Fire Scars
40 Estratégia — Parte II
Capítulo XXXIX — Estratégia — Parte II
“De vez em quando você passa pela minha cabeça
Isso me leva de volta a uma época mais doce
Mas eu deixo para lá
Eu deixo você ir
Até eu acordar de manhã, você é tudo que eu vejo
Você corre pela minha cabeça, dentro e fora dos meus sonhos
Respiro por um minuto, tento focar em mim
Mas não consigo pensar em mais ninguém”
Sam Smith – Forgive Myself
✻
Most – 1999
Apesar de hesitante, ao ver a determinação que Manu, Tyler e eu mostramos em irmos nos encontrar com Taynara, Johnny não teve escolha além de aceitar a situação. Mesmo que ele tentasse nos impedir, ainda havia o fato de que membros importantes da Resistência estão sob o domínio de um grupo de rebeldes perigosos. Não podemos arriscar suas vidas e com o pouco tempo que nos resta, tudo o que podíamos era nos preparar para o pior dos cenários.
Assim, a reunião se encerrou com a decisão de aceitar as exigências de Taynara. Bóris, Rose, Mel e Hugo ficaram encarregados de entrar em contato com Bart e Lorelai para negociar com o grupo o local que iremos nos encontrar e descobrir mais informações sobre eles. Enquanto isso, Nina, Leon, Mia e Johnny tentariam criar uma estratégia que permitisse o resgate dos reféns em segurança e a nossa sobrevivência, caso algo saia diferente do esperado.
Olga, Tyler, Irina, Cam, Manu e eu fomos dispersados para nos preparar para a missão que acontecerá amanhã à noite. Agora, ocupando cargos de maior autonomia na organização, nós tínhamos a liberdade para agir de acordo com o que acreditamos ser o ideal para garantir o sucesso da missão.
Dessa forma, Tyler e Irina informaram que iriam estudar um pouco mais sobre a Fire Scars e entender o motivo desses membros estarem se aliando a um grupo que claramente quer acabar com o país, quando anos atrás, eles lutavam pela liberdade de Krósvia.
Cameron e Manu informaram que iriam treinar, mas eu sabia que isso era apenas uma desculpa da garota para chorar e acalmar o coração, que estava angustiado por saber que em breve se encontrará com aquela que foi responsável por destruir sua família e nos tornar inimigos de Krósvia.
Enquanto isso, Olga e eu seguimos para o arsenal de armas de Serguei, tentando encontrar armas que podem ser úteis para missão. No entanto, isso também foi uma desculpa usada por mim para que eu pudesse me concentrar em algo que não fosse a minha mente caótica.
Com a notícia do retorno de Taynara, é inevitável não pensar em Gavin e em tudo o que aconteceu há quatro anos, quando eu ainda nem mesmo entendia o que realmente significava lutar pela liberdade de Krósvia.
Até aquele instante, eu acreditava ingenuamente, que em meio ao caos e a rejeição de minha família e de todos que me cercava, as pessoas que se aproximavam de nós compartilhavam dos mesmos ideais, dos mesmos sonhos de liberdade, da mesma lealdade que eu via em Manu, Tyler e nos poucos que me apoiavam enquanto eu ainda vivia no Castelo Cristal.
Mas eu estava errado. Amargamente errado.
Com a genialidade estratégica e palavras de apoio, Taynara se tornou alguém em quem confiei de olhos fechados. Uma amiga. Uma guerreira que parecia disposta a lutar pelo mesmo futuro que nós. Ela me salvou e foi capaz de mostrar que Tyler, Manu e eu éramos capazes de ir muito mais longe do que acreditávamos. E Gavin… Bem, Gavin era meu primo, sangue do meu sangue, e ainda assim escolheu trair a própria família. Os dois juntos destruíram tudo o que eu acreditava ser seguro. Mataram o irmão de Manu, tiraram o pai dela de forma covarde, e quase acabaram com a nossa esperança.
Foi naquele dia que aprendi, da maneira mais cruel, que confiança é uma moeda rara demais em tempos de guerra. Que as pessoas sempre escondem segredos por trás de sorrisos, e que, mesmo os mais próximos, podem estar apenas esperando o momento certo para cravar a lâmina nas nossas costas.
