Fire Scars
7 Ataque
Notas iniciais
Capítulo VI — Ataque
"Eu me arriscaria outra vez, levaria a culpaLevaria um tiro por vocêE preciso de você como um coração precisa de uma batidaMas não é novidade Eu amei você com um fogo vermelhoAgora está se tornando azul, e você diz"Sinto muito" como um anjoO céu me fez pensar que era vocêMas tenho receio.
Apologize — OneRepublic
Krósvia – 1995
A tempestade de neve finalmente havia dado uma trégua, no entanto, ainda era possível ouvir as explosões e bombardeios dos soldados em meio à guerra. Phillip continuava inconsciente, mas, para o meu alívio, sua aparência havia melhorado consideravelmente. O rosto, antes pálido, agora se mostrava mais corado e saudável.
Gavin, Tyler, Taynara e eu nos encontrávamos sentados na mesa de jantar, observando a garota desenhar de forma improvisada em um papel com um pedaço de carvão o plano para impedir que Krósvia fosse massacrada. O silêncio repleto de ansiedade e expectativa se instalara entre nós.
Os olhos castanhos de Taynara brilhavam diante do desafio, enquanto ela projetava cada detalhe de seu plano. Mesmo sem a conhecer tão bem, a garota demonstrava um grande fascínio por estratégias de batalha. Quando ela parece terminar o seu esboço, Taynara sorri largamente e desvia seu olhar do papel para nós.
— Terminei. – Afirma Taynara, apreensiva. Provavelmente temia a nossa reação diante de sua ideia.
— E então? – Incentiva Gavin com curiosidade evidente em sua fala. – Qual é o seu plano?
— Alguns anos atrás, enquanto eu fugia de alguns soldados inimigos, a divisa entre Elohim e Bélgica estava em guerra. Não sei bem um motivo, mas eu conheci um homem que me ajudou a sobreviver no meio dos confrontos. Ele me contou algumas estratégias de luta e explicou como funciona o comando dos soldados durante a guerra. Em resumo, todos os países que vão para a guerra precisam de uma base onde guardam suprimentos como armas, munições, medicamentos, alimentos e água. Sem essa base, eles não duram mais do que dois dias. Isso, porque sem as munições, eles não podem atacar. Sem medicamento, eles não podem se recuperar de seus ferimentos e lutar. Sem alimentos e água é quase impossível suportar o cenário em que estão envolvidos. – Explica Taynara, encarando-nos com seriedade. A maneira como falava não parecia em nada com o que se espera de uma garota de treze anos. Seu conhecimento em guerras mostrava o quanto ela já se envolveu nesse mundo. – E é com base nisso que eu tive essa ideia.
Taynara então vira seu desenho para nós e revela enfim o que havia planejado. A imagem exposta lembrava um mapa com alguns pontos em destaque. Encaro minha nova amiga com surpresa. Era surpreendente como ela havia conseguido pensar em uma estratégia tão elaborada em tão pouco tempo. A garota, por outro lado, parecia insegura e nos encarava com ansiedade em seus olhos.
— O que é isso? – Pergunta Tyler a um ponto marcado em especial na lateral da folha.
Observo a imagem por um tempo e vejo uma espécie de caixa, que parecia representar um trailer, cercado por árvores e arbustos. O trailer estava distante de todos os pontos principais da cidade e, apesar de conhecer a cidade como a palma de minha mão, eu também não me recordava desse lugar.
— Essa é a Colina Negra. – Responde Gavin, com o tom de voz distante.
Desvio o olhar do desenho e encaro o primo de Prince em confusão. Eu nunca havia visitado a Colina Negra, mas havia algumas lendas espalhadas pelo país que falavam sobre o perigo do lugar que ficava na região litorânea desabitada de Füssen. O fato é que ninguém nunca ia ao local devido à dificuldade existente para acessá-lo. Rodeado pela densa floresta e o agitado Mar Mediterrâneo, era quase suicídio se aproximar dessa colina.
— Isso é verdade, Taynara? – Pergunto, surpresa. Se a representação da garota estivesse certa, a base de nossos inimigos estava na região mais perigosa do país.
— Alguns meses atrás, enquanto eu procurava algumas ervas que pudessem servir de medicamento naquela região, eu vi alguns soldados perambulando pelo local. De início eu imaginei que fossem soldados krosvianos, mas após ver o emblema de Elpízoume, eu percebi que estava enganada. Tentei alertar aos soldados de Krósvia sobre uma possível armadilha sendo montada pelos inimigos, no entanto, eu fui ignorada. – Responde a garota com frustração. – Eu sei que pode parecer loucura, mas eu sei o que eu vi. Apesar de não ter provas, eu tenho quase certeza que aquele lugar é a base de Edgar e seus homens.
— Mas aquele lugar é quase impossível de ser acessado. – Relembra Tyler, hesitante. A maneira como Taynara falava era desesperada, quase suplicante, como se desejasse com todas as forças que acreditássemos nela.
— Eu acho que ela está certa. – Opina Gavin, encarando o desenho. – Se pararmos para pensar, esse lugar é realmente o melhor esconderijo que os soldados de Elpízoume encontraram para colocar a sua base. Nenhum krosviano em sã consciência pisaria na Colina Negra. O lugar é escuro, repleto de animais selvagens e extremamente instável. A colina por si só é a segurança deles. Sem precisar se preocupar tanto com a vigilância do lugar, os soldados podem se recuperar mais rápido, treinar sem serem vistos e ainda utilizar mais homens na guerra.
