Fita de Seda
32 Capítulo 32 - Condições
Notas iniciais
Eu precisei de vários instantes para absorver aquela informação e tentar condicionar meu cérebro para aceitar aquele novo nome, quando ele estava tão acostumado a reagir quando a palavra Hime era pronunciada. Mesmo depois de tentar e tentar, aquele nome me parecia extremamente estranho e não parecia de fato meu – também havia o pequeno detalhe de que eu o achara feio e não sentir que combinava comigo, mas talvez fosse a falta de costume...
De repente minha mente era uma confusão, não apenas porque eu passara meses usando um apelido como nome, provando o quão pouco ainda sei de mim mesma, mas porque eu tinha um apelido que parecia mais uma cantada de quinta categoria.
– Você me apelidou de Hime? – inqueri – O que raios princesa tem a ver comigo?
Fiquei me perguntando se era alguma piada idiota de um amigo que me conhecia demais, fazendo alusão de maneira irônica a minha falta de graciosidade e equilíbrio nos meus próprios pés. Pelo amor de Raziel, eu não podia andar calmamente por uma superfície estável sem achar algo para tropeçar
Kira riu.
– Tem muito.
Resposta evasiva...
– Certo, e por que não me explica quais são seus pontos?
Kira sacudiu a cabeça, negando.
– Não tenho certeza se posso confiar essa informação a você, Olivia.
Franzi o cenho, tanto pelo fato de ele ter me chamado de Olivia quanto por sua resposta.
– Não me chame por esse nome esquisito! E como assim você não pode contar a mim sobre o que eu tenho para merecer um apelido tão idiota? – me indignei – É sobre a minha desconhecida vida que estamos falando, Kira! Você não pode omitir essas informações de mim.
Seu rosto tomou um ar arrogante que eu odiei completamente.
– Posso sim. Como seu guardião, eu posso tomar qualquer decisão que eu julgue ser o melhor para você sem o seu consentimento.
Cerrei os punhos e estreitei os olhos, esperando que a fúria que brilhava neles o queimasse.
– E o que tem de tão importante no significado do meu nome que poderia desencadear minha morte? Aliás, o que tem de tão perigoso em eu saber?
– Você confia demais no Kuran, – explicou de maneira muito simples – e ainda mais no Nível-E e seu pai adotivo. Eu ouvi você conversando com Kaname sobre suas lembranças, naquele dia na Night Class, e com aquele Nível-E insípido. E não tenho dúvidas de que contaria ao Kurosu se ele não tivesse ocupado com a jovem Kuran.
O fato de ele estar me vigiando apenas me enfureceu ainda mais.
– Está me dizendo que se eles souberem o que sou, vão me machucar? – Minha voz soou tão incrédula quanto eu estava.
A ideia de Kaien me machucando por saber quem eu realmente era me parecia absurda. Eu duvidava que Kaien sequer tivesse coragem de machucar a uma pobre formiga, quem dirá a mim, uma garota por quem ele foi responsável (quando não precisava ser) de cuidar e alimentar.
Porém, Kira parecia não achar a ideia tão absurda, ele sacudiu a cabeça como se me considerasse uma pobre garotinha ingênua.
– Se você se lembrasse do seu passado, saberia do que estou falando – contou – Não teria compartilhado nada sobre o que se lembrou com ninguém e teria saído daqui logo que estivesse bem. Principalmente agora, Hime, que Leigh descobriu que você ainda está viva.
A menção do nome dele foi o suficiente para arrepiar minha pele com o pavor, as palavras que Leigh me dissera naquela noite em Lunier se transformando em um aperto firme no meu coração.
Não importa para onde você for, garota, eu sempre vou achar você.
– Você acha que ele vai me encontrar? – perguntei, preocupada.
Kira notou pareceu notar minha onda de medo pela possibilidade de ver Leigh uma vez mais em minha vida. Sim, eu o odiava com tudo que eu tinha e se pudesse o mataria com demasiada lentidão, mas acima de tudo eu morria de medo dele. O bastante para eu não conseguir pensar racionalmente ou me mover, e eu sabia que apesar de tudo que ele me fizera, isso era muito patético até para mim.
– Muito possivelmente – Kira respondeu, parecendo ter pena.
Eu não queria a pena dele, mas eu sabia que da forma que estava agindo, não estava merecendo nada além disso. Eu provavelmente tinha uma expressão angustiada me distorcendo o rosto, e tinha consciência do leve tremor em minhas mãos com a alta possibilidade de encontrar aquele sádico outra vez.
Estava me perdendo fácil demais nos meus sentimentos mais uma vez, e tinha que aprender a controlar isso ou no mínimo me agarrar a raiva se ocorresse de o ver.
– Qual é o problema do seu irmão? – minha voz saiu quase como um murmúrio.
Além do fato de ele ser completamente psicopata.
Felizmente Kira pareceu ouvir minha pergunta. O semblante do vampiro endureceu e escureceu, e eu não tinha certeza se era com a ideia de me responder ou com a resposta.