A traição deles foi o ponto de ruptura que me obrigou a amadurecer. Eu não podia mais ser o garoto que acreditava em promessas fáceis ou se deixava levar por discursos inflamados. Percebi que, se quisesse sobreviver, precisava desconfiar até das intenções mais nobres, porque a verdade é que todos têm um preço, todos carregam sombras.
E agora, quatro anos depois, aqui estamos nós, prestes a encarar a mesma sombra do passado, mas muito mais poderosa. Taynara não é mais apenas a garota que nos enganou. Agora, ela é a líder de um grupo ressurgido das cinzas, com reféns valiosos em mãos e a ousadia de nos chamar para uma negociação, usando suas vidas como moeda de troca.
Enquanto todos na sala discutiam estratégias, armadilhas e sinais de emergência, uma parte de mim permaneceu presa àquela lembrança amarga. Eu sabia que, quando chegasse o momento, não haveria espaço para hesitação. Não se tratava apenas de salvar Maria, Paul, Cat e Serguei. Era também sobre finalmente acertar as contas com os fantasmas que me fizeram quem eu sou hoje.
E por mais que eu quisesse acreditar que era capaz de manter a frieza e o controle, uma parte silenciosa dentro de mim ardia com a certeza de que encontrar Gavin e Taynara será muito mais doloroso e desafiador do que qualquer missão ou treinamento que Manu, Tyler e eu já enfrentamos.
Suspiro e volto a me concentrar no que fazia.
O cheiro de óleo de máquina e pólvora impregnava o arsenal. Gavetas metálicas repletas de cartuchos, granadas e rifles desmontados transformavam o espaço em um templo da guerra. E eu me pergunto em que momento esse cenário deixou de me causar repulsa e passou a ser tão natural quanto respirar.
Lembro-me de quando odiava treinar sob as ordens do meu pai. As caçadas forçadas, os olhares frios de aprovação, o gosto metálico em minha boca ao ver sangue escorrendo em minhas mãos quando eu abatia um animal apenas para exibir minhas “habilidades”. Eu detestava cada instante. Sentia como se a guerra fosse um fardo que me esmagava, algo que eu jamais desejaria carregar.
Mas, em algum ponto do caminho, algo mudou. Talvez tenha sido o dia em que vi Manu perder o pai e o irmão, lutando pela segurança de Krósvia. Talvez tenha sido a traição de Gavin e Taynara, que se aproveitaram de nossa ingenuidade para invadir o castelo e iniciar uma rebelião. Ou talvez tenha sido cada vez que me vi obrigado a lutar não por mim, mas por aqueles que não teriam chance alguma se eu falhasse. De tanto enfrentar a dor, a violência e a perda, deixei de rejeitar as armas. Passei a compreendê-las. Passei a viver em função delas.
De alguma forma, eu me tornei alguém completamente diferente do garoto amedrontado que virava o rosto diante da visão de sangue, que vomitava quando exposto ao cenário de tortura aos inimigos do reino que meu pai fazia questão que eu assistisse. Eu me tornei um soldado moldado pela necessidade da sobrevivência. Eu ainda lamento cada morte, ainda sinto o peso dos rostos que jamais esquecerei, mas não hesito. Se um inimigo se ergue diante de mim, eu atiro. Se alguém ameaça aqueles que amo, eu mato. Não me orgulho disso e tampouco sinto prazer ao ver a morte, mas, para proteger os poucos que me restam, preciso ser implacável.
Minha mente aprendeu a erguer muralhas contra o sofrimento. Criei um bloqueio que me torna frio no calor da batalha, insensível diante do sangue que se espalha. E por mais que parte de mim ainda se assuste ao perceber a facilidade com que aceito essa realidade, a verdade é que não há como voltar a ser quem eu era. A guerra me transformou em algo que eu não reconheço mais.
Ainda que eu tente me convencer de que tudo isso é apenas consequência da guerra, a verdade me assombra em silêncio é pensar até onde isso vai me levar.
