Fix Me
17 Lembranças
Notas iniciais
Após o gostoso café da manhã com meu querido irmão, fui ao quarto trocar de roupa com a intenção de ficar em casa, até ouvir meu celular tocar. Era Thomas. Atendi e ouvi sua linda voz rouca no outro lado.
— Oi, está ocupada?
— Não, na verdade não tenho nada para fazer até segunda. Por quê?
— Queria saber se você gostaria de ir comigo até aquela lanchonete no penhasco de novo.
Me encontrei com um enorme sorriso.
— Claro! Que horas?
— Te busco as 11. Tudo bem?
— Estarei te esperando. Até.
— Até.
Ao desligar fiquei pensando no que houve e não conseguia esconder o sorriso. Aquele sentimento era familiar. Percebi que passei meu primeiro semestre de universitária com muitas aventuras. E uma dessas aventuras pode ser chamada de Thomas. Garoto alto, romântico, otimista, e alegre. Totalmente diferente de James, que não falava muito sobre si e mal sorria. Mesmo assim, não consigo esquecê-lo.
— Então quer dizer que minha pequena vai ter um encontro?
Dei um pulo e encontrei Lucas parado na porta com um sorriso malicioso.
— Vai matar outro do coração!
Ele riu e se aproximou.
— Por acaso esse encontro não seria com o garoto que encontrei com você no campus semana passada, seria?
Senti minhas bochechas queimarem. Dei as costas e segui em direção à janela para abri-la.
— Não sei do que está falando.
— Qual é Alice, te conheço. Assim como você tentou me esconder seu amigo misterioso lá no hospital.
— Amigo misterioso?
Voltei a olhar para ele, e encontrei seu olhar malicioso.
"Ele sabe!"
— Você achou mesmo que eu acreditaria que você viu a bunda de um velho?
Tentei não rir na hora. Passei na sua frente e fui em direção ao armário que ficava perto da porta.
— Não sei do que está falando.
Ele me pegou pelo braço e me puxou para perto dele. Lucas ficou me encarando por um tempo e se aproximou a ponto de eu sentir sua respiração.
— Está mentindo.
Cantarolou e saiu do quarto. Parei para pensar no que houve e logo comecei a correr atrás dele. Encontrei-o no corredor e pulei em suas costas.
— Seu atrevido!
Ele, surpreso, caiu no chão e começou a gritar.
— O que eu fiz, sua louca!
— Não se faça de idiota.
Ele virou para me encarar e comecei a dar pequenos tapas nele. Mas ele conseguiu pegar meus pulsos e se levantou um pouco fazendo eu cair um pouco para trás. Quando fui encarar ele de novo furiosa, o encontrei surpreso.
— O... o que foi?
— Esqueci que você era uma gata.
Não havia entendido até olhar para minha situação. Eu estava com as pernas em volta de sua cintura e com minha blusa, que era muito decotada, caída, mostrando um pouco de meu sutiã. Ao perceber isso, tentei me soltar dele, que ainda estava me segurando.
— Nem pense nisso. Acha mesmo que, depois de me derrubar, me bater e me deixar desse jeito vai se safar dessa? — ele me puxou para mais perto, como se fosse me... — nem pense nisso.
— Lucas, o que você vai fazer?
Falei meio falhado. Ele sorriu malicioso, fazendo minha espinha arrepiar.
Segurou minhas duas mãos em uma sua puxando-as para cima e com a outro encostou em minha cintura. Isso fez eu prender a respiração. Ele se aproximou até meu ouvido direito e sussurrou.
— O que você acha que irei fazer?
Ele encostou seu nariz em meu pescoço e senti sua respiração alterada.
Me prensou em seu corpo e se levantou me obrigando automaticamente a prender minhas pernas em sua cintura para não cair, e foi em direção a seu quarto, que ainda estava com a janela fechada e tudo estava escuro.
Me jogou na cama e ficou em cima de mim com uma perna em cada lado. Mesmo com apenas a luz vindo da porta consegui ver sua expressão. Nunca tinha visto ele assim, o que houve?
