Fire & Desires
29 Clair de Lune
Notas iniciais
Seres lógicos vão embora. Você não pode impedir que um fim chegue. Porque tudo começa. É uma das únicas coisas possíveis de generalizar com certeza: tudo começa. Se tive uma liberdade que passou rápido, esse rápido só foi rápido por culpa do quão longo foi o início. Mas isso (o ato de exemplificar) é algo que eu não posso generalizar. Não sei se aconteceu com você antes do meio em que esteve aqui comigo. Mas, se começou, acaba. É uma outra coisa decididamente previsível. Segue acabando até cruzar o último portal, não importa o quão longe ele esteja.
Se esses seres vão embora, é exatamente porque foram eles os primeiros que deram origem ao ciclo vicioso do nada-é-pra-sempre. Não foi algo criado por eles, como, por exemplo, um medidor do tempo. Um relógio de pulso não pode informar se um tempo deixa ou não de preservar validez. E nem um de parede, nem de bolso, nem de nada. Por isso, por causa dessa limitação, um relógio vai parar de funcionar. Só que nunca foi visto um que fosse embora.
E como eu sei disso? Eu sei disso por causa daquele clichê. Eu convido você a parar o que quer que esteja fazendo agora (tentando entender minha caligrafia confusa, talvez?) para pensar comigo:
Os famosos clichês só se tornaram clichês porque outra pessoa refletiu sobre o clichê e fez parecer menos comum. Sem pensar que algo é clichê, ele nunca vai mudar. E o que foi mudado, um dia, vai se tornar clichê.
Você leu bem rápido o parágrafo anterior.
Eu sei disso porque eu te amo.
Eu não vou enrolar até a tinta acabar ou a invasão alienígena finalmente acontecer e perder a oportunidade de escrever que eu te amo logo. Esperar por isso... esperar foi clichê a meu ver, Sam. Foi, pelo menos, até aqui.
Contudo, não queria que ainda sobrasse tinta nisso em tempo de registrar que, sim, você cometeu um clichê que supera em quantidade e massa as vinte mil léguas de azul dos seus oceanos. Você foi embora. Atrás da minha irmã. E eu não honrei nada da promessa que fiz à minha mãe: acabei de procurar a caneta em alguma parte do chão desse cemitério, e achei um cigarro. No Universo habitado por cada ser lógico vivente, isso significa que ainda espero. Eu estou esperando.
E usei todas as minhas possibilidades de espera. Acendi o cigarro, saí andando. Precisei tomar um banho, então passei no seu apartamento. Podia ter a cópia das chaves há muito tempo e você não saberia, o que não faz diferença desde que não trancou a porta quando sumiu pelo vão. Com chave ou não, entro lá há muito tempo e você não sabe. Nem a Carly sabia.
Ah, quem se arriscou muito dizendo onde morava, olhando nos olhos do cara que tinha acabado de amarrar você? Você. Como quem evita os clichês, nunca que eu decidiria ir embora. Eu fiquei parado.
Fechei os olhos. O mundo sem você e o mundo com você exigiam que eu fechasse os olhos. Uma força desconhecida, vinda seja lá de qual mundo, me fez ajoelhar; eu continuei esperando... o seguinte.
Uma mão pesada se enfiou no bolso lateral da minha calça e tirou de lá a única lembrança material que levei da casa dos Shay. Não era a sua. Não era o nosso mundo... não era um mundo.
Luz.
E lua.
E luz da lua.
Era o quê?
Era luar.
Razão pela qual senti vontade de visitar meus pais.
Todos os dias, acordava com meus próprios braços me envolvendo. Com meu próprio cheiro impregnado na minha própria roupa. Não por saudade deles. Seria loucura... sentir saudade de quem já se foi e querer que possuíssem meu corpo enquanto eu dormia. Doentio fantasiar que algo apenas possua você (seja esse algo vivente ou não), anos depois. Depois de tantas reflexões, e pessoas, e traumas.
Eu tinha a mim, sabendo que não tinha um eu.
O que faltava naquele eu era o indivíduo que fosse, menos eu.
Carly se levantava e lia um livro antes de ir às aulas, porque garantia tirá-la do estresse. Ela comprava roupas novas nos fins de semana e selecionava a comida que ia comer, verificava a validade. Não vivia sem seus hidratantes. Os dias que ela chamava de "ruins" eram desperdiçados com filmes românticos. Nada de luta, nada de sangue. Eram filmes românticos. Sempre acabavam bem.