Meu pai também começou assim. Um príncipe jovem, treinado para lutar, moldado pelo sangue e pela violência, como todo herdeiro da coroa krosviana. Ele também dizia que fazia o que era necessário, que cada morte era um sacrifício em nome da estabilidade de Krósvia. E, pouco a pouco, aquele que deveria ser um rei protetor se tornou um tirano cruel, capaz de exterminar aldeias inteiras sem hesitar apenas porque foram contra suas imposições.
E se eu estiver trilhando o mesmo caminho?
Esse pensamento me consome todas as vezes que aperto o gatilho sem sentir nada além do recuo da arma. Tenho medo de que, um dia, não haja mais diferença entre mim e ele. Que a frieza que me protege nas missões me transforme em um homem incapaz de enxergar a vida além da guerra.
Luto para me convencer de que sou diferente. Que as mortes pelas quais carrego culpa foram em defesa de algo maior, de um ideal, de pessoas que eu não suportaria perder. Mas, no fundo, sei que meu pai também acreditava ter um ideal quando começou sua escalada ao poder.
O que me separa dele, então?
Será que um dia vou acordar e perceber que já não sinto nada pelas vidas que tirei? Que já não consigo chorar pelos amigos que perdi? Será que vou carregar nos olhos o mesmo vazio gélido que via no rosto dele quando me obrigava a segui-lo nas caçadas?
Esse é o meu maior medo. Não morrer em batalha ou matar alguém que não tem nada a ver com a guerra, mas sim me tornar exatamente aquilo que mais odeio: um homem sem alma, tão frio e cruel quanto o próprio sangue que corre nas minhas veias.
Por isso, cada vez que olho para Manu, Tyler ou Olga, eu me agarro à esperança de que eles são o meu limite. De que, enquanto eu ainda for capaz de lutar por eles, ainda restará em mim algo humano. Algo que me separe de ser apenas a sombra do meu pai.
Mas, ao mesmo tempo, sei que amanhã, ao encarar Taynara, talvez esse limite seja testado. Talvez eu descubra que, quando chegar a hora, a linha que me separa dele seja mais tênue do que sempre acreditei.
Meus pensamentos se aprofundavam tanto que quase não percebo quando Olga termina de inspecionar uma pistola que havia encontrado em meio ao arsenal de armas. Sua sombra se projeta sobre mim, tirando-me por um instante do abismo da reflexão.
— Prince? Você está bem? — questiona a garota, observando-me com preocupação. — Está tão quieto e distante.
— Sim. Apenas... com muita coisa na cabeça — afirmo, dando de ombros. — E então? Separou tudo?
— Acho que sim. Agora só falta verificar com Dimitri e Jay se os veículos estão prontos — responde minha namorada, colocando a pistola que segurava dentro de uma bolsa que estávamos enchendo com munições e armamentos.
— Certo. Então, acho que é hora de voltarmos ao treino — respondo, conferindo a bolsa mais uma vez, para ter certeza de que não esquecemos de nada.
— Prince?
— Sim? — digo, sem encarar minha namorada.
Ao notar seu silêncio e olhar intenso sobre mim, levanto o rosto e posso ver a expressão séria da ruiva. Era o olhar que me dizia que estávamos prestes a ter uma conversa que poderia não acabar muito bem.
— O quê? — murmuro, desconfiado.
— Quem é essa Taynara? Por que nunca nos contou sobre ela? — indaga Olga, calmamente.
Ela não parecia querer brigar e eu podia ver que ela estava se esforçando para tentar me entender. Há um certo brilho de preocupação e empatia que me mostrava que ela estava disposta a me ouvir, não importasse o que eu tivesse a dizer. E por um segundo, pensei em abrir tudo. Considerei contar sobre a amizade que virou traição, sobre as risadas que se transformaram em gritos, sobre como um pedaço da minha inocência morreu com ela e Gavin.
Mas as palavras ficaram presas na garganta.
Respiro fundo e deixo meus olhos caírem sobre a bancada, fingindo atenção às armas desmontadas.