— Obrigada. – Agradece Taynara, parecendo realmente feliz por alguém acreditar nela.
Gavin sorri e balança a cabeça, negando. Eles se encaram por alguns instantes, mas não demora para que a garota desvie o olhar, envergonhada. Encaro meu primo brevemente e ele parece pensar o mesmo que eu sobre a interação de meus mais novos amigos.
— E o que você sugere que a gente faça, Taynara? – Pergunto, fazendo com que os rapazes também a encarassem, esperando sua resposta.
— Assim como Gavin disse, se eu estiver correta e eu realmente espero estar, a quantidade de homens que provavelmente estão cuidando desse lugar deve ser pequena, devido as circunstâncias do local. Essa com certeza pode ser uma vantagem para nós. – Conta a garota, enquanto nos encara. A seriedade em seus olhos demonstrava o seu desejo para que seu plano realmente desse certo. — Por isso, pensei em uma forma de entrarmos na região sem chamarmos muita atenção. Se conseguirmos os uniformes do exército de Elpízoume, nós podíamos nos disfarçar de soldados e prisioneiros. Por causa da confusão que está nesse momento por toda Füssen, eu tenho certeza de que eles não vão perder tempo revistando todo soldado que se aproxima do esconderijo. Até porque, é suposto que ninguém além deles mesmos saibam da localização da base.
— Isso é loucura. – Afirma Tyler, rindo levemente. Taynara o encara com leve decepção e o meu primo dá de ombros. – Mas não é como se eu tivesse algo a perder. Alguém me disse uma vez que temos duas opções na vida. Ou fazemos alguma coisa ou fazemos nada e eu já cansei de fazer nada.
— Tyler tem razão. – Concordo, sorrindo. – Se temos uma chance de impedir que essa guerra continue, eu quero tentar.
— Eu também não tenho nada a perder. – Fala Gavin, olhando confiante para Taynara. – Conte comigo nessa loucura.
A garota abre um lindo sorriso e, em seguida, suspira aliviada. Provavelmente havia criado inúmeras teorias de fracasso em sua mente diante de nossas reações com a revelação do local onde possivelmente é o esconderijo dos homens de Edgar. Por fim, ela respira fundo e nos encara com seriedade, algo que não dura muito tempo ao notar algo atrás de mim.
— O príncipe parece estar acordando. – Revela Taynara, apontando para o sofá.
Institivamente, acabo por virar em direção a Prince de forma brusca, quase caindo de minha cadeira. Noto o príncipe se mexer lentamente e a abrir os olhos, não demorando muito a fechá-los, surpreso pela claridade do local. Após piscar algumas vezes, ele parece finalmente estar completamente acordado. Aproximo-me, alarmada, e me coloco ao seu lado.
— Prince? – Chamo suavemente, temendo assustá-lo.
O príncipe continua calado, parecendo tentar absorver a situação em que se encontrava. Depois de alguns instantes, ele arregala os olhos assustados, mas ao se virar e me encontrar, o garoto suspira aliviado. Sorrio, envergonhada, e pego em sua mão. Era um alivio ver que ele estava bem.
— Manu? Onde...onde eu estou? – Prince tenta se levantar, mas eu o impeço.
— Fica calmo e descanse. Você se machucou e precisa se recuperar. – Peço, empurrando levemente o ombro do mais velho para que ele voltasse a se deitar. – Nós estamos em minha casa. Pelo menos por enquanto, nós estamos seguros.
— O que aconteceu? – Pergunta Phillip, levando a mão a cabeça, onde possuía uma faixa.
— Você não se lembra? – Questiono, preocupada com a situação do príncipe.
— Nós...estávamos lutando com alguns soldados de Edgar e....e eu não sei. Minha cabeça está doendo. Não lembro de muita coisa além disso. – Admite o garoto fechando os olhos com força. – Você se machucou?
— Não. Eu estou bem. Mas não teria durado muito tempo se não fosse por Gavin. – Digo, forçando um sorriso. Desvio o olhar de Prince e passo a encarar Gavin, pedindo discretamente para que ele se aproximasse. O príncipe parece confuso diante do nome, mas não demora a reconhecer quando finalmente seu primo entra em seu campo de visão. – Eu não sei se vocês já se conhecem, mas só conseguimos escapar dos ataques graças a ele.
— É um prazer finalmente o conhecer pessoalmente, Phillip. – Gavin o cumprimenta com uma breve reverência. – Eu sou Gavin Darius. Caso não saiba, eu sou...
— Eu sei quem você é. – Interrompe o príncipe com seriedade. Encaro-o, confusa diante de sua reação. Prince não parecia ser hostil a presença de Gavin, no entanto, era nítida a sua desconfiança para com seu primo. – Você é filho de Thomas Darius. Se não me engano, nossos avôs eram primos.
— Sim. Você está certo. – Responde Gavin, sorrindo levemente.