Ela chorava, do nada, enfurnada na cama. Com uma mão escondida e a outra à mostra, tremendo. Cinco minutos depois, ela sorria na minha direção. Sem proferir uma palavra. Limpava o rímel escorrendo dos olhos defronte o espelho e se trancava no banheiro, saía só trinta minutos depois. Completamente o contrário do que entrou. Pegava uma folha de caderno, terminava o dever de casa e se encolhia. Quando ela se encolhia, eu sabia: estava escrevendo sua tristeza. E não chorava mais. Não pela mesma coisa. E ela dizia que me entendia.
Pense comigo, pianista. Ela dizia que me entendia! Ela cuidava de si mesma, cuidava de quem nunca se importou com cuidado... e ainda dizia me entender, compreender! Esses foram os piores dias dela, nos quais prestei atenção. É óbvio que minha primeira reação seria sonhar que os órgãos de seus pais, suspensos numa trilionésima galáxia, se dilatavam um por um e eram transformados em estátuas corroendo esverdeadas. Que a causa disso tudo era a chuva ácida escorrendo dos olhos negros dela. Ela chorava e não fazia todo aquele choro corrosivo, poluído se resumir numa folha de papel e num sorriso hipócrita. E era o choro dela, escrito por outra Carly que vivesse mil anos depois, com o qual corações e mais corações se feririam também.
Mas não foi o que sonhei naquelas noites, pianista.
Sim, seria um sonho minimamente obscuro a meu ver, não um pesadelo. Naquela época, sim.
De qualquer forma, não chegou nem perto.
Porque eu a adorava. Eu a adorava mesmo que ela achasse que suas galáxias e mais galáxias de livros fossem o suficiente para justificar minha arrogância.
Porém, ela não era assim antes de conhecer você.
O quão rápido foi? Nada. Nada é rápido, pianista.
Larguei o carro assim que o cemitério se aproximou. Levava o celular de Paul numa mão e, na outra, o livro.
Os dois escorregaram.
E eu inalei cinzas.
Provavelmente aquilo vinha do motor da lata velha.
Tinha que vir do motor. Não podia vir de você, pianista. Não pedi ao Universo que fosse assim. Não pedi a ele que repetisse acontecimento por acontecimento. Não pedi a ele que formasse o seu nome contorcendo um por um os anéis de fumaça.
Eu pedi a ele que você tocasse no meu enterro. Pedi ao Universo porque ele é todo o todo no qual eu confio. Ele é real, eu consigo vê-lo e senti-lo e lê-lo. Eu consigo respirar nele, pisar nele. Ele não é absoluto, Freddie. Nem a Terra é absoluta, porque não é geométrica.
Não é.
Milhares de velas.
Milhões de velas.
Todas acesas. Todas se refletindo em mim. Todas avançando e recuando como as ondas do meu mar.
Era o fogo da maneira que eu mais odiava incessantemente. Era o fogo que me fazia estar odiando de uma maneira incessante.
E isso quer dizer que era a absolutamente igual.
Não era vermelho ardente, nem laranja escuro. Nem nada que você pode colorir. O fogo não tem cor. O fogo é impossível de se estudar, queima a percepção em volta dele. O fogo... o meu fogo era, sim, tudo de ruim que já me aconteceu. Tudo que eu mais temia, também. E foi olhando na direção dele que eu entendi: assustador era revê-lo às madrugadas, bem mais pavoroso soaria nos meus ouvidos... o ruído da explosão.
Quando abri os olhos, quase saltaram para fora das órbitas. Por fim, enxerguei. Eu não precisava tanto que você me desse a mão, pianista. Precisava que você me deixasse puxar a sua mão. Precisava que você ainda estivesse lá dentro e que todas as chamas se confundissem com a ilusão. Não sei se quis ir com você, não lembro.
Quis que você me possuísse pela última vez.
Fácil acreditar que, em fase de distúrbio, uma emoção é contraditória à outra. Cinco horas antes, pretendia matar. Cinco horas depois, custava sobreviver pela sobrevivência de outra pessoa. Meus pais queimavam pela segunda vez, embaixo de seus túmulos... e quem estava de pé era eu. Não aguentaria estar de pé se, dali a alguns instantes, nem um túmulo você tivesse.
Razão pela qual tirei os sapatos.
Naquele dia em que apareceu para visitar seus pais no cemitério, eu estava louco de preocupação. Foi o lugar mais abandonado que encontrei. Foi, logo, o lugar mais seguro aos meus olhos — estes, de quem se esconde.
Vez ou outra, claro, uma gente aparecia por ali. Mas a gente com a qual eu estava me acostumando não chegava nem perto... da sua audácia em saber se soltar de cordas. Aliás, quando olhei nos seus olhos, não pensei o que deveria pensar... porque eles brilhavam muito, Sam. Mesmo estando longe. E eu tinha certeza de que os meus não brilhavam assim havia muito. Seu olhar ofusca faíscas.
E, então, descobri que você foge de faíscas.
Cada parte do seu rosto tornava obscura qualquer existência no entorno.
Você vestia uma blusa larga e um jeans surrado, um tênis nos pés, pulseiras remendadas... mas estava linda. Sua silhueta era inquieta. Isso nunca poderia ter me atraído mais.
Apesar dessa atração, não me senti são e salvo.
Você não me violentou, a princípio. Não fui recebido com sua fúria, da qual tomei conhecimento algum tempo depois que antecede o atual.
Sam, nunca fui necrófilo. Não quis matar você. Não quis abusar de você. Não quis... mas você me perguntou se eu era um fugitivo.
Somos. Eu e você somos.
Não foragidos, mas fugitivos.
A culpa é do que nos fugiu: sanidade.
Sigamos a razão, ao menos uma vez: os números não têm fim e estamos vivendo num Universo feito deles, sem perceber.
Por causa de você, eu percebi. É todo um conjunto de possibilidades reunidas dentro de um coração desigual, e eu não me importo, porque possibilidades nunca entram em escassez.
Eu jamais aceitaria que você tivesse uma linha do tempo travada no extremo em que seria destinada a terminar.
Depois do fim, vem outro início.
Mas o que quero, Sam...
...o que realmente queria era viver mais um meio ao seu lado.
Achei essas folhas de papel no bolso da minha calça pelo caminho, peguei a caneta no outro bolso e comecei a escrever essa continuação, andando.
O que mais quis foi nunca ter conseguido escapar das cordas com as quais Derick me amarrou para que eu não voltasse ao cemitério. Mas você se deixou em mim. Você deixou que eu te lesse e, agora, qualquer um que resolva me ler vai se deparar com mais do que apenas um pianista.
O caminho de pedras.
O caminho de pedras pareceu mais curto do que nunca.
Mais do que qualquer termo substantivado semelhante, pareceu tão curto quanto o nunca.
E meus olhos arderam, Sam.
Mesmo eu tendo apagado meu cigarro, meus olhos arderam.
Não era pela fumaça, mas porque um par de tênis sujo estava ali, jogado, à beira do incêndio.
Era o seu par de tênis sujo...
...exatamente como você era suja.
Sujeira de um jeito pitoresco, bem pitoresco.
Uma que eu fazia questão de que lessem em mim. E que, a partir daquele momento, eu pude ler no céu-de-panela-de-pressão acima do muro. Do restante do muro.
É.
Não era, nem foi, nem vai ser.
É o fim.
Sei que é o fim quando vejo crateras se abrindo por onde o fogo se deixa cair. É presente.
E, naquela noite, senti calor. Foi muito calor. Foi o inferno no meu oceano, no meu peito, no meu chão.
Mas foi, principalmente, nos meus pés.
Porque seria impossível passar por toda a tragédia externa sem ter um pouco dela flamejando em alguma parte de mim: nos meus pés.
Não na sola de meus sapatos.
Nos meus pés.
Na minha pele, tal qual acontecera nas escadas.
A cada inspiração, mais uma dor. Uma dor que substituía o anseio crescente de suicídio: saber que havia uma pena por tudo aquilo. Por estar cara a cara com ele de novo e por achar que salvaria sua pele, pianista.
A sua, que não tinha por que queimar.
Corri, segurando as lágrimas nos olhos. O cômodo nos fundos começava a desabar freneticamente, e ela...
Eu a vi.
Pus as mãos por debaixo da blusa e arranhei entre a barriga e o pescoço, arrastando a outra mão e rasgando o tecido. A dor nos meus pés me fez levá-las até o cabelo, e eu o puxei. Arranquei alguns fios dele. Deixei caírem, queimarem. Calada. Completamente calada. Transbordada.
Transbordando.
Meus movimentos pareciam ter sido cortados, e eu os refiz. Acariciei os ferimentos que eu mesma tinha causado, sem desviar o olhar dela. Passei as mãos por todo o peito, pelos meus lábios. De leve. Calorosamente. Transbordada.
