Fix Me In 45 - Part I
1 Thriller
Notas iniciais
“I want to kill you like they do in the movies, but don't worry there's another one just like you, standing in line”- I Want To Kill You Like They Do In The Movies; Marilyn Manson.
O relógio na parede marcava exatamente 3h00min. O ponteiro vermelho fazendo vagarosamente o tic tac costumeiro, revirava meu estômago. Eu parecia estar prestes a vomitar meus órgãos a qualquer momento. Minha cabeça zunia e eu escutava barulhos estranhos; como choques, passos, palavras soltas e vozes desesperadas e misturadas. Eu apertava os olhos na esperança de tentar enxergar melhor, mas minha visão embaçada apenas piorava. Meu tórax doía como placas de ferro estivessem me prensando. Tudo o que se movia em meu corpo, eram meus olhos, minha barriga pela respiração e meus dedos. Involuntariamente. Não era como se eu quisesse.
A sala era escura.
Fria.
A cadeira, desconfortável e as algemas me machucavam.
Eu estava presa. Tornozelos e pulsos algemados, nos pés da cadeira e sobre a mesa de metal, respectivamente.
Uma maldita luminária amarelada me iluminava de cima. A única e pequena janela dali estava fechada, estava muito calor, eu não aguentava mais.
Comecei a ficar inquieta. Mexi o pescoço e olhei em volta; só tinha uma porta e um homem parado ao lado. Alto, largo e com uma vestimenta parecida com um terno preto. Não sei dizer quem era. Ele estava sério, me encarando, me vigiando como se eu fosse fazer algo terrível a qualquer momento. Voltei a atenção para meus pulsos. Vermelhos, machucados e presos naqueles círculos metálicos. Aquilo me cortava, doía e deixava minhas mãos dormentes, meus dedos tinham as pontas de um tom roxo claro. Eu não duvidava de que meus tornozelos pudessem estar iguais.
De repente foi como um flash de lanterna apontando diretamente para meus olhos.
O que eu fazia ali? Por que eu estava ali? Como cheguei?
Todas as perguntas escondidas no fundo da minha mente começaram a aparecer, me perturbar e querer gritar. Minha respiração ficou pesada, minha cabeça doía como uma pós-pancada e eu suava frio. Eu não enxergava direito, nada tinha foco, as imagens eram como a de uma câmera de baixa qualidade.
Eu queria acordar. Meu subconsciente gritava "Acorde agora!", mas nada acontecia, tudo continuava igual.
E meu desespero apenas crescia.
Comecei a tremer. Senti que algo estava para acontecer. Eu tremia e tremia. Pedia socorro, mas as palavras não saiam, meus lábios não se moviam. Os comandos enviados pelo meu cérebro não eram atendidos.
O silêncio nunca fora tão ensurdecedor. Mexi as mãos e o barulho de metais se chocando me assustou. Entretanto me trouxe de volta. Eu ainda tremia, mas continuei fazendo com que os metais se chocassem. Eu batia as mãos na mesa e o sorriso que se formavam meus lábios era involuntário. Fechei os olhos e insisti na barulheira, mais alto, mais rápido e mais forte.
Eu não fiz nada! Alguém me tire daqui!
Mãos fortes e grosseiras seguraram meus braços, obrigando-me a parar. Meu coração só faltou sair pela boca. Comecei a tremer de novo. Tentei normalizar minha respiração fraca e pesada. Olhei para frente.
Um homem estava lá, sentado na cadeira do outro lado da mesa.
Ele sorria de forma irônica.
Eu senti meu sangue correr mais rápido e esquentar. Travei a mandíbula e encolhi as mãos quando vi papéis, uma pasta e fotos em cima da mesa.
Um interrogatório. Eu seria interrogada, como uma presidiária. Como uma assassina.
— Boa noite. Charlie Morgan, certo?
Eu conhecia essa voz. Conhecia esse homem. O tom dele era debochado demais pro meu gosto.
Não respondi, deixei-o falar.
O homem maneou a cabeça e mexeu nas folhas.
— Ok. Vamos falar sobre a noite passada.
Silêncio. Meus olhos castanhos encaravam os azuis dele de maneira profunda.
— Pode me ouvir, certo?
Apertei os olhos levemente e ele tem certeza de que estou escutando.
