Fire

5 4 - Sobre o passado


Notas iniciais
Eu sei que voce esta ai! Comente!

O que Jennice sentira durante o interrogatório não era uma mera falta de paciência, era certo, digamos, problema de controle de raiva. Uma infinidade de fatores contribuiu para esse diagnóstico, mas se tornar adulta cedo de mais, por obrigação, foi o principal.

Há muitos anos atrás, quando Jenn tinha apenas onze anos, sua vida era perfeita, seus pais eram felizes juntos, Selina, sua mãe, era a pessoa mais radiante e a mulher mais bonita que já havia visto em sua curta vida, estava sempre sorrindo com os olhos que jamais perderiam o brilho da inocência, de que se surpreendem com coisas simples e que, geralmente, existe apenas nas crianças.

Bem, eventualmente, eles perderam.

O brilho se foi no exato segundo em que sua mãe, no hospital junto com toda a família, ouviu uma moça de branco dizer a sentença: “Senhora Glick, sinto informar que, infelizmente não pudemos fazer mais nada pelo seu pai.” Ela jamais havia visto a mãe naquela situação, todo o resquício de alegria e esperança possível se esvaiