Firing Line
8 First Kiss
Notas iniciais
Uma semana depois...
Demi:
— Demi, será possível que você não sossega?
— Não se meta no que não é da sua conta. Tenho muito trabalho aqui.
— Hoje é sexta feira, vai se divertir. Faça coisa de pessoas normais ao invés de ficar com a cara enterrada nesses papéis.
— Zac me deixa, que saco. Olha, já estou terminando aqui e vou pra casa. Satisfeito?
— Ótimo. E não me apareça aqui antes de segunda-feira. Eu cuido de tudo, é meu plantão e você será avisada sobre qualquer imprevisto.
Suspirei cansada. Zac tinha razão, fazia um tempão que eu não saía de dentro desse departamento. Sempre que eu pensava em descansar um pouco aparecia algum chamado, alguma investigação, reuniões... Argh. Eu realmente precisava de um tempo.
— Você ligou pra bonitinha com cara de bebê? — Levantei a cabeça encontrando o olhar divertido do meu melhor amigo.
— Não. Mas não foi por falta de vontade nem nada, eu só... Talvez seja melhor pra ela.
— Melhor pra ela? Demi, pelo que você me contou ela está caidinha por você! Qual é, capitã.
— Ah velho, é que eu fico tão confusa quando tô perto dela. Eu nunca senti algo parecido. Eu fico distraída, boba... Fora o fato de que ela merece coisa melhor. Eu não quero entrar na vida dela pra causar estragos.
— Você só vai causar estragos se quiser. Liga pra ela, convida ela pra esse bendito jantar.
— Talvez. Penso nisso quando eu estiver em casa. — Dei a conversa por encerrada.
Quando a ultima folha da pilha de pastas foi analisada, coloquei tudo no armário de arquivos e resolvi que já era o suficiente por hoje.
— Bom, é isso. Zac, você está no comando. Qualquer coisa, não exite em me ligar e eu venho correndo.
— Pode deixar. Agora vai descansar um pouco. — Ele já ia levantando da poltrona à minha frente.
— Se cuida, até segunda. — Peguei minha bolsa, fui até ele e fiquei na ponta dos pés pra beijar seu rosto.
— Tchau, irmãzinha.
Eu estava realmente cansada. Passava do meio dia e eu não havia comido nada a não ser uma maçã até aquela hora. Pensei em parar pra comer em algum lugar, mas decidi pedir comida em casa mesmo. Dirigi tranquila pelas ruas de L.A ouvindo umas músicas aleatórias no som do carro. Chegando ao prédio onde eu morava, deixei meu carro no estacionamento, cumprimentei o Sr. Rogers que ficava na portaria e subi. Nossa, que saudade da minha casa. Larguei a bolsa no sofá e deixei a arma cuidadosamente em cima da mesinha de centro da sala ampla. Entrei no meu quarto já tirando a blusa cinza e a largando de qualquer jeito pelo chão. Sentei na cama e tirei a calça jeans e o salto que eu usava.
Depois de um bom banho, sentei no sofá da sala enquanto esperava a comida chinesa e liguei a tv. Estava passando South Park. Eu adoro esse desenho. Me aconcheguei mais às almofadas e acabei pegando no sono tamanho era meu cansaço.
Acordei com o barulho do controle remoto da tv caindo da minha mão. Nossa, quanto tempo eu havia dormido? Olhei pro meu relógio de pulso. Caralho, já são 18:00 ! E minha comida chinesa? Provavelmente o entregador tocou a campaínha milhares de vezes e como eu estava num sono muito pesado, não ouvi. Droga, que fome.
Será que... Não. Ela nem lembra mais de mim. Eu passei a semana toda muito ocupada mas não deixei de lembrar dela nenhum dia. Selena provavelmente não tinha me levado a sério e por isso talvez nem estivesse esperando meu telefonema. Mas eu queria vê-la. Realmente queria. E isso me tirava do sério. Eu só a conhecia a algumas semanas, como eu poderia sentir a falta dela assim? Ah, que se dane. Eu sou Demetria Lovato, já enfrentei bandidos e traficantes perigosos, já prendi os piores caras e fiz tudo isso numa boa. Não ia ser o receio de ligar pra uma garota que me faria dar pra trás. Ou seria? Droga, eu estava nervosa. E se ela não quisesse falar comigo?
Depois de quase meia hora pegando o telefone e recolocando no lugar, resolvi arriscar. Peguei o pedaço de papel em que ela anotou o número do seu celular e disquei.
— Alô. — A voz grave e bonita dela do outro lado da linha fez um arrepio percorrer meu corpo.
— Err, oi. Sou eu, Demetria. — Me peguei sorrindo ao falar com ela.
— De-de... Demetria? — Ela gaguejou. Meu sorriso se intensificou.
— Sim, Selena. Fiquei de te ligar, lembra? Pois bem.
— Claro, é que... eu não esperava que você fosse realmente ligar.
— Por que não?
— Sei lá, eu... Bom, não importa. — Ela riu baixo.
— Que seja. Olha, eu queria saber se você tem planos pra hoje à noite.
