Fire Starter
28 Secrets
Miles (Past)
Till all my sleeves are stained red. From all the truth that I've said. Come by it honestly I swear. Thought you saw me wink. No, I've been on the brink, so.
Sorri sentindo minha coluna se arrepiar causado pela carícia dos dedos do Percy na minha nuca. Ele havia chegado da empresa a quase uma hora, um tanto irritado com as tantas reuniões que teve e, enquanto eu decidia qual peça do tabuleiro da Rachel eliminar, organizando minha caixa da Lua, ele tomou um banho e agora, cá estamos nós, em silêncio profundo e apenas aproveitando a presença um do outro.
Isso soava tão ridículo quanto parecia. Jason estava no quarto de hospedes, fazendo alguma coisa que tomasse seu tempo, afinal, ele não gostava de Chicago e o que ainda o mantinha aqui, era eu. Thalia também estava em casa, por incrível que pareça, no seu quarto, com Nico, discutindo o relacionamento sem nome deles.
Era como o Percy e eu. Não era um namoro, não era apenas um caso, tinha algo por trás disso, nenhuma de nós duas sabíamos como nomear, mas era gostoso saber que estava algemada e solta ao mesmo tempo em uma pessoa.
– Não gosto do Jason aqui — Percy soltou um suspiro, ouvindo o barulho da música que vinha do quarto do loiro. É claro que o Jason ainda escutava rock clássico.
– Por que? — me virei, deixando metade do meu corpo sobre o seu e a outra metade na cama. Ele enrolou nossas pernas e deu um leve sorriso para mim, enquanto dedilhava seus dedos pelas minhas luas cobertas pela sua camiseta que eu estava usando.
– Simplesmente não gosto dele — deu de ombros, parando a mão na minha lombar e me prendendo a ele. — Saber que vocês dois não tem um relacionamento realmente terminado...
– Alguém está com ciúmes — comecei a rir e ele arqueou a sobrancelha, incrédulo, então ficou vermelho. — Percy, Jason é o meu primo e nosso relacionamento em Londres se resumia em sexo. Era tipo eu e você a algum tempo atrás.
– Nós temos um relacionamento agora?
– Digamos que, sim, nos temos um relacionamento aberto — apoiei meu queixo no seu peito, sentindo seu outro braço me envolver e me puxar para cima dele. — Não gosto de me sentir presa a alguém.
– Você não ama ninguém.
– Eu amava os meus pais, e eles me deixaram — murmurei, desviando meus olhos dos dele e sentindo meu coração apertar. Eles não me deixaram por que queriam, eles me deixaram porque os pais da Rachel queriam.
Mordi o lado de dentro da minha bochecha. Não fazia muito tempo que havia ido ao túmulo deles, mas fazia muito tempo que não sentia a presença deles, não sentia o cheiro adocicado da minha mãe ou o calor do abraço do meu pai. Será que, se a vida tivesse sido diferente comigo, com eles, hoje as coisas seriam diferentes? Será que se eles estivessem vivos, se eles tivessem ido a minha formatura, chorado quando fui para faculdade e se eu tivesse ouvido meu pai sussurrar no meu ouvido enquanto me abraçava na frente da faculdade: "Minha menininha cresceu tão rápido...", se eu tivesse a minha vida tivesse sido com a presença deles, sem uma Rachel me prendendo com cobras, ou então sem a humilhação e a dor de perder eles, será que hoje eu seria capaz de amar alguém sem medo de perdê-lo ou dele sofrer com a minha perda?
Será que hoje eu não teria tanto temor ao construir a minha família ou então a me permitir a sentir algo mais forte que a minha vingança? Será que hoje eu seria o que sou? Essa pessoa sem caráter, que mata para colocar outra pessoa na cadeia por seus crimes, que envenena um homem por ele ter passado informações da empresa dos seus pais para o inimigo?
Se nada disse tivesse acontecido, se Atena e Frederick ainda fossem vivos e influentes no mundo, hoje em dia eu estaria me preparando para assumir o lugar deles na presidência da Chase, estaria fazendo ela se tornar uma multinacional mais poderosa ainda e não estaria brincando de jogar xadrez com as pessoas.
– Nós precisamos conversar — murmurei me soltando dele. Só de pensar em dizer tudo aquilo já era doloroso demais, mas eu tinha que fazer antes que já fosse tarde demais. Mais tarde ainda. — Eu amo alguém, amo como amo os meus pais e como amo a minha própria vida. Eu amo alguém de maneira tão egoísta que seria impossível continuar sendo egoísta com ele e eu preciso dizer isso antes que seja tarde demais, mais tarde ainda, eu preciso dizer isso mesmo sabendo que terá consequências e bem, eu terei que aceitar elas de alguma maneira.