— Não agora, Olga — murmuro, forçando suavidade na voz. — Eu ainda não estou pronto para falar sobre isso. Preciso primeiro me encontrar com ela e fazê-la pagar pelo que fez com o pai e o irmão de Manu. Talvez assim, possa ser mais fácil de contar.
O silêncio que se seguiu foi mais doloroso do que qualquer acusação. Quando finalmente crio coragem para encará-la, vejo que sua expressão havia mudado. Não era raiva, mas decepção.
— Você nunca está pronto, não é? — comenta, dando um meio sorriso triste. — Sempre encontra um jeito de se fechar, de manter todos afastados.
Abaixo os olhos, sem resposta.
— Eu já te provei tantas vezes que não vou te julgar — continua Olga, parecendo fazer um grande esforço para controlar as emoções. — Já estive do seu lado nos piores momentos. Passamos por inúmeras coisas juntos, mas parece que, para você, isso nunca é suficiente. Mesmo agora, quando pessoas importantes para nós estão em perigo, você prefere se fechar a nos dar alguma explicação que pode salvar a vida dos meus amigos.
— Olga… — tento falar, mas as palavras morrem em minha boca.
Eu não tinha argumento, não tinha desculpa. Eu sabia que era importante que eu explicasse como a relação de Manu, Tyler e eu começou com Taynara. Como no meio do caos, nós nos aproximamos. Ainda assim, algo me travava.
Ela balança a cabeça, como se já esperasse por aquele vazio. Depois, Olga pega uma das pistolas que encontrou sobre a mesa e a ajeita em seu coldre, dando as costas.
— Não precisa se explicar. Eu entendi.
E sai da sala em que nos encontrávamos com o som dos passos ecoando no corredor do arsenal até desaparecer.
Fico alguns minutos imóvel, encarando a porta por onde Olga havia saído. O silêncio do arsenal parecia mais pesado do que todo o metal acumulado nas prateleiras. Eu sabia que a tinha ferido, e a parte mais cruel era que não era por falta de confiança nela, mas por falta de coragem em mim. Eu sentia a amarga certeza de que a guerra não estava apenas do lado de fora, mas também corroendo tudo o que ainda restava entre mim e as pessoas que tentavam me alcançar.
Suspiro fundo, fecho a bolsa de armamentos e a deixo na sala de Johnny, junto às outras preparadas para a missão. Atravessar o QG depois disso se tornou sufocante. Cada passo pelos corredores ecoava como uma acusação.
Não era apenas o olhar decepcionado de Olga que me assombrava. Eram também os olhares dos outros membros da Resistência. Alguns desviavam rápido, outros permaneciam fixos em mim, carregados de desprezo. Para eles, eu sempre seria o filho do tirano, a sombra de Lester. Não importava o quanto eu lutasse, quantas cicatrizes tivesse em nome da causa, para eles, meu sangue era uma sentença.
Evito encarar diretamente, seguindo em frente com o peso invisível sobre meus ombros. Eu podia ouvir murmúrios abafados e, mesmo que não fossem sobre mim, meu corpo reagia como se cada palavra fosse uma acusação velada.
Ando sem rumo por um tempo, apenas buscando um canto onde pudesse respirar longe da rejeição. Até que escuto o som metálico de espadas se chocando, seguido de um suspiro ofegante e instruções rápidas.
Paro diante de uma porta entreaberta. De dentro vinha a luz amarelada das lâmpadas antigas e o som inconfundível de treinamento. Empurro a porta com cuidado e encontro Manu e Cam no centro da sala, em uma espécie de batalha simulada.
Ela avançava contra ele com uma fúria contida, dando golpes certeiros, com passos carregados de raiva e dor. Cam, mais defensivo, bloqueava e recuava, tentando acompanhá-la sem deixá-la perder o controle. O suor brilhava em seus rostos e a intensidade do movimento parecia menos sobre técnica e mais sobre sobrevivência emocional.
Por um instante, fico parado na soleira, apenas observando. Era como se Manu tentasse exorcizar seus próprios fantasmas a cada estocada, e Cam, silenciosamente, oferecia a si mesmo como muralha para que ela descarregasse a dor.
