Fita de Seda
3 Capítulo 3 - Invasão Inocente
Notas iniciais
Era uma casa espaçosa e bem decorada, mas parecia um pouco fria e vazia – efeitos de uma jovem traumatizada e sozinha em uma casa desconhecida, talvez? Segui para o hall de entrada e subi as escadas que me levariam ao andar de cima – onde Kaien havia me dito que se encontrava o seu escritório. Entrei no corredor do qual me lembrava, olhando as diversas portas e me questionando qual era a do meu quarto. “Talvez uma das últimas”, conjeturei. Caminhei até o final do corredor, agora interessada em aprender primeiro onde eu estava instalada e depois buscar a biblioteca.
Abri a última porta, encontrando um espaço vago – e logo fechei a porta, seguindo para a que estava à frente da mesma, onde ficava um banheiro. Parti para a outra, vendo que era um depósito de coisas, e a que estava do lado oposto era um quarto com a cama desmontada. No seguinte, pareceria com o meu quarto se não se encontrasse do lado oposto do qual me lembrava, mas entrei mesmo assim, por via das dúvidas – minha memória não era muito confiável em tempos como esses. Havia uma cama de solteiro, um guarda-roupa branco e uma mesa-de-estudos – o que comprovou que aquele definitivamente não era o meu quarto. Mesmo assim, movida pela curiosidade abri as gavetas da escrivaninha e, com um susto, encontrei uma pistola prata onde se lia em uma caligrafia impecável “Bloody Rose”. Eu a reconheci de imediato, revelando-me que aquele era o quarto de Zero – e isso atiçou ainda mais minha curiosidade.
Havia um casaco cinza chumbo pendurado no encosto da cadeira, a cama estava com os lençóis revirados e a janela ainda estava aberta, onde um vento refrescante balançava a cortina clara suavemente. Andei até ela e olhei para o lado de fora, vendo alunos conversando animadamente em um pátio e usando um uniforme idêntico ao que encontrara em meu guarda-roupa. Eles pareciam estar no intervalo das aulas, aproveitando para se divertirem – ou brigarem, como no caso da garota de cabelos castanhos que passou correndo e gritando atrás de um garoto loiro, que estava gargalhando. Zero não chegaria em casa tão cedo, então me daria tempo para vasculhar um pouco e saber mais sobre ele.
– O que você está fazendo no meu quarto? – uma voz forte e aparentemente furiosa se fez ouvir, como um castigo por minha curiosidade invasora.
Pulei de susto, meu coração quase saindo pela boca, e virei-me para encontrar os olhos lilases de Zero, claros como vidro. Ele me fulminava com um olhar irado e incisivo que teria feito qualquer um se encolher de medo – mas eu não me permitiria vacilar na frente dele, então fiz minha melhor cara de inocente.
– Estava procurando meu quarto – e sorri docemente, tentando encanta-lo e amolecer seu coração.
Para minha infelicidade não funcionou, o albino entrou a passos pesados e parou a minha frente, sua aura negra, mais intensa com a fúria, preenchendo cada canto daquele lugar.
– Já percebeu que não é o seu, então saia – exigiu, ríspido.
Eu teria saído, tendo consciência de que eu havia invadido seu quarto e vasculhado um pouco como a xereta que eu descobri ser, e mesmo após saber que era dele, permaneci ali; mas ele estava sendo arrogante e mal-educado comigo, e isso acendeu algo no meu interior...
Sentei-me em sua cama e cruzei os braços em sinal de teimosia, mostrando que eu não sairia – Deus, eu havia assinado minha execução, mas quem disse que eu era sensata?
– Saia, pirralha, antes que eu tire você. – ameaçou.
Eu poderia ter me concentrado em qualquer ponto de sua frase, mas apenas um me chamou atenção e me incomodou terrivelmente.
– Meu nome não é pirralha – protestei.
Aquilo pareceu agrada-lo, um brilho predatório no fundo de seus olhos, afinal eu havia mostrado meu ponto fraco para, no momento, meu arqui-inimigo.
Ele arqueou uma sobrancelha desdenhosa.
– Você sabe seu nome, por acaso? – perguntou com deboche.
– Não.
Zero cruzou os braços, uma expressão presunçosa em seu rosto, como se tivesse um trunfo nas mãos.
– Então como pode ter certeza de que não é pirralha?
– Por que senão eu já teria lembrado. – argumentei – E você? Não deveria estar na aula?
– O que eu faço da minha vida não te interessa, pirralha.
Mas minha gente, o menino é arisco!
– Nossa, está testando a ferradura nova? E eu não sou pirralha, devo ter sua idade.
– Você sabe sua idade, por acaso? – questionou como um desafio.