Não transbordada de lágrimas.
Não tinha cadáver nenhum, e eu vi você sobre ela. Como devia, deveria ser. De frente para ela.
Não transbordada de trauma, pianista... sim, transbordando por você.
"O clichê?
"Eu não estaria escrevendo se ele nunca tivesse entrado na minha vida, então ninguém jamais saberia que ele entrou na minha vida, quando ser ele já é algo digno de lembrança... mas não daquele tipo de lembrança que gravam numa lápide. O tipo de lembrança que se grava num espaço. No meu espaço. No espaço que eu costumava dividir com ele, épocas atrás. Continua sendo dele."
E foi isso o que mais desejei dizer, caso pudesse deslizar, ainda que insuficiente, o último pó em seus pulmões entre meus dedos.
Eu pisquei os olhos na mesma lentidão e ainda era apenas ela, me encarando, quando a lâmpada que pendia finalmente se quebrou. Mas ela não se cortou, porque ela não era eu. Nada a transpassava. Exceto você, quando a tocava.
Dei meia-volta. Corri de novo. Com bolhas nos pés. Mas sentindo orgulho de nunca, jamais ter salvado você dela, do que realmente o fazia se sentir são...
...e são, pianista, significava estar salvo.
Encontrei o portão e encontrei meu par de tênis. Deixei-os ali.
Um viaduto.
É sempre nele que pensamos: é sempre depois dele que nos perguntamos se tantas pessoas e carros não poderiam ser, simplesmente, constantes inalteradas.
Estão sempre ali, vazios.
Mas havia algo além dele.
Quero dizer, embaixo.
Uma cafeteria fechada, lacrada, trancada. Uma cafeteria que eu invadi. Na qual eu entrei... na qual me lembrei dela.
Dela, que era prateada e sorria sem ter um rosto. Dela... e tudo meu, inclusive a carta da minha mãe biológica, a que jamais abri, também ficava nela. Até acabar. Sem direito a um novo início. Era constante, pelo menos, aquele final.
Moonlight Sonata podia voltar a ser dela.
Mas Clair de Lune era sua de novo, Sam.
Era completamente sua.
E eu vi o piano dourado, me assentei. Nem me dei o trabalho de procurar acender as luzes: estava tudo muito claro.
Não toquei como se relembrasse de quando a tocava. Era mais sólido, mais incomum. Toquei para que você ouvisse e viesse me buscar. Que viesse me encontrar, numa cafeteria embaixo de um viaduto. A cafeteria para a qual você tinha me levado, onde me apaixonei por você pela oitava hora da manhã. Pouco mais de duas horas após a mais profunda aurora que já contemplei.
E então, ali estava a sua silhueta: inquieta.
A maior pena não era andar no asfalto com bolhas nos pés, era pensar ter perdido a única coisa que pensei ter ganhado em toda uma vida.
Grace me colocava de castigo aos treze anos, e eu ia para a cafeteria embaixo do viaduto.
Você, por lei, começou a ser pronome, pianista... e eu ia para a cafeteria embaixo do viaduto.
Eu ia, quando vi as luzes apagadas e, mesmo assim, uma melodia cativante me prendendo pelas frestas da porta arrombada.
Aqueles acordes.
Aquelas notas.
Aquele som.
Aquilo vinha das suas mãos, do jeito como você dedilhava as teclas e as pressionava, segurando, por vez, todas elas para si.
Das suas mãos, que já tinham feito o mesmo comigo.
Das suas mãos, que eu não puxei.
Era um breu, e eu enxergava você. Tão real quanto o dia em que vi Grace na forma de um fantasma. Desejei que fosse um espectro também, mas não precisava fazê-lo...
...porque sua melodia não parou.
Eu me aproximei, me sentei ao seu lado. Observei como você era, tão invisível. Eu nunca tinha ouvido algo igual, sabendo não ser a primeira vez. Memorizei toda aquela sequência e tirei suas mãos do piano, substituindo pelas minhas. Acertando as notas, reproduzindo um som muito parecido com aquele ouvido no último instante em que você tinha as deixado.
Encostei minha cabeça no seu ombro e senti um calor mais intenso que o das chamas.
Nunca precisei de nenhuma testemunha para saber que era você, me segurando de volta. Nunca precisei de ninguém para me dar certeza de que não seria a última vez.
Só precisei do que saiu da sua boca antes de que nosso extremo se completasse e outro nos desse início.
Universo, é você?
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