— Me desculpe, não me apresentei... Sou Derek Jones, policial judiciário de Phoenix. Tenho aqui algumas partes escritas sobre os acontecimentos da noite passada e algumas fotos também. Mas primeiro precisa me dizer: onde você estava antes das 15h33min da tarde de ontem?
Mais silêncio. Que duraram minutos longos. Meus olhos não conseguiam se desgrudar dos dele.
— Charlie... Não quero ter que te forçar. Vamos conversar, ok? Responda a minha pergunta.
Eu conhecia aqueles olhos. Conhecia aquele brilho. Conhecia aquela maldita nuvem de confiança que pairava ali.
Ele suspirou.
— Tudo bem... Há registros de conversas e falas suas. Eu vou ler e você pode me dizer quando aconteceu, tudo bem?
Meu corpo estava paralisado. Eu apenas respirava, não conseguia me mover.
A primeira folha foi tirada de uma pasta preta.
— O primeiro registro é uma fala sua: "Se você queria mata-lo na minha frente, agora ele vai ver você morrendo." Por que disse isso, Ms. Morgan?
Meus músculos ficaram tensos. Por que ele estava dizendo isso pra mim? Ou pior, me acusando de ter dito isso? Soltei o ar que de repente estava preso e tentei falar. Demorou, mas o que saiu de minha voz foram palavras falhas e sussurradas.
— Eu nunca disse isso antes...
O homem ficou surpreso. Arqueou as sobrancelhas e olhou para alguém atrás de mim.
— Sim, você disse. Ontem à noite. Agora que está falando, pode me responder: Onde esteve antes das 15h33min de ontem?
— Por que acha que eu disse isso?
- Me responda a pergunta antes. Vamos do começo.
— Não acha que eu também tenho o direito de perguntar?
— Você possui todo o direito. Mas no momento eu só quero me responda.
Comecei a rir. Foi mais forte do que eu. Joguei a cabeça para trás e gargalhei. Voltei e o encarei novamente. Da mesma maneira que comecei a risada, parei repentinamente.
— Conheço você.
- Vai me responder?
Relaxei na cadeira.
— Não, não vou. Não mesmo.
— Por favor, Ms. Morgan. Você precisa me responder. Onde esteve?
— Em lugar nenhum. Feliz?
O homem bufou. Olhou para os lados, como quem já está perdendo a paciência.
— Olha, preciso saber da sua versão. É o que me falta. Então, vamos... Responda. Onde esteve noite passada?
— Já disse.
— Tem certeza disso? Não é o que os registros dizem.
— Se tem tudo, por que das perguntas estúpidas?
— Ei, vamos com calma. Sim, tenho tudo aqui. Mas preciso que você confirme. Por que disse aquela frase?
— EU NÃO DISSE NADA!
Me levantei e as algemas rangeram. A pessoa atrás de mim me fez sentar novamente.
O silêncio permaneceu até certo momento.
— Eu não disse frase alguma. De onde tirou isso?
— A frase é a revelação de uma das vítimas. Uma das pessoas que estava com você ontem à noite me disse tudo o que ouviu e viu. Há mais coisas, isso é só o começo.
— Ah, ótimo...
Passei os olhos pela sala e parei nos olhos azuis claríssimos do homem à minha frente.
Ele suspirou cansado e desviou o olhar.
— Havia duas pessoas naquela casa. Qual seu relacionamento com essas pessoas?
Inclinei levemente a cabeça e nada disse.
— Confie em mim, responda e logo poderá sair daqui.
— Confiar? Nunca! Conheço seu jogo, Derek, nunca confiei em você e não será agora que isso irá mudar.
— Mr. Jones pra você! Não me conhece, Morgan e minha paciência tem limites. Responda!
A voz do homem se elevou. Não me abalei. Cruzei as mãos sobre a mesa e o encarei mais uma vez.
— Mil novecentos e oitenta e três. Vinte e oito anos. Por onde esteve, Mr. Jones? Senti sua falta, sabia disso? Acho que não.
— O que está dizendo?
Interrompi-o.
— Oh, não se lembra de mim? Já sei por quê. "Você é a garotinha mais linda que o papai já conheceu! Amo você, Hanny..."
Vi seu rosto mudar completamente. Claramente ele se lembrava. Seus olhos tomaram um tom escuro sombrio de repente.
— Olá papai!
Sorri para ele.
— Hannah...
Sussurrou. O homem estava completamente atordoado.