– Sei, tenho dezessete anos – e sorri vitoriosa.
Ele revirou os olhos, fazendo pouco caso do assunto.
– Tanto faz... – deu de ombros – Eu quero ficar sozinho, pirralha.
– Por que?
Como eu havia dito, eu não era muito sensata. Eu não me importava com os motivos pelos quais ele queria ficar sozinho, eu estava apenas querendo irrita-lo mais – e que tipo de pessoa tenta irritar levianamente alguém tão perigoso quanto um tigre que tem uma arma guardada em uma gaveta? Gente doida, é claro.
– Não te interessa.
– Interessa sim, pois é a minha companhia em questão. – argumento idiota, eu sei, mas eu tinha que tentar.
Subitamente ele me pegou pelo braço e me arrastou até a porta, com eu lhe socando e chutando, o que não pareceu surtir efeito algum. Ele me jogou para fora de seu quarto e bateu a porta com força, o som estrondoso me fazendo encolher os ombros. Santo Deus, que espécie de brutamontes era esse que havia me salvado?!
– Não doeria ser mais educado – gritei para a porta.
***
Joguei-me na cama com um suspiro, ignorando a garota furiosa na porta e suas palavras – e o seu maldito cheiro ainda presente no ar. Ela só estava querendo me irritar e fazer com que eu me deixasse levar pela fúria de suas palavras e acabasse dando a oportunidade de ela entrar, tinha certeza, e eu não estava com cabeça para discussõezinhas inúteis. Só desejava ficar sozinho após suportar horas dolorosas naquelas malditas aulas, sentindo uma ardência insuportável na garganta com o festival de aromas naquele ambiente abafado – nunca poderia me acostumar com aquela sensação, como beber ferro quente. E quando finalmente fugi, a última pessoa que queria ver estava infestando meu quarto com seu cheiro.
Desde o momento em que a encontrei naquela casa cheia de corpos moribundos, parecendo muito assustada, o cheiro do sangue dela me atraíra mais do que qualquer outro. Eu encarei aquela garota com certa surpresa, analisando cada detalhe daquele rosto de feições delicadas e me questionando se aquela menina que mais parecia uma boneca de porcelana era algum tipo de teste de autocontrole – pois além de ter um cheiro absurdamente atraente, ela tinha um ferimento na cabeça, por onde o líquido vital escorrera em sua face e encrustara.
Com alívio, ouvi os passos da morena se afastar, mas antes que eu sequer pudesse desfrutar da solidão, aquele carma começou abrir e fechar as portas, fazendo um barulho infernal – e eu estive a um passo de sair e bater com a cabeça dela em uma parede para fazê-la parar. Já era irritante toda aquela barulheira que os alunos escandalosos da Academia Cross faziam, não precisava de mais alguém em minha própria casa batendo as portas para me tirar do sério.
Quando ela finalmente parou, entrando no que eu considerei ser o escritório de Kaien, eu tentei relaxar um pouco. Peguei a pequena embalagem laranja transparente dentro da gaveta do criado-mudo e o abri, virando uma série de comprimidos em minha boca, engolindo-os antes que começassem a se dissolver em minha saliva e o odioso sabor de ferrugem grudasse minha boca. Lentamente a ardência em minha garganta começou a aliviar ao mesmo tempo em que a sensação de meu estômago sendo lentamente preenchido crescia, mas por fim não foi suficiente para me livrar totalmente daquele incômodo.
Trinquei os dentes, irritado, sentindo todo o ódio pelo ser que eu me tornara preencher cada célula de meu corpo e eu agarrei com força os fios finos de meu cabelo, perguntando-me porque eu era tão fraco e não conseguia acabar com aquela existência desprezível, e a resposta era sempre tão patética que poderia ser digna de pena. Eu ainda tinha esperança de uma salvação, e sabia o quão estúpido era me permitir tê-la quando era óbvio que eu me tornaria.
Ri amargamente de mim mesmo e joguei o pote com as pastilhas na parede, sentindo-me o maior idiota da história por ainda achar que poderia receber alguma redenção. Eu estava sendo punido por todo e qualquer pecado que tivesse cometido através de uma existência agonizante, até que me tornasse lentamente o ser que eu mais detestava em todo mundo – devia ser muito ingênuo para ter uma semente de esperança em meu coração.
– Eu mereço me tornar um monstro mesmo. – sussurrei, sentindo um tom de ironia dissolvido em um ar de contentamento.
Mesmo que o castigo fosse cruel, nunca seria suficiente para me absolver de meus pecados.
