Fita de Seda
45 Capítulo 45 - O Medo Vai Aprender a Me Temer
Notas iniciais
#Zero#
O gosto marcante e adocicado do sangue dela ainda queimava em minha boca, assim como o caminho pelo qual ele percorrera por minha garganta, como se tivesse deixado um rastro de fogo onde quer que houvesse tocado. Era odioso para eu admitir que dentre todos os sabores existentes no mundo, o do sangue dela superava tudo e qualquer coisa – mesmo tortinhas de morango e sopa de legumes, que sempre foram os meus favoritos.
Mesmo que eu avançasse cada vez mais por aquele caminho de pedra para longe dela, sentindo um estranho peso no peito que eu não entendia sua existência e motivo, seu cheiro ainda consumia as minhas vias respiratórias como se ela estivesse tão próxima quanto estava há uns segundos atrás; seu aroma estava impregnado em minhas roupas e fazendo o monstro que habitava em mim ficar irritantemente inquieto, exigindo que eu deixasse os humanos se virarem e retornasse para satisfazer minha sede com ela.
Aquilo era patético, eu sabia, mas se fosse honesto o bastante comigo mesmo poderia afirmar que eu não ansiava por voltar apenas porque sentia um desejo compulsivo de beber seu sangue, mas que por mais ridículo e maluco que isso parecesse na minha concepção, eu estava preocupado com ela.
Eu estava com uma sede inexplicável dela.
Para começar, ela se tornaria uma vampira e pessoas da espécie dela não eram dignas de preocupação a não ser que estivessem enfiando suas presas no pescoço de algum inocente, então eu realmente não compreendia como eu poderia ter tal sentimento quando Hime não passa de uma sanguessuga disfarçada.
De qualquer maneira, era quase nula a possibilidade de algumas daquelas criaturas invadirem o lugar onde eu a escondera para pega-la, principalmente quando não passavam de bestas irracionais que não sabiam sequer girar uma maçaneta, e ela não devia ser minha prioridade nunca mais, ainda mais depois do que eu havia descoberto aquela noite.
“Ah, Hime, não é dessa maneira que se pede asilo a um vampiro, minha cara.”, lembrei Leigh dizer, e apenas de lembrar o rosto dele eu sentir um rosnado de ódio se formar em minha garganta “É muito feio fazer o papel da mocinha humana e frágil para comover os corações alheios, quando você está destinada se tornar mais forte que todos nós, até do que o seu anfitrião.”.
Se eu pudesse, acabaria com aquele patife com as minhas próprias mãos, mas eu não podia ser irracional naquele instante, já havia gente demais naquela batalha e era minha tarefa guia-los até um lugar seguro.
Hime seria mais forte do que um Kuran tão antigo quanto Kaname, que andava pela terra há mais de milênios? Como poderia isso ser possível? Como uma garota como ela, a menina que eu encontrei amedrontada e desmemoriada em uma cabana, seria capaz de se tornar mais forte que alguém tão ancestral? Além do mais, os Kuran eram a família Sangue-Puro mais antiga existente, com o sangue sem qualquer traço humano – como eles mesmos dizem – maculando sua linhagem. Poderia Hime também ser uma Kuran? Não, não podia ser... Se ela fosse mesmo dessa família, o próprio Kaname saberia de sua existência e até aquele desprezível do Rido teria perseguido a ela e não a Yuuki, como fizera havia dois anos.
Naquele ano fora possível expulsa-lo do território da Academia Cross e ele se refugiou no Conselho de Anciãos, e continua em um silêncio muito suspeito para quem está tão interessado em conseguir o poder através do sangue de Yuuki.
Se ele soubesse do poder que jazia nas veias de Hime...
A garota com que eu me importei era uma vampira disfarçada de humana; uma besta sugadora de sangue que me enganou com aquela casca falsa, me fazendo acreditar na fragilidade de sua existência e na força de seu espírito, me fazendo admira-la mesmo com tamanha ingenuidade. A personalidade forte e irascível de Hime, que independente do quão ruim as descobertas sobre si mesma eram, continuava sendo a mesma garota petulante com um estoque infinito de sorrisos debochados e sarcásticos.
Se obrigando a ser forte mesmo quando o mundo desmoronava ao seu redor.
Aquela falsa humanidade que seria facilmente corrompida assim que assumisse sua verdadeira natureza.
Eu devia ser tão patético que era digno de pena! Como poderia me esquecer do que criaturas como elas fazem? Como poderia esquecer que foi um ser como ela que me transformou no que era e que corrompeu o meu irmão gêmeo? Que me obrigou a mata-lo...
