Fire & Desires
12 Conspiration
Notas iniciais
Entrei no meu apartamento e joguei minha jaqueta no meio da sala sem me preocupar muito. Freddie já tinha ido embora.
Mas antes de abrir a porta e girar a maçaneta devagar, atirar a jaqueta em qualquer parte do apartamento e fechar a porta, eu ainda pensava em encontrar alguém lá dentro assistindo filmes românticos e chorando sem parar enquanto lia um livro do mesmo gênero, e ainda trocando mensagens de texto com um tal de Paul — porque essa era a Carly. Mas tudo que encontrei foi ninguém. E também não esperava encontrar uma garota ousada sentada de pernas abertas assistindo à uma exibição ao vivo de luta livre, enquanto, com uma das mãos, segurava umas tiras de bacon e comia sem parar — porque essa não era a Carly que eu queria que ela fosse. Seria como um protótipo meu. Protótipo porque faltou citar "garota órfã e traumatizada", então ela ainda estaria em fase de transição do seu eu Carly para o meu eu Sam. E eu nunca presto atenção na luta livre porque paro pra pensar em como seria mais fácil se eu fosse normal.
Estava definitivamente sozinha e não tinha nada a fazer além de tomar um bom banho antes de me deitar ou ouvir uma música deprimente daquelas bem deprimentes... Mas fiquei pensando se não seria bom ouvir meu pianista tocar um pouco de músicas fúnebres daquelas bem fúnebres pra mim. E agora eu tinha o número daquele telefone antigo da época dos meus bisavós que pelo menos funcionava. Poderia ligar pra ele depois de tomar um banho daqueles bem relaxantes. E depois de comer um pouco de bacon — mas lembrei que o bacon tinha acabado. Me odiava interna e exteriormente, afinal estávamos falando de bacon.
Liguei o chuveiro, tirei minhas roupas e mergulhei na água que estava um pouco morna — mais pra quente. Naquele dia fazia tão frio que eu mal podia respirar o ar congelante que, mesmo dentro do apartamento onde funcionava um aquecedor potente, estava mesmo muito congelante. Muito mesmo. Tão congelante que pensei em passar o resto dos meus dias de vida embaixo daquela corrente tranquila e deliciosamente aquecida que caía no meu corpo. Não sairia dali nunca mais se não fossem os outros problemas e traumas que enfrentava desde quando tinha, sei lá, uns cinco anos de idade. Porque foi desde aí que eu aprendi que nada poderia tirar a minha atenção dos meus medos. Mesmo que eu estivesse só relaxando enquanto ensaboava o meu corpo, não podia permanecer ali para sempre. E nem podia pensar que poderia permanecer ali para sempre.
E o banho nem sequer foi longo, porque fiquei com muita fome e só vesti um monte de agasalhos. Decidi "migrar" pra algum armário onde tivesse uma dessas comidas industrializadas ou enlatadas que eu comprava só pra deixar ali, já que não queria comer fora como sempre ou ao menos sair na rua. Os motivos eram óbvios. E eu não podia cozinhar pelo simples fato de ter medo do fogo e pelo simples fato de não haver cozinha naquele apartamento. Se eu pedisse comida, ela iria demorar mais do que eu poderia esperar. Era basicamente isso. Então eu só comi aquilo e me deitei na minha cama.
Tateei o criado-mudo até alcançar meu celular e coloquei o número de Freddie, depois demorei um pouco até pressionar a tecla "ligar" porque nunca tinha ligado pro "meu namorado" antes. Ele atendeu segundos depois, como se estivesse esperando que eu ligasse:
— Poderia falar com Freddie Benson? — disse sarcasticamente.
— Ele mesmo. — Ele sabia que era eu, claro.
— Devo dizer quem eu sou?
— É você, Senhor Presidente? — Eu fiquei quieta. — Qual é, Sam, já conheço sua voz.
Ele pronunciou o "já conheço sua voz" como se não devesse conhecer. Eu hesitei e fiquei pensando que tínhamos nos conhecido há pouquíssimo tempo. Pouquíssimo tempo para estar onde estávamos.
Mas isso não era um problema. Não para mim. E não seria dali em diante.
— Ainda está aí? — ele perguntou com a voz rouca que eu tinha ouvido quando o vi pela primeira vez.
Aquela era a voz que eu tanto conhecia quanto amava.
— Sim.
— Mas o que aconteceu? Por que está quieta?
— Nada — respondi como se fosse o bastante.
— Me diz, Sam.
— Já disse que nada aconteceu, Freddie.