– Leigh acredita que o clã Asamiya fez mal em não reivindicar a liderança dos vampiros quando pudemos, há muito tempo atrás. Ele está cego de desejo pelo poder e quer destruir cada Kuran e qualquer um que se colocar no seu caminho.
Aquilo tudo era muito maluco, até para meus padrões.
Leigh Asamiya queria corrigir um erro que seu clã cometeu havia séculos, o que desencadearia uma guerra contra o Conselho – provavelmente uma batalha astronômica que tiraria a vida de muitos humanos inocentes e milhares de vampiros. E com uma habilidade de controlar os vampiros Nível-E, eu tinha minha dúvidas sobre se alguém conseguiria impedir que ele alcançasse seus objetivos.
– E por que ele quer me matar? – quis saber – Eu não sou nenhuma Kuran. Meu sobrenome é Yagami.
Era talvez a maior questão de todo o mistério de minha vida: Por que Leigh, um Sangue-Puro, iria desejar tanto uma humana fraca e desengonçada morta.
Kira suspirou e bagunçou as mechas arrepiadas de seu cabelo negro.
– Por que você se colocou no caminho dele.
Fiquei mortificada e incrédula com o quanto eu era estúpida e corajosa antes de eu perder a memória.
Por que raios eu fui me colocar no caminho de um vampiro cem vezes mais forte que eu?
Pelo que me lembrava de Lunier, a única coisa que eu fizera quando Leigh aparecera com seu exército de vampiros Nível-E foi correr, amedrontada.
Eu desafio Leigh e saio correndo na primeira oportunidade de batalha? Que droga de desafiante eu sou!
Além do mais eu não parecia uma guerreira, eu era uma humana nerd, magricela e sedentária; como poderia eu deter alguém tão poderoso quanto Leigh? O que eu tinha na minha cabeça?
– Estou cogitando seriamente que eu era uma retardada suicida – comentei comigo mesma.
Para minha surpresa (não sei por que), Kira gargalhou.
– Oh, não, querida, você tinha... – ele pensou melhor – você tem força o suficiente para detê-lo.
Lancei meu olhar mais sarcástico e incrédulo na direção dele, que não parecia duvidar nem remotamente de suas palavras.
Provavelmente é tão louco quanto o irmão para pensar que eu tenho esse poder.
– Eu não sei se você já olhou para mim, Kira, mas eu com toda a certeza não poderia dar uma surra no Leigh.
Tem certeza?, me perguntou aquela parte misteriosa do meu cérebro.
De repente lembrei-me daquele dia maravilhoso em que derrotei Zero em uma batalha, apesar de todo o meu sedentarismo e como meus pulmões pareceram pegar fogo quando terminei – meu coração parecia prestes a ter uma parada cardíaca no fim. Ou a grande força com que eu jogara Zero para longe de mim, quando ele me rejeitou.
Uma pontada dolorosa acertou meu coração e meu estômago, mas logo joguei a parte da rejeição para longe e me concentrei no que importava; a minha força.
Eu fizera todas essas coisas incríveis sem ter qualquer treinamento (supostamente), e se eu me dedicasse a me preparar para a batalha?
Achei estranho o fato de Zero não ter me enchido a paciência com aquilo, assim com o fato de eu o ter jogado do outro lado do quarto com minha superforça... Se bem que me perturbar com o fato de eu conseguir ativar essas coisas por motivos desconhecidos não serviria de nada, já que não tinha nenhuma forma de explicar como fiz e esses acontecimentos apenas reforçam a teoria de Zero sobre eu ser anormal.
E talvez eu fosse anormal...
– Sim, você tem. – Afirmou Kira, tirando-me de meus devaneios.
– Eu sou anormal? – a pergunta escapou dos meus lábios antes que eu pudesse pensar melhor.
Mordi o lábio inferior, não me sentindo arrependida; embora se tivesse pensado melhor, não teria formulado a pergunta dessa maneira.
Olhei para Kira Asamiya com expectativa e receio da sua resposta.
Ele sondou meus olhos de uma maneira que fez meu coração disparar, até eu sentir que o azul intenso estivesse deixando vestígios de sua cor no meu, até que eu tivesse certeza de que ele vira do que sou feita. Se é que ele já não sabe.
Kira suspirou, parecendo declinar em sua decisão de esconder as coisas sobre mim, mas ainda incerto sobre se deveria confiar o segredo a alguém tão cegamente disposto a partilha-lo com os amigos.
– Sei que você confia no Kiryuu, Kurosu e até no Kuran, – ele começou – mas o que eu vou te contar é algo tão perigoso que você não pode contar a ninguém, entendeu?
– E por que não?
Se eu ia ter que esconder coisas dos meus amigos, pessoas em quem eu confiava (Kaname nem tanto, já que não somos tão próximos), ele teria que me dar bons motivos para isso.
– Porque todos querem o poder, Hime, e você o tem. – explicou – Outros como você quase foram extintos por causa dessa informação, e para sua segurança é melhor que não conte. Não poderei te dizer se você não me prometer que vai manter isso em segredo. Não me importo em magoar você se isso for te manter viva.