Era apenas para isso que seres como ela serviam, para trazer o horror a pessoas inocentes. Ela era só mais uma predadora, e eu estava me permitindo esquecer a razão por causa de uma lembrança da casca humana que ela colocou em volta de sua natureza monstruosa.
Eu era um tolo.
Deveria salvar o máximo de humanos possíveis e manda-los para o abrigo, e se ela se ferir não será meu problema, certo?
Também não devia me permitir divagar sobre o que havia acontecido entre Hime e eu há poucos minutos e sequer o que ela havia descoberto – que eu sentira através daquela inconveniente ligação – enquanto eu sugava seu sangue como um vampiro patético que mal pode se conter, então empurrei cada pensamento para o fundo do meu cérebro e me concentrei no que devia fazer no presente.
Então o som de um grito feminino apavorado cortou a noite.
Puxei Bloody Rose de meu casaco e virei à esquina em direção ao som, correndo o mais rápido que podia para alcançar essa garota inocente que estava sendo atacada por aquelas criaturas vis.
Criaturas que a espécie de Hime e Yuuki criou...
Avistei uma garota de cabelos vermelhos curtos que eu conhecia apenas de vista. Era uma antiga amiga de Hime antes de essa mudar de grupo, uma tal de Naomi, se não me enganava. Ela estava jogada no chão com alguns arranhões superficiais em seus braços e se debatendo, desesperada, cercada por três monstros que se digladiavam para cravar os dentes nela.
Apontei Bloody Rose para as coisas rapidamente e disparei uma sessão de tiros que transformou um por um em pó, que caiu sobre o corpo trêmulo da menina ruiva.
Assim que me aproximei do seu corpo trêmulo caído no chão, segurei a mão instável e gelada da menina ajudando-a a se levantar.
O lábio inferior de Naomi tremulava, o seu rosto pálido marcado por lágrimas de desespero enquanto ela fitava meu rosto em uma mescla de perplexidade e gratidão. Então a menina começou a olhar inquieta e amedrontada o espaço a nossa volta como se esperasse que alguma coisa saltasse sobre si, não conseguindo se concentrar no meu rosto por mais que eu estalasse os dedos frente a sua face.
– Naomi, olhe para mim se você quiser viver – falei em um tom que não permitia qualquer negação.
Lentamente ela voltou seu olhar para meu rosto, o que pareceu finalmente tira-la daquele transe de medo e empurra-la da borda para cair em uma sessão de choro silencioso – eu percebi que ela estava tentando de verdade conter os soluços.
Eu não podia esperar que Naomi se acalmasse, ela tinha que seguir minhas instruções naquele instante, pois quanto menos tempo eu perdesse com ela mais alunos daria para eu salvar.
“E você só será capaz de salva-los porque Hime lhe deu o sangue corrompido dela”, soprou o monstro em mim.
Empurrei essa ideia para o fundo, não querendo ter qualquer espécie de gratidão para com ela, não quando ela se tornaria uma vampira Sangue-Puro em pouco tempo.
– Eu quero que você siga essa esquina até uma construção de concreto com uma porta enorme de madeira, você já a viu?
Ouvi o barulho das copas das árvores se movendo e o sibilar de coisas irracionais, o que indicava que mais criaturas como as que atacaram a garota ruiva estavam atravessando a floresta em nossa direção – mas com minha audição aguçada, fazia parecer como se já estivessem em cima de nós, e isso por um segundo me pôs em estado de alerta antes de eu saber que estavam a quilômetros de distância.
Só então eu notei como minha audição havia melhorado – eu ouvira os gritos dessa menina mesmo estando distante demais até para um Ex-Humano tão perto de se tornar um Nível-E, e agora ouvia com uma clareza fenomenal as bestas que Leigh mandara para nós se aproximando como se fossem um bando te tiranossauros.
Naomi sacode a cabeça freneticamente.
– Ótimo. Corra para lá e não olhe para trás, me entendeu?
#Hime#
Fiquei sentada no chão e com as costas recostadas a parede oposta à porta, ainda um pouco trêmula com toda a adrenalina e o medo, e impondo o máximo de distância entre eu e a entrada para que eu tivesse bastante tempo de resposta caso algo atravessasse a mesma.
Já haviam se passado vinte minutos que eu estava sentada no vazio daquele enorme salão encarando a entrada com os olhos esbugalhados e atentos, as mãos que seguravam a pistola preta estavam apoiadas sobre os joelhos e mirando a única maneira de se invadir aquele lugar, para o caso de algo entrar e eu atirar no perigo rapidamente. Meu dedo indicador jazia a alguns poucos centímetros de distância do gatilho, o bastante para que não atirasse sem querer em algum vampiro inocente, mas próximo o suficiente para que não demorasse demais a aperta-lo quando necessário.
