Flames Of Death
5 Capítulo 5 O mordomo
Stefan me acompanhou até a casa de Lexi e depois tomou rumo a sua própria casa, da qual eu ainda pretendia conhecer.
Lexi ainda não voltara de sei lá aonde, mas eu prefiria assim, odiava aquela garota, e apenas esperava ansiosa a oportunidade perfeita de derrubá-la. Eu ainda colocarei na cabeça de Stefan que sou muito melhor que ela. Como ele poderia ama-la sendo que me conhecia? Não compreendia.
Mas após ficar um tempo com Stefan, minha sede piorara. Estava mais sedenta do que nunca, era como se nem mesmo todo o sangue desse mundo pudesse sacia-la.
Meus dentes doíam, minha cabeça latejava e eu estava tonta de fome, parecia que ia desmaiar. Como era possível uma criatura tão forte como eu ser destruída por tão pouco?
Um barulho de porta abrindo e de vozes me chamou atenção, fazendo-me esquecer de minha reflexão profunda sobre minha fraqueza.
Desci as escadas com elegância, me contendo para não atacar a garota que entrava em sua própria casa.
Os cabelos longos e loiros de Lexi estavam presos em um rabo mal feito, e seu vestido estava todo amarrotado.
-Onde estava?
Perguntei, aumentando a voz o máximo que conseguia sem gritar.
-Não preciso lhe dar explicações, agora me ajude com isso.
Disse a garota apontando para uma pilha de sacolas bem fechadas que pareciam pesadas. Ainda parada em pé no último degrau da escada, observei-a, com cara de deboche. Se ela realmente achava que eu iria ajuda-la, estava terrivelmente errada.
Ela me olhou com raiva e falou indiferente.
-Então não me ajude, continue sendo a vagabunda inútil que é.
Meu pulmão se encheu de ar, senti meus dentes crescendo pontiagudos dentro de minha boca, a sede incontrolável voltara a rasgar minha garganta. Se não ataquei Lexi, foi porque ainda precisava dela.
Lexi, sem olhar novamente para mim, entrou na cozinha carregando as sacolas com dificuldade. O mordomo logo correu para ajuda-la.
Apurei meus ouvidos e escutei a conversa que Lexi e o mordomo estavam tendo.
-Senhorita Lexi, viu os olhos da senhora Katherine? Quando a senhora a chamou de inútil ela pareceu se tranformar, o rosto ficou tenso e lhe lançou um olhar maligno. Neste momento eu presenti algo muito ruim, senhorita Lexi.
-Não, não olhei para ela. Mas me conte, o que foi que pressentiu?
-Eu presenti a morte, senhorita Lexi.
O silêncio tomou conta da cozinha. O barulho dos dois corações batendo me possuiu. E a raiva junto do ódio me invadiu. Teria de matar mais pessoas do que esperava, e eu teria de começar ainda aquela noite. Mas qual seria a diferença de matar mais ou menos pessoas? Para mim, a diferença era nenhuma. Mataria quantos fossem preciso, e não hesitaria antes de deixar meus dentes roçarem pelo pescoço e sugassem o sangue de qualquer um. Lembrando-me da conversa na cozinha, parei e voltei a escutar.
-Bem, mordomo, sugiro que o senhor procure um especialista, não sei o que responder.
O mordomo, visivelmente desapontado, respondeu baixinho.
-Não será necessário nenhum especialista, minha senhora, apenas te peço um favor, se é que tenho esse direito. Tome muito cuidado com essa tal de senhora Katherine. Por favor, senhorita Lexi, cuide-se bem.
Lexi não respondeu, apenas saiu da cozinha decidida. Olhou para mim, que ainda estava parada como uma idiota na ponta da escada, e subiu rapidamente para seu quarto, fechando a porta com força.
O mordomo saiu lentamente da cozinha, olhando para os próprios pés. Mas quando levantou a cabeça, se assustou. Eu agora estava muito mais perto do que ele gostaria, olhando com olhar assassino. Ele apenas apressou o passo, entrando em um pequeno quarto ao lado da cozinha. Deduzi que era onde ele dormia. Sentei no sofá da sala, mas antes furtei um enorme facão da cozinha. Ajeitei o sofá de uma forma que ficasse bem de frente para o quartinho do mordomo e esperei.