— Lu. .. — minha voz ainda saia falhada e a respiração cada vez mais pesada.
— Você ainda não me respondeu...
Olhei para ele assustada. Não conhecia aquela pessoa.
— Lucas... Esta doendo.
Saiu como um suspiro, mas acho que ele ouviu, pois piscou algumas vezes, respirou fundo umas três vezes e soltou meus pulsos.
Ainda em cima de mim ele se aproximou e encostou sua testa sobre a minha, soltando um pequeno riso.
— Desculpe, acho que fui longe demais. -Eu tentei falar mas a única coisa que saiu de mim foi uma lágrima. — Nem todo mundo é bom, Alice. Você não pode abaixar a guarda. Foi por isso que te coloquei na aulas de luta lembra?
Parei para entender o que houve. Pisquei algumas vezes e fiquei quieta. Lucas abriu os olhos e se afastou um pouco para me ver. Comecei a ficar furiosa.
— Qual é o seu problema?
Ele sorriu.
— Era disso que eu estava falando.
Aproveitei que ele estava com a guarda baixa e chutei entre suas pernas, o empurrando para o lado. Comecei a atacar os travesseiros e sapatos nele e xingá-lo de tudo.
— Seu idiota, você me assustou sabia?! Eu pensei várias coisas, mas... isso?! Porque você simplesmente não conversou comigo?! Qual é o seu problema, Lucas?!
Ele não sabia se ria ou chorava de dor. Com raiva, deixei ele em seu quarto no escuro, pois fechei a porta com força. Fui ao meu quarto, tomei banho e me arrumei saindo em seguida, sem falar nada. Encontrei Thomas no caminho e fomos almoçar juntos.
***
P.O.V Lucas
"Pouco. A palavra que me salvou de fazer um besteira."
Ao passar a dor de meu querido amigo, tentei controlar a respiração. Fiquei deitado com os olhos fechados, tentando lembrar o porque não posso fazer isso. Ah, lembrei. Porque sou irmão dela. Não nasci com esse título, ele foi me dado quando tinha apenas cinco anos e encontrei pela primeira vez Alice, uma boneca viva que conquistou meu coração com apenas um sorriso.
Eu era um garoto de rua, não gostava de orfanatos, não lembrava de meus pais ou o porque não eles me abandonaram e meu último ano foi um inferno escuro onde eu sofria com torturas e agulha e voltava ao quarto frio e acizentado na qual a única luz que eu conhecia era a lâmpada do corredor de fora. Conheci meu pior pesadelo por causa de uma proposta ilusitória de um homem alto e barbudo que falou para mim que daria o que eu mais desejava se eu o seguisse. Eu era uma criança ingênua, então o segui. Esse foi o meu inferno, até o dia em que conheci Mark Wayne. Um senhor que estava conhecendo o lugar onde eu "vivia". Ele era sério, mas ao olhar para mim, senti um pingo de esperança. No dia seguinte me deram um banho e vendaram meus olhos. Me levaram para um infinito caminho que no final uma luz mais forte ultrapassou aquele pano velho que ficava em meu rosto me obrigando a forçar mais a fecha meus olhos. Senti o pano se desgrudar de mim, pisquei algumas vezes e me encontrei num lugar deserto onde havia apenas dois caras em cada lado meu e Mark apoiado em um carro preto com um sorriso sinico.
— Me obedeça e não sofrerá mais.
Aquela frase não me tocou, do contrário, fiquei mais furioso.
— Você acha que sou brinquedo?!
Ele levantou um sobrancelha, levantou-se e abriu a porta de trás do sedan preto.
— Entre senão quiser sofrer mais.
Olhei para trás e encarei aquele dois homens enormes com armas nas mãos. Voltei a encará-lo e entrei sem falar nada.
Após algumas horas de viagem, senti o carro parar. Mark me levou até um apartamento em um hotel.
— Tome outro banho e se arrume, irei lhe falar sua função. E espero que seja grato, pois seu trabalho é um dos mais importantes. Se você falhar, morre.