Prince então volta a tentar se levantar e, antes que eu o impedisse novamente, ele me encara com repreensão. Tyler ri discreto e resolve ajudar o príncipe, quando eu demonstro estar chateada por ele não permanecer deitado. Taynara coloca sua mão em meu ombro e sorri compreensiva, como se pedisse para que eu não me envolvesse.
— O que está fazendo aqui, Gavin? – Pergunta Prince, encarando-o com atenção.
— Meu pai e eu soubemos dos ataques que Krósvia estava sofrendo e do caos que havia se espalhado pelo país. Preocupados que Edgar acabasse destruindo de vez o reino, nós decidimos vir. Não sei se seremos de grande ajuda, mas quero tentar ao menos impedir que essa guerra dure ainda mais. – Explica Gavin, correspondendo ao olhar de Prince na mesma intensidade. – Eu sei que é difícil acreditar em alguém que nunca conheceu pessoalmente antes, mas, por favor, confie em mim e deixe-me ajudar a vencer essa guerra.
A desconfiança e a insegurança continuam presentes nos olhos de Prince. Taynara, Tyler e eu observávamos a situação sem saber se deveríamos intervir ou não na conversa dos primos. Gavin havia sido de grande ajuda no momento em que mais precisamos e, de alguma forma, ele parecia estar sendo sincero quanto a querer lutar ao nosso lado.
— Prince, o Gavin realmente nos ajudou. – Afirmo, colocando-me ao lado de Gavin. – Se não fosse por ele, nós teríamos morrido naquela luta. Confie nele.
— Acredito que todos mereçam um voto de confiança, Prince. Como a Manu disse, Gavin foi o responsável por impedir que vocês fossem mortos pelos soldados de Edgar. – Complementa Tyler, olhando com seriedade para o príncipe.
Phillip então suspira, dando-se por vencido. Gavin estende sua mão, com um sorriso nervoso em seus lábios, e o príncipe a pega, sorrindo em seguida. Tyler e eu nos encaramos, sorrindo felizes por Prince ter aceitado o primo como um aliado. De alguma forma, eu sentia que aquela dupla seria a fórmula perfeita para acabarmos com os inimigos de Krósvia.
— Obrigado pela ajuda. – Agradece Prince, sorrindo com sinceridade.
— Obrigado pelo voto de confiança. – Responde Gavin, respirando aliviado em seguida. Sua expressão de felicidade não demora muito a dar lugar a preocupação e seriedade. – Agora, nós realmente precisamos decidir como colocaremos o plano de Taynara em ação.
— Quem é Taynara? – Pergunta Prince, confuso.
— Sou eu. – Revela Taynara, levemente envergonhada. Ela se coloca ao meu lado e faz uma breve reverência ao Prince. – Eu me chamo Taynara Miller. É um prazer conhecê-lo, Vossa Alteza.
— Ela é alguém que conheci recentemente, Prince, mas já se tornou uma grande amiga. – Afirmo, sorrindo para a garota que corresponde ao olhar, animada. Ela parecia feliz por saber que eu a considerava amiga e isso só faz meu sorriso aumentar ainda mais. – Taynara é muito inteligente e teve um plano brilhante que pode nos fazer acabar com essa guerra.
— Manu! – Repreende a garota, envergonhada. – Não exagere.
— Ela não está exagerando, Taynara. – Afirma Gavin, sorrindo em divertimento. Provavelmente, assim como eu, também achava muito fofa a timidez da garota. – Se você estiver certa, com o seu plano, nós conseguiremos o fim da guerra e a vitória contra Edgar e seus homens.
— É verdade, Prince. O plano da Taynara é muito bom! – Concorda Tyler, sorrindo esperançoso. – Não vai ser uma tarefa fácil e provavelmente estamos indo em direção a nossa morte, mas é realmente um bom plano.
— Nossa, Tyler. Você realmente sabe como motivar. – Ironizo, não acredito no que meu primo havia dito.
— E eu estou mentindo? – Pergunta o outro, dando de ombros. – Eu concordo que o plano é muito bom, mas precisamos ser sinceros quanto ao risco que iremos correr.
— Ainda assim.... – Começo a dizer, contrariada com a falta de incentivo de Tyler, mas sou interrompida por Taynara.
— Manu, Tyler tem razão. – Afirma a garota, suavemente. – Apesar de ter confiança que podemos conquistar a vitória, nós ainda somos poucas pessoas e estamos indo para o território deles. Não podemos negar que o plano é arriscado e que corremos grande perigo de sermos descoberto e mortos por eles.
— Agora eu estou curioso sobre esse brilhante, mas perigoso, plano. O que vocês têm em mente? — Questiona Prince, com curiosidade.
— Você vai ver. – Afirmo, sorrindo com confiança.
[...]
A neve voltara a cair sobre a cidade assim que colocamos os pés para fora de casa. O dia já estava em seus instantes finais, dando lugar a uma noite fria de inverno em Krósvia. Apesar de bem agasalhados e já usando as roupas de nossos “personagens”, ainda era intenso o vento gélido que nos atingia.
A floresta estava escura e era difícil enxergar algo em meio a neve que havia encoberto a vegetação quase que por completo. Observo discretamente Gavin, Tyler e Phillip disfarçados de soldados de Elpízoume. Devido ao treinamento militar que recebiam, eles não possuíam dificuldade alguma em se manter rígidos e sérios diante da situação. Taynara e eu estávamos amarradas e disfarçadas de prisioneiras.
