Fire & Desires

27 Wish You Were Here


Notas iniciais
Esse capítulo é fodasticamente maior do que os outros: não dá pra separar o mesmo assunto, galera. Sim, já comecei a escrever o outro. E o próximo é provavelmente o penúltimo. Vamos às explicações: essa música é do Pink Floyd, sim. "Ok, cadê a originalidade desse título, Celular Pera?" E eu respondo a vocês que sentir falta de alguém é relativo. Como a fic é narrada em primeira pessoa, pela Sam, é bem aceitável que vocês cheguem a uma conclusão estereotipada de que é ela quem sente falta, mas isso pode corresponder a inúmeros fatores E NADA MELHOR TEVE O PODER DE REUNIR TODO O CAPÍTULO EM UMA FRASE. (Isso seria pro próximo cap... enfim, pra entender o "lado" do Freddie sobre o que estão prestes a ler, podem ouvir W.D.Y.W.F.M? do The Neighbourhood.)

A luz artificial tremeluzia errante no teto. E fazia tudo, menos sol, lá fora. Pelo que daria para ver pelas rachaduras que permitiam que a claridade passasse, era realmente escassa. Era esperado que fizessem meus olhos vermelhos arderem, fossem fracos ou muito atenuados os fachos de luz, vindo da abertura, surgindo por entre as nuvens desenhadas num horizonte que eu ainda não queria contemplar. Tentava adormecer de novo.

Acordei por culpa de um pesadelo, um peso irreversível na consciência.

Pensei que estivesse nua, mas não estava, e também não sabia direito de onde tinha surgido o colchão onde me deitava.

Então apertei os olhos, farejando à procura de algo para ser devidamente explicado. Tive certeza: o último lugar em que estive antes de deixar as pálpebras interromperem a vista não era o mesmo em que parei às dez e meia da noite no sábado. Sim, não era a manhã, era a noite... num sábado. Isso significava que tinha dormido por mais de doze horas seguidas sem interrupção, e que alguém tinha me levado para o meu apartamento e me vestido durante o sono. Porque, à altura de já ter noção do horário, eu também já tinha avistado o criado-mudo. No descaso constante.

O primeiro nome que saiu da minha garganta foi "Freddie", baixo o suficiente para nenhum ser vivo conseguir escutar. Elevei a voz.

E ele apareceu ligeiramente no objetivo de atender o chamado, preocupado, tendo saído de qualquer outro cômodo que não o quarto. Seus cabelos estavam molhados, suas roupas meio incomuns... por isso eu passei um bom tempo admirando seus estranhos jeans azuis — só eram estranhos por estarem o vestindo e não serem negros —, sentando na cama e oferecendo ali um lugar para que ele se sentasse, levando as cobertas comigo tal qual aquela sensação de estar nua ainda não tivesse cessado.

Encolhi as pernas e segurei os joelhos, me sentindo um pouco menos dolorida do que na sexta, visto que lembrava do dia anterior até certo ponto... mas sem tirar os olhos dele, que continuava franzindo a testa, aguardando que eu dissesse o que queria mas não demonstrando ter algo de importante a fazer depois de saber. Com um ar de quem já esteve esperando. Esperando, mais especificamente, aquele momento em que eu acordaria e o chamaria depressa.

Aquilo tudo me lembrava um pouco quando a velha dos panfletos tinha me sequestrado, uma outra parte daquilo tudo fazia a antiga casa do incêndio vir na minha memória: quando tinha enxergado Grace na forma de um fantasma e, mesmo com as mãos impossíveis de tocar, lançando facas na minha pele e afundando com força a parte mais afiada dos objetos cortantes que ficavam trancados na gaveta. Aliás, as alucinações só não continuaram porque, numa fusão do lugar em que eu estivera ao lugar em que ocorriam a mim aqueles incidentes passados, ele se pôs a gritar o meu nome e me tirar do transe.

Além das más lembranças, houve uma sequência das mais antigas e menos piores, quando ainda não estávamos juntos. Quando o levei para a cafeteria embaixo do viaduto e tocou para um bando de garotas que resolveu aparecer por lá bem na hora, mas disse que a única para quem realmente estava tocando não era nenhuma delas, e eu sorri, e recebi um torpedo, e Carly tinha sido estuprada, e fiz questão de olhar para a cama vazia na outra extremidade do quarto... senti que devia lembrar de mais alguma coisa sobre Carly, embora recente...

— Me preparei pra um bocado de coisas, mas não imaginei que ficaria muda na minha frente, Sam — quebrou o silêncio. Acabei fechando os olhos e respirando lentamente quando ouvi a voz dele passear nítida pelos meus ouvidos, recordando como estava no cemitério, desatenta. — Você dormiu mais do que eu durmo em cinco dias, sabe, e percebi agora que isso é bem prejudicial. Talvez mais que o álcool.

Eu comecei a sorrir e de repente já estava rindo descontroladamente, nem me constrangi por ele não se esforçar tanto para rir comigo. Larguei a coberta de tanto rir, pus um travesseiro no rosto sem parar de rir um segundo enquanto ele se perguntava como tinha atingido um nível tão hilariante de sarcasmo.

— Eu... — tentei começar a formular uma frase. Engasguei de novo com a risada. — Você pode esperar um pouquinho?

E enterrei novamente o rosto no travesseiro pelo que pareceram quarenta e cinco segundos, depois ergui a face. Minhas bochechas ardiam.

— Pianista, agora você poderia me dizer...? — e apontei para as roupas limpas que vestia e o relógio em sequência, imaginando não haver explicação senão um de nós ter super poderes e uma máquina do tempo.

— Tá tudo bem com você, Sam? — Eu assenti, sorrindo instintivamente e arrancando um sorriso dele. Até deixei escapar "ótima". — Então, acho que tem consciência de ter estado bêbada nos últimos...

— Foram só semanas, não meses — disse, querendo aliviar a gravidade da situação. — E eu lembro de algumas coisas, bem pequenas, mas lembro.

Menti, porque lembrava de algumas coisas que não eram tão pequenas assim, na verdade.

— Me diz do que você se lembra — perguntou, parecendo querer tentar ler minha mente.

— Por que — e o fuzilei com o olhar de volta — você fica me olhando assim, hein?

Seu sorriso tomou outro trajeto que o fez se desenhar de lado.

— Porque quero ter certeza de que você diz a verdade, entende? — Arregaçou as mangas da camisa e tornou a me observar até o fundo dos olhos, com os braços cruzados e sem a necessidade de chegar mais perto.

Eu o encarei, novamente, na mesma intensidade, e fui dizendo o que me vinha na cabeça, sobre o que tinha feito:

"Lembro de descobrir que você tem uma mãe viva, com condições de te escrever e endereçar uma carta, o que implica que você também não é um sem-teto como tinha me garantido, que é fumante desde que era só um pianista-mirim e que provavelmente tem uma porrada de outros segredos guardados nos bolsos das suas calças, nas meias e em cada dobra das mangas da sua camisa arregaçada, sem achar que eu mereça escutar a verdade.

"Não, não... melhor não protestar, se ainda não terminei e simplesmente parei pra tomar um fôlego.

"Isso tudo foi exatamente o que gritamos lá no cemitério, não foi? E me fez prometer que eu nunca mais te amaria e nem amaria ninguém além dos meus pais que já morreram, ou então você simplesmente iria embora, se suicidaria em alguma esquina de Seattle."

— Eu só ia dizer — e ele estreitou o semblante — que não tem nada de errado com os bolsos da minha calça, com as minhas meias ou com a minha...

— Essa camisa, a propósito, torna bem exposto o quanto você é gostoso e o quanto eu sou estúpida de te achar gostoso, o que nos leva a outro assunto do que eu lembro que fiz ontem — concluí, no meio de um gesto abrangente.

Ele parou de parecer nutrir uma raiva mínima no olhar, por outro lado também não se gabou de eu tê-lo elogiado. Rapidamente, arregaçou um pouco mais as mangas e se aproximou.

— Mas nada disso tem a ver com quando você estava realmente bêbada... bom, exceto que fizemos sexo — e, decididamente, disse aquilo em tom alto e claro só para ter certeza da minha reação.

Eu não corei. Não perguntei se estávamos, ainda, "cursando" a quarta-série. Mas revirei os olhos e tentei não lembrar da melhor noite da minha vida, fazendo o máximo para esquecer de enfatizá-la assim, porque nunca tive uma melhor noite da minha vida ao lado de alguém para quem tinha dito "eu te amo" antes... mesmo eu tendo dito que o amava tanto tempo antes, mesmo eu tendo certeza que ele diria algo em tempo de eu ainda não ter saído do apartamento para ameaçar talvez nunca mais voltar, exatamente do jeito solicitado e prometido na noite em que brigamos.

— Foi assim: eu entrei no bar e saí dele com uma garrafa de vodca, depois que já estava bem longe do pianis... de você, Freddie — corrigi, porque odiava que pessoas conversassem umas sobre as outras em terceira pessoa estando frente a frente. — No bar, não sei se você faz ideia disso, o que a gente mais encontra é um amontoado de homens bêbados. Que se dane, eu sou uma órfã e a melhor coisa que eu podia fazer pra conseguir acordar viva, mesmo quase morrendo, era beber. Beber foi a única coisa que me restou, e você sabe que eu não vou parar de beber tão cedo, né, devia se orgulhar de ser a razão da maioria das vezes que uma garrafinha aqui ou ali me seduzem.

Olhei na direção do pianista no intuito de retribuir o olhar dele, fosse como fosse, mas não o encontrei. Já ia prosseguir, e me cortou:

— Mas não foi no diminutivo que você bebeu, Sam.

— É sua culpa — rebati, sem medo daquilo o atingir e doer. — Você... você sabe que eu nunca mais tinha feito isso em anos. Nem me mutilado. Eu estive melhor do que nunca até te conhecer...

— Você tem se mutilado?

— Não! Mas é como se fosse — gritei. — Porque... é como se fosse...

Fui até o espelho do banheiro assistir à minha própria imagem, algumas marcas aqui ou ali.

Ele abaixou a cabeça, levantou os braços e juntou os dedos na altura da nuca, evidentemente aborrecido.

— Você não pode ter... deixado isso acontecer de novo!

— Não deixei — respondi, apressada.

Nesse caso, jamais seria conveniente dizer que a culpa era dele.

— É horrível, você pode não perceber — começou, fitando o piso —, mas é absolutamente horrível ver que... que a pessoa não faz as coisas pela própria intuição, que fica totalmente fora de si. Eu sei, eu sei, Sam. Eu já passei por isso, no meu ponto de vista, muitas vezes. Mas eu, como você, por mais que você insista em contrariar isso de todas as formas, nunca tive alguém pra me dizer como parecia quando eu saía deixando a sobriedade em casa. Na realidade — seu tom de voz ia abaixando gradualmente, deixando o olhar cair ainda mais — eu nunca tive um lar onde pudesse deixar. Ninguém me disse como era, uma visão externa...

— Mesmo não tendo um lar, Freddie, pelo menos tem onde cair morto. — Se o conhecia bem, descartei o valor hipotético "hesitar por não ter assimilado a diferença entre as duas coisas".

Cruzei os braços no peito, segura de que o conhecia bem. Apoiada na cabeceira por uma segunda vez, longe do espelho.

Ninguém podia discernir seu semblante. Ninguém mais o faria. Vi que se levantou da cama, e começou a andar até a porta, e voltou, e tinha algo a dizer. Provavelmente não esteve planejando nem avaliando, mas sim esquecendo do que passeava minutos antes por sua mente. Depois de longos segundos predominantemente estático, quando finalmente voltou a se sentar, soube que tinha lembrado. De todo o jeito, não deixei que emitisse som algum imediatamente.

