Fixação

1 Capítulo 1


O dia é 9 de abril de 2015, estreia nacional do romance científico Anjo de almas, indicado a seis Kikitos, incluindo o de melhor atriz para Stella Gum, mais uma cantora pop que se arriscava no cinema.

Alguns diriam que a indicação era comprada, mas não importava. A favorita da América Latina, eleita a loira mais sensual da década, também era a favorita de Alice, que aos 15 anos, chorava emocionada numa sala de cinema enquanto tentava engolir a pipoca temperada com lágrimas.

Se as luzes estivessem acesas, qualquer um seria capaz de notar o brilho forte nos olhos de Alice e até mesmo, ouvir seus pensamentos histéricos: "Oh meu Deus! Stella está linda! É claro, ela é linda, amor da minha vida. E que filme brilhante! Ela nunca me decepciona, é impressionante. Perfeita!"

Talvez as outras pessoas da sala não compartilhassem da mesma opinião da adolescente, já que era possível ouvir alguns "Não acredito que paguei vinte reais por isso" que Alice decidiu ignorar para o bem estar de todos. Não que fosse fazer alguma coisa, pois nunca fora uma menina briguenta, mas ouvir insultos sobre Stella doía muito mais do que insultos pessoais. A vontade era de gritar ao mundo o quanto a sua atriz/cantora favorita era a pessoa mais admirável que já passou pela Terra.

Alice não poderia julgar se o filme era realmente bom, visto que sua opinião era claramente parcial e seu amor pela protagonista da trama não permitiria analisar a qualidade da obra, mas por ser indicado a tantos prêmios deveria ter seu mérito (adquirido ou comprado).

De qualquer forma, o filme lotou as salas de cinema de todo o país numa quinta-feira à noite e, às 21h30, já se aproximava do fim perante os olhos de Alice.

Ao acender das luzes e à rolagem de nomes nos créditos, os expectadores começam a se retirar da sala de cinema e seguir suas vidas normalmente, exceto por Alice, que mal pode mover-se tamanha emoção de ver sua diva numa tela tão grande.
Discreta, ela logo se recompõe, enxuga algumas lágrimas, disfarça a emoção, tenta se desconectar da história do filme e voltar à realidade. Manda um beijo para a tela enquanto segura firme o pingente de seu colar. Somente quando todos os créditos terminam, é que Alice está pronta para se retirar da sala.

Tímida, não encara estranhos nos olhos, mas anda pelo shopping como se fosse uma estrela, como se fosse Stella. Por vezes, pensava em pintar o cabelo de louro para ficar parecida, mas a mãe não permitiria.

"Mãe! Opa, esqueci que agora cobram o estacionamento!". E o celular tocando há mais de meia hora.

- Oi, mãe! O filme acabou de acabar. Calma... Já estou indo aí.

Todo o glamour imaginário se foi no exato momento em que Alice entrou no carro e ouviu a maior bronca do ano.

- Custa atender o celular? Eu já não te falei que o estacionamento é de graça só por vinte minutos? Tive que ficar dando voltas e voltas e nada de você me atender. Poxa, Alice, olha o horário, você tem escola amanhã, eu acordo cedo pra trabalhar...

Alice passou os fones de ouvido por dentro da blusa sem que a mãe percebesse e logo deu play na música tema do filme, cantada pela própria Stella Gum. Fingiu que estava ouvindo a bronca e que tinha entendido o recado enquanto escutava a voz angelical da rainha do pop brasileiro por todo o caminho.

Quando ouvia os acordes de violão misturados ao timbre doce de Stella, sentia o ar da cidade soprar pela janela, tocando seu rosto. As luzes e a noite pareciam ter um significado poético.

- Alice, eu vou abrir o portão da garagem, você desce primeiro e segura a Chay pra mim, porque ela tomou banho e voltou do pet shop sem coleira. Alice? Alice! ALICE!

- Oi mãe, desculpa. Já estou indo.

É claro que Alice não ouviu nada e não segurou a Chay, que saiu correndo pelo quarteirão enquanto sua mãe berrava, nervosa.

É que Alice não estava no mesmo mundo que os pais ou sua cadelinha de estimação, e era difícil entender o que se passava em sua cabeça. Ela mesma não seria capaz de explicar o amor incondicional que sentia por Stella e o motivo de sua voz e imagem a acalmarem tanto, a ponto de transportá-la para um mundo de sonhos, desconhecido a todos os outros. Alice não entendia como alguém tão distante era capaz de despertar tais sentimentos, de desligá-la do mundo real e fazê-la ignorar tudo e todos à sua volta. Só sabia que era bom, que era lindo e que lhe fazia bem. E com o passar do tempo, quanto mais descobria sobre Stella Gum, maior era sua obsessão.