Ainda não havia aparecido sequer uma alma viva desde que Zero havia saído e me deixado ali, e eu não deixava de me perguntar se ele estava bem e se algo havia acontecido com ele. Mas não apenas ele me preocupava, eu queria saber como estava Kira que lutava contra seu irmão, e também se Kaname e todos os outros vampiros da Night Class estavam vencendo aquela luta.
Aquela luta que sequer é deles...
Todos os meus amigos e conhecidos que tinham poder para isso estavam lutando aquela noite, a maioria deles não tinham nada a ver com essa batalha e estavam arriscando suas vidas numa luta contra Leigh e seus subordinados, enquanto eu me escondia pateticamente em um abrigo para os humanos que não podem se defender.
Como eu poderia ser tão estúpida para ficar ali sentada e deixar que eles lutassem a minha batalha?
Eu já havia treinado bastante com Zero... Ok, eu treinei duas vezes com o Zero, mas na segunda vez eu até que conseguira supera-lo e ficou subentendido que não era mais necessária a sua ajuda; além de que pelo que descobri da lembrança daquela madrugada eu havia sido treinada por Kira também; e se isso não me tornava qualificada o bastante para combater um bando de vampiros Nível-E, eu não sei mais o que me tornaria.
Eu não vou ficar aqui! Mesmo que não tenha forças para lutar com Leigh ainda, sou forte o bastante para combater os Nível-E e salvar ainda mais vidas do que Zero fazendo essa tarefa sozinho.
Estava cansada de ser a menininha que corre, a desafiante amedrontada que deixa os outros lutarem sua batalha; eu tinha que ser forte dessa vez e limpar o máximo da bagunça que eu trouxera para aquele colégio. Kira estava apostando a sua vida nessa luta porque confiava no meu potencial em derrotar Leigh quando até mesmo eu desconfiava que pudesse, eu não podia ficar ali desperdiçando aquela confiança que me fora dada.
Pus-me de pé e fui até uma placa de metal em uma parede que reforçava a proteção do lugar, e vi o meu reflexo como se para checar se eu estava mesmo bem o bastante (fisicamente) para entrar nessa batalha sem atrapalhar ao invés de ajudar. Meu único problema aparente eram aqueles arranhões que marcavam o meu braço, mas que não eram profundos e já pareciam muito melhores do que uns instantes atrás – acho que meu processo de cura também havia melhorado, pois aqueles ferimentos pareciam como se houvessem acontecido no dia anterior e não há uns minutos atrás.
Talvez eu não esteja tão humana quanto eu havia pensado...
Empurrei esse pensamento para o fundo da minha mente, pois aquele não era o momento mais propício para eu ficar me preocupando com o quão humana eu estava – ou que eu acabei dando a Zero sangue não tão humano assim –, havia assuntos mais importantes ocorrendo naquele instante e que necessitavam do meu auxílio, então precisava fazer aquela averiguação depressa.
Meu vestido jazia manchado com alguns traços de sangue que eu desconfiava não serem meus, mas preferi não divagar muito sobre isso e apenas aceitar que de resto ele estava bem; e ele era confortável o suficiente para me permitir lutar. A maquiagem permanecia impecável, mas quem iria se importar com isso naquele instante apocalíptico da noite?
Meu cabelo escapara do coque que Sakura fizera em meu cabelo e jazia solto, os cachos se desfazendo muito rapidamente graças a minha herança asiática – cabelo liso demais – e alcançando meu quadril. Eu precisava corta-lo imediatamente, pois ele estava comprido demais e isso seria um grande problema em meio a uma batalha real.
Felizmente, como eu estava bastante paranoica com a possibilidade de uma aparição de Leigh – e pelo que pudemos ver, não era um medo irracional –, eu estava com minha adaga presa em um suporte no alto da minha coxa. Assim que a puxei, a lâmina prateada de Red Promises brilhou na luz das lâmpadas do recinto e eu me permiti um último instante de contemplação as minhas longas mechas negras antes de prendê-las com uma mão em um falso rabo-de-cavalo frouxo e passar a lâmina, deixando-os na altura do pescoço e quase alcançando os ombros – embora o que um dia foi minha franja só chegasse até a altura das minhas bochechas.
Guardei a adaga de volta no suporte e após correr os dedos pelo meu novo corte de cabelo, que até que não ficara ruim, soltei um suspiro de preparação antes de andar a passos decididos em direção a porta com a pistola preta em mãos para a minha tarefa de lutar e salvar a maior parte de humanos que eu conseguisse – e sim, de salto alto, mas eu estava tão bem equilibrada naquela coisa que eu nem me preocupei.