– Annie, você está chorando — ele se sentou preocupado. Engoli o meu soluço e me levantei, indo até o meu closet e empurrando com dificuldade o espelho falso, tirando a caixa da Lua dali e encarando ela com certa melancolia. Era agora ou nunca. — Annie...
– Eu te amo, Percy, eu te amo mesmo sabendo que nunca deveria ter sentindo isso por você. Eu te amo mesmo sabendo que estou traindo a mim mesma, eu te amo mesmo sabendo que tudo o que eu fiz nesses últimos meses foi errado — disse vendo seus olhos arregalados com as minhas palavras. Deixei a caixa da lua ali, então destronquei a porta e pulei Danger, indo na direção da sala e pegando o tabuleiro de xadrez com peças de vidro transparentes e vermelhas, então voltei e vi que ele ainda estava atônito com a minhas palavras. — Desculpe por te amar, desculpe por ter escondido isso de você, desculpe por ter sido tão violenta e sem caráter com você. Desculpe por ser algo que eu não queria ser, eu culpo a mim mesma por isso. Mas a culpa nunca foi sua, sempre foi minha.
– Não estou te entendendo. Isso é ótimo, porque eu também te amo, mas nunca disse porque sabia que no minuto que dissesse isso você iria se afastar — ele tentou me puxar para ele, mas eu me afastei, deixando mais lágrimas caírem nas minhas bochechas e escorrerem pelo meu pescoço.
– Não é tão bom assim, Percy, te amar foi a melhor coisa que me aconteceu, mas também foi o maior erro que cometi com você. — disse soltando um soluço, no lado oposto da cama, com o tabuleiro a minha frente a caixa no meu colo. — Isso, esse tabuleiro não é um simples jogo de xadrez que nunca acabou. Ele é o jogo da minha vida, o jogo do real motivo pelo qual, depois de tantos anos, eu voltei para Chicago. Esse — indiquei o rei vermelho, o meu rei — É o nome dos meus pais, o meu nome e o nome de todos aqueles que um dia já sofreram. Do outro lado, o rei é os pais da Rachel e a rainha é ela, enquanto eu sou a rainha do meu jogo. O bispo da esquerda é o Jason e o da direita é você. Da Rachel o da esquerda era o Cameron e o da direita é o Luke. Tem os cavalos, Thalia e Nico. Dela era Dionísio e Aracne. Esse peão era o Cameron, que saiu quando Rachel explodiu o carro dele, então eu tirei o bispo dele do jogo dela, afinal, ele não existia mais. E tem os outros peões, que são todos os que eu sou capaz de manipular para conseguir o que eu quero e do outro lado, os que protegem os segredos e mentiras da família Dare.
Sequei minhas bochechas com as costas das minhas mãos, vendo seus olhos analisarem o tabuleiro. Com o coração apertado mexi as peças, fazendo Rachel dar de cara com o meu rei e o cheque mate acontecer.
– Não estou entendendo — Percy disse me encarando com o cenho franzido. Nico estava na porta do meu quarto, assim como à Thalia, me encarando com pena no olhar. Isso apenas me fez chorar mais ainda.
– Era o jogo da vingança, do poder, vence quem tem a melhor estratégia — Nico respondeu se aproximando e vendo. — Rachel sempre teve a melhor, porque ela tinha quem montava as estratégias por ela, já a Annie tinha que se dobrar e desdobrar para descobrir a melhor maneira de vencer.
– Quando minha ficha caiu, quando eu descobri que havia apaixonado por você, eu esqueci que estaria deixando o caminho da Rachel para mim aberto, porque inconscientemente eu tirei você do caminho dela e me deixei exposta. Eu preferia proteger você do que a mim mesma — respondi passando o dedo pela Lua da minha caixa, então precionei minha digital e ouvi seu click, abrindo ela com relutância e retirando o álbum que meu tio havia me dado com toda a verdade, a cruel verdade. — Eu nunca fui sincera com você, dizia que estava aqui por meus pais e por problemas, quando na verdade estava aqui por querer que a Rachel temesse meu nome. Você não merece mais a mentira que venho mantendo a tanto tempo.
– Por que está me entregando isso — ele pegou o álbum. Não olhei para ele, apenas para o fundo da caixa, onde tinha a última foto tirada dos meus pais, dias antes da explosão da empresa, então a peguei.
– Para entregar a verdade para quem quer que queira — murmurei sentindo meu coração quebrar. — Nico, pega a minha lixeira e o álcool para mim?
– O que você vai fazer? — Percy disse rapidamente. Arrisquei olhar para ele, vendo seus olhos arregalados e magoados.
– Acabar com meus três anos de vingança — virei tudo o que tinha na caixa sobre a minha cama, destruindo o jogo do tabuleiro, vendo fotos riscadas, como a da Hebe, ou do Hipnos, do Dionísio, do pai do Cameron e a do próprio Cameron.