***
Após vasculhar mais duas portas até achar meu quarto e forçar minha mente a gravar onde ficava, achei o escritório de Kaien, um cômodo espaçoso e bem iluminado, onde janelas que iam do chão ao teto registravam a paisagem dos fundos do Colégio. Fiquei surpresa com a quantidade de livros e o tamanho das estantes, ao mesmo tempo em que senti uma súbita preguiça se apossar de meu ser.
Uma escrivaninha escura se encontrava de frente para entrada, deixando o dono sempre pronto para receber visitantes.
Eu não tinha ideia de como encontrar os livros que Kaien me sugerira, e esperava que tivessem títulos óbvios, como “Descubra tudo sobre vampiros aqui” ou “Manual do Vampiro – Curiosidades e Verdades”.
Analisei as estantes, deslizando o indicador pelos livros, procurando um que me chamasse atenção – e devo acrescentar que eu olhei cada minúsculo detalhe e não achei nada além de guias educacionais e literatura para todos os gostos (mas puxei alguns livros para ler mesmo assim, com títulos que haviam me agradado – não, não tinha nada a ver com meu estudo sobre o mundo das sombras). Virei-me com um suspiro frustrado, terminando de procurar na estante atrás da poltrona de Kaien, e notei a série de livros de capa de couro marrom empilhados no canto da escrivaninha com um bilhete que dizia “Tomei o cuidado de já separar os livros para que você não tivesse o trabalho de procura-los”. Mordi o lábio, furiosa, pensando que se ele tivesse me avisado, talvez eu realmente não tivesse o trabalho de procurar.
Peguei os livros, que eram bem pesados, e levei para o meu quarto – que agora eu sabia qual era a minha porta. Joguei-me na cama, sentando sobre os pés e espalhei os livros a minha frente, notando que nenhum deles tinha título.
Um deles estava dizendo que a família Sangue-Puro mais antiga era a dos Kuran, e por isso que um antigo integrante da família havia sido escolhido para ser o rei da espécie, mas como um determinado Kuran achou muito injusto a situação de monarquia, foi criado um Conselho. Eu não achei tão vantajoso, já que eles ainda eram os líderes, mas como eu não entendia bulhufas de política mesmo, devia ter feito alguma diferença mais benéfica – eu esperava. Pude ver a árvore genealógica da família Kuran, mostrando que os últimos herdeiros eram os irmãos Yuuki e Kaname. No mesmo livro, falou que o atual líder do Conselho era Rido Kuran, mas que o mesmo poderia ser retirado caso Kaname reivindicasse seu direito.
Desinteressando-me do livro, segui para o próximo, descobrindo que este tinha uma passagem breve sobre os Ex-humanos e Níveis-Es. Dizia que poderia demorar vários anos para que um Ex-humano acabasse por decair (assim que chamavam quando eles perdiam a consciência), e que o causador era uma sede insuportável e insaciável que os mesmos sentiam. As pastilhas de sangue ajudavam a adiar, mas sempre chegava a uma altura da infecção que elas não funcionavam mais. Logo depois, dizia que o Conselho dos Vampiros tinha uma parceria com o Conselho de Caçadores, que eram encarregados por eliminar as ameaças Nível-E. Descobri que os vampiros se incomodam com o sol, mesmo que não os queime e que eles são capazes de terem filhos, e os descendentes cresciam até certa idade, então paravam de envelhecer. Em outro livro explicava sobre a hierarquia do Conselho de Caçadores, e isso me fez deixa-lo de lado imediatamente, pois não havia nada mais tedioso. “Você tem que ler sobre isso, mesmo que seja chato”, protestou minha mente.
Com um suspiro de frustração, peguei o livro e voltei a ler a linha que falava sobre o chanceler do Conselho, pisquei os olhos...
Acordei pulando de susto quando senti alguém retirando o livro do meu rosto e vi o sorriso afetuoso de Kaien.
– Está tudo bem, princesa, sou só eu. – ele falou em uma voz paternal.
“Princesa... Princesa...” a palavra ecoou por minha mente. De repente houve um flash em minha mente...
“Eu aparecia caminhando por aquela mesma rua de terra da aldeia calmamente durante uma tarde, e ao contrário da última vez que estivera naquele lugar, a rua estava cheia de pessoas vivas, crianças correndo e rindo pelas ruas.
– Hime! – alguém gritou as minhas costas, e eu lentamente me virei...”
Meu coração deu um salto e então começou a bater descompassado com a recordação.
– Hime... – eu murmurei, atônita.
Kaien, que ainda me observava, franziu o cenho, confuso.
– O que?
Ergui meus olhos para seu rosto, sentindo um brilho empolgado toma-los, um sorriso largo se apoderando de meus lábios.
– Meu nome é Hime! – exclamei, exultante.
Fale com o autor