Flagellum Dei

4 Almost a King


Os dias passavam incrivelmente calmos. Átila tinha tempo de sobra para percorrer pelos montes e colher frutas frescas, como sempre fizera. Brincava com seus primos, assim como qualquer garoto de 16 faria. Ajudava seu tio a recolher impostos. Se não fosse se rebaixar muito perante ao povo, diria que seu papel de auxiliar do rei estava suficientemente agradável.

Em suas conversas com Bleda, procurava não citar os conflitos de terras. Não queria pensar nisso por enquanto.

Era festa na vila. O Rei Ruga gostava de comemorar novas alianças. Dessa vez, tinha duas a comemorar.

Durante o dia, flores para enfeitar o campo, mesas com pães, frutas e tortas. Durante a noite, histórias em volta da fogueira. Alguns nobres Burgúndiospresentes na vila tocavam seus psalteries. Enquanto os Francos discutiam sobre a bela criação de cavalos de Ruga.

— Você reparou nas filhas dos nobres, Átila? — Cutucou Bleda

— Não. Por que está sempre pensando nisso? Temos alianças a comemorar!

— Você será rei. Precisa de uma mulher. Já sabe disso, não?

— Sei, mas isso pode esperar. Assim como meu reinado também esperará.

Átila mentiu. Havia reparado uma jovem moça. ''Ruiva, esbelta e que não parece feder a porco'' ele pensava.

A moça se chamava Argotta e tinha a mesma idade de Átila. Era filha do senhor dos francos, Genobaudo.

A noite, Átila se aproximou dela com uma rosa recém colhida na mão. Ela corou. Conversaram sobre os campos e sobre o rumo que suas vidas aparentemente tomariam. Argotta estava prometida para casar.

O homem era Pharamond.

''Um franco saliano! Pirata! Como isso é possível? Sujos, afeminados e sem habilidades de homem!'' Átila não conseguia parar de pensar nisso, apesar de ter deixado Argotta falando sozinha naquela noite.

— Não foi ela que o escolheu, Átila. É uma moça aparentemente inteligente. Os casamentos não são escolhas espontâneas para os jovens, meu irmão. — Bleda tentava o consolar

— Ela aceitou minha rosa, aceitou que eu tocasse em seus cabelos. Será mais uma prostituta? Talvez pensando assim eu não me sinta tão mal e rejeitado.

Bleda saiu da cabana rindo como nunca. Quando voltou, achou Átila na mesma posição de derrota. Haveria um anunciamento importante na aldeia.

Vamos! — Ordenou Bleda

Átila saiu da cabana e olhou todas as pessoas em volta, pareciam felizes e ansiosas por algo que ele não fazia ideia. Quis perguntar a Bleda o que acontecia, mas este já estava ao lado de Ruga, que dizia:

— Senhores! As alianças entre os Hunos, Burgúndios e Francos já é realidade.

Aplausos por toda parte.

— Mas há apenas uma espécie de aliança mais forte que entre homens, guerreiros e saqueadores — riu — a aliança dada pelo casamento de dois jovens promissores!

Átila se assustou. Haveria um noivado na vila?

— Então, com a permissão de Genobaudo, respeitável senhor dos Francos, anuncio que sua filha, Argotta, agora é noiva de meu sobrinho e futuro Rei dos Hunos: Átila.

Foi um choque para Átila. Principalmente ao ouvir os aplausos e o rosto sorridente de Argotta, que agora estava vindo em direção a ele.

Olharam-se, ela parecia em êxtase de tão feliz. Átila não conseguia forçar um sorriso, estava incrédulo.

A vila comemorou. Os nobres levaram vinho, todos beberam. Inclusive o Rei Ruga, que falava indecências aos nobres, que assentiam e partilhavam de tudo.

Mais tarde, Átila já pegava no sono quando Argotta apareceu em sua cabana. Nua, os cabelos cor-de-cobre cobrindo dos seios a virilha. Eles se beijaram, ele a tocou. Era mágico. Até que Bleda o sacudiu e ele se lembrou que era a primeira manhã do outono. Tinha tarefas a executar.

''Bem que o sonho poderia ter ido até o fim'' revoltou-se.

Era a melhor fase do ano para capturar e armazenar javalis. Eles corriam até as tocas em busca de alimento, mas perdiam tempo demais tentando achar o que não existia mais por lá. Enquanto isso, os caçadores se viam em vantagem.

— 5 já dá pra começar. — Disse Bleda, segurando os que conseguiu capturar, enquanto Átila removia os dentes e parte das patas dos animais, como de costume

Voltando a vila, Ruga estava inquieto.

— Acabei de receber uma mensagem. Assim que Genobaudo deixou a vila, os bizantinos armaram uma emboscada. Pelo jeito, cinco flechadas. Já sabiam que ele estava aqui, queriam surpreender-me e tirar um dos meus poucos aliados. Malditos!

— E Argotta, como está? — Perguntou Átila, o coração na mão

— Órfã. Se casará com Pharamond. Sinto muito, Átila.

— Mas nosso noivado foi concretizado na vila! Não é possível.

— As coisas mudam. Os francos não vão querer uma aliança que pode acabar com a vida de sua próxima rainha. Quando um rei morre, a dinastia corre perigo, Átila. Precisa entender.

— Mas ela já partiu? Ela não pode se casar comigo e ser consorte em nossas terras? — Átila sentia-se injustiçado e confuso

— Nossas terras são incertas, Átila. Antes de mim, o povo huno vivia e até dormia em cima de cavalos. Aí aprendemos a criar gados, plantar alimentos essenciais, construir cabanas resistentes, e nos acostumamos com o solo em que vivemos. As coisas podem mudar com uma emboscada. Perdemos homens, famílias, perdemos nosso povo, e aí não nos resta nada além da escravidão em reinos inimigos, ou o exílio de tudo que conhecemos.

Átila sabia que Ruga tinha razão. Não deveria pensar mais em Argotta. Era pra ser, mas não foi. A vida dela correria risco. Era melhor casar-se com um pirata, saqueador e provavelmente mau caráter que com um Rei possuidor de terras incertas.

Átila dormiu e sonhou com Argotta. Sonhou que a resgatava do tal franco saliano. Foi heroico, saqueou todos os seus barcos, o tirou como escravo e matou suas tropas. Argotta ficara claramente impressionada com seu Rei.

Acordou no meio da madrugada, percebeu que jamais a veria novamente e chorou como criança até adormecer de novo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.