Aos poucos, conforme nos aproximávamos da Colina Negra, mais sinais de que os soldados de Elpízoume estavam mesmo acampados no lugar se faziam presente. No entanto, a cada passo dado, mais o nervosismo se apossava de nós. A adrenalina de entrar em território inimigo fazia meu estômago se revirar e se contrair.
— Meu Deus. Tony e Henry vão me matar se souberem que eu deixei Taynara e Manu virem aqui e que eu ainda participei dessa loucura. – Ouço Tyler murmurar a si mesmo.
— Deixa de ser medroso. – Resmungo, ainda que estivesse tão nervosa quanto ele.
— Nós estamos perto. – Sussurra Taynara, encarando a paisagem com seriedade. – Vejam! Soldados de Elpízoume.
— Vocês já sabem o que fazer. – Fala Prince, respirando fundo. Assentimos, preparando-nos para começar a entrar em nossos personagens.
— Hora da ação. – Afirma Gavin, assumindo uma postura ainda mais rígida.
Os soldados se aproximam carregando mais armas e alguns suprimentos. Por estarem com pressa, eles passam por nós e cumprimentam os rapazes com um breve aceno. Os homens pareciam cansados e machucados, no entanto, ainda permaneciam leais aos seus superiores e continuavam a lutar bravamente pela vitória.
Entristeço-me ao ver, conforme nos aproximávamos da base de Elpízoume, algumas crianças, um pouco mais novas que eu, carregando pesado armamento. Eles pareciam assustados e famintos, mas ninguém parecia se importar com esse fato. Ao invés de brincarem e aproveitarem a infância, aqueles garotos eram obrigados a lutar e matar, sem piedade alguma.
— Manu! Vamos! – Sou repreendida por Tyler, assim que começo a dar muita atenção a um grupo de crianças que imploravam por comida a um homem robusto. Para a minha surpresa, o homem simplesmente atira na cabeça de uma das crianças e ameaça fazer o mesmo com as outras se continuassem a incomodá-lo. – Nós não podemos fazer nada por enquanto.
— Maldito! – Resmungo, sabendo que meu primo estava certo. Se eu agisse de maneira suspeita, acabaria por chamar a atenção de nossos inimigos e poderia nos colocar em perigo ainda maior.
— Vejam. A base está logo ali. – Avisa Gavin, em um murmuro audível somente a nós. – Droga. O que faremos agora?
Ao redor do trailer onde provavelmente estavam os suprimentos de nossos inimigos haviam inúmeros soldados. Todos estavam armados e pareciam perigosamente mortais. Troco alguns olhares com Taynara e prendo a minha respiração ao notar o grande número de homens do exército de Elpízoume que havia próximo a nós.
— Você tem algum plano? – Pergunto a Taynara, ansiosa para que sua resposta fosse positiva.
— Ainda não. – Admite a garota, tão apreensiva quanto eu. – Mas continuem a seguir os outros soldados. Nós precisamos de um lugar com menos pessoas para conseguirmos pensar em alguma estratégia para nos aproximar do trailer.
— Tudo bem. – Concorda Phillip, seguindo as instruções de Taynara.
O lugar estava bastante escuro e a nevasca volta a nos atingir. Não foi difícil conseguir escapar da vista dos soldados quando chegamos no ponto da floresta sem iluminação alguma. Temendo sermos vistos pelo próximo grupo de soldados carregando prisioneiros, nós nos mantivemos quietos, escondidos atrás de árvores e arbustos pelo que pareceu serem horas.
Quando a floresta se tornou silenciosa novamente, nós respiramos aliviados e voltamos a nos reunir. Com cautela, saímos de nosso esconderijo e nos afastamos do lugar. A parte mais perigosa da Colina Negra se encontrava a nossa frente e eu me questionava como conseguiríamos sair dessa vivos e com todos os órgãos e membros de nossos corpos, de preferência.
— Acho que aqui nós estamos seguros. – Comenta Gavin, assim que encontramos uma parte mais aberta da floresta. O frio intenso fazia nossos lábios tremerem e os sons da guerra ao fundo causavam apreensão e terror. Ele e Prince passam então a nos desamarra. – E então, Taynara? Alguma ideia?
— Eu não esperava que fossem haver tantos homens nesse lugar. Edgar está realmente sério sobre vencer essa guerra. – Resmunga a garota, frustrada, enquanto termina de se livrar das cordas. Faço o mesmo. – Não sei se é exatamente um bom plano, mas acredito que isso é tudo que podemos fazer por hora. – Ela respira fundo e nos encara nervosa, enquanto se abraça para se proteger um pouco do frio. – Nós teremos que atacar de forma ainda mais silenciosa do que planejávamos.
— O que quer dizer com isso? – Pergunta Prince, confuso.
— Talvez seja um plano suicida, mas precisamos nos livrar de cada um dos soldados que estão cercando a base sem que eles percebam que estão sendo atacados. – Revela Taynara, encostando-se no troco de árvore mais próximo de si.
— E como faremos isso? São muitos homens. Eles irão perceber que estão sendo atacados assim que verem os corpos caindo ao seu redor. – Relembra Tyler, expondo a mesma dúvida que a minha.