— Por que me ligou se não quer conversar comigo?
— Desculpa.
— Eu te desculpo.
Ele era muito compreensivo. Até demais. Até porque para alguém em sã consciência se apaixonar por mim precisaria ser um alguém minimamente compreensivo ao ponto de compreender todas as minhas insanidades. E, nossa, eu tinha ligado pra ele e de repente todas as palavras fugiram. Mas ao invés de desligar, ele ainda estava ali.
— Eu ainda estou aqui. — Ouvi sua voz soar do outro lado da linha. E o Universo sempre conseguiu ser mais sarcástico do que eu.
— Eu te liguei porque... estava com saudade. Queria ouvir um boa noite seu. É só isso.
— Boa noite, meu amor. — Juro que aquilo me arrepiou, também.
— Boa noite, meu pianista — retruquei.
— É sério que você ainda não descobriu como eu me apaixonei por você? — Eu esperei que ele continuasse. — Você é sensual na medida certa. — Eu ri.
— Ah, sou sim. Sou assim com você.
— Boa noite de novo, meu amor.
— Boa noite de novo, meu pianista.
Então ele desligou, quer dizer, eu desliguei. A verdade é que não dava pra saber quem é que tinha desligado, mas eu já podia dormir bem depois daquele breve diálogo.
[...]
Na outra manhã eu fui direto, mais uma vez, para a clínica. Sabia que o pianista ia aparecer dentro de alguns poucos minutos e que nesse tempo eu poderia aproveitar pra espiar um pouco o estado da Carly. Fiquei pensando em como agiria, já que agora eu sabia que ela tinha, provavelmente, perdido completamente sua memória; mas não completamente. Ela tinha perdido grande parte da memória e ainda assim essa parte abrangia a mim, então pra mim ela tinha perdido a melhor parte de sua memória. A parte que me incluía. E isso soou tão meio que narcisista — no sentido figurado, melhor dizendo — que me fazia lembrar o quanto as palavras dela soavam narcisistas o tempo todo, nesse sentido. Ela sempre esteve tão feliz consigo mesma que até mesmo se auto engrandecia a ponto de diminuir os outros.
Nos últimos dias chegou a ser notável que eu pensava muito na Carly e lembrava mais de tudo que ela fazia. Tudo era esse sentimento de culpa que não parava de crescer, pra ser clara. Mas pensamentos não são capazes de trazer alguém de volta. Nem de eliminar uma sequer parte da culpa: eles só ficam nos perseguindo e a culpa aumenta de tamanho. Num piscar de olhos tudo que eu me vi pensando era naquilo, retoricamente. Mas aquele dia foi o último em que visitei aquela clínica.
— Não pode ser verdade! Eu e o Freddie... — eu dizia alto o suficiente para assustar os clínicos que estavam em volta do local. — Nós ficamos aqui com ela e tudo isso aconteceu sem que nos avisassem!
— Se acalme. Ela foi transferida, mas está tudo bem com a paciente.
Me calei e clamei ao Universo que Freddie aparecesse logo, mas nada. Nada. Nada!
Quando cheguei no hospital tudo estava bem, mas logo soube que ela tinha sido transferida para uma "clínica especializada"; que ela estava sendo tratada como se estivesse passando por problemas exclusivamente mentais. Que tudo tinha mudado e eu não fui avisada. Que eu poderia nunca mais vê-la e que todo o meu esforço não valeria de nada.
E a culpa persistiria em atormentar a minha vida sem que eu pudesse torná-la menor.
A clínica especializada em tratar loucos ficava em San Francisco, e ela havia sido enviada por ordem dos Shay. Mas que tipo de família é essa? Quer dizer, eles mal queriam saber da garota e de repente a transferem pra esse tipo de clínica sem mais nem menos. Eles nem sequer apareceram enquanto ela estava internada.
Eu engoli seco e saí de lá às pressas. Fui pro cemitério ver onde Freddie estava e encontro ele passeando nos túmulos, assim, naturalmente, como se não tivesse nem me dado um bolo...
— Por quê? — eu perguntei, mas ele não tinha escutado. — Freddie! — gritei.
— Desculpa. Eu sei que deveria ter ido pra clínica mas...
— Mas o quê? Transferiram a Carly pra um manicômio em San Francisco e você não estava lá. Por quê?
— Porque eu acordei um pouco mal. Mas desculpa. Desculpa mesmo. — Ele tentou me beijar mas eu não deixei. Não dessa vez. Não quando ele tinha me deixado plantada no momento em que eu precisava dele.