— Não! Não conheço nenhuma Hannah. Meu nome é Charlie. Charlie Morgan.
— O que fez com minha filha?
A voz chorosa só me fez querer explodir e gritar todas as frustrações que eu guardava.
— Hannah Jones está morta! Ela morreu assim que você colocou os pés para fora daquela casa. Assim que fez minha mãe sangrar. Assim que lançou a primeira mentira. Você é uma mentira Derek Jones! Não sei como ainda seu coração suporta bater. Como seu cérebro comanda esse corpo inútil.
— CHEGA!
Ele se levantou.Fiz o mesmo, não me importando com as algemas.
— NÃO! Não aguenta a verdade, não é?! Você não muda nunca! Como teve coragem de me prender? A polícia sabe dos seus podres, Derek? Hã? Porque posso dita-los detalhadamente agora mesmo!
— Cale essa maldita boca, sua vadia!
— Mas é claro! Pareço com ela, não é?! FALA DEREK!
— Quem?
— MINHA MÃE! A mulher que você jurou amor eterno, em cima de um altar, diante de um padre... A MULHER COM QUEM VOCÊ CONSTRUIU UMA VIDA! A mulher que você matou... A sangue frio.
O silêncio preencheu o local de forma rápida e incomoda. Aquele homem tinha a consciência pesada. Estava escrito em seus olhos.
— Já chega! JÁ CHEGA! Você é igual a ela. Não sei porquê não te levei para o mesmo buraco onde ela está agora.
Sentei-me.
— Então faça agora, Derek! Me leve pra junto dela! Posso fazer o mesmo com você e sabe disso! Olhe os registros. As provas são claras sobre a noite passada, não são?
O homem trincou a mandíbula e voltou a falar depois dos segundos de silêncio. Pegou uma das folhas com uma foto grande e colocou em minha frente.
— Responda-me agora: Por que fez isso?
— Porque eu precisava! Tinha que ser feito! Você não entende...
— Eu não entendo muita coisa! Como isso que se você transformou.
— Apenas dei vida ao que realmente sou! Coisa de genética, sabe como é.
— Isso basta! Aplique.
E a última palavra foi dita para a pessoa atrás de mim.
— O quê...
Apenas senti a picada e, logo em seguida, não conseguia mais ter controle de mim mesma. Tudo estava embaçado e nada mais fazia sentido para mim.
— O quê você fez, seu desgraçado?!
— Vai responder tudo o que eu perguntar?
— Não... Sim!
Minha fala era involuntária. Eu não pensava mais, apenas olhava para um ponto fixo na parede.
— Onde esteve e por que fez aquilo?
— Eu estava no trabalho... Cheguei um pouco tarde, acho que foi o trânsito... Quando entrei em casa, não consegui ultrapassar o hall... Tinha... Uma pessoa. Uma mulher com ele. Ela estava no colo dele... Foi a pior coisa que já me aconteceu... Eu queria estar morta naquele momento...
— E então?
Virei-me para ele.
— Mas então... Eu as ouvi. Bem longe. Diziam para fazer... As ignorei por um momento... Mas depois não consegui mais... Elas gritavam. Gritavam, gritavam e gritavam! Eu precisava respondê-las. E o fiz. Respondi as vozes.
— O que você fez?
— Peguei a faca... Não me lembro de tudo. Mas havia sangue... Muito sangue... Por todos os lados da casa. "Você é louca! Olha o que fez!" era o que o homem loiro gritava pra mim. O que fiz de errado, hã? Elas me mandaram. Elas mandam, não é?! Elas mandam... Ele é meu marido, não devia ter feito aquilo comigo...
— E depois?
- Eu não sei... Minhas roupas estavam sujas... Minhas mãos e... A faca... Ele chorava. E ela... Não respirava mais. Estava morta.
— Então, está confessando que matou aquela mulher?
...
- Sim...
- Ok, é o suficiente. Charlie Morgan, você está condenada por assassinato. Levem-na.
Me soltaram e me ajudaram a sair da cadeira. Antes de sairmos da sala, lancei meu sorriso à Derek.
Doce. Malvado. Perigoso. Malicioso.
O relógio marcava 3h45min da manhã quando me colocaram do lado de dentro de uma porta de ferro, trancando todas as travas.
Sorri mais uma vez.
Eu voltaria!
Notas finais
@partofgab_s
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