Fixação
2 Capitulo 2
A luz do sol batia à janela e era possível ouvir o barulho dos carros passando na rua, quando o despertador do quarto de Alice tocou Vida Charmosa, faixa título do primeiro disco de Stella Gum.
Sonolenta, a garota não vê outra opção a não ser levantar e se arrumar para o colégio.
Inspirada no visual usado por Stella numa campanha publicitária de achocolatado, Alice veste um par de meias cinzas 3/4, combinado com um short-saia preto de cintura alta e a blusa do uniforme escolar. Finaliza o look com luvas vermelhas costuradas por ela mesma e uma trança única jogada de lado. Se pudesse, colocaria também uma gravata borboleta e assim estaria pronta para beber chocolate antes de estudar, mas já foi difícil convencer a mãe a deixá-la usar as luvas. Deixa a gravata de lado.
Antes de sair, dá mais uma olhada no espelho, coloca o material na mochila e bate a porta do quarto. Desce as escadas correndo até a perua escolar que já a aguardava há dez minutos.
– Bom dia, Alice. Perdeu a hora hoje?
– Bom dia, tia Cida. Perdi, desculpe. — tímida.
Alice senta no fundo da perua, distante dos outros alunos muito menores que ela e nada disciplinados.
– Quantos anos você tem? — pergunta uma das crianças.
– Quinze.
– Eu tenho sete. Posso ver sua mochila?
– Não. Não tem nada nela.
A menina se pendura no banco para puxar a mochila de Alice, que a empurra.
– Sai, não mexe nisso.
– Deixa eu ver! Eu vou contar que você me empurrou.
– Não mexe! Vou te empurrar de novo, até você bater a cabeça e morrer, sua insuportável!
Silêncio. A menina ficou muda e estática. Alice logo pressentiu que algo não muito bom viria a seguir. A perua estacionou na frente da escola, quando a criança assustada começou a chorar e berrar, com medo de Alice.
Antes que fosse pega, esta correu para dentro do colégio, protegendo o material. "Ok, talvez eu tenha exagerado ao ameaçar uma criancinha de morte, mas que ela era insuportável, era. Não sou obrigada", pensava enquanto subia as rampas, num misto de culpa e adrenalina.
Na sala de aula, a lousa já estava cheia e todas as carteiras ocupadas, exceto a dela, que ficava no fundo, bem no canto da sala, isolada do resto.
Andou calada até sua mesa, ao som de risadinhas de outras meninas, julgando-a de cima a baixo.
Sempre foi assim. Sempre vagou solitária pelos corredores do colégio onde estudou a vida toda. Teve uma ou outra amiga que eventualmente acabou mudando de escola, e agora, no colegial, estava mais sozinha do que nunca.
Trabalho em grupo era sempre um drama. Juntava-se com os menos estudiosos que a obrigavam a fazer tudo. Tinha boas notas. Justamente por não ter distrações na aula, só restava prestar atenção. Sabia que jamais estaria entre os populares e, com o passar dos anos, deixou de se importar com isso.
No intervalo, levava livros para passar o tempo. Em sua maioria, biografias, seu gênero favorito.
Era bom ler algo diferente entre uma aula e outra, refrescava a mente e relaxava a alma. Ela só não gostava do horário da saída, o favorito de todos.
Justamente pela euforia dos alunos, Alice era frequentemente empurrada nas rampas. Sabia que era de propósito, mas não tiraria satisfação com ninguém, pois diriam que foi acidente.
Num desses empurrões, quase perdeu seu colar da sorte que foi ao chão. Demorou severos minutos procurando-o, agachada entre pernas velozes, apavorada.
O colar carregava um pingente em formato de S, que ela comprou no site oficial da Stella Gum, e desde que recebeu em casa, nunca mais o tirou do pescoço. Era seu amuleto.
Os dias no colégio não eram fáceis, mas Alice procurava meios de suportá-los. E sempre que chegava em casa, aliviava-se do stress assistindo vídeos de Stella. Às vezes, passava tardes inteiras decorando falas de alguma cena de novela, interpretando sozinha. Pra ela, era diversão.
Via na imagem da atriz, uma amiga distante, alguém pra se espelhar e conversar por pensamento. Uma professora de interpretação e canto. Uma filósofa da vida moderna.
Na internet, Alice tinha amigas, fãs de Stella. Elas entendiam sua admiração, mas a disputa de "quem amava mais" às vezes cansava. Entretanto, essas meninas sempre sabiam as últimas novidades na carreira de Stella e espalhavam entre si.
E foi naquela tarde de 10 de abril que o celular de Alice acusou nova mensagem no grupo de fãs:
"GENTE! OLHA ISSO"
O link clicável abria a notícia de que Stella Gum havia confirmado turnê de seu próximo disco, prestes a ser lançado. Não só isso, já era possível comprar ingressos para o primeiro show, a ser realizado na cidade de Alice, que desesperada, discava o número do escritório da mãe:
– Mãe! Por favor, preciso urgente do número do seu cartão de crédito. Sim, tá tudo bem, depois eu te explico, só me empresta. Mãe, é sério, preciso mesmo... Tá, é pra um show que eu quero ir. Trinta reais a meia. Pode falar, já to anotando. Uhum... Aham... Ok! Valeu, mãe, te amo!
"Socorro, gente! Já comprei pro show do dia 9 de maio. Não to acreditando!!!" — digitou no grupo.
Histérica, Alice pulou pela sala, rodopiou, cantou, gritou e quando se cansou, deitou ao sofá para sonhar com o show. Pegou a cadelinha Chay no colo e contou pra ela a grande novidade.
– Chay, você nem sabe, mas você tem esse nome por causa da minha atriz favorita. Era o nome da vilã que ela fez numa novela das sete. E agora, eu vou conhecê-la! Vou no show dela mês que vem e vou fazer o possível pra conseguir entrar no camarim. Eu preciso muito vê-la, muito.
Enquanto acariciava os pêlos da Chay com uma mão, segurava o pingente com a outra e assim, pegou no sono.
Com a cabeça caída entre as almofadas, sonhou com Stella. No sonho, ou melhor, pesadelo, a atriz gritava por socorro, em meio a fogo e muita confusão. Alice não conseguia enxergá-la, mas ouvia sua voz e tentava correr em sua direção. Era desesperador! Ouvia-se muitos gritos, mas a voz de Stella se sobrepunha a todos e Alice sabia que precisava ajudá-la. De repente, a avistou em chamas e correu para puxá-la. Acordou.
A sensação era a pior possível. Não gostava de imaginar nada de ruim acontecendo à Stella, não à Stella.
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