— E eu não tenho... não tenho onde cair morta — completei o raciocínio tão rapidamente quanto um lampejo pode cruzar o céu.

Dessa vez nem um centésimo pairou sobre nossas cabeças antes de que ele intervisse, me fuzilando de novo:

— Você tem os meus braços, Sam... pelo menos enquanto eu sobreviver.

Não foi nem aquela afirmação, nem o fato de ter dito "Sam" de uma maneira decepcionada. Foi o inegável movimento que eu fiz, alcançando o outro extremo da cama e apoiando minha cabeça nele.

Seus olhos castanhos distraídos não pareciam tão preocupados sobre quem fazia jus de ser culpado ou não. Ele me envolveu nos braços que tinha cedido caso eu morresse, ao passo que me ajeitei ali também.

— Quer dizer que tentou evitar que a culpa caísse sobre mim?

O criado-mudo se transformou num parque de diversões e eu, numa criança muito ansiosa para se aventurar nos brinquedos.

Mas já não se tratava de estarmos apenas frente a frente.

— Sim. Eu fiz muitas coisas insanas, e não vou negar, vou admitir. Eu podia me sentir uma...

— ...coisa que você não é. — Já tinha ignorado qualquer barreira invisível que me forçava a criar, abraçado ele de volta e fechado os olhos. — É só que se você decide fazer uma coisa, por mais negável e absurda e ilegal e arriscada e perigosa e sem-vergonha que seja, você faz, Sam. Esse é o seu ponto fraco.

— Você fala como se nem tivesse com o que se preocupar, sabe...

— Eu me controlo demais, tá. Mas se controlar não pode ser um ponto fraco, então eu imagino que as coisas que me tirem do controle funcionem como um ponto fraco.

— Por exemplo...? — Ergui as sobrancelhas e fixei o olhar no maxilar dele, sabendo que não ia demorar para uma boa resposta flutuar graciosamente. Só queria colecionar pedras, atirar depois.

O que se seguiu, me surpreendendo, não foi formulado demais, nem breve. O pianista tinha liberdade de selecionar as melhores armas, e conseguia mirar vendado, atingir o alvo de mãos vazias.

— Já se perguntou de que jeito você acabou limpa e vestida, dormindo saudável numa cama, não foi? Ainda interessa?

Assenti, percebendo que não sentia fome alguma por enquanto.

— Nós dois... a gente apagou, simplesmente. Isso pode explicar. Eu tive medo de que fosse a única razão do seu sono de pedra, mas claro que não era uma possibilidade... então cuidei de você, mesmo sabendo que não era a única pessoa que tinha feito isso, se depois de tanto tempo você continua inteira. Porque fazia muito tempo que eu não te via antes de ontem.

— Ninguém cuidou de mim, Freddie, viu como eu tava? Sozinha. E solidão não arranca pedaço, pelos meus conhecimentos!

— Certo. Não arranca. Tudo bem... tenho uma confissão pra encorajar você a contar parte do que se lembra.

Duvidava muito da eficiência desse encorajamento, até que houve a vez das sobrancelhas dele se levantarem e abaixarem de novo, os gestos eram como os gestos de alguém prestes a listar uma série de fatores invadindo a memória numa sequência, aumentando o meu nervosismo sobre a estranha ausência de frase após frase...

— Fala logo — deixei escapar, pressentindo que meu consentimento ainda fosse aguardado. — Fala. Logo.

Nada. Silêncio. Nada. Silêncio. Eu contava nos dedos, estremecendo no peito dele, esperando alguma descrição se materializar diante dos meus olhos...

E beijei ele bem rápido. E, sim, não teve um motivo nem entrou bem no contexto... eu simplesmente inclinei a cabeça e beijei o queixo dele e depois beijei a boca dele por cinco segundos, produzindo um estalo muito do não-planejado.

Não significou nada. Só na intenção de aumentar um pouquinho de nada o ego dele, que contasse de uma vez aquilo que nunca tinha contado...

— Quando estive na Costa Oeste — narrou celeremente, se recusando a me dar a chance de questionar por que ele esteve na Costa Oeste —, uma coisa... um desequilíbrio... uma falta de responsabilidade... e eu parei no banheiro com uma mulher bem mais velha, rica. Mais um detalhe: só soube que era um banheiro porque a água jorrava. O banheiro dela tinha uma janela, dava pra ver o céu e o mar negros, o horizonte entre eles desaparecendo dali...

Continuei impassível no momento em que, de um olhar, me interrogou se eu gostaria de objetar a confissão.

"E, ao longo da noite, bem, porque não começamos a noite no banheiro, claro, nos conhecemos na praia... jogamos um baralho dividindo uma garrafa quase infinita de gim, sim, isso é idiota, eu não devia contar isso pra você, sabe, Sam, é muito vergonhoso que eu tenha ficado tão mal e acabado no consolo de uma mulher praticamente milionária, disposta a fazer esse tipo de loucura... muita gente ia querer tirar proveito, o pior é que era eu mesmo quem corria o risco de ser aproveitado naquele momento.

"De relance, lembro de um rosto encovado. Ela não era bonita de jeito nenhum, parecia educada e agradável embora absolutamente carente, só andava com vestidos caros e um monte de pérolas, rubis e esmeraldas que desapareceram dentro do box. O que veio ao caso foi o fato de eu ter guardado a lembrança frustrante dessa noite, comecei a admirar o oceano, a forte brisa que vinha dali, a maresia... tão perto de mim, e não de nós.

"Não aconteceu nada que você pode ter concluído que deveria acontecer depois, porque de repente, ao invés da janela, eu via exatamente e novamente a praia na qual tinha conhecido a mulher."

Fiquei contemplando a parede, meio duvidosa se aquilo que eu pensei que tinha sido censurado fazia sentido.

— Você quer dizer que estavam prestes a transar e, ao invés de... de fazer... você simplesmente se lembra de olhar pela janela e esquecer da vida no segundo mais crucial? — perguntei, segurando o riso. Soava absurdamente engraçado considerar a moral: trocar um par de peitos por uma centena de ondas.

— É.

— Eu não perdoaria.

— Não aconteceria com a gente, porque você é um Oceano — contestou sem alterar o tom da voz e me fitar profundamente. Apenas murmurou aquilo.
Só na intenção de aumentar um pouquinho de nada o meu ego...

— Pianista — chamei, mesmo estando a centímetros dos ouvidos dele. — É que eu certamente me lembro de ter visto o Derick andando por um beco, além do homem desconhecido que tentou me arrastar pra cama dele um dia desses...

— Se você me falasse o nome desse outro, então eu poderia acabar com a vida dos dois de uma vez. Torturar até o último suspiro.

Fiquei calada, com nojo de imaginar se Derick e eu tínhamos realmente...

— Tem razão, pianista. Sou incapaz de me cuidar. Sou fraca demais. — E saí dos ombros dele. — Fraca demais. Devia estar longe daqui, desse lugar que me fragiliza.

— Não disse nada sobre...

Abri o armário, tirei qualquer roupa que fosse diferente daquela muito casual que eu usava. Uma blusa o mais confortável e quentinha possível e qualquer calça serviriam... talvez um casaco... Atirei as peças de roupa na cama e uma foi parar no colo dele, não liguei, comecei a despir ali mesmo, fosse qual fosse a coisa que vestia no momento anterior, sem me preocupar se estava usando sutiã ou não, e puxei de volta as que tinha separado para vestir.

— Sam, você não vai...

Conforme o imaginado, ele permaneceu ali, sem desviar o olhar.

Enfiei as roupas que peguei de uma vez nos lugares onde devia e me assustei com o fato de não ter recebido interrogações. Amarrei o cabelo no topo da cabeça, o encarando enquanto voltava para calçar direito os sapatos que machucavam um pouco meu dedão do pé.

— A única mulher do mundo — e fez questão de enfatizar o "única" — que eu já vi se arrumar em cinco... segundos?

— Não estou arrumada, é uma emergência — falei enquanto me atirava no colo dele e o beijava numa despedida sem nenhuma brecha para contexto, exatamente do jeito que fiz na outra vez; só que essa foi bem além de um selinho estalado por falta de opção. Meu penteado se desfez, a deixa para que eu voltasse a me concentrar no que estava a ponto de ser resolvido.

— Aonde você vai? São onze da noite.

— Não vou voltar.

Segui, num movimento muito perto de correr, até a sala de estar... ele surgindo nos meus calcanhares, e pensei que fosse barrar a minha saída...
Ouvi me chamar, meio desesperado, tendo consciência de que não me pararia dali a alguns metros.

Mas eu parei, virei de frente para ele no portal e me assustei com a proximidade.

"Obrigada. Quero que você saiba que não é verdade aquilo que eu disse. Não é sua culpa. Não tem nada a ver com você. Realmente nada. Eu ponho a culpa nos outros. Eu vejo as pessoas assim, quando não têm absolutamente nada a ver. Eu não me preocupo se você quiser me culpar, porque tem esse direito assim como eu tenho de te desejar infinitamente de várias formas. Desejar que você não resolva me perseguir mais tarde; que essa porra toda já tivesse acabado quando tudo que eu posso pontuar é um 'etc' ao fim da linha. Mas, dessa porra toda, a que mais se destaca é que a única coisa que posso negar afirmativamente é que não tenho dúvidas de que o que mais desejo ainda é você."

Não disse essa merda, nada dessa merda. Não dava. O tempo era curto. Mas, sem que eu dissesse essa merda, sem que houvesse um contexto (e foi pela terceira vez), ele deixou escapar algo que, superficialmente, não foi recíproco.

Começava com "Eu te amo" e terminava com "Sam".

[...]

Não sabia a quantas horas ficava dali, só que em algum momento avistei letreiros muito iluminados no meio da noite e segui centenas de setas, sinais muito imprevistos. Nem notei o quanto tinha andado. Nem notei o quanto estava longe. O longe deixou de ser San Francisco, agora era Seattle.

Dobrei a esquina, conferi e o nome estava certo. Uma sigla suspeita se erguia, anunciando onde ficava a tal clínica. Em volta, dezenas de passos, lojas, prédios e um vento leve arrastando meia dúzia de papéis que alguém, com uma expressão provavelmente lívida ou impaciente, tinha acabado de deixar cair depois de um tombo. O céu, cinzento.

Minha mão alcançou o puxador prateado da porta de vidro. O olhar do homem barbudo que sentava atrás de um balcão localizado no centro da sala se fixou muito decidido em mim, já que era cedo e ninguém mais caminhava no piso preto e branco. Parecia sonolento e um pouco duvidoso. Mas nada ali parecia abandonado, quero dizer, era até bem tratado...

— Me ligaram na quinta-feira, rastreei o número e vinha daqui.

— Você quer dizer — o homem da barba por fazer enterrou a cabeça numa espécie de prancheta como se conversasse com as assinaturas que revisava — que algum paciente mantinha contato com a... senhorita?

— Sim. O nome dela é Carly Shay, e foi internada aqui pelos pais.

O sorriso desdenhoso se abriu, em seguida sua voz ficou mais aguda:

— Me desculpe, a senhorita Shay não pode...

— ...receber visitas? Não é questão de visita, sabe. É emergência.

— Recebi ordens. Você não é da família, é proibida de entrar — disse o bordão com menos tolerância, engrossando o tom.

— Quantos pacientes tem aqui? E quantas vezes a família deles vem visitar? Qual foi a última vez que os Shay vieram? — gritei. — E daí se quero saber por que a Carly me ligou, morei com ela e...

— Não é meu papel registrar uma por uma as visitas, pacientes não portam juízo perfeito para opinar — protestou, apoiando os óculos no nariz. — Mais alguma coisa?

— Sim, vim de Seattle, sozinha. E não me pergunte, não bebi nada dessa vez. Vim porque quis, e vou falar com ela.

Nessa hora, simplesmente corri muito rápido em direção a um único corredor estreito onde tive a impressão exata de que os pacientes ficavam internados, em diversos quartos. No final dele, lances de escadas que pedi ao Universo para não ter de subir. Abri cerca de cinco portas, despertando muitas pobres almas do sono, antes de me deparar com a menina pálida de cabelos apagados e longos que eu procurava, só tendo certeza porque nas mãos segurava um livro encapado que pensei já ter visto em algum lugar, talvez guardando o bilhete quando anunciou sair com Paul... mas não havia como parar ali... e talvez já tivessem chamado a polícia, numa altura dessas...

Não era a polícia, mas a porta entreaberta nunca chegou a se abrir por completo para que eu passasse e dissesse quem era, certificando se ela ainda fazia ideia de quem eu fui. O homem, acompanhado de outro bem maior, ameaçou me carregar para fora.

— É importante, ela não está bem... os pais não dão a mínima... PRECISO CONVERSAR COM ELA, CARALHO!

Indiferente, segurava meus braços e me impedia de chutar a porta, abri-la e deparar com um pequeno sorriso nos lábios de Carly, ou talvez uma exclamação de espanto seguida de outras interjeições desconexas. Só sei que, enquanto todo o enrolo acontecia, ela choramingou sozinha embaixo do travesseiro, a cara escondida pelo livro a uma parede de distância do corredor que ainda não tinha sido varrido.

Sua voz chorosa ecoou por todo o corredor, acordou outros pacientes que resmungavam. Todos doloridos de fome, pelo que dava para perceber e escutar no meio da desordem. Carly emitiu ruídos muito parecidos com os de alguém torturado em um filme de magia negra e rituais sangrentos, mas só havia um grito mais forte do que sua lamúria: o meu. Eu berrava, a raiva dominando cada parte das minhas veias, que não tinha ido lá para nada. Que a veria, que tinha direito, mais do que qualquer pessoa, de alcançar o outro lado da parede. Nem que fosse necessário chutar, chutar e chutar até que se partisse, a distância seria vencida.

O homem começou a apertar meus braços em volta do corpo e eu caí, bati a cabeça no chão, passei a mão pelos cabelos, vi que eles estavam um pouco avermelhados. Fiquei um pouco atordoada. Vários pacientes, não sendo atendidos, reclamavam cada vez mais alto e choravam nervosamente, atirando coisas no corredor. Tive de desviar de muitas e até revidei, não para eles, mas para os homens tentando me fazer se encaminhar para a saída. À medida que eu relutava, portas se fecharam ao redor e mulheres que pareciam ter acabado de começar seu expediente entraram, usando expressões controladoras que deviam pensar funcionarem muito bem para acalmar e conter os loucos.

Aquilo era muito parecido com uma cadeia; nenhum merecia estar ali. Suor, sangue e lágrimas desciam de mim, assim como a coragem. Me entreguei. Saí dos braços do homem parado como uma estátua, sem demonstrar ter feito nada além do habitual, olhando muito feio para mim. Existe uma grande questão, talvez universal, que difere um olhar direto a você de um olhar direto aos seus olhos. Olhou, não nos meus olhos, se achava superior fazendo isso. Achava ser temido. Acontece que eu também não o olhei no fundo dos olhos, não ergui a cabeça para sua altura. Continuei com a mesma postura depois de me apoiar nos joelhos e levantar do chão, o ignorando na mesma intensidade, porque sabia entrar num jogo. Não senti remorso, culpa, nem curiosidade. Nem vontade de espancá-lo... e também não desejei ter tamanho suficiente para fazê-lo.

Me encaminhei à saída, limpando as lágrimas nas mangas compridas da blusa. Ajeitei de novo o cabelo num penteado idêntico ao que usava quando entrei no lugar, o homem nem sequer se virou. Continuou de costas, e o barbudo já tinha voltado ao posto. Agiu como se eu fosse um nada carregado de lixo, uma poeira indesejável, um resto impossível de reciclar, um resquício de sanidade que se encontrava em alguma parte daquele piso imundo do corredor.

As sobrancelhas dele não mexeram uma única vez, eu lembrei. Ele não sabia meter medo em uma formiga, nem devia ter qualquer outro dom de persuasão... se o mundo precisasse de caras pesados e fortões, estátuas reais poderiam carregar a responsabilidade de construir nações. Intimidador, é? Era o que achava? Mas ele não sabia fuzilar. Não sabia dar a alguém a sensação de seus pés pisarem num chão que pode afundar ou se agitar muito rápido, se voltando contra você. Não sabia dar a alguém a sensação de que sobreviver é só um pequeno centésimo entre o sofrimento e a perda, que sempre a conquista da sobrevivência é após um grande perigo, repassando esse perigo pelo resto do tempo procedente. Além disso, transmitir o pensamento martelado firmemente no seu crânio, cravado na superfície da sua alma.

É o trauma.

Alguém que tinha visto a morte tantas vezes antes, num número tão grande que podia ser convertido em incógnitas infinitas, não se deixaria temer por uma figura dessas. Mesmo que ficasse de guarda pelo resto das eternidades, havia uma forma de entrar senão pela porta. As janelas, você pode pensar, mas as janelas estavam fora de alcance e impossibilitadas com cortinas, monitoradas por moças vestidas de branco e com duas olheiras impregnadas na cara de uma forma bem distante daquela que podemos considerar sutil, claro. Era grotesco, disposto sem preocupação. Tudo ali era decididamente inegável, reversível, dava para contornar e transpassar sem muito esforço.

Contornar. Transpassar.