— Esse será o meu trabalho e o da Manu. – Responde Taynara, sorrindo incerta.
— Nosso trabalho? – Pergunto, ainda mais confusa.
— Sim. – Concorda, parecendo procurar as melhores palavras para explicar o seu plano. – Enquanto os meninos serão responsáveis por atacar os soldados, nós nos encarregaremos de pegar os corpos e os levar para longe da visão dos outros soldados.
— Mas como vocês farão isso? – Pergunta Tyler, preocupado. – Os corpos são pesados e você ainda está fraca devido ao seu resfriado, Taynara. Talvez seja melhor você ficar aqui, enquanto eu assumo o seu papel.
— Não. – Nega Taynara, balançando a cabeça negativamente. – Nós precisamos agir de maneira rápida. Se você ficar responsável pelos corpos, nós iremos demorar ainda mais para entrarmos na base. Não se preocupe. Eu estou bem e, apesar de não parecer, eu sou bem forte.
— Juntas, nós conseguiremos lidar com os corpos. – Afirmo e sorrio confiante para Taynara.
— Ainda assim, nós temos o problema de nos aproximar dos soldados sem sermos vistos por eles. – Aponta Gavin, pensativo. – Não será fácil passar despercebido pela guarda de proteção que está ao redor do trailer.
— Isso é verdade. – Concorda Prince. – Eles estão bem atentos a qualquer movimento suspeito.
— Por isso nós precisamos criar uma distração. – Responde Taynara, enquanto encara as próprias mãos. – Talvez possamos usar os disfarces ao nosso favor mais uma vez.
— E o que você tem em mente? – Pergunta o príncipe, interessado no plano de Taynara.
— Gavin e eu nos aproximaremos dos guardas que estão ao fundo, mais afastados dos outros soldados. Eu posso fingir que estou fugindo e o Gavin está tentando me capturar. No momento em que tivermos a atenção deles, o príncipe e Tyler irão atacar por trás. Nesse momento, Manu terá que cuidar dos corpos até que eu consiga me aproximar e a ajudar. Acha que consegue? – Pergunta Taynara me encarando.
— Consigo. – Afirmo, um pouco insegura. – Mas você tem certeza que quer se arriscar desse jeito? Se os soldados te enxergarem como uma ameaça, eles podem atirar em você sem hesitação. Isso é muito perigoso.
— Não se preocupe. – Fala a garota, sorrindo gentil. – Acredite em mim quando digo que não é fácil me matar. Nós podemos fazer isso, mas precisamos agir rápido e de forma que não desperte mais atenção que o necessário. Caso contrário, seremos alvo fácil desses homens.
— E eu prometo que farei o possível para impedir que Taynara fique na linha de frente dos soldados. – Promete Gavin, tentando me tranquilizar.
— Contamos com vocês dois. – Fala Prince ao perceber que eu havia me dado por vencida. Taynara parecia muito confiante, no entanto, eu ainda me preocupava com o fato de que ela realmente seria o alvo dos soldados da guarda. – Nós agiremos antes mesmo que eles possam sequer apontar as armas contra Taynara. Não é mesmo, Tyler?
— Com certeza. – Concorda meu primo, passando seus braços por cima de meus ombros. – Vamos dar tudo de nós, priminha. Apenas se concentre em impedir que os corpos fiquem visíveis aos outros soldados.
— Certo. – Respondo, sorrindo rendida. Infelizmente, essa era a nossa única alternativa.
Após combinarmos os últimos detalhes do plano, seguimos com cautela pela floresta em direção ao trailer. Taynara respirava fundo e se mantinha distante, como se estivesse se preparando para cumprir com a sua parte do plano que, querendo ou não, era a mais perigosa de todas. Tyler, Prince e Gavin carregavam suas adagas em mãos, cientes que precisavam ser rápidos, precisos e, principalmente, silenciosos em seus ataques.
Enquanto isso, eu permanecia quieta, temendo tirar a concentração dos outros. Para nossa sorte, as árvores da densa floresta da Colina Negra estavam servindo como uma espécie de proteção contra a nevasca, ainda que a escuridão fosse a não maior inimiga naquele ambiente. Nós seguíamos a trilha com cautela, atentos a qualquer som que indicasse a aproximação de algum inimigo.
Quando estamos a uma distância de aproximadamente cem metros, paramos de andar e nos encaramos. Aquela era o nosso último momento antes de partimos em direção a morte. Meus olhos se encontram com os de Taynara e sinto eu coração se apertar. Eu não queria que ela se arriscasse dessa maneira, mas estava mais do que claro que ela não voltaria atrás. E, para minha surpresa, ela me abraça com força.
— Cuidado. – Pede a garota, apertando ainda mais o seu corpo contra o meu. – Prometa que você cai sair viva dessa.
— Eu prometo somente se você me prometer que também sairá. – Digo, afastando-nos brevemente. Ela me encara com doçura e sorri.
— Eu prometo. – Afirma, estendendo seu dedo para mim. – De dedo mindinho.
— Eu também prometo. – Respondo, cruzando nossos dedos em uma infantil, mas verdadeira promessa.
