Notas iniciais
Esse capítulo ficou grande comparado aos outros, então espero que gostem e que ele compense a demora... Cês sabem, né? Carnaval a gente precisa curtir e eu não tive tempo de postar... Mentira, odeio Carnaval (epocazinha do inferno), é porque quis escrever o capítulo direito mesmo. De qualquer forma, feliz feriado e leitura pra vocês.

Mais três semanas passaram com a velha rotina de Seattle: do apartamento para a escola e da escola para o apartamento. Nada além de aturar uma morena tagarela murmurar coisas sobre seus novos amigos da "galera popular" durante o resto dos meus dias e fingir que está tudo bem, para não magoá-la. Sim, estava dando-lhe uma chance de se aproximar de mim e acho que estava tendo sucesso, pois já havia me acostumando com parte da personalidade da garota. E era estranho, definitivamente estranho, conviver com uma garota normal e que tem uma família de verdade, como Carly. E toda essa "amizade" entre nós só começou por causa daquela droga de promessa que fiz para mim mesma de que eu deveria começar a ser mais sutil com as pessoas.

E eu estava tentando esvaziar a minha mente de todos os pensamentos errados que poderiam chegar até ela. E quando digo pensamentos errados, digo apenas porque não quero definir o meu real pensamento. E, sim, desde três semanas atrás, quando vivenciei tudo aquilo naquele cemitério, simplesmente não consegui seguir a minha vida em paz. Não tive coragem para voltar a visitar meus pais outra vez e me sentia uma qualquer, já que fazia isso apenas para não voltar a vê-lo... Eu não queria ver aquele pianista de novo, ele me fazia mal. E quando digo que ele me fazia mal, não exagero nem um pouco. Não sei o que senti quando o vi, mas sabia que era um sentimento mais que anormal. Não, eu não queria senti-lo outra vez. Estava decidida a nunca mais pisar naquele cenário fúnebre. E quando digo nunca mais, também estou falando sério.

Eu não sei por quê, mas lembrei-me de dizer a ele onde eu estudava e ele sabia onde eu morava. Se quisesse me procurar, ele simplesmente o faria. Se ele interessava-se em mim, nada o impediria de tomar uma atitude em relação a isso... Mas, cá estou eu, com mais pensamentos errados na cabeça! O Universo anda brincando muito comigo. Por que não conseguia tirar o nome Fredward Karl Benson da minha mente? Eu não estava sendo a Samantha Joy Puckett que costumava ser.

Deitei em minha cama e me ajeitei nas cobertas quentes que me esperavam macias e aconchegantes, imaginando que tudo ficaria bem e que conseguiria ter uma boa noite de sono... Mas, não. O Universo definitivamente não estava sendo bom comigo nos últimos dias.

Tentei me concentrar nos meus pensamentos enquanto aquela música irritante tocava. Era o celular de Carly, tocando às duas da madrugada. Nada mais que um dos namoradinhos dela fazendo o prédio todo despertar: Paul. E, por sua parte, ela não fazia nada. O sono parecia tão pesado que mal importava-se com o barulho e remexia-se na cama com leveza, não dando atenção ao som alto que repetia-se por inúmeras vezes. Por acaso Carly vive em Marte!?

Me dei por vencida e tentei atender o telefonema, mas a linha ocupada me surpreendeu. Aquele imbecil desligou na minha cara! Eu não podia deixar isso do jeito que estava e não iria deixar do jeito que estava. Pretendia retornar a ligação, mas...

— Ei, Sam... O que está fazendo com o meu telefone? — Vi Carly em pé em minha frente, com um semblante cansado. A entreguei o celular e voltei a me deitar.

— Aquele seu namoradinho, o Paul, estava ligando.

— Ele não é meu namorado. — Ela corou e hesitou por um instante. — O que é que ele queria?

— Não descobri, porque o sem vergonha desligou na minha cara.

— Eu realmente não imagino um motivo para que ele ligue à essa hora. Tudo bem, depois nós dois conversamos e...

— Antes de deitar, não se esqueça de jogar esse telefone maldito pela janela! — disse com o meu jeito agressivo, para assustá-la. Ela revirou os olhos.