Meu peito aperta. Eu reconhecia aquele olhar em Manu. O mesmo que tantas vezes vi no espelho.
Permaneço parado na soleira, parado, como se atravessar aquele limite fosse profanar algo que não me pertencia. O som das lâminas ecoava na sala, mas o que realmente cortava era o peso da expressão de Manu.
Muito além de um treino, era como se ela estivesse sangrando em silêncio. Cada golpe que disparava contra Cam carregava a raiva de anos, a dor pela morte do pai e do irmão, a frustração de ter sido traída por alguém que um dia chamou de amiga. Eu podia ver em seus olhos que não se tratava de vencer uma luta simulada, mas uma tentativa desesperada de calar os fantasmas que a perseguiam.
Cam, por sua vez, mantinha-se firme. Não revidava com violência, apenas bloqueava, aparava, controlava a intensidade. E, ainda que não dissesse nada, havia algo no modo como a encarava, como se estivesse dizendo em silêncio que estava ao lado dela, que ela poderia descarregar tudo em cima dele, que ele aguentaria.
Meu peito se aperta. Uma pontada de inveja amarga sobe pela minha garganta. Não porque Cam estivesse ao lado dela, já que desde que estávamos no submarino, ele sempre esteve, mas porque Manu o deixava estar. Ela se permitia expor sua dor diante dele, enquanto comigo só havia restado distância. Distância e frieza, como se eu fosse apenas um intruso que carregava lembranças do que ela queria esquecer.
Engulo em seco e permaneço ali, escondido, como um espectador indesejado. A proximidade entre os dois era clara, e por mais que fosse construída na base do companheirismo, para mim era também um lembrete cruel de que talvez Cam tivesse conquistado um espaço no coração dela que eu jamais conseguiria recuperar. A forma como ele a olhava — compreensivo, atento, disposto a suportar — fazia algo dentro de mim doer. Era um espaço que antes já foi meu, mas que agora parecia ocupado por ele.
Digo a minha mente que eu estava exagerando, tentando me convencer de que aquilo era apenas amizade, um apoio necessário. Mas não conseguia ignorar como os dois se moviam em sintonia, como se conhecessem o ritmo um do outro melhor do que qualquer um ali no QG.
Suspiro, prestes a me afastar, quando Manu gira a lâmina de sua espada em um golpe circular que Cam apenas bloqueou por instinto. Seus olhos, faiscantes de suor e dor, desviaram para a porta.
— Se está tão interessado na luta, entre aqui e lute, Prince.
A voz de Manu ecoa pela sala, cortando o ar como aço contra pedra.
Meu corpo trava por um segundo, surpreso por ela ter me notado. Manu respirava ofegante, cansada pelo esforço, mas seus olhos exibiam uma força monstruosa.
Cam vira o rosto na minha direção, parecendo surpreso repentina, mas não disse nada. Apenas respirava pesado, com as mãos firmes na espada. Talvez estivesse fazendo um grande esforço para acompanhar Manu e suportar os golpes que recebia.
Entro devagar, sentindo os olhares de ambos me acompanharem. Manu não sorri, não me oferece qualquer cumprimento. Apenas ergue a espada com que treinava e aponta a lâmina contra mim.
— Vamos. Está na hora de termos uma luta simulada — insiste a garota, quase como um desafio.
Cam suspira e me entrega a espada que usava. Em seus olhos, havia um aviso claro de que eu não tinha escolha além de participar daquele confronto.
— Apenas não se machuquem. Vocês sairão em uma missão importante amanhã — alerta Cam, pegando a toalha e garrafa que estavam jogadas no canto da sala.
Ele limpa o suor de sua testa e pescoço. Em seguida, Cam bebe um pouco de água e nos encara com seriedade, algo que não é tão típico vindo do rapaz, que está sempre brincando e de bom humor.
— Relaxa. Vamos apenas relembrar os velhos tempos — resmunga Manu, encarando o amigo com tédio. Cam a encara sem acreditar em suas palavras. — É sério.
— De qualquer forma, vocês precisam estar inteiros para enfrentarem Taynara e, provavelmente, Gavin amanhã. Então, por mais cabeça quente que estejam, não exagere — pede Cameron, aproximando-se da garota com sua garrafa.