O caminho de pedra estava mais escuro do que da primeira vez que eu passei, alguns postes haviam sido danificados e boa parte do trajeto estava coberto pela escuridão. Eu não me perdi hesitar com isso, embora sessenta por cento da minha determinação havia morrido com essa constatação, pois essa falta de claridade somada à faixa de floresta que, às vezes, ladeava alguns dos caminhos, não inspirava muita confiança.
Mas além de presas legais e habilidade de cura, eu havia ganhado uma visão noturna trinta por cento melhorada, então me agarrei a essa ideia de que nada voaria para cima de mim sem que eu não a visse antes – além dos meus sentidos que também haviam dado uma leve aprimorada.
Vi uma silhueta masculina na escuridão vindo em minha direção e eu ergui a arma para atirar, antes de perceber que a pessoa estava estável demais nos próprios pés para ser um Nível-E. Abaixei a arma e corri em direção a figura antes de paralisar um pouco com o que eu estava vendo.
Oh, não, não era um inimigo e nem nada do tipo, era na verdade Kaien. E o que tinha em Kaien para eu estancar no lugar chocada? Digamos que eu nunca havia notado que o diretor era tão, tão lindo!
Não, eu não estava interessada romanticamente em Kaien depois dessa descoberta, de verdade, ele era velho demais para mim e eu tinha uma visão completamente paterna dele; eu só me perguntando como alguém como ele ainda podia estar solteiro sendo também tão gentil e legal.
Ele havia guardado os óculos de leitura e aquelas roupas largas, e foi surpreendente para mim descobrir que Kaien era muito bem definido – era evidente na roupa que ele usava; uma camisa chumbo simples escondida sob um sobretudo preto comprido que alcançava a panturrilha, calça da mesma cor e sapatos igualmente escuros – ele me lembrou vagamente de um Caçador de Sombras.
O cabelo loiro de Kaien estava solto e balançava suavemente na leve brisa que passava, e sua expressão estava tão séria quanto à do próprio Zero em seus melhores dias.
Aos seus pés jaziam os corpos de alguns Nível-E, e pensar que o meu divertido Kaien fizera aqueles estragos naqueles monstros era difícil de processar.
Por isso as mãos dele são calejadas como as de Zero... Não é por lavar louça e brincar com sua horta.
Quando ele me viu, soltou um suspiro de alívio antes de correr em minha direção.
– Hime, que bom que você está bem... Espera, você cortou o cabelo?
De todas as milhares de coisas que Kaien poderia me perguntar, sobre meu corte de cabelo não estava entre as dez mais.
Após superar minha incredulidade inicial, eu apenas dei de ombros como resposta.
Kaien parecia tentado a falar alguma coisa, mas deixou o que quer que fosse dizer para outra hora e se concentrou nos assuntos mais urgentes.
– O que aconteceu com o colégio? Sabe por que tem tantos Nível-E aqui?
– Leigh está aqui – foi tudo que eu respondi.
Seu rosto registrou a sua surpresa com aquela informação antes de assentir em compreensão.
– Então você tem que ir para o abrigo e...
– Não, Kaien – eu o interrompi. – Eu treinei bastante com o Zero e antes mesmo disso eu já era treinada por Kira, então eu vou lutar também – ele estava prestes a retrucar quando eu acrescentei: – Eu sou Guardiã desse colégio, Kaien, e juntos vamos salvar muito mais alunos
Kaien precisou de um tempo para pesar os prós e contras de me permitir lutar, mas eu sabia que ele acabaria aceitando, pois a minha lógica era indiscutível; os alunos não estavam preparados para esse terror.
– Certo, você fica comigo.
– Vamos cobrir mais terreno se nos separarmos, e nós dois sabemos que você não precisa de mim.
– Não estou preocupado comigo, Hime.
– Acredite quando eu digo que sou tão boa nisso quanto Zero e eu já te falei que eu vou me tornar uma Sangue-Primário. Agradeço sua preocupação, mas ela é sem sentido, ok?
Kaien foi o único a quem eu contei a verdadeira classificação do que eu me tornaria, pois Zero não precisou ouvir nada além de “vampiro” para se revoltar e eu não sei como Kaname descobriu que eu viraria vampira, mas desconfiava que “Sangue-Primário” não passava sequer pelos seus sonhos mais loucos.
Kaien soltou um suspiro resignado.
– Está bem, mas tome cuidado.
Eu assenti e rapidamente me pus a correr com a arma em mãos, sentindo a determinação crescer dentro de mim com uma força que mudou todas as minhas feições.
Eu não ia mais correr, não ia mais me esconder enquanto aqueles que eu amava lutavam por mim. Dessa vez o medo ia aprender a me temer!
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