Infelizmente eu era esse tipo de pessoa que presava muito as promessas que fazia, e não tinha dúvidas de que Kira sabia disso, pois não teria me dado essa alternativa se não soubesse.
Pesei todos os prós e contras, questionando a mim mesma se gostaria de manter coisas escondidas de todos aqueles que me ajudaram quando precisei, sabendo que eles queriam essas informações para me proteger como Kira parecia tão disposto a fazer.
Eu não tenho muita escolha...
Tentei me convencer de que era um preço pequeno a pagar em relação a todas as respostas que ganharia, que não faria mal manter uma coisa e outra para mim mesma; e que talvez Kira estivesse dizendo a verdade sobre meu segredo. E se eu tivesse os arriscando?
Mas ainda assim, a ideia de prometer algo como aquilo me fazia sentir como se estivesse traindo Kaien.
– Prometo não contar a Kaname Kuran. E eu conheço Kaien o bastante para confiar nele, sei sobre o caráter dele muito mais do que você. Além do mais, esse segredo é meu. Que direito tem você de decidir com quem devo compartilhar ou não?
Kaname já não sabia tanta coisa sobre mim, de qualquer maneira, e quanto menos eu alimentasse a situação entre nós, melhor seria. Não tínhamos qualquer futuro, ele e eu, e já bastava à situação ridícula que eu me envolvera com Zero.
– Tenho todo o direito de esconder, Hime, não posso arriscar. – rebateu – Como seu guardião...
– Você não é um grande guardião, Kira Asamiya – retruquei, não me importando se o magoaria – E enquanto você estava zanzando pelo mundo, foi Zero quem me achou e me protegeu de dois vampiros Nível-E. Foi o Nível-E insípido – recitei as palavras dele – quem me trouxe para um lugar seguro. E Kaien Kurosu cuidou de mim, me alimentou, me deu remédios, me pôs para estudar e fez tudo o que pôde por mim quando não era responsabilidade dele. Eu não vou prometer esconder o que sou deles, principalmente de Kaien. Como meu guardião, você deve muito a eles, pois fizeram o seu trabalho.
Kira ficou em silêncio reflexivo, sua expressão não revelando nada do que se passava por detrás daqueles olhos sobrenaturalmente azuis.
– Certo. Mas você terá que me prometer que irá embora comigo. – Acrescentou.
– O que? – Minha voz subiu quatro oitavas e ficou absurdamente aguda.
Kira chutou a terra escura com a ponta do coturno, seu rosto voltado para seu pé a medida que formulava a sua explicação.
– Eu já disse a você que há uma grande probabilidade de Leigh a achar – explicou metodicamente, ainda sem me olhar – Bem, como sei que você não tem um pingo de autopreservação, vou ter que apelar para um ponto crucial do perigo que significa você continuar estagnada neste lugar. Você não está apenas se arriscando, Hime, você está arriscando cada humano e cada vampiro que habita esse colégio. Você se lembra do que aconteceu a Lunier? Acontecerá o mesmo a esse lugar. E se ele souber o quanto você se importa com Kaien e o Nível-E albino, ele os usara para te ferir.
Eu engoli em seco diante da minha mais nova e ainda espectral carga de culpa para acontecimentos futuros.
Uma parte egoísta de mim, e não vou negar que era uma parte forte, não queria ir embora. Eu me apegara demais a Mitsuo, Kaien, Kaname, Zero... E até a ingrata e traíra da minha ex-amiga, Naomi.
– Mas há vampiros morando aqui – tentei argumentar – Eles poderiam cuidar dos vampiros Nível-E...
– Hime... – ele falou meu nome muito suavemente – Mesmo que Kaname e companhia conseguissem deter os avanços dos subordinados inconscientes de Leigh, haveria algumas baixas na Day Class. Talvez muitas, dependendo da velocidade com que percebessem que estão sendo atacados. Mas ainda assim, nenhum deles poderia combater Leigh, nem mesmo o grande e poderoso Kaname Kuran – o sarcasmo escorreu com intensidade com os adjetivos associados ao Líder do Dormitório – Eu tenho minhas dúvidas até de que ele poderia me vencer. Os vampiros de hoje em dia estão muito humanizados. Leigh acabaria com todos eles de olhos vendados.
Eu não me lembrava de quem era Kira e se ele era alguém que eu poderia confiar (mesmo que eu fosse maluca o bastante para estar no meio de uma floresta com ele por causa de uma lembrança dele me protegendo), mas eu acreditava em cada palavra do que ele dissera.
Senti-me bastante inconsequente, tola e egoísta por não perceber até aquele instante que minha estadia na Academia Cross era perigosa para todos, confiando tão cegamente nas habilidades de Kaien de me proteger.
Mas confiaria em Kira para me levar dali?
Soltei um suspiro, sabendo que eu não tinha escolha. Eram os meus problemas, a minha batalha. Eu não podia permitir que mais alguém arcasse com as consequências da minha decisão de enfrentar Leigh, já bastava à culpa da perda de toda uma aldeia nas minhas costas.
– Ok. – soltei um suspiro – Eu vou embora com você.
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