Fire Keeper
1 Capítulo 1 - Set Fire To The Thief
Notas iniciais

O homem a minha frente mantinha uma postura confiante. Com suas mãos e pés presos a longas correntes, ele estava incapacitado diante de mim, mas seus olhos não mostravam medo, e sim raiva. Que ele era corajoso, eu sabia, afinal para tentar roubar o meu castelo não poderia ser diferente, mas eu estava surpresa que mesmo depois de sua sentença de morte, ele continuava firme e me encarando de cima abaixo.
–Esperava mesmo conseguir roubar o meu castelo, criatura tola? — Perguntei com a voz baixa e calma, um sorriso brincava em meus lábios. — Não me diga que é mais um amiguinho da minha querida enteada, sim?
–Nem mesmo conheço Branca de Neve, mas vejo que ela tem motivos verdadeiros para lhe odiar. — As palavras foram ditas de maneira dura, mas a voz do homem estava fraca, provavelmente pela sede e fome. O que ele disse, fez meu sorriso apenas aumentar.
–Então por que ousastes invadir meu castelo?
–Que melhor lugar para encontrar riquezas se não o castelo de uma poderosa rainha como você? — uma risada sarcástica, seguidas de pequenos acessos de tosse saíram de sua boca. Ele estava fraco.
–Oh, me querido, meus guardas não o travaram bem enquanto eu estava fora? Com fome? Bem, não permito comida aos meus prisioneiros. Acredite, você não vai precisar disso, de todo jeito... logo não será mais que um monte de cinzas. — Fingi pena e olhei diretamente em seus olhos, azuis claros, como costumava ser meu tom favorito de azul durante minha infância. Senti como se conhecesse aqueles olhos azuis de algum lugar. — Já nós vemos antes?
–Creio que não, Vossa Majestade. — Sua naturalidade ao me responder era desafiante, ele não demonstrava medo diante de minhas ameaças, pelo contrário, parecia teimar ainda mais diante delas.
–Qual o seu nome?
–Robin de Locksley... mas deve me conhecer como Robin Hood.
–O ladrão. — arfei divertida e calma. Não me lembrava de já ter o visto em outras situações, mas sua fama o procedia. — Então foi por isso que veio? Roubar do rico para dar aos pobres? — eu ri impetuosamente. — Desperdiçou sua vida em vão, meu querido 'de Locksley, você vai para a fogueira hoje mesmo. — Eu disse com desdém e me virei para sair.
–Espere! Hoje? Seus cavaleiros disseram que seria depois de amanhã ao por do sol. — Sorri ao finalmente sentir o desespero daquele homem, sua voz saiu esganiçada e temerosa.
–Mudei meus planos, você não parece se importar muito se vai morrer ou não, então porque esperar tanto por isso?
–Eu... me importo. Pensei que tinha mais tempo, meu filho... ele não sabe que estou aqui, pensei que fosse dar tempo... — Sua postura havia caído, seus olhos raivosos deixaram lugar para o desespero. Eu consegui sentir a dor em suas palavras, mas ignorei o sentimento de pena que tentava me dominar. Talvez ele estivesse fingindo, tentando alcançar minha misericórdia.
–Deveria ter ficado em casa com seu filho e não ter vindo desafiar o meu poder. Você irá morrer hoje mesmo. — Saí andando da pequena cela sem dar mais tempo para que Robin Hood falasse.
Em todo o lugar pessoas desafiavam o meu poder. Me odiavam e desejavam minha morte. Depois de alguns anos, me acostumei, mesmo assim quem não me tratava de maneira que me agradasse acabava morto. Robin Hood foi mais longe. Invadiu meu castelo e pegou o meu ouro, me subestimou.
Eu gostava de falar com com quem me desafiava. Gostava de mostrar que era mais poderosa do que eles, que acabaria com eles em um piscar de olhos. Fazia questão, de assistir a morte deles sorrindo.
–Guardas! Preparem a fogueira, o prisioneiro morre hoje! — Gritei enquanto desfilava no centro da fileira de guardas no corredor que ia das celas a um dos salões do castelo.
Me desfiz em fumaça roxa para reaparecer em meu quarto. Movida pelo sentindo nostálgico que a cor dos olhos de Robin me causou, fui até o closet o procurei pelas minhas antigas roupas entre as dezenas de araras que estavam ali.
Minhas antigas roupas eram em tons claros, que lembravam um lado "princesa" que a muito eu não tinha mais, mesmo assim não resisti de vestir o vestido que costumava ser o meu favorito; azul tão claro quanto os olhos do ladrão, com pequenas pedrarias costuradas por todo o tecido. O vestido ainda me servia bem, embora agora eu tinha mais curvas para preencher a cintura marcada do tecido. A saia descia solta, porém pesada por causa das pequenas pedras brilhantes, e terminava em uma meia calda que arrastava no chão atrás de mim. Com magia, aumentei o decote do vestido e sorri lembrando o quão estupidamente fácil era possível impressionar um homem apenas com um decote como aquele.
O vestido parecia angelical, mas minha expressão não deixava de ser perigosa. Eu estava com um leão em pele de cordeiro.