— Bons sonhos para você também.

[...]

— Sam, Sam, Sam, Sam, Saaaam!

— O que é? — murmurei sem me importar com a hora.

— Temos teste hoje! Vamos, levante! — Era possível ouvir a voz doce de Carly, que agora estava um tanto alterada.

Mas, o que foi que ela disse? Teste? Ela disse teste?

— Teste?

— Sim, temos teste de... — Ela olhou para cima na tentativa de se lembrar, mas logo caiu na real. — Você não estudou, não é mesmo?

— Estou com cara de quem estudou? — ironizei.

— Ai, meu Deus, Sam! De qualquer forma, você vai pra aula hoje.

— Me obrigue!

[...]

E lá estava eu, na Ridgeway, contra a minha vontade. Ela havia, literalmente, me arrastado até lá. Por minha vez, exigi que Carly me passasse cola, mas descobri que nossos horários não batiam. Droga!

— Ei, professor, posso ir ao banheiro?

— Senhorita Puckett, deveria saber que em horário de avaliações os alunos não devem...

— Obrigada — disse saindo da sala e descendo as escadas rapidamente.

E de repente tudo que eu via era o chão.

[...]

Estava sentada em uma das cadeiras da enfermaria e a enfermeira me encarava de uma forma constrangedora. Não queria que ela houvesse me visto esparramada nas escadas e me levado até lá, mas pelo menos ninguém mais me viu naquele estado. Tudo fazia parte de uma das minhas estratégias.

— Como se sente?

— Mal — menti. Na realidade, aquilo já tinha parado de doer há tempos.

— Acha que pode subir as escadas e seguir a fazer o teste?

— Sinceramente, seria demais para mim.

— Tudo bem, então acho que posso liberá-la. — Reprimi um largo sorriso após ouvi-la.

Meu plano, de certa forma, deu certo.

— Antes de ir... — Ela me avaliou com o olhar, de cima a baixo. — Preciso falar com seus pais.

A minha alegria começou a diminuir e eu apenas respondi com o silêncio, fuzilando-a com o olhar.

— Não vai avisá-los? — ela insistia.

Silêncio.

— Eu perguntei se não vai...

Eu saí cambaleando apressadamente.

Certamente, ela estava fazendo isso para me provocar, já que eu era uma aluna antiga. Eu não gostava daquela mulher e comecei a desprezá-la ainda mais desde aquele momento.

Meus olhos acumulavam lágrimas que caíram antes que eu pudesse controlá-las. Eu limpei meu rosto molhado rapidamente, arrumei minha mochila em minhas costas e andei com o único objetivo de chegar no prédio o mais rápido possível.

Olhei para frente e pude ver a quantidade de pessoas que me cercava.

Todos seguiam calados como se só vissem os seus próprio caminhos e não se importassem com os acasos que enfrentariam na vida. Estavam todos andando em busca de algo e vivendo o "agora" como se nada tivesse uma continuidade... A sociedade funcionava mecanicamente. Como eu poderia ter desejado, em algum dia, viver assim como eles?

— Saaaaaam! — uma voz familiar ecoou em meus ouvidos. Eu não reconhecia a origem dela, mas tudo mudou desde o momento em que vi aqueles olhos castanhos se encontrarem com os meus.

Era ele. E agora? O que eu faria? Ele estava me procurando? Eu nunca soei tão virgem.

Argh, Samantha, tente ser mais Samantha!

— E aí, pianista? — tentei cumprimentá-lo como uma pessoa normal faria.

— Por que nunca mais apareceu no cemitério?

— Sabe, eu nunca pensei que ouviria isso de alguém. — Freddie forçou uma risada depois do meu comentário sem graça.

— Eu trouxe uma coisa pra você. — Ele me entregou uma sublime rosa vermelha. — Cuidado com os espinhos.

Eu adorei a rosa mas não podia dizer isso.

— Ficaria muito decepcionado se eu dissesse que odeio flores? — Disse admirando a rosa e ele arqueou as sobrancelhas.

— Eu desconfiei que você não seria o tipo de mulher que gostaria de receber flores, mas sei que vai gostar de saber como eu consegui essa.

— Jura?

— Eu a roubei da primeira floricultura que encontrei. — Eu sorri. — Agora venha comigo.

— Ei, calma, meu tornozelo está machucado. Eu... caí da escada.

— Quer que eu te leve?

É, eu queria que ele me levasse.

— Não, eu posso ir sozinha. — Sorri novamente e ele retribuiu o meu sorriso.

Era estranho porque eu não sabia para onde estava me levando, mas ainda assim estava feliz por estar com ele. E por que estava feliz por estar com ele?

Nós seguimos a andar e eu percebi quando o cemitério ficava mais próximo. Quando me dei conta de que Freddie morava lá, entendi que estava me levando para a "casa" dele. E o que ele queria com isso? Lá se vai o meu juramento de "nunca mais voltar a pisar no cemitério".

— Por que viemos aqui? — perguntei.

— Porque... Porque sim!

Eu apenas assenti e deixei mais uma lágrima cair — sem que ele percebesse — quando passei pelas lápides de meus pais. Todo o incidente com aquela enfermeira só me incomodava ainda mais. Mas era evidente que ele não podia saber de nada, então eu apenas o acompanhei.

Logo adentramos o cômodo isolado nos fundos do extenso terreno.

— Vamos, sente-se também — disse ele enquanto sentava-se de frente para o imenso piano. Eu apenas obedeci.

Aquela mesma melodia começou a tocar, acelerando e desacelerando-se, a mesma calmaria e rapidez que revezavam seus momentos. Eu fitei cada tecla e cada nota que soava-se através do toque de suas mãos e percebi que tudo aquilo estava me fazendo mais angustiada do que antes, em relação à toda a minha vida. E o que eu faria para esconder meus sentimentos?

— Eu, particularmente, amo o luar — ele afirmou e eu entendi que "luar" poderia ser o nome da melodia.

— Moonlight Sonata? — perguntei.

— Pois é. O que mais me encanta é que tudo começa calmo e se desenvolve... E no fim volta a ser o que era no início. As notas se repetem e a sintonia entre elas aumenta.

Por um momento pensei que aquilo pudesse ser um sinal diretamente do Universo para mim. Teria o fim alguma relação com o início? Argh, Samantha, não se sinta uma pianista.

— Eu nunca soube tocar um instrumento.

— Eu posso te ensinar a tocar algumas músicas de Beethoven se você se comportar direitinho... — Fiz uma careta com a insinuação dele. — Mas, enfim, está muito escuro aqui dentro. Se preocupa em me esperar?

Obviamente, sim. Mas, não, eu nunca diria isso.

— Não há problema nenhum — afirmei segura.

— Prometo que já estou voltando.

Admirei o piano por um tempo, ele era lindo. Lindo como quem o tocava... Eu nunca me esqueceria de nenhum dos dois. Mas não tive tempo de espantar os meus pensamentos antes que Freddie voltasse.

— Eu disse que voltaria.

— Pelo visto você não é um mentiroso — ironizei.

Ele arrumou uma vela em uma mesa próxima de onde estávamos e a acendeu. Eu tentei ignorar as faíscas que originavam-se dela mas simplesmente não consegui me dar conta de que já estava envolvida demais. Senti minha cabeça girar por um tempo e tudo que eu queria era voltar à sanidade, o que era quase impossível. Fazia algum tempo que esse meu fenômeno estranho não acontecia.

Era sempre assim, eu não podia ver o fogo de nenhuma forma. E isso tudo é resultado do trauma que o incêndio deixou. Se o visse, eu teria um tipo de ataque, ficaria pálida e perderia os movimentos do meu corpo, além de me sentir fraca. Tudo reagia mal quando eu estava perto das chamas, por menores que fossem. Mesmo que eu não as tocasse ou não as sentisse, eu nutria dor quando as enxergava.

— Freddie — tentei chamá-lo.

— O que foi? O que está acontecendo, Sam?

— A vela.

— O que tem a vela?

— Apague a vela.

— Por quê?

— Se quer me ver bem, apague a vela!

— Tudo bem.

Assim, tudo que sobrou foi a fumaça.

