter sido apenas um sonho, mas fora mais que isso. Uma memória.