Fix Me
39 Refúgio
Notas iniciais

Refúgio
Acordei com Dany me cutucando com todo cuidado, como se ele fosse me quebrar se tocasse um pouco mais forte.
— Já chegamos.
Esfreguei meus olhos, bocejei e depois olhei para o lado. Thomas ainda dormia como um anjo.
— Quando ele irá acordar?
— Se não me engano, em duas horas. Por isso precisamos sair daqui logo e ver o que faremos com ele.
Assenti e me levantei indo direto para a entrada, onde havia vários adolescentes saindo correndo e animados. Assim que o último saiu, pude ver o lado de fora e me surpreendi. Havia uma mansão feita de madeira, ao lado, um pouco distante, um celeiro. Também tinha animais como vaca, galinha e bem longe alguns cavalos. Era um lugar bem natural, cheio de grama verde e montanhas para todo lado.
— Uau.
— Feche a boca antes que entre mosquito.
Avisou Dany.
— Você vai agora?
— Não quero que todos se assustem com Thomas, então será nosso segredo por enquanto, até sabermos como cuidar dele, tudo bem?
Assenti um pouco triste.
— Ei, pessoal, juntaremos todos na sala para decidirmos o que fazer. Até lá, procurem seus quartos, mas um aviso preciso dizer agora. Sou obrigado a dizer que homens e mulheres no mesmo quarto é proibido à noite. Então, colaborem.
Nicolas gritou e os meninos choramingaram enquanto as meninas riam.
Todos entraram as pressas para dentro e o imenso quintal ficou vazio.
— Está na hora, Alice.
Dany chamou minha atenção e entrou no quarto, algum tempo depois voltou com Thomas em suas costas.
Desci primeiro e o guiei para o celeiro, e quando entramos, nos surpreendemos. Era gigante e lindo, e muito bem arrumado. Havia alguns fenos organizados de um lado, ferramentas de todos os tipos do outro e havia um andar de cima vazio.
— Lucas iria gostar daqui, é quieto e aconchegante.
Ri forçado e me distrai um pouco até Dany colocar sua grande mão em meu ombro direito tentando me confortar.
— Venha comigo, preciso de ajuda.
Assenti enquanto enxugava a pequena lágrima com a costa da mão. Fomos até o fundo onde havia um pequeno pedaço de madeira no chão. Dany colocou Thomas deitado nos fenos e pediu para eu cuidar dele por um momento. Levantou aquela madeira e então assim percebi que era uma porta no chão. Ele pegou meu amigo de volta e desceu com todo cuidado. Eu fui atrás.
— Como você soube que era aqui?
— Conheço Amélia há anos, ela me falou o que precisava.
Estava um pouco escuro até Dany acender uma luz que havia ali. Era um lugar imenso e vazio. Olhei para cima e consegui ver tudo, mas parece que ninguém conseguiria me ver aqui. Perfeito esconderijo.
— Alice, temos pouco tempo e preciso que você cuide de Thomas enquanto eu construo um lugar para ele, até ser seguro libertá-lo.
Assenti triste e com o coração apertado. Dany pegou alguns fenos no lado de cima e colocou Thomas deitado. Sentei ao lado dele e o encarei por um momento, até ouvir barulho de madeiras sendo batidas um ao outro. E assim, Dany começou a construir uma nova prisão para Thomas. Cuidei de Thomas e seus inúmeros ferimentos que nunca acabavam. As vezes eu ajudava Dany carregando coisas pequenas ou entregando as ferramentas. Isso durou quatro horas seguidas sem descanso e, por sorte, Thomas nem se mexeu nesse tempo.
Coloquei os fenos dentro da mini prisão e a corrente que Dany achou no andar de cima. Ele colocou Thomas deitado e prendeu um de seus tornozelos na ponta da corrente, onde cabia perfeitamente nele.
— Vamos.
Ele me chamou para sair da jaula, fechou e trancou-a com uma corda.
— Ele vai ficar bem, não vai?
Ele suspirou.
— Eu não sei.
Meus olhos ficaram marejados e prendi para não chorar novamente.
— Vai lá em cima. Ficarei de olho nele.
— Eu prometo que volto ainda hoje.
— Eu sei. Já estou começando a ficar com fome.
Ri um pouco e isso fez com que uma lágrima caísse.
Limpei o rosto com a mão mesmo e sai de lá, entrando na grande mansão que estava barulhenta e agitada.
— Alice! Finalmente você apareceu!
Gritou Nicolas com os braços para cima.
— O que foi?
— Preciso de ajuda para criar as regras que, na verdade, era você que deveria fazer!
— Por que eu?
— Deixe eu ver. — Fez cara de pensador. — você criou um plano para nos tirar de uma prisão; sobreviveu a vários tipos de tortura; conseguiu arranjar um avião e um lugar para nos deixar enquanto estamos em perigo e todos te ama e podem te ouvir.
— Só por isso?
Ele me olhou indignado.
— Venha logo para a sala, todos estão esperando.
Ele ficou atrás de mim e empurrou minhas costas aos poucos me guiando para duas portas de madeira que estavam fechadas. Parei na frente desta e abri uma de seus lados, que logo apresentou Lauren, Evan, David e... Alex.