— Desculpa? Então é isso que você tem a dizer? Nós estamos namorando há algumas horas e tudo que você tem pra mim, às oito horas da manhã, é um pedido de desculpas?
— Na verdade, estamos namorando há umas quatorze horas. E meia. E eu também contei em segundos e em...
— E você já me deu um bolo.
— Desculpa. — Ele me puxou pra perto dele e me abraçou de lado.
— Mas por quê? Por que não foi lá comigo se...
— Eu não estava me sentindo bem, é sério.
— Mas então por que não me disse? Daí eu vinha cuidar de você. — Ele sorriu.
Beijei ele na bochecha porque achei que ele merecia.
— Nada muito grave, sabe? Era só dor de cabeça — completou.
— E eu posso curar essa sua dor de cabeça.
E aí nos beijamos de verdade.
[...]
Estava sentada do lado do meu pianista enquanto ele tocava umas músicas fúnebres daquelas bem fúnebres que eu só gostava quando ele tocava. E, bem, estava interagindo mais comigo mesma do que com ele naquele momento.
— Às vezes não entendo por que o Universo é assim.
— Assim como? — Freddie arqueeou suas sobrancelhas. Ah, já estava na hora de ele fazer isso.
— Desse jeito.
— Desse jeito como?
— Redondo que nem o planeta. O Universo não é só redondo. Ele é redundante.
— O planeta é geoide.
— Mas ele é meio que redondo.
— Mas é geoide.
— E por que tem que ser geoide quando passei minha infância toda acreditando que ele é redondo? Preservo minhas opiniões, e, no meu ponto de vista, ele só pode ser redondo.
Ele ficou em silêncio e continuou tocando a música, mas não conseguiu ficar calado por muito tempo. Era como se estivesse elaborando mentalmente uma fala que fosse própria para a ocasião.
— Tecnicamente falando, geoide é só um modelo físico da Terra em alguns sentidos. Então você pode estar certa.
Ele pareceu pensar por mais um tempo.
— Mas, pense comigo: as rotas marítimas não são todas geometricamente planejadas. É como se eu fosse a Terra e você fosse o meu oceano.
— Como assim?
— A Terra seria geometricamente planejada se não fossem as rotas marítimas ou os polos. Ou sei lá o quê. Então, bem, eu posso ser geometricamente igual, mas você, bem... É como se você fosse a ondulação, sabe? O que me torna um pouco fora do padrão. O que me torna menos redundante, como você disse.
— Foi só um exemplo ou você realmente me vê como alguém que te completa?
— Ahn... Bom... Não sou nenhum universitário, mas sei que as matérias tendem a se completar — falou sugestivamente.
Então eu sentei em sua perna esquerda e me ajeitei em cima dele. A música parou e ficamos nos encarando profundamente.
— Acho que inteligência de mais atrapalha — falei. Ele me deu um selinho em seguida.
Silêncio.
— Uma vez ouvi dizer que cada um de nós precisa fazer a vida fazer sentido. Você acredita nisso?
— Acredito que é preciso achar sentido onde não há.
Então percebi que era quase a mesma coisa que ele tinha dito, mas não era a mesma coisa. Era esse quase que tornava a diferença entre as frases tão interessante. Era esse quase que talvez viria a nos completar.
Ele segurou minha mão, levando até o piano, e pressionou os meus dedos de encontro com as teclas devagar. Soltou e eu fiquei tocando — desastrosamente — algumas delas enquanto me beijava. Ele também me beijou de surpresa, naquela tarde, e eu tive que tirar as mãos do piano para colocá-las nas dele outra vez, e só depois de uns instantes as duas mãos se separaram.
Fiquei pensando em toda a conversa sobre os supostos formatos globais e persistia em pensar no quanto a Geografia poderia não estar presente no conceito universal. Quer dizer, o Universo não estava girando como o mundo: pelo contrário, ele era fixo. Fixo em cada parte que o fazia único. O Universo estava em todos de forma a ainda ser considerado apenas um. O Universo não era totalmente como o planeta. O Universo variava de tamanho mas nunca deixou de ser notado. O planeta era apenas do tamanho que sempre foi — o planeta era apenas maior que toda a humanidade junta. E, confessemos, nunca nos preocupamos com o lugar onde vivemos. Nos preocupamos com a conspiração desse lugar.
Porque a humanidade era o que estava no planeta, mas ela não o constituía. O que constituía a Terra eram os oceanos que lhe conferiam as rotas marítimas. E o que o habitava era só o resto — a camada biosférica. A simples camada biosférica.
A graça do Universo são essas metáforas.
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