— Ele sabe sobre Taynara e Gavin? — indago, surpreso.
Manu dá de ombros e aceita a garrafa que era oferecida por Cam. Ele parece confuso com minha reação, provavelmente, estranhando o fato de ser tão surpreendente para mim que ele soubesse sobre o nosso passado.
— Não é como se nosso passado fosse um segredo — retruca Manu, devolvendo a garrafa para Cam. — Agora para de enrolar e vamos lutar.
Seguro a espada de treino que Cam me entrega. Por ser usada apenas para treinamento, o peso do aço dessa espada não é nada comparado ao de uma lâmina real, mas a tensão que cresce em meu peito é muito mais sufocante do que qualquer campo de batalha. Manu já está em posição, firme, com os olhos fixos em mim como se buscasse medir cada fraqueza, cada hesitação.
Dou um passo à frente. O silêncio da sala é quebrado apenas pela respiração pesada de Manu e pelo som distante dos treinos em outras alas do QG. Quando nossas espadas se encontram pela primeira vez, o impacto ecoa como um trovão entre as paredes.
Ela avança sem esperar. O primeiro golpe é rápido, certeiro, mirando o ombro esquerdo, que ela sabia que era um dos meus pontos mais fracos. Bloqueio, mas sinto a força dela vibrar pelos meus braços. Manu não está apenas testando reflexos. Ela está me atacando com tudo o que guardou em silêncio.
— Concentre-se, Prince! — rosna Manu, girando o corpo em um arco amplo.
Recuo por instinto e quase tropeço. Não me lembro da última vez em que precisei ceder terreno em um duelo contra ela. No passado, Manu sempre caía diante da minha técnica mais refinada, mas agora ela parecia outra pessoa. Alguém muito mais forte, ágil e confiante.
Eu contra-ataco com um golpe diagonal, firme, mirando desestabilizá-la. Manu bloqueia com perfeição e o choque de nossas lâminas nos faz ranger os dentes. Ela aproveita a abertura e me empurra com força, forçando-me a recuar mais alguns passos.
— Você está diferente… — murmuro, entre a respiração acelerada.
— Eu evoluí. Não sou mais aquela que você sempre vencia — retruca, girando a lâmina em um movimento ágil antes de investir novamente.
A cada golpe dela, sinto a mistura de dor e fúria que a alimenta. A perda do pai, dos irmãos, a traição de Taynara. Tudo vibra em cada novo impacto de nossas espadas. Tento acompanhar, contra-ataco em curvas, forçando-a a recuar, mas Manu responde com a mesma intensidade. Nossas lâminas se chocam uma, duas, três vezes em sequência, tão rápidas que o som se mistura em um único estrondo.
Cam, encostado na parede, observa em silêncio. Eu sabia que ele queria nos interromper, mas parece entender que há algo aqui que precisa acontecer.
Avanço, simulando um ataque no tronco, mas mudo a direção no último instante, mirando a lateral. Manu percebe a finta, bloqueia com agilidade e gira o punho, quase arrancando a espada das minhas mãos. Meu coração dispara. Nunca pensei que ela pudesse me encurralar desse jeito.
Nossos olhares se cruzam. Vejo nos olhos dela uma tempestade de mágoa e raiva, mas também uma força que não existia antes.
— É isso que você queria, Manu? — pergunto entre dentes, empurrando a lâmina contra a dela, nossos rostos a centímetros de distância. — Me enfrentar como inimigo?
— Não. Eu não queria enfrentar você como um inimigo — responde, empurrando com força e me fazendo recuar. — Eu apenas queria que você visse que eu não sou mais aquela garota fraca que era incapaz de derrotar.
As palavras me atingem mais fundo do que qualquer golpe.
Ela avança novamente. Eu respiro fundo, seguro firme a espada e, desta vez, não me contenho. O embate volta a se equilibrar. Ninguém cede, ninguém domina. Estamos presos em um duelo onde não existe vencedor, mas apenas duas feridas abertas que sangram em silêncio.