Fingi descer para a rua e dobrar a esquina, quando entrei para uma abertura, uma fenda meio apertada dando para as janelas dos quartos. Minha intenção era conseguir chegar lá no fundo, conseguir encontrar uma saída ou qualquer outra coisa para os andares. Mas havia uma, uma única janela, que não era coberta por uma cortina rendada e carregada, a única pela qual uma luz muito bonita, no alvorecer, tinha atravessado. E ela estava ali porque o livro negro não podia ser lido na mesma obscuridade gravada em sua capa: era preciso iluminação, e distinguir as palavras o minimamente possível...

Carly, sim, estava debruçada sobre o livro, desatenta demais para tudo à volta, descrevendo movimentos repetitivos de frente para trás, de um lado para o outro, círculos muito doentios. Ela levantava os braços, do nada, comemorando e rindo agudamente, mas depois fazia o contrário e de repente chorava com eles estendidos, venerando uma entidade invisível. O livro, uma vezinha só, escorregou da roupa de cama e foi parar no piso. Foi nessa hora que sua boca desenhou palavras e ela falou uma perfeita frase, revelando que era saudável o bastante. Podia se proteger de quem quer que tentasse se aproveitar dela ali, transpassando a janela, e essa percepção fez meu choque ser tomado por um alívio.

Suspirei. Estando metade do meu corpo no interior do cômodo e a outra metade ainda do lado de fora, esperei a reação.

— Você... se perdeu? — Ela escondeu o livro num abraço apertado, me deixando em dúvida se queria proteger ou se sentir protegida pela capa ilustrada com pingos prateados e de cor meio roxa.

Não eram estrelas, as luzinhas minúsculas gravadas no livro negro. Eram galáxias...

— Não. Vim visitar você, mas antes preciso que me segure um tantinho. Pode fazer isso? — falei, o mais gentil que pude.

— Claro.

Seus braços pálidos, de aparência quebradiça, apoiaram os meus e me ajudaram a pisar novamente no chão branco, agora recém-varrido, à luz do sol fraco.

— Eu...

Estive prestes a dizer um "obrigada" audível, sorrir e me sentar amigavelmente. Porém, não se tratava só de mim. O rosto dela não demonstrava satisfação, mas susto. Ela se deitou de novo, ajeitando o travesseiro. Assustada, mais uma vez. Querendo morrer, querendo que eu saísse, que...

— Não foi nada, ou foi, Sam?

Uma fração de segundo e quem a admirava de olhos arregalados era eu.

Atrasei a respiração, pensando o menos apavorante: Carly tinha ouvido alguém dizer alto o meu nome para me expulsar da clínica, e por isso raciocinou brevemente que fosse eu, a Sam, sob o mesmo teto que ela. Certeza.

— Não, não foi — sorri. — Que... que livro você tá lendo?

— De que importa?

— É o título? — perguntei, me curvando para a capa. Ela se esquivou.

Foi até a beirada da cama e tomou um gole d'água.

— Meu nome é Carlotta. Eu tenho dezessete anos. Minha aula favorita é a de filosofia, e meu livro favorito não é intitulado. — Já me preparava para questionar toda aquela descrição sobressaltada, quando ela pôs a palma da mão no ar, pedindo um tempo. Tomou mais um gole daquele copo com água, e se voltou para meus olhos: — Você é a Sam. Minha companheira domiciliar. Seu livro favorito é aquele que, uma vez, você pediu emprestado pra mim. E foi só pra bloquear a claridade e conseguir dormir no meio de uma aula de filosofia, também lembro disso...

Então era eu quem sentia vontade de desaparecer, uma confusão imensa tomando conta da minha cabeça.

— ...e você jurou nunca mais babar no meu livro. — Seus cabelos, agora menos brilhosos, foram jogados para o lado desajeitadamente. Pude ver sua cara de nojo, lembrando do quanto eu frequentemente babava nos livros de filosofia.

Sim, ela se lembrava de mim. Aquilo não foi frio: foi quente. Não foi fervente, foi aconchegante. Não era o ódio, nem o contrário, seja lá qual fosse. Eu me senti mais humana, menos pálida. E estremeci. Porque, agora, ela estava chorando. Passava as pontas da coberta nos olhos, enxugando as lágrimas. Minhas mangas já estavam encharcadas. Quase tive de usá-las de novo.

— Você... você nunca perdeu a memória... — murmurei aquilo mais para mim do que para ela, mais como uma afirmação do que uma pergunta, me deixando cair ao pé da cama.

— Quem disse que perdi? — ela perguntou, com a voz transtornada. Se sentou lateralmente, deixando o livro à seu lado esquerdo, os pés a centímetros de mim.

— Quem disse que alguma vez dei motivos pra me trazerem até esse...

— Eu sinto mui-

— Esse hospício! Eu sempre quis ter ideias, partilhar ideias, sempre fui esforçada, uma boa aluna, uma boa garota... por isso quando eu te vi pela última vez, quando abri os olhos, lá estava a Sam mais feliz que já tinha visto em toda a minha vida. Achei que alguém tinha feito algo. Provavelmente sorria porque tinha se livrado do encosto te proibindo de ser livre?

— Não, Carly, eu nunca...

— Você não precisa fazer isso.

— Fazer o quê? — dizendo, levantei a cabeça. Lá estava o teto, não o céu. O teto não me acalmava.

— Mentir.

— Não é mentira, eu juro que eu...

— Sam! Você estava sorrindo! Você estava mais feliz do que nunca!

— Como queria que eu ficasse se minha... companheira domiciliar recuperou a consciência? — elevei um pouquinho a voz. Ela arrastou as cobertas, andando de uma parede à outra. — Carly, você acordou. Eu estive te procurando por dias, mas então... eu... então...

Arrumei muitas formas de dizer aquilo de maneira gentil, doce. Como ela sempre fez enquanto lidava com minha falta de objeção, em relação ao meu passado. Imitar sua compreensão... simplesmente deixei de dizer.

— Fui estuprada, é, eu fui. Não dói falar sobre isso — respondeu, caminhando para uma prateleira com outros livros grossos de capas variadas, pondo-se de costas. — Eu amava o Paul...

— Você não pode ter amado ele, Carly, você só ficou confu-

— E o que você sabe sobre isso, Sam? O que você sabe sobre estar obsessivamente preocupada com o que uma pessoa pode estar fazendo a cada momento? O que você sabe sobre se sentir enganada por uma coisa que parecia ser...

— Bonita pra caralho? Verdadeira demais? Inacreditável ao extremo... isso não existe, Carly. Eu pensei que existisse. Mas tá tudo bem comigo agora, olha pra mim. Eu tô inteira. Não tô em pedaços. Me enganaram. Eu realmente fui enganada. Mas a vida é uma ordinária, ela quer fazer você implorar pra tudo acabar, implorar... implore. Ela não vai te dar nada. Você não vai ter nada dessa prostituta que é a vida. Mas, se quiser reclamar, se quiser um ombro amigo invisível... recomendo o Universo. Enfrentei isso aí que você chama de se apaixonar.

"E me fodi", pensei. Mas não podia usar tantos palavrões na frente de Carly, ou ela acharia que o assunto não era realmente sério.

Continuou parada, de costas, centenas de livros empilhados a encaravam.

"Ele me deu uma coroa de flores e pôs nele outra, na frente do rio. Fez um montão de promessas, disse um montão de coisas bonitas. Falou que aquilo era nosso casório, que desde muito tempo ele me olhava e queria fazer daquele jeito. Sumimos do mapa. Eu o assistia telefonando frequentemente, sempre me mantendo afastada o suficiente pra não escutar, e a gente brigou quando perguntei do que se tratava o assunto misterioso, dias depois. Voltamos à Seattle, vi um beco escurecido onde meia dúzia de amiguinhos dele fumava maconha. Todos me olhavam, culpa daquelas dezenas de hematomas. Impossível esconder com a roupa surrada e curta que ele me obrigou a usar.

"Porque quando digo que a gente brigou antes disso, quero dizer que Paul me agrediu. Bateu com muita força no meu rosto. Mais de uma vez. Falou que eu era mulher e que mulher é pra ser fodida. Naquela hora, gritei e ele pôs a mão na minha boca, agarrou meu corpo cheio de raiva e me despiu. Me machucou muito feio, e eu senti repulsa. Arrancou muitos fios do meu coro cabeludo, me arrastou pra um canto sujo, e minha única reação foi juntar muito as pernas. Senti a mão dele alcançar meu rosto de novo, tentei fugir e levei mais um tapa... eu pensei que parava por ali, Sam, que ia conseguir socorro. Mas então afastou minhas pernas abruptamente, eu tentava fechar, me proteger. Eu me sentia tão impura, sem nada que cobrisse meu corpo...

"Paul tinha uma faca. Apontou a faca pro meu pescoço, pro meio das minhas pernas. Eu abri de uma vez, ele me fez se equilibrar nos braços tremidos e nos joelhos. Toda vez que eu reclamava da dor, arrancava outros fios de cabelo, espremia dolorosamente o meu mamilo ou estapeava minhas pernas e me fazia bater de rosto no chão. O zíper abriu, e ele meteu em mim. A faca passou por ali antes, Sam. Eu gritava, chorava, bambeava jogada no chão de cimento escurecido, porque tinha chovido. Tinha chovido muito.

"Quando gozou e saiu de mim, meus joelhos não sustentaram nem o meu próprio peso. Meus ossos quase se partiram. Não tinha elasticidade. Nem voz. Eu me toquei e, quando tirei o dedo, senti uma substância quente e meio avermelhada. Esfreguei, o líquido escorreu e eu nunca senti tanto nojo. V-ver q-que ele tinha me c-chamado de filha da puta, 'uma boceta virgem, e é só', enquanto gemia um tom obsceno e c-cruel...

"O pior, Sam, eu juro pra você: o pior não foi ser estuprada. Não foi ele me desrespeitar de corpo, abusar de mim, me machucar... o pior foi ele ter feito isso de alma, q-quero dizer, realmente ter destruído tudo em que eu ainda acreditava e tinha esperança. Meus sonhos de que o mundo tem seu lado bom, que o amor é importante demais. Não queria, nunca quis que ele fosse o mesmo que eu, mas contrariou tudo isso. Contrariou que a Terra é redonda, que o sol é amarelo. Fez isso parecer mais um grão de areia. Fez eu parecer mais uma gota na chuva. E vejo que você tem razão, Sam, se eu o amasse jamais ia tirar essa impressão dele. Provavelmente diria que... estava p-possuído."

Ela chorava insistentemente, de novo. Eu saí do chão, andei até a prateleira com livros. Ela se virou, tomando mais um gole d'água e soluçando forte.

Carly era surpreendentemente forte. Carly era valente. Carly tinha coragem. Se você, por acaso, acha que uma pessoa não tem coragem, como prova pode estar o simples ato de não reprimir nenhuma de suas lágrimas, em todos os momentos em que estiverem sob o mesmo teto.

Eu a abracei, ela envolveu os braços nas minhas costas como se há muito tempo esperasse por alguma demonstração de afeto alheio. Chorava insistentemente, e eu aceitei suas lágrimas, e chorei também.

Aos meus dezessete anos, só duas pessoas ainda vivas no mundo já tinham sentido e recebido minhas lágrimas.

Eu não pude deixar de pensar no pianista, em como devia ter encarado a situação quando eu jogava sobre ele todo o meu passado e as minhas dores... mas, ao contrário de mim, o pianista sabia consolar magnificamente bem. Não parecia haver mais nada enquanto minha cabeça ficava deitada contra o peito dele, os curativos que ele fazia no meu tornozelo...