— Eu... Não, não tenho.
— Que ótimo. Aquele nosso jantar está de pé?
— Por mim, está sim.
— Posso passar pra te buscar às... — Olhei mais uma vez no relógio de pulso. — 20:00 ?
— Pode sim. Estarei esperando.
— Combinado então. Até já, Selena.
— Até. — E desligou.
Respirei fundo tentando entender o que eu tinha acabado de fazer. Convidei Selena pra jantar. A quanto tempo eu não convidava alguém pra jantar? Digo, porque normalmente eu que era convidada. Perdi as contas das vezes que fui convidada pra janta por mulheres e homens do departamento, em festas ou sei lá. Tomar a iniciativa assim é difícil. Mas é diferente, dessa vez.
Selena:
Eu não acredito que ela realmente ligou. Caramba, ela ligou! Eu ainda olhava pra tela do celular com cara de retardada. Tenho que me arrumar.
Demorei exatas uma hora e meia pra ficar pronta. Não que eu demore tanto assim normalmente, mas é que eu queria ficar bonita pra ela. Coloquei um vestidinho branco curtinho e solto, tomara-que-caia. Pensei uma ou duas vezes antes de colocar um bolero preto por cima, pros ombros não ficarem copletamente descobertos. Um colar discreto, brincos, bolsa, celular, carteira... Ah, sapatos. Claro. Optei por uma sapatilha preta bem discreta. Maquiagem leve e pronto. Acho que dá pro gasto. Olhei pro relógio que marcava 19:55. Melhor eu descer e esperar Demetria lá na sala. Coloquei um perfuminho básico e desci. Não demorou muito e a campaínha tocou. Minha mãe não estava em casa, o que era até bom, assim ela não ia ficar espiando. Fui atender e ao abrir a porta meu queixo caiu.
Era a perfeição em pessoa. Ela estava linda. Usava uma calça preta de tecido delicado colada com alguns rasgos marcando as coxas fartas nos lugares certos. Uma blusa cor creme bem clarinha e uma jaqueta de couro preta que parecia bem confortável e caía perfeitamente nela.
Fiquei olhando pra ela de cima a baixo de uma forma que eu julgaria ser indiscreta, mas não convegui me conter. Quando olhei pro seu rosto, percebi que ela me olhava da mesma maneira e gostei daquilo. Ela usava uma maquiagem leve mas com os olhos bem marcados.
— Demetria. — Chamei quando ela não esboçou reação. Só me olhava de um jeito que parecia querer... Deixa pra lá.
— Hã? Ah, oi. — Ela pareceu despertar de repente, me olhou e sorriu de orelha a orelha. Que soriso era aquele, meu Deus. Acho que a coisa mais linda que eu já havia visto. — Pronta?
— Sim. Vamos. — Fechei a porta atrás de mim e tranquei.
Ela me estendeu a mão esquerda enquanto se dirigia à BMW preta estacionada em frente à minha casa. Peguei a mão dela imediatamente como se eu estivesse necessitando daquilo. Do toque dela. E estava.
Demi:
Eu mal conseguia manter minha boca fechada. Selena estava tão linda, se é que era possível ela ficar mais bonita do que já é normalmente. Antes que eu pudesse me conter, estendi minha mão que foi segurada prontamente por ela. Entrelacei nossos dedos como que passando segurança. Abri a porta do carro pra ela, que sorriu antes de entrar no veículo.
Eu ainda estava em dúvida sobre onde leva-la. Não conhecia seu gosto, então pra não arriscar optei por um restaurante italiano. O caminho da casa de Selena até lá foi calmo, tranquilo. Como se aquilo fosse natural, como se fosse realmente o certo. E eu estava começando a achar que era.
Chegando ao restaurante, estacionei em frente ao estabelecimento e dei a volta pra ajuda-la a descer. Dei as chaves pro manobrista e mais uma vez estendi mina mão pra ela, que por sua vez, a segurou firme.
O jantar foi ótimo, acertei na escolha do restaurante. Selena não tinha restrições com comida. Enquanto conversávamos e comíamos, eu a observava. Cada traço do seu rosto infantil, o timbre da voz dela, a forma como ela não parava de falar. Meu olhos caíram sobre a boca dela e irremediavelmente senti vontade de beija-la. Impossível não me sentir atraída por ela. Mas eu não queria desrespeitar seu espaço. Eu nem sabia se ela estava afim de mim. Além do mais, talvez fosse melhor pra ela. Eu sou muito complicada, minha vida é uma bagunça... Não seria justo trazer alguém pro meu mundo por mais que eu quisesse.
— Demetria? — Ela deve ter percebido que eu estava distraída.
— Oi.
— Você ouviu alguma palavra do que eu disse?
— Claro que sim.
— Então repita.
— Droga. — Ri baixo. — Você me pegou.
— No que está pensando?
— Em você. — As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse pensar direito.
— Em mim? Como assim?
— Eu só não quero trazer problemas pra você. — Falei baixando a cabeça.