O ritmo da luta aumenta. Manu avança como uma tempestade, cada golpe mais forte que o anterior, cada passo carregado de raiva. Eu me esforço para acompanhar, mas a intensidade dela é quase sobre-humana. O suor escorre pelo meu rosto, meus braços ardem e ainda assim ela não cede.
— Vamos, Prince! — grita Manu, quando nossas lâminas se colidem em um estrondo. — Mostre do que é capaz, ou será que agora você só sabe viver se afogando na sua própria autopiedade?
Suas palavras cortam mais fundo que a espada.
Tento manter a calma, girando o corpo e desviando de uma estocada. Revido com um golpe rápido, mas Manu bloqueia com facilidade e, com um grito de esforço, empurra a lâmina contra a minha até quase encostar em meu rosto.
— Eu posso ver exatamente o que se passa na sua cabeça desde a nossa briga. Você acha que é o único que sofre — afirma a garota com o olhar faiscando. — Se faz de vítima como se o mundo inteiro tivesse caído apenas sobre os seus ombros. Enquanto isso, todos nós sangramos, todos nós perdemos! Você não é o único! Quando vai parar de hesitar?
Sinto o impacto da verdade que ela despeja contra mim. Tento responder, mas ela não dá espaço. Seus golpes se tornam ainda mais agressivos, quase fora de controle. Eu bloqueio como posso, mas o peso da raiva dela me empurra contra a parede da sala.
— O seu pai foi um monstro, mas você não é ele! Pare de agir como se já estivesse condenado a ser a sombra dele! Cresça, Prince! Se quer salvar alguém, se quer liderar, pare de se esconder atrás da sua dor!
Manu continua a me atacar e em algum momento, a lâmina de sua espada quase me atingindo no ombro. O choque da espada dela contra a minha faz meus braços tremerem. Um erro, uma fração de segundo mais lento, e eu teria levado o golpe direto.
Cam percebe. Ele larga a toalha e avança, agarrando Manu pelo braço antes que o próximo ataque desça com força demais.
— Já chega! — ordena Cam com firmeza. — Isso não é mais treino, Manu. Você vai machucá-lo de verdade.
Ela ainda tenta se soltar, os olhos ardendo de lágrimas e fúria, a espada erguida como se quisesse continuar. Cam a segura firme, impedindo-a.
— Larga, Cam! — grita Manu e posso ver que sua respiração está descompassada. — Ele precisa ouvir! Eu estou cansada de olhar para ele e vê-lo com essa cara de coitado, como se fosse o único que estivesse sofrendo! Pare de agir como um bebê chorão só porque as coisas não saíram como você queria. Estamos prestes a encontrar Taynara e Gavin, mas ao invés de se parecer com o líder que você sempre se mostrou, eu só consigo ver alguém digno de pena!
Ofegante, mantenho a minha espada erguida, mas minhas mãos tremem. Parte de mim queria responder à altura, gritar de volta, mas as palavras dela ainda ecoavam como punhais na minha mente e eu sabia que ela estava certa.
Manu finalmente deixa a espada cair ao chão com um estrondo. Ela se afasta, respirando fundo, os punhos cerrados. Cam a encara com dureza, mas também com preocupação, como se temesse que ela fosse se despedaçar a qualquer momento.
A lâmina de Manu bate contra o chão e faz o som ecoar pela sala como um trovão. Ela me encara com os olhos marejados, mas não havia fraqueza ali. Ela apenas exibia raiva e decepção.
— Você fala em proteger Krósvia, fala em salvar todo mundo, mas olha para você, Prince! — acusa Manu, cuspindo cada palavra como se fosse um golpe. — Está tão ocupado se lamentando, tão ocupado se afogando nos seus próprios fantasmas, que esqueceu como é lutar por alguém além de si mesmo. Eu não suporto mais ver você se escondendo atrás desse muro de autopiedade. Você se encolhe a cada comentário de algum membro da Resistência, deixando o medo de se tornar como seu pai falar mais alto, mas sabe o que eu vejo? Um covarde que prefere se lamentar a levantar a cabeça e provar que todos eles estão errados.