Se me sentia culpada de pensar nele? Sim.

— Enquanto ninguém merecer o seu amor, Carly — comecei, passando as costas das mãos pela vermelhidão úmida que era seu rosto —, ele vai ter que... ser guardado. Guardado com você.

— E como era possível saber que o Paul não...

— O Paul, ele não conta! Vai implorar pra eu não cortar o pinto dele fora antes de morrer, juro pra você, Carly.

— Sam, você não vai...

E então parecíamos um casal lésbico.

— Eu já o esqueci, não esquenta — ela garantiu. — Não sou mais aquela garotinha, aquela que lia artigos sobre masturba-

— Preciso contar uma parada, senta aí de novo — pedi. Os cabelos sem brilho e o rosto pálido obedeceram. — Acontece que eu... não sou...

— Eu imaginei que não era virgem quando fiz a pergunta meses atrás. Achei que não fôssemos tão íntimas, sabe...

— Não, não é isso — acrescentei depressa, mesmo que fosse isso também. — É que preciso contar a verdade. A verdade sobre aonde eu ia quando não dava explicação nenhuma.

Ela se aconchegou no travesseiro, arqueando as sobrancelhas finas.

— E aonde ia? — perguntou, finalmente parando de desviar o olhar ao redor do cômodo e o fixando, em linha reta. Uma diagonal perfeita.

— Ao cemitério.

E contei. Contei desde o princípio dos princípios, sem afugentar nenhum detalhe. Tinha acabado de revelar, sem pensar repetitivamente, a maioria dos meus segredos a alguém dentro de um hospício.

Dentre inúmeras confissões, estava incluso o fato de que já tinha revelado os mesmos segredos a um desconhecido dentro do cemitério, por sinal.

Afastei as páginas do livro desenhado por galáxias cintilantes pelo hábito de movimentar as mãos enquanto explicava algo. Embora não tivesse completado a frase toda, li as notas escritas a lápis.

À minha irmã, a quem não posso dar as mãos, a quem confiei e confinei meus dias de liberdade condicional, a quem amo:
Carly Shay

— Seu irmão... nunca tinha me contado que ele escrevia... — Ainda vidrava os olhos nas notas, mas pude sentir o semblante dela se fechando.

Deixei que meu corpo caísse sobre a cama. Algo se pôs entre o colchão e minhas costelas, então retirei do bolso interno do casaco algo que fez Carly corar violentamente.

Um livro idêntico, exceto pela ausência das notas escritas a lápis e a adição de mais uma página. O livro que o pianista tinha escrito a mão. O livro que peguei para espionar os segredos dele, na mesma noite em que achei a carta e procurei o revólver, mas que nunca tive coragem de ler. Só existiam dois dele.

E eu nem tinha chegado a narrar o ponto da história em que me deparava com um piano prateado na calada da noite...

— Mas não pode ser, ele tinha me garantido que era o único além da cópia que carregava — Carly exclamou controladamente, observando a capa negra. Usando feições tão indignadas quanto as que aquelas enfermeiras carrancudas usavam.

— E ele tinha me garantido — retruquei, em voz alta — que nunca teve nenhuma intimidade com você. Assim como você também garantiu que não tinha dois irmãos mais velhos.

Roubei o livro das mãos dela, afundei no meu rosto e fechei os olhos, sentindo um cheiro mofado. Consequentemente, prendi a respiração. Nem fiquei tão espantada, afinal o livro dizia "irmão" e confiava que Freddie não seria muito fã de incesto.

— Ele não é meu irmão biológico, meus pais o adotaram durante algum tempo. Assinaram todos os papéis. Fugiu de casa, eu ajudei — seus olhos castanhos, cada vez maiores pela surpresa, viajavam do amontoado rudimentar de páginas original à sua cópia.

— Ele me disse que tinha tocado no enterro do seu avô. Entende quando eu digo que fui enganada? — Voltei a contemplar sua feição, buscando um consentimento. Ela simplesmente balançou a cabeça, a atenção desfocada. Pegou a cópia e examinou a última página.

Gritou, não de horror. Gritou com ar de quem simplesmente tinha deixado escapar um grito.

— É sobre você, Sam. Precisa ler isso imediatamente.

— Se for um pedido de desculpas, nem adianta, já escutei vários e...

Uma súbita autoridade tomou conta do olhar escancarado da Shay à minha frente.

— Lê. Isso.

Não importa o quanto eu tente, acho que nunca vou aprender o seu idioma. E acho que você nunca vai entender o meu, não importa quantas vezes eu diga.
É por isso que eu escrevo, Sam.

Você é como a luz do luar colidindo com a luz do sol, levando-me até um caminho desafiador; como um jardim cercado de flores mortas que irradiam vida. Me faz sentir como numa queda livre de um prédio de novecentos andares: implorando por uma forma de me salvar.

E desde quando conheci os seus olhos, quis conhecer o que estava além deles, sem saber que poderia ser perigoso desvendar o rastro das suas lágrimas. Senti vontade de tomá-la em meus braços e acabar o seu choro, trazer a força que você nunca deixou fugir. Parece tão diferente e incerta quando me atrai para as sombras, mas eu não tenho medo de enfrentá-las. Estamos destinados a viver por eternidades e morrer calados, mas, antes que o pior aconteça, quero que o infinito dure bastante... Porque a nossa melodia acaba como no início.

Do nada, acompanhava o movimento peculiar. Um par de cadarços num bar escuro de San Francisco, à meia-noite, pensando em por que o homem-estátua não levou um soco merecido no saco depois de me expulsar pela segunda vez. Prometi voltar para buscar Carly... ela não ficaria trancafiada num quarto doentio pelo resto da vida. Não enquanto ela estivesse tão ela, tão na dela.

Eu finalmente entendi o que Freddie esteve querendo dizer havia muito: nem o pior dos acidentes tiraria a razão dela.

Notas finais
xo