Depois que o sol já tinha dado lugar a lua, eu estava sentada em meu trono negro como o céu acima de mim, assistindo Robin Hood ser preso ao poste de madeira atrás de si. Um dos guardas espalhava um líquido inflamável pelo chão, enquanto outro segurava uma tocha acesa, pronta para desfazer Robin Hood em insignificantes cinzas. A venda foi tirada de seus olhos e lágrimas desciam pelo seu rosto, me mexi desconfortável, sentindo mais uma vez a estranha sensação de já o conhecer antes, dessa vez ainda mais forte. Mais que isso, eu via a dor em seus olhos e isso me tocava.
Desviei meu olhar de seu rosto para as amarras que mantia suas mãos presas afim de não sentir mais aquelas sensações que eu ignorava desde que me tornei a Rainha Má. Robin contorcia as mãos tentando se livrar das amarras, o que era impossível. A manga de sua camisa havia sido puxada para perto dos cotovelos, revelando seus pulsos e uma mancha negra em um deles, que com um pouco mais de observação identifiquei como uma tatuagem.
Uma tatuagem de leão no pulso direito. Eu arfei.
Senti meu coração acelerar e minha boca ficar seca. Imagens fragmentadas passaram pela minha mente, lembranças que a muito tempo eu vinha tentando esquecer. Lembranças que sempre me faziam perguntar "E se?". O homem na taberna com a tatuagem de leão. Um sentimento incontrolável dominou meu corpo e eu fiquei tonta, mas as luzes em frente a minha visão embaçada me fizeram acordar de meus pensamentos. Eu precisava tira-lo de lá.
–Parem! — eu gritei com todo ar de meus pulmões. O fogo acabará de ser acendido, fazendo um rápido caminho para as pernas de Robin, teimando em aumentar cada vez mais em uma dança sinistra. Um grito ecoou pela noite, um grito de dor — Façam isso parar!
Levantei-me do trono em um movimento súbito e quase tropecei em meus próprios pés. Fiz um breve movimento com minhas mãos que já estavam tremulas e respirei com mais facilidade ao ver que as chamas já não existiam mais. Corri com dificuldade até onde Robin ainda se contorcia por inteiro, com os olhos fechados fortemente, meu vestido era pesado e dificultava que eu me movimentasse com agilidade. Os olhos do ladrão permaneciam fechados quando cheguei perto o suficiente para sentir o cheiro de carne queimada, pequenos gemidos escapavam por sua boa e ele não parecia ter notado que não tinha mais fogo em volta de seu corpo.
Eu estava tomada por adrenalina e desespero. Tirei as amarras de seu pulso e pernas com magia, fazendo seu corpo caiu para frente, batendo fortemente no chão quente. Analisei-o rapidamente, e pude ver queimaduras em seus tornozelos, a carne estava exposta com alguns pedaços do tecido de sua calça grudados em meio ao sangue. Minha cabeça girou.
Robin se mexeu lentamente até conseguir virar seu corpo. Me abaixei ao seu lado e observei seus olhos se abrindo, as lágrimas o deixavam mais claros e brilhantes, eu acharia até mais bonitos se não fossem a dor em seus olhos.
Alguns guardas vieram para ajudar, mas achei melhor levar Robin para dentro com magia. Em um segundo estávamos em meu quarto. Robin estava deitado na cama enquanto eu olhava os ferimentos, pairei minhas mãos sobre as queimaduras e rapidamente as curei.
Minhas mãos ainda tremiam, mas quando parei de sentir cheiro de sangue, pude pensar com mais clareza. Permaneci quieta, respirando pesadamente olhando para os pés e tornozelos de Robin, que agora estavam limpos e perfeitos, sem nem mesmo uma cicatriz.
–Por quê? — a voz baixa de Robin terminou com o silêncio no cômodo. Subi meu olhar para encontrar o dele e o encarei por um momento, depois olhei para a tatuagem em seu pulso. Eu nunca me esqueceria daquela tatuagem e nem do que o homem que a carregava significava.
–Eu não sei. — Respondi. Robin poderia ser o homem da taberna, mas eu não tinha sentimentos por ele. Era apenas um desconhecido para mim, mas me lembrar daquela noite e dos sentimentos que senti; a esperança, a ansiosidade, o medo... o arrependimento, eu simplesmente não poderia deixar aquele homem morrer diante de meus olhos. Me senti como minha versão jovem e inocente, a antiga Regina que eu costumava ser. Me senti fraca. O salvei por fraqueza. — Você está com fome. Vou mandar servirem algo para você comer.
–Masjestade...
–Não diga nada, apenas descanse. — Desviei meu olhar de seus olhos, desejando que eu estivesse agindo de maneira mais firme do que estou agora, mas eu não conseguia. Minha cabeça parecia flutuar em um bilhão de pensamentos e eu mal conseguia me concentrar em mim mesma, tendo que me lembrar várias vezes de respirar. Eu estava abalada. Um pequeno momento de fraqueza fez com que tudo que eu guardava dentro de minhas profundezas emergissem de uma vez só.
Eu precisava ficar sozinha.
Caminhei para fora de meu quarto e mandei que um dos guardas avisasse os cozinheiros para preparar alguma coisa para Robin Hood.
O homem da tatuagem de leão, quem a tanto tempo atrás descobri ser minha alma gêmea.
Fale com o autor