Ainda hipnotizada e presa ao próprio mundo, subiu lentamente até seu quarto, seu espaço, o Paraíso de Gum, como costumava chamar.

Eram incontáveis pôsteres de Stella, alguns enormes quase tampando o espelho na parede. Dezenas de CD's e DVD's. O relógio tinha o rosto da atriz, assim como a caixa de maquiagem, o porta-jóias e a luminária. Todos os objetos espalhados por ali faziam alguma referência à Stella Gum. Nas portas do guarda-roupas, recortes de revistas com frases da moça, sentenças que Alice sabia de cor e que levava como filosofia de vida, regras, leis ditadas por sua favorita.

Era possível ouvir os latidos da cachorrinha Chay voltando à garagem sob os gritos da dona da casa, quando Alice trancou-se no quarto e pôs-se a falar com os pôsteres. Ninguém sabia que ela fazia isso e, conscientemente, ela sabia que era ridículo, mas não se importava. Queria conversar com Stella, dizer o quanto a amava e o quanto gostou do filme que acabara de assistir. Não adiantava contar para outra pessoa, ela queria era contar para a atriz. Assim, nunca vira problema em ter conversas imaginárias com pôsteres que guardavam a imagem dela. Já que não tinha mesmo o seu número de telefone...

- Oi, baby. Adivinha onde eu estava? Aham, fui ver Anjo de almas. Você estava linda, Stellinha. Parabéns, ótimo trabalho! Bela escolha de filme, você é demais. Amei o final. Foi tudo perfeito! — beija o pôster.

Se podia falar com um pedaço de papelão, também podia beijar! No rosto, que fique bem claro. Jamais cometeria qualquer ato minimamente sexual com a imagem sagrada de Stella Gum. Cruzes, seria blasfêmia!

Ligou o computador para ver as fotos da Premiere do filme. Todas as noites, sempre às 22h, pesquisava sobre Stella apenas para checar se estava tudo bem com ela, o que andava fazendo, com quem estava saindo. Só assim poderia dormir tranquila.

- Meu Deus, Stellinha! Que vestido é esse? Que linda, socorro! — Ainda falando com os pôsteres.

A estreia foi incrível mesmo, e Stella estava deslumbrante. Era seu primeiro filme em mais de dez anos de carreira na televisão. Conhecida pelas novelas e vilãs inesquecíveis, alcançara a fama ainda cedo num comercial de sabonete. Foi rápido para que a moça deslanchasse e fizesse um enorme sucesso. Muito talento, beleza e ambição trilhavam um caminho brilhante à sua frente.

Em seu segundo papel numa novela das sete, interpretou uma cantora country, e assim descobriu a paixão pela música. Desde então, lançou-se como cantora pop romântica, rodou a América Latina numa turnê muito bem sucedida e estava encantada em participar de um projeto cinematográfico.

No auge da carreira, era a artista mais cotada em todos os meios de comunicação. Simpática, bonita e divertida, estava constantemente nos programas de entrevistas, para deleite de Alice e outros fãs espalhados pelo Brasil.

Em 2004, Stella lançou um livro contando um pouco sobre sua vida e inspirando os mais novos a irem atrás de seus objetivos. Ela falava aos jovens, sabia a linguagem deles, talvez por ter um espírito muito livre e cheio de sonhos. Junto ao livro, foi lançado um diário em branco, para que os fãs pudessem escrever suas próprias histórias. E era nele que Alice escrevia todas as noites:

"9 de abril de 2015. Fui ver o novo filme da Stellinha. É maravilhoso! Mas não é bem disso que queria falar... Hoje li mais um pedaço da sua biografia e percebi o quanto temos em comum. É tão estranho como ela me entende e escreve sobre coisas que eu sinto e penso. Às vezes eu imagino como ela era na escola. Se ela também não tinha amigos como eu, ou se faziam piadas dela. Isso não conta no livro. Mas imagino que pra quem ficou famosa aos 18 anos, ela não deve ter passado muitos apuros. Uma pessoa não se torna poderosa daquele jeito, ela já nasce assim. Eu queria ser que nem ela... Na verdade, o que eu realmente quero é conhecê-la. Penso nisso todos os dias. Já imaginei esse encontro de todas as formas possíveis. Todas as coisas que eu preciso dizer. Eu poderia ajudá-la a tornar esse mundo melhor. Eu sei que um dia a verei pessoalmente. Não sei como ou quando, mas sei que acontecerá. Espero que eu não tenha um ataque cardíaco."

Já que não realizava o sonho acordada, restava realizá-lo enquanto dormia. Alice fechou o diário e deitou-se, feliz.