Nós nos abraçamos mais uma vez e me surpreendo ao ver Prince nos olhando com admiração. Eu o encaro e, por algum motivo que não sei explicar, apenas o chamo para que participasse daquele abraço. Mesmo sem entender e até um pouco envergonhado, o rapaz se aproxima e nos abraça, sendo acompanhado por Tyler e Gavin em seguida. Ainda que não fossemos tão próximos, nossas vidas dependiam uns dos outros e era esse sentimento que nos unia naquele momento.
Quando finalmente nos separamos, Taynara respira fundo e assume uma postura série, concentrada. Ele observa com atenção cada um dos soldados e analisa o ambiente em que estaria em poucos instantes. Apesar de tentar disfarçar, era nítido que o resfriado e a febre ainda prejudicavam e muito o seu condicionamento físico.
— Você está pronto, Gavin? – Pergunta Taynara, após respirar fundo mais uma vez.
— Sim. E você? Tem certeza que quer assumir o papel de isca? – Questiona o rapaz, parecendo preocupado com Taynara.
— Não se preocupe. Eu estou bem. – Responde a garota com confiança. – Tyler, Alteza, coloquem-se em posição. Assim que eu levantar o meu braço esquerdo, vocês devem atacar o soldado mais próximo de si. Manu, você deve ficar em um ponto onde será capaz de interceptar os dois corpos, no entanto, tome cuidado para que não seja vista.
— Tudo bem. – Concordo, enquanto Prince e Tyler assentem levemente antes de começarem a andar de maneira cautelosa em direção as árvores mais próximas e menos visíveis aos soldados.
Quando, enfim, nós nos colocamos em posição, Tyler emite um sinal discreto a Taynara e Gavin. Os dois se olham rapidamente e após uma rápida troca de palavras, Taynara começa a correr em direção aos soldados. De forma admirável, ela realmente parecia desesperada e aparentava estar sendo perseguida. O primeiro soldado a notar sua presença ameaça atirar contra ela, mas a maneira inconstante com que a garota se movia dificultava o trabalho do guarda.
Gavin não demora a aparecer. Assim como Taynara, ele atuava como ninguém. Com sua agilidade e força, o rapaz se assemelhava muito aos soldados de Elpízoume. De repente, Gavin se joga sobre o corpo delicado de Taynara e a derruba na neve. Tendo a atenção de três soldados, eles fingem estarem brigando de maneira fervorosa.
Taynara grita, não alto o bastante para chamar a atenção de mais pessoas, mas o suficiente para parecer real a sua tentativa de se livrar de Gavin. Ao perceberem a dificuldade de seu “aliado”, os três soldados trocam algumas palavras em sua língua de origem e, pelo pouco que eu entendia, eles pareciam decidir se deveriam ou não ajudar Gavin.
Por fim, um deles pede para que os outros dois colegas permanecessem em guarda, enquanto ele cuidaria da rebelde. Nesse momento, Taynara sobe sobre o corpo de Gavin e levanta seu braço esquerdo, ameaçando atingi-lo no rosto. Olho para meu primo e para o príncipe. Aquele havia sido o sinal.
Com uma agilidade desconhecida por mim, os dois rapazes se locomovem sobre a neve com destreza. O primeiro ataque foi o de Prince, enquanto Tyler reage em seguida, impedindo que o segundo soldado em guarda alertasse a invasão inimiga. O príncipe atinge a garganta do guarda em um ponto vital, derrubando-o em segundos. Tyler insere sua adaga na nuca do soldado e termina seu ataque torcendo a cabeça do homem.
Não foi uma tarefa fácil aparar os corpos, mas eu precisava ser ágil para poder lidar com os outros que estavam por vir e, talvez, tenha sido essa a minha principal fonte de força para conseguir jogar dois homens duas vezes mais altos e mais pesados que eu contra a sombra da floresta em questão de segundos.
Os dois ataques haviam sido tão silenciosos que o soldado que foi em ajuda a Gavin nem mesmo percebeu o que acontecia atrás de si. Ele se aproxima mais da dupla que ainda fingia lutar e quando ameaça atirar em Taynara, Gavin joga o corpo da garota para o lado e com uma flexibilidade invejável, ele vira seu corpo e chuta a arma do soldado para longe.
Gavin se levanta e leva sua mão esquerda sobre a boca do soldado, enquanto, com a adaga em mãos, ele atinge o estômago do homem, matando-o instantaneamente. Deixando a cargo de Taynara o destino do corpo já sem vida do soldado, Gavin corre de encontro a Tyler e Prince para ajudar com os outros nove ou dez guardas que ainda restavam.
A neve atrapalhava um pouco a nossa visão e locomoção, mas, surpreendentemente, nós estávamos nos saindo muito bem. O treinamento que meu primo e o príncipe receberam de meu pai e Tony parecia ter feito toda a diferença na forma de lutar dos dois. Assim como meu irmão mais velho havia me dito uma vez, um verdadeiro soldado sabe se adaptar ao ambiente em que está. E, como se fossem espiões, os três rapazes atacavam sem hesitar e de maneira silenciosa.
Não demorou muito para que Taynara estivesse ao meu lado, auxiliando a cuidar dos corpos que continuavam a cair. Quando, enfim, restam somente os soldados da entrada do trailer, nós voltamos a nos reunir. Eram ao todo quatro soldados, com armamento mais pesado que os dos outros soldados. Atacá-los sem sermos visto não seria uma tarefa fácil. Nós precisávamos de um novo plano.