Tinha uma foto, da Medusa, que chamou a atenção do Percy, já que estava riscada. Eu havia matado ela em Londres mesmo, foi a minha primeira vítima, a com a morte mais horrível do mundo. Eu havia asfixiado ela com as cinzas do seu falecido marido, ouvindo ela se debater conforme as cinzas a consumiam.
– Ela é a primeira esposa do meu pai. Era, na verdade, morreu a dois... Você matou ela? — ele arregalou mais ainda os olhos verdes. Eu concordei, vendo a raiva queimar dentro dos seus olhos e então, sentindo meu coração congelar e ser superaquecido, tendo um choque térmico.
– E eu matei a Hebe, culpando Hipnos... Calypso me manipulou para matar Dionísio — disse jogando tudo aquilo dentro da lixeira de metal, todas as fotos, todos os diários e tudo o que havia me consumido pela vingança. Joguei álcool e coloquei fogo, deixando ele queimar junto com a minha alma. — No início você era um simples peão meu. Assim como era da Rachel, meu objetivo era tirar tudo dela, deixá-la sem nada, começando por você.
"A sedução, as mentiras, a tatuagem... Foram todos pretextos para fazer você se aproximar de mim, foram, na realidade, motivos para tentar fazer você abandonar a Rachel. Todavia, quando eu cheguei, eu achei que já sabia de tudo, mas não, não sabia. Tinha muito mais por trás de tudo aquilo, coisa que meu tio deixou de fora deste álbum para que eu não acabasse em um caixão ao lado dos meus pais, mas eu descobri e me despedacei.
Descobri que Cameron era advogado dos Dare, por pressão, mas ele confraternizava com o inimigo. Descobri que a Rachel nunca fora a minha amiga de verdade. Descobri que tudo o que eu mais acreditava era na verdade, feito de gelo, que estava derretendo.
Então veio o acidente. Cameron havia posto aquela bomba lá, ele ia matar a nós dois, ele para se livrar da Rachel, e eu porque ela queria você de volta... Se ele não tivesse perdido a razão, se ele não tivesse passado a abusar de mim, eu estaria morta.
Tem a Calypso, que a pouco tempo descobri que foi internada em uma clínica psiquiátrica após tentar suicídio duas vezes. Rachel levou a outra melhor amiga a loucura.
Stella... Ela era a mais interessante e idiota de todas, já que se apaixonou por você e depois foi obrigada a deixar a cidade, já que a Rachel ameaçou matar os pais dela. Quando voltou, Rachel fingiu que tudo àquilo nunca havia acontecido e matou os pais da Stella, colocando a culpa da própria e a fazendo se matar.
Os pais da Rachel, eles mataram os meus pais, a mãe da Calypso, a mãe da Clarisse e pais de várias outras famílias com a grande explosão do Chase Memorial... No dia da festa de noivado, eles aproveitaram que todos da elite estavam ali e acabou matando Atlas, o pai da Calypso, como um aviso a ela de que eles tinham mais poder que ela, afinal, eles havia descoberto a cruel realidade da Calypso: a vingança. Na mesma noite Hecate e Fobos sofreram um acidente de carro. Ele morreu na hora, ela está de coma profundo."
– E mesmo sabendo de tudo isso você continuou com essa maluquice? Você tem tendencia suicida?
– Eu acabei de desistir de tudo, Percy — indiquei as coisas que se tornavam cinzas dentro da lixeira. — Eu desisti de brincar com você, porque eu te amo, mas acho que a Rachel não irá sossegar enquanto meu coração bater.
– Oh, ele bate? — ele disse, irônico. Se levantando da cama e jogando o álbum ali, com raiva. — Tudo o que eu mais admirei e presei durante toda a minha vida foi a verdade, a justiça e a lealdade. Eu achava que tinha isso de você, não a verdade completa. Mas agora entendo quando disse a sua tia que se contasse a verdade a ele, ele iria odiar. Esse alguém era eu, e parabéns, você estava certa.
Arfei. Isso me fez voltar para a noite da festa de noivado, onde ele ficou bravo comigo por não contar o que sabia sobre a Rachel. Ele não estava apenas bravo comigo agora, eles estava furioso e eu respeitava isso.
Foi mil vezes pior, mil vezes mais doloroso. Não existia curativo para essa dor.
– Realmente não iria suportar a sua morte. Eu perdi a Chloe e suportei, eu perdi a Megan e suportei. Mas o que eu sinto por você é mil vezes mais forte e doloroso.
– Me perdoe — murmurei soluçando e com a visão embaçada. — Eu desisti por você.
– E eu desisto de você... Não posso suportar isso não mais.
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