Meu peito queima, não apenas pelo esforço da luta, mas pelas palavras.
— Você acha que eu não levanto a cabeça? — replico com a minha voz saindo muito mais áspera do que pretendia. — Acha que é fácil lutar todo dia contra o sangue que corre em mim, contra os olhares de todos aqui que me enxergam como um inimigo?
— Eu entendo mais do que você imagina! — irrompe Manu, dando um passo à frente. — Eu perdi meu pai e meus irmãos! Eu vi nossa esperança ser esmagada quando Taynara nos apunhalou, sendo que fui eu quem a levou para dentro de minha casa! Fui eu quem a salvou e a inseriu em nossas vidas! Por causa disso, a minha família está morta! E ainda assim, estou aqui, lutando, sem me esconder atrás de desculpas. Enquanto você…
Manu ri sem qualquer humor.
— Você vive como se fosse a única vítima dessa guerra! Todos aqui foram vítimas, Prince. Você não é especial.
Sinto o ar escapar dos meus pulmões. Cada acusação dela era um espelho cruel do meu comportamento lamentável.
Dou um passo à frente, jogando minha espadas no chão.
— Eu não disse que sou especial. Só que carrego algo que nenhum de vocês entende.
— Errado! — exclama a garota, que avança um passo também, ficando a poucos palmos de mim. Seu rosto está vermelho e seus olhos me encaram como lâminas. — Nós entendemos, sim. Todos aqui sabem o que é perder, o que é sangrar, o que é viver com cicatrizes que nunca vão sumir. A diferença é que nós aprendemos a lutar apesar delas. Você, não. Você se enterra nelas.
O silêncio que se segue é sufocante. Cam observa de perto, tenso, como estivesse pronto para intervir de novo se algo escapar do controle.
— Você precisa decidir, Prince — continua Manu, em um tom mais baixo, mas ainda afiado. — Vai continuar se olhando no espelho e vendo só o filho de Lester Dawson, ou vai finalmente provar que é alguém diferente? Porque amanhã, quando estivermos diante de Taynara, não haverá espaço para autopiedade. Ou você luta como um verdadeiro guerreiro, ou todos nós vamos pagar o preço da sua fraqueza. Se você não é homem o bastante para isso, então desapareça!
Cam se coloca entre nós com as mãos erguidas, tentando criar algum espaço.
— Chega! Os dois estão cansados, amanhã vocês têm uma missão importante com alguém que feroz e perigosa. Agora não é hora de ficarem se destruindo.
Manu o empurra de leve para o lado, sem tirar os olhos de mim.
— Não, amanhã, Cam. Ele precisa tomar uma decisão agora, porque se ele continuar desse jeito, se continuar se escondendo atrás desse muro de autopiedade, não só vai se perder como vai arrastar todos nós com ele.
Aperto os punhos em volta da espada com o coração martelando no peito. Parte de mim queria gritar que ela estava errada, que eu luto todos os dias para não me tornar como meu pai. Mas a outra parte sabia que ela tinha razão.
Cam solta um suspiro cansado, olhando de um para o outro como se estivéssemos prestes a nos despedaçar ali mesmo.
— Vocês precisam parar. Agora.
Manu continua imóvel, respirando pesadamente. Seus olhos sem cravam em mim como se buscassem atravessar todas as muralhas que eu havia erguido.
— Então me diz, Prince — sussurra Manu. — Você vai continuar se escondendo, ou vai finalmente lutar como o homem que todos acreditaram que você podia ser?
A pergunta fica no ar, pesada, sufocante, sem resposta.
Frustrada com a minha falta de resposta, Manu se vira, pegando a toalha que Cam havia deixado no canto. Passa-a pelo rosto rapidamente e, sem me encarar de novo, segue em direção à porta. Cam hesita, lança-me um olhar que mistura reprovação e pena, e depois a acompanha.
Fico sozinho na sala, refletindo sobre cada palavra cuspida como veneno contra mim.
E pela primeira vez em muito tempo, não tenho certeza se, diante de Taynara e Gavin, eu serei a lâmina que corta ou a fraqueza que destrói todos nós.
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