Aquela frase poderia me deixar com as pernas tremendo, se fosse a um ano atrás. Encarei ele sério e tentei imitar seu sorriso sinico.
— Então você vai confiar a um estranho uma função importante? Você deve estar muito desesperado.
Seu sorriso sumiu na hora. Ele puxou meu braço e me empurrou para dentro do banheiro, inclinou a coluna por causa de nossa grande diferença de altura e me respondeu.
— Se não fosse por mim, você estaria ainda naquele buraco. Se não quiser voltar, é melhor me obedecer.
Aquilo me deixar sem falas, fechou a porta e percebi que havia saído do quarto.
Tomei meu banho o mais lento possível para aproveitar tudo, coloquei a roupa que havia em cima da cama do quarto, uma calça jeans, tênis all stars e uma camiseta xadrez, não sabia como deixar meu cabelo então apenas passei um pouco de água e o arrepiei. Ao acabar esperei por um tempo até Mark chegar com uma moça loira, alta e bem vestida.
— É ele? -Perguntou. Mark apenas assentiu. A moça se aproximou deixando seu salto fazer um pequeno eco no quarto, agachou tendo cuidado com seu curto vestido grudado, levantou a cabeça e olhou para mim.
— Olá. Sou Helena e iremos morar juntos.
Olhei para Mark que só ficava olhando pelos lados como se estivesse com medo de encontrar alguém.
Voltei a olhar Para Helena desconfiado, mas ela não deixou de sorrir para mim.
"Ninguém havia sorrido para mim assim antes."
Tentei disfarçar minha calma por tê-la conhecido. Ela levantou, virou e deu alguns passos, olhou novamente para mim e esticou sua mão, que logo peguei com força e senti meu coração esquentar, mas não mostrei essa reação, apenas fechei a cara e comecei a andar com a moça.
Acompanhei Helena até o carro, Mark ficava sempre na nossa frente olhando para todos os lados atento, entramos no carro no banco de trás enquanto ele dirigia. Helena esticou o braço para atrás de mim, fiquei desconfiado e me afastei automaticamente.
— Calma, não irei fazer nada. Pode confiar em mim, pois logo você irá descobrir que estou confiando a você meu bem mais precioso.
No começo não havia entendido, mas ignorei encostando no banco e sentido sua leve mão passear em meus cabelos úmidos, fazendo-me adormecer.
— Lucas?
Ouvi alguém me chamar com doçura. Ao abrir os olhos encontrei Helena, na hora fiquei aliviado em saber que nada foi apenas um sonho. Olhei em minha volta e me encontrei em uma enorme sala com sofás de coro, televisão e um grande armário de madeira que cobria uma parede inteira com diversos livros.
— Onde estou?
— Em sua nova casa.
— Casa?
Ela sorriu para mim. Levantei de seu colo e olhei em volta mais uma vez até para numa porta de madeira que estava aberta mostrando uma boneca que não parava de me encarar. Helena levantou do sofá e se aproximou da menina.
— Lucas, essa é Alice. — Fiquei confuso até ela continuar.- Sua nova irmã.
Me assustei ao ouvir aquilo e então tudo que Mark havia falado para mim finalmente havia sentido.
— Então esse é meu trabalho?
— Sim.
Falou Mark aparecendo na porta atrás das meninas. Alice se aproximou de mim com dificuldade por ser ainda nova e levantou o pescoço por causa de nossa diferença de altura. Sorriu para mim de um jeito que me mudou, e me abraçou. No começo eu não sabia o que fazer, olhei para os adulto e encontrei Mark sério e Helena sorridente. Então sorri e a abracei de volta, levantei ela em meu colo e beijei sua testa.
— Oi pequena. Parece que sou seu irmão.
Ela sorriu e voltou a me abraçar, desta vez no pescoço.
Voltei a abrir os olhos e sorri ao ter essa lembrança de volta.
— Foi legal aquele dia.
Falei para as paredes.
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