— Alice!
Lauren logo levantou e foi me abraçar.
— Oi, linda. Você está bem?
— Bem gorda!
Todos riram com sua careta.
— Tudo bem, agora que estão todos aqui, vamos começar.
Falou Nicolas enquanto fechava as portas atrás dele.
***
Após duas horas criando regras e discutindo sobre elas e como continuar vivendo em paz aqui, finalmente juntamos todos na sala que estávamos, onde havia duas mesas enormes feitas com troncos de árvores e cadeiras como conjunto do mesmo.
Todos estavam conversando bem alto e quase nenhum me via no meio do corredor.
— Pessoal, deixa eu falar.
Tentei gritar, mas minha voz parecia um sussurro comparada ao som das conversas aleatórias.
— AÍ PESSOAL, CALEM A BOCA!
Pulei ao ouvir o grito de Evan e Nicolas, que se juntaram e gritaram juntos assustando todos também. Logo consegui ouvir os grilos do lado de fora de tão silêncio que estava.
— Caramba.
Sussurrei para mim, surpresa.
Subi em cima de uma cadeira que Evan me preparou com a desculpa que nem todos me veriam e comecei a falar alto.
— Boa tarde, pessoal. Meu nome é Alice Wayne e eu gostaria que vocês me ouvissem, assim que eu acabar, quero que as pessoas que estiverem com dúvidas ou quiserem dar alguma opinião, levante a mão, esta bem?
Todos ficaram surpresos com minha postura.
— As regras, no momento, são:
*respeito com todos;
* não dormirem e nem passar a noite casais que não sejam juntados pela lei de cada país de origem, ou seja, matrimônio.
* Se houver algum problema, procurar por mim ou pelos meus amigos que também são responsáveis.
* Haverá uma hora para voltarem para casa, para sabermos se todos estão bem. Esse horário é as 23 horas sem mais nem menos.
* Se houver rituais, cultos religiosos ou algum dia importante neste caso, falar com um dos responsáveis para reservar um lugar para tal.
* Se houver briga, intrigas ou algo semelhante, haverá um julgamento e punição para o culpado.
* Cuidar, arrumar, limpar os lugares que bagunçarem.
* Ajudar nas tarefas de casa, separaremos cada tarefa e rodízio para todos ajudarem. O lugar é grande e pode durar com a ajuda de vocês.
* E, se forem para o celeiro, arrumar o que tiver lá. Mas não é para ficarem por muito tempo, pois o segurança do lugar morará lá e não quer muito barulho.
Alguma pergunta?
Várias mãos se levantaram e gastamos mais algumas horas para tirar as dúvidas de todos e finalmente acabar esse reunião.
Todos foram para a sala de jantar que fica ligada com portas corridas de vidro da cozinha.
Eu fiquei na cozinha e muitos ajudaram. Havia vários tipos de comida e a mesa ficou bem colorida.
O tempo se passou e todos ajudaram a tirar a mesa e a arrumar a cozinha para dormirem.
Assim que estive sozinha, preparei dois pratos bem cheios de diversos alimentos e levei para o celeiro com todo o cuidado para não fazer barulho.
Entrei e fechei a porta, desci para o andar abaixo onde encontrei Dany sentado em uma cadeira velha que balança, ele estava dormindo. Coloquei o prato ao lado e fui ver Thomas.
Me aproximei da pequena prisão, mas estava com pouca luz e não encontrei Thomas lá. Me preocupei.
— Thomas?
Sussurrei para Dany não acordar. Peguei o prato de comida e abri as grades como Dany havia feito antes. Coloquei o prato em cima dos fenos e olhei em volta, virei para o lado da parede, encontrei meu amigo apoiado nas paredes tentando ficar de pé. Ele estava com uma mão na parede e a outra na cabeça, parecia que estava com dor.
Corri para fora e peguei um remédio que havia na bolsa que Dany trouxe. Voltei e me aproximei dele.
— Thomas, tome isso. Vai te fazer ficar melhor.
Estiquei a mão, mas ele me olhou com raiva e bateu em meu braço com força a ponto de eu jogar o remédio no chão.
"Aquele não era meu amigo."
— Thomas, se acalme. Eu só quero ajudar.
Ele rosnou, como se estivesse se segurando para não me atacar. Fechou os olhos e olhou com a mão na cabeça e caiu de joelhos.
Preocupada, ignorei o perigo e me aproximei e puxei seu rosto para ele me encarar.
— Me diga o que está sentindo!
Ele olhou para mim com raiva, colocou suas duas mãos em meu pescoço e começou a apertar.
Com medo, tentei chamar Dany, mas não ouvi nada. Automaticamente coloquei minhas mãos em seus pulsos e tentei tirá-lo de perto de mim, mas minhas forças estavam acabando e o ar também. Até Dany aparecer e furar Thomas com um sedativo, de novo.
Puxei todo o ar em minha volta e comecei a tossir e chorar. Dany se aproximou de mim preocupado.
— Você está bem?
Eu olhei para ele e não resisti com o choro. Dany me abraçou.
— Cadê o meu amigo?
Falei entre soluços.
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