— E-eu... Me desculpe — eu dizia entre soluços.

Ele me envolveu em seus braços e minhas lágrimas o molharam por algum tempo. Não, eu não podia estar me permitindo chorar na frente de alguém... Mas eu estava.

— Você tem medo do fogo?

— Não é medo... É só que... foi assim que meus pais morreram. O meu corpo não reage bem a isso.

— Então você tem trauma do fogo?

— Eu realmente não sei por que me sinto assim.

— Calma, eu estou aqui com você. — Senti suas mãos alisarem meus cachos.

— Eu queria te conhecer melhor.

— O tempo pode resolver isso. — Nos afastamos.

Silêncio.

— Sabe... se você quiser, pode me contar sobre os seus pais. Sei que vai te fazer ficar melhor.

— Não sei se estou pronta.

— Eu sei que está. Pode me contar enquanto eu toco — ele sugeriu.

Silêncio e mais silêncio. Eu hesitei por minutos e pensei em tudo que eu deveria dizer. De qualquer forma, ele ainda era um estranho, mas nunca me senti tão bem em relação a alguém quanto naquela situação. Eu poderia confiar nele.

— É... eu era filha única. Meus pais e eu morávamos no interior... Morávamos em uma grande casa que poderia, facilmente, ser definida como mansão. Todos nós gostávamos da vida que levávamos lá, longe de toda essa agitação da cidade. Aliás, eu realmente preferia viver lá a viver aqui, hoje — hesitei por um tempo, observando a vela apagada —, mas nada aconteceu conforme imaginávamos. Passamos por dificuldades e meus pais viram a possibilidade de vendê-la. Eu gostava da casa mas não podia interferir na decisão de meus pais, eu simplesmente me calei...

Freddie mostrava-se cada vez mais apreensivo na minha descrição enquanto pressionava as teclas do piano suavemente.

— Então, depois de um tempo, minha mãe passou a discordar do meu pai em relação à venda da casa. Ela queria que continuássemos vivendo lá e procurássemos outra forma de arrecadar investimentos, já que havia outra saída para o problema. Mas, como sempre, meu pai não aceitava o que ela dizia, então os dois discutiam e brigavam por isso quase todos os dias. Eu apenas ficava ali, encarando o nada, fingindo que eu era só mais um objeto. E, sabe, talvez eu não tivesse tanta importância para eles naquele momento... Eu era só uma garotinha de... cinco anos? No que eu importaria? Eles brigavam sempre, e sempre me colocavam no meio de suas brigas. Eu já me acostumava a acordar assustada de madrugada. Meu pai já chegou a agredir a minha mãe, hoje não tenho dúvidas disso.

Ele apenas pegou a minha mão por algum tempo e me olhou de uma maneira acolhedora. Eu movimentei a mão que estava sob a dele para limpar um dos cantos de minha face, onde havia o rastro de uma lágrima.

— Então, em uma das brigas deles, aconteceu o que todos esperavam. A empresa do papai faliu e a mamãe ainda não aceitava a venda da casa, por pior que fosse a situação. Ela não queria voltar comigo para Seattle de forma alguma... E foi assim que começou o... incêndio. Então, eles me salvaram mas não conseguiram se salvar. Eles morreram horas depois e a casa, ainda assim, não foi vendida. Minha tia-avó que passou a cuidar de mim até que eu completasse dezesseis anos decidiu que vendê-la realmente não era uma boa opção. Depois que ela morreu de uma convulsão, eu passei a dividir o apartamento com uma colega em Seattle. Claro, porque antes disso eu já estudava na Ridgeway.

— A casa não te fazia lembrar de seus pais?

— Eu sempre reclamei disso com minha tia-avó, mas ela não ligava. Ela me ignorava e me tratava mal... Eu tinha que vir sozinha até a escola e ela nunca se importou com isso, diferente dos meus pais. Eu passei a minha adolescência inteira sentindo a falta deles, Freddie. Tudo que o Universo faz é jogar na minha cara que ninguém mais me amará como eles me amaram um dia.

— Não diga isso. Você não é como as outras, Sam.

Notas finais
Reviews?