— Ei. Olhe pra mim. — Ela segurou minha mão direita que estava ao seu alcance me fazendo olha-la. — Pare de pensar essas coisas. Não quero que pense nisso, tá?
— Tá.
O jantar seguiu animado e conversamos bastante sobre muitas coisas. Não entrei em detalhes sobre coisas do meu trabalho até porque eu nem poderia. Mais da metade se tratavam de assuntos confidenciais. Ela, ao contrário, tagarelava o tempo todo e aquilo me divertia. Era bom estar com alguém assim. Ela fazia eu me sentir bem.
Já passava de meia noite quando resolvemos ir embora. Parei meu carro na porta da casa de Selena e desci pra acompanha-la até a porta.
— Então é isso. — Comecei.
— É. Demetria...
— Me chame de Demi. É como meus amigos me chamam.
— Demi. Que apelido bonitinho, nem parece com você toda durona e tal.
— Só não espalhe. Tenho uma reputação a zelar. — Falei com ar divertido.
Ela deu uma risada alta, me fazendo rir também. Só notei o quanto estávamos próximas quando ela apoiou a mão no meu ombro. Apoiei meu braço na sua cintura e ela me olhou. Os olhos dela eram tão lindos, tão hipnotizantes. Eu não conseguia pensar direito, então meus instintos falaram por mim. Usei a mão que estava apoiada na cintura fina da garota e a puxei pra mim fazendo nossos corpos se chocarem levemente. Ela apoiou melhor o pé no chão ao se desequilibrar, sem se soltar de mim. Acho que se eu não a tivesse segurando, ela tropeçaria.
— Tudo bem aí? — Perguntei com o rosto muito próximo ao dela.
— Me desequilibrei. — A voz dela não passava de um sussuro. Minha mente viajou algumas semanas atrás na primeira vez que nos vimos. Ela trombou em mim e caiu de bunda no chão. E depois lembrei do dia do assalto quando ela correu pra mim e eu a segurei impedindo-a de cair.
— Não vou te deixar cair como na primeira vez. — Sussurei de volta me aproximando ainda mais do rosto dela.
— Não? — Os olhos dela se revezavam entre meus olhos e minha boca.
— Não mesmo. — Olhei pra boca dela e inconscientemente mordi os lábios.
A essa altura nossas testas já estávam praticamente coladas. Meu braço direito desfez o restinho de distânca que faltava entre nós colando nossas testas e roçando meu nariz no dela. Mas pra minha surpresa, a mão esquerda dela que estava apoiada no meu ombro foi subindo até minha nuca e ela colou nossos lábios de forma doce. Deixei escapar um suspiro ao colocar minha mão livre no rosto da garota e aprofundar o beijo. Passei delicadamente a língua na entrada da boca convidativa que não mostrou resistência. Ela entreabriu os lábios e eu comecei a explorar cada espaço daquela boca. Ela suspirou quando sentiu minha língua chegar ao céu da sua boca. Selena tinha uma das mãos na minha nuca, a outra no meu ombro, me puxando sempre mais pra ela. No meio do meu passeio dentro da sua boca, ela prendeu minha língua e chupou. Suspirei, me agarrando mais a ela e o beijo se tornou intenso, cheio de desejo e algo mais que não consegui identificar. Não sei precisar quanto tempo ficamos nos beijando, até que o ar foi necessário e me separei dela mordendo levemente seu lábio inferior. Ela ainda estava de olhos fechados quando separei completamente nossas bocas.
— Eu... ahn... Tenho que ir. — Sussurei ainda com a testa colada na dela.
— É, você tem. — Ela disse ainda sem abrir os olhos e ainda abraçada a mim.
— Mas pra isso você precisa me soltar.
— Eu não quero te soltar. — ela abriu os olhos e me fitou. O olhar dela irradiava desejo e ternura. Os dois ao mesmo tempo.
— Também não queria, mas já está tarde. — Suspirei e ela afrouxou o aperto ao meu redor. Fiz o mesmo, ainda permanecendo próxima.
— Quando vou te ver de novo?
— Eu te ligo. Vamos nos ver logo. Tenho o fim de semana livre, então podemos fazer algo amanhã ou depois, não sei.
— Então vou esperar você me ligar. Vê se não demora uma semana como da ultima vez. — Ela sorriu de lado.
— Eu não conseguiria. Te ligo sim. — Falei virando de costas pra ela e começando a descer as escadas da varanda em direção à rua.
— Ei. — Me virei pra ela. — Não tá esquecendo de nada?
Sorri e fui até ela a segurando pelo rosto com as duas mãos e a beijei mais uma vez. Era viciante, por mim eu a beijaria o tempo todo. Ela me abraçava pela cintura enquanto nossas línguas se aprofundavam na boca uma da outra. Paramos o beijo ofegantes.
— Isso foi bom.. — Selena disse sorrindo e com os olhos ainda fechados.
Sorri e lhe dei mais um selinho já me virando novamente e indo até meu carro. Antes de sair, ainda olhei Selena mais uma vez. Ela estava na varanda acenando discretamente pra mim. Que inferno, acho que estou gostando dessa garota.
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