Taynara e eu respirávamos com dificuldade e era difícil para nós continuarmos de pé. Com dificuldade, nós duas voltamos a nos esconder na escuridão da floresta. Instantes depois, os garotos aparecem, provavelmente, pensando o mesmo que eu sobre o ataque ao último grupo de guardas.
— Vocês estão bem? – Pergunta Prince, ofegante, enquanto nos encara com preocupação.
— Sim. E vocês? – Questiono, olhando com atenção para os garotos, verificando se haviam se machucado.
Com os corpos cobertos de sangue não era possível saber se haviam se ferido ou não, mas era um alivio saber que eles estavam vivos e ainda de pé. Diante da circunstancia em que nos encontrávamos, chegar a esse ponto era quase um milagre. Um grupo de adolescente tinha conseguido derrotar cerca de dez soldados altamente treinados sem grandes problemas.
— Nós...estamos. – Responde o príncipe, após conferir o estado de Tyler e Gavin.
— Taynara? Você está bem? – Pergunta Tyler um pouco alarmado. Desvio meu olhar do príncipe para minha amiga e vejo que ela está mais pálida que o normal.
— Ei. O que houve? – Questiono, tocando em seu ombro de leve. Ela parecia fraca e continuava a respirar com dificuldade.
— Não...se preocupem. Eu...eu só estou...um pouco cansada. – Explica Taynara de maneira ofegante.
Gavin se aproxima de Taynara e coloca sua mão sobre a testa da garota. Ele resmunga e sua feição de insatisfação me deixa ainda mais preocupada sobre o estado de saúde de Taynara. Ela sorri forçado e retira a mão de Gavin de sua testa com delicadeza.
— Ela está ardendo de febre. Esse clima e o esforço que fez fizeram que o resfriado dela piorasse. – Responde Gavin, finalmente explicando o motivo de sua insatisfação. – Se ela continuar nesse frio, a sua febre pode aumentar ainda mais.
— Droga! – Resmunga Prince, esmurrando a árvore ao seu lado. – Nós precisamos tirá-la daqui o mais rápido possível.
— Eu sabia que era uma má ideia trazê-la conosco. – Comenta Tyler, retirando um de seus casacos para cobrir Taynara.
— Não...não digam...isso. – Repreende a garota, fracamente. – Eu finalmente...consegui ser útil...de alguma...forma.
— O que vamos fazer? – Pergunto encarando os mais velhos, enquanto abraço Taynara, em uma tentativa de esquentá-la.
— Nós...temos que...terminar o ataque. – Responde Taynara, tremendo de frio. Todos a encaram com preocupação, sem saber como agir em uma situação como essa. — Não me olhem assim....Não será...um resfriado...bobo que...irá me matar.
— E o que você tem em mente? Sua situação está piorando. Não podemos arriscar a sua vida somente por...
— A minha vida é só...mais uma em meio a tantas outras...Gavin. – Taynara interrompe Gavin, olhando-o com seriedade. – Eu agradeço...por se preocuparem...comigo, mas...eu não aguento...mais ver as pessoas morrerem...enquanto eu me escondo nas sombras...com medo.
— Taynara...- Digo, olhando com compreensão para o desejo da garota. Apesar de estar muito preocupada com sua saúde, eu entendia o sentimento de se sentir inútil diante das injustiças que aterrorizavam os krosvianos desde o início dessa guerra.
— Eu encontrei isso...no bolso de um dos...soldados. – Fala Taynara, mostrando uma granada. – Essa pode ser a segunda...distração que nós precisamos para...atacar sem corrermos tanto perigo.
— Mas uma granada chama muita atenção. – Fala Tyler, confuso.
— E é por isso que eu irei jogá-la...longe de onde nós estamos. – Explica a garota, sorrindo com dificuldade. – Enquanto a atenção de todos estiver...voltada para a explosão que aconteceu...a poucos metros da entrada da base, vocês...vocês devem...invadir o trailer...e destruir tudo.
— Não posso deixar que você se arrisque assim novamente. – Nego a ideia, imediatamente. — Se algum soldado aparecer, no estado em que você está, jamais conseguirá se defender.
— Manu... – Repreende a garota, frustrada.
— Manu está certa, Taynara. – Concorda Tyler, cruzando os braços. – Ser uma isca pela segunda vez é perigoso demais. Nós nem mesmo sabemos quem ou o que pode aparecer enquanto estivermos dentro dessa floresta.
— E o que vocês...sugerem? – Pergunta Taynara, chateada. Ainda que eu a entendesse, não poderia simplesmente colocar a vida dela em perigo mais uma vez.
— Eu irei em seu lugar. – Respondo, antes que qualquer um dos meninos se manifestassem.
— O quê?! – Exclamam Prince e Tyler ao mesmo tempo.
— Você não vai. – Complementa o príncipe.
— Não mesmo. – Concorda Tyler com determinação. – Eu jamais me perdoaria se algo acontecesse a você e seus irmãos me matariam.
— Você tem certeza disso, Manu? – Questiona Gavin, demonstrando que não estava satisfeito com a minha decisão.
— Manu, isso é muito...perigoso. – Afirma Taynara com preocupação.
— Eu já decidi que eu vou. – Insisto, sem me deixar abalar pela falta de confiança de meus amigos. – Enquanto isso, a Taynara fica aqui, recuperando um pouco das forças dela e vocês três cuidam da destruição dos suprimentos deles.
— Mas...
— Sem “mas”, Tyler. Tenham um pouco mais de confiança em mim, por favor. – Peço, expondo a minha personalidade teimosa. Eu já havia tomado minha decisão e eles não poderiam fazer nada quanto a isso.
— Tudo bem. – Concorda meu primo, por fim. – Eu já sei que nem adianta discutir com você mesmo. Ainda que a gente diga não, você fugiria e faria do mesmo jeito.
— Ainda bem que você sabe. – Respondo, sorrindo divertida, Tyler apenas revira os olhos, não surpreso pela minha atitude.
— Mas você precisa prometer que irá fugir o mais rápido possível assim que e jogar a granada. Precisa ficar longe e em um lugar seguro. – Continua Tyler, com seriedade.
— Está bem. – Concordo, dando de ombros.
— Eu estou falando sério, Manu. Não importa o que aconteça, você precisa ficar bem longe das lutas e do caos que irá se tornar esse lugar. – Aquele havia sido o veredito de meu irmão. Sem alternativa, apenas balanço a cabeça, concordando.
Após mais algumas orientações de Prince, Gavin, Taynara e, principalmente, de Tyler, estava na hora de ir para o lugar. Não demoraria muito para os quatro soldados sentirem a falta de seus colegas e, por esse motivo, nós precisávamos agir antes que eles tivessem a chance de revidar ao nosso ataque.
Sendo guiada apenas pelos meus instintos, eu corro com dificuldade em meio a floresta até que chego a entrada da base deles. Aperto a granada em minha mão e respiro fundo, nervosa. Qualquer erro com aquele pequeno objeto poderia gerar em minha morte e a de inúmeras pessoas.
Posiciono-me de forma que julguei ser a mais segura e, depois de contar até três, puxo a chave da granada e a jogo próxima a entrada da base. Assim como meu primo havia me pedido, corro rapidamente para longe, não demorando a sentir a explosão.
Depois disso, não consegui ver muita coisa. Homens começaram a correr, as pessoas pareciam desesperadas. Muitos soldados estavam feridos e os poucos soldados que ainda restavam de pé eram crianças ou adolescentes de no máximo quinze anos, evidentemente, inexperientes.
Minutos depois, uma segunda explosão se torna audível e algo me dizia que os responsáveis por ela havia sido Prince, Tyler e Gavin. Decido me aproximar para conferir se eles realmente estavam bem. Tropeço algumas vezes na neve e preciso me esconder atrás das árvores em alguns momentos para não ser pega, mas finalmente os vejo.
Preocupe-me ao notar que os garotos corriam em minha direção sem a presença de Taynara. Alarmo-me ainda mais ao ver a preocupação estampada em seus olhos. Procuro em volta por algum sinal da garota e não vejo nada. Os gritos e os tiros se tornam ainda mais frequentes, impedindo que eu conseguisse me concentrar em escutar algum pedido ou chamado que fosse de Taynara.
— Onde ela está? – Pergunto assim que os meninos me alcançam.
— Nós...nós não sabemos. – Responde Gavin, ofegante.
— Como assim vocês não sabem onde Taynara está? – Grito, desesperada. – Ela está ardendo em febre em meio a esse caos e vocês não sabem onde ela está?
— Nós matamos os soldados da entrada do trailer e o invadimos. Quando terminamos de destruir o lugar e acionamos uma bomba que havia por lá, nós notamos que ela não estava em volta. Nós tivemos que correr para não sermos pegos e agora nós estamos procurando por ela. – Explica Tyler, cauteloso.
Procuro por algum sinal de Taynara em meio a correria dos homens e crianças que havia pela base de Elpízoume, mas não havia nada. Perto de me entregar ao desespero que havia tomado conta de mim, vejo Taynara correndo entre os prisioneiros que haviam conseguido escapar de alguma forma das garras dos soldados.
Ela tropeça em um momento e cai sobre a neve. Ameaço correr na direção dela para ajudar, mas a garota se levanta antes e a vejo se virar de costas para nós. Grito, tentando chamar a atenção de Taynara, mas ao invés de nos encarar, ela corre na direção contrária a nossa. Os garotos e eu começamos a seguir, preocupados com a possibilidade dela se machucar ou ser capturada por um dos homens de Edgar.
Perto de uma das barracas, que era o local para onde Taynara corria, vejo alguns materiais inflamados e o terror volta a tomar conta de mim. Tento acelerar meus passos, mas a neve me atrapalhava. Grito mais algumas vezes junto com os garotos, mas continuamos a ser ignorados.
De repente, Taynara pega uma criança que estava com a perna presa em um dos barris de pólvora e corre com ela em seus braços, no mesmo instante em que uma terceira explosão ocorre. Tampo meus ouvidos com as mãos, enquanto continuo a gritar, desesperada. Taynara havia usado seu corpo para proteger a criança, acabando por ser atingida pelos restos da explosão.
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