Algumas horas se passaram, o que para mim não foi nada uma vez que ainda tenho a eternidade pela frente.
Quando eu conseguia ouvir os roncos de Lexi vindo do andar de cima, levantei e adentrei pelo pequeno aposento do mordomo. Ele dormia tranquilamente em uma cama pequena e fria, que ficava do lado de um armário de madeira. E era apenas essa cama e esse armário que compunham o quarto.
Olhei para o mordomo, que dormia profundamente, encolhido de frio pela falta de cobertores mais grossos. Normalmente as pessoas teriam dó desse pobre velho encolhido em uma cama menor do que ele, com só um lençol fino para esquenta-lo do frio que fazia nesta época de inverno; mas eu não tive dó, na verdade, eu não senti nada de bom com relação a aquele homem, só raiva. Se ele iria morrer, era somente culpa dele.
Cutuquei-o com a faca, fazendo com que este acordasse assustado. Ele me olhou apavorado, passando rapidamente os olhos de mim para a enorme faca apontada para seu coração.
-Levante-se.
Tremendo, o velho se levantou devagarinho. Ele me olhava com medo e ódio. Visivelmente o homem queria gritar por ajuda e tentar fugir, mas se mostrava esperto demais para fazer isso. O velho não era apenas um mordomo, ele carregava dentro de si o sangue puro de um bruxo, eu podia sentir isso.
Fiz que ele escrevesse uma carta de adeus, falando o seguinte:
"Minha querida ama Lexi, desculpe-me por essa decisão repentina, mas eu me demito. Estou velho e não aguento mais tanto trabalho puxado. Vou voltar para minha antiga terra, resolver algumas coisas. Acho que nunca mais nos veremos, então, antes que contrarie, saiba que eu estava errado com relação a sua hóspede, a senhorita Katherine. Adeus minha senhora, obrigado por tudo, se cuide.
De seu mordomo,
Adeus"
Também o fiz assinar em baixo e colocar a carta e um envelope.
Levantando a cabeça do homem com o facão, sorri e perguntei-lhe, ironicamente.
-E então, pronto para morrer?
Ele me olhou, agora seu olhar não demonstrava mais medo, nem pavor e nem nada do gênero, apenas um profundo e puro ódio mortal de mim.
-Seu destino é pior que a morte, senhora.
Com raiva por ele se manter no controle em frente a ameaça de morte, enfinquei o facão em seu peito. Senti a faca perfurar um orgão e logo o ar se tomou por um cheiro delicioso de sangue fresco. Me debrucei pelo corpo do homem morto, encaixando meus dentes em seu pescoço e comecei a sugar o sangue que ainda restava.
Logo após, deixei a carta em cima da mesa da sala, com cuidado para não manchar nada de sangue, e carreguei o corpo até a floresta. Cavei um buraco fundo no chão de terra, e enterrei o corpo do homem. Junto dele, enterrei o facão e o vestido que estava usando, que manchara de sangue e sujara de terra.
Voltei para a casa com apenas a roupa de baixo, sem ligar muito para isso. Me coloquei a limpar todo o quarto do velho, eliminando todas as provas, além de me humilhar ao fazer o trabalho de servos e escravas.
Queimei todos os pertences do mordomo e sumi com as cinzas. Nada mais poderia me ligar com a morte do velho, ninguém teria como provar nada. Voltei para meu quarto ao amanhecer, cansada depois de toda a atividade.
***
Na manhã seguinte, acordei com o barulho de passos apressados no corredor. Levantei e me lavei no banheiro.
Após me vestir adequadamente, sai para o local movimentado. Lexi passava de um lado para o outro, carregando uma porção de livros de um aposento para o outro.
-O que está fazendo?
-Bom dia para você também.
Falou ela sem me olhar, continuando o que estava fazendo.
-Responda, o que está fazendo?
Ela parou, e me olhou. Porém suspirou e sorriu.
-Estou arrumando meus livros nesse quarto que esvaziei, resolvi montar uma biblioteca.
-E por que não pede ajuda ao seu fiel mordomo?
-Ele ainda não apareceu, deve estar dormindo, mas logo logo Stefan chegará aqui para ajudar. Enquanto ele não chega, será que você poderia pegar os livros que estão em cima da mesa de jantar?
Não respondi, mas resolvi ir pegar os malditos livros, aproveitando para passar na sala e ver a carta que deixara na noite passada, intacta.
Peguei ela e levei comigo junto com os livros, colocando-a dentro da primeira página de um dos livros da pilha. Entreguei a Lexi, esperando que ela percebesse a carta, e aconteceu exatamente o que eu esperava.
Quando Lexi pegou a pilha de livros, a carta escapuliu de dentro do livro, caindo em seus pés.
Ela apoiou os livros no chão e apanhou a carta, sentando em um banco do corredor antes de abrir. Naturalmente, me aproximei com esperanças, ansiosa para ver a cara de Lexi quando soubesse da novidade.
Enquanto ela lia a carta, seus olhos marejavam de lágrimas, e sua cara demonstrava uma surpresa desagradável.
-O que está escrito?
Perguntei inocentemente, já sabendo a resposta.
-O mordomo.... ele foi embora. Mas.... como? Por que?
Lexi não aguentou, as lágrimas escorreram pelas bochechas brancas feito mármore, caindo no vestido azul.
Neste momento, Stefan entrou pela porta, sem sequer bater. Logo percebi que era um costume dos amigos.
Ele estava mais lindo do que nunca e tinha um visual selvagem. Os cabelos estavam desarrumados e rebeldes, mas de alguma forma que não entendo, lindos. Os olhos carregavam leves olheiras, que resultavam de uma noite mal dormida. A cor dos olhos se destacava com a luz do sol de inverno, e a camisa apertada permitia que observássemos o peito forte do rapaz subindo e descendo de leve a cada vez que respirava.
Quando ele viu Lexi sentada, chorando, e eu ao seu lado, correu em nossa direção com um olhar assustado. Se ajoelhou do lado da amiga, segurando seu braço, e perguntou com doçura.
-Ei, Lexi. O que houve?
A garota até que tentou responder, mas quando abriu a boca para falar, apenas fungou e uma nova onda de lágrimas invadiram seu rosto.
Stefan sentou-se no banco, e puxou Lexi para seu colo. A menina escondeu o rosto no peito do rapaz e continuou a choramingar. A raiva e o ciúmes me invadiram.
Olhando para mim, Stefan perguntou baixo o suficiente para que Lexi não ouvisse. Se eu fosse humana, também não ouviria, mas eu não sou, portanto me apressei em responder.
-Não sei ao certo, mas tem algo a ver com o mordomo e essa carta.
Falei apontando para o chão, fingindo não saber o porque do ataque da garota.
Stefan apanhou a carta e começou a ler rapidamente, em voz baixa. Após terminar, apertou Lexi contra seu corpo e me passou a carta, como se pensasse que eu quisessem ler. Por educação e para continuar com minha ótima atuação, aceitei a carta da mão de Stefan e passei os olhos por ela.
Me fazendo de boa amiga, sentei ao lado de Stefan, abraçando Lexi, envolvendo também em meus braços o próprio e maravilhoso Stefan.
Não prestei muita atenção em Lexi, mas o corpo de Stefan estava quente e convidativo. Pude ouvir o sangue bombardeando o coração do rapaz, as veias repletas pelo líquido vermelho, levando-o para todo o corpo.
Novamente a sede me dominou, e por muito pouco não enfinco meus dentes em Stefan. Desta vez precisei de muito mais esforço para me controlar.
Quando finalmente nos largamos, eu já estava cansada e tremendo do tamanho esforço para conter minha sede.
Observando Lexi, Stefan desceu as escadas, deixando que a garota apoiasse em seu braço.
Todos sentamos em volta da mesa e permanecemos em silêncio, o clima mais do que tenso.
Uma vez ou outra deparava com Stefan olhando para mim, mas quando ele percebia que eu vira, desviava rapidamente o olhar. Isso me proporcionou uma felicidade que nem imagina.
E, sem aviso algum, um vulto enorme passou pela janela, rápido demais para eu identificar que criatura era.
A criatura bateu com força na porta, chamando a atenção de todos.
Eu, Stefan e Lexi olhamos para a porta assustados. Ninguém ousou levantar.
Novamente, a criatura bateu na porta, fazendo com que todo o chão tremesse.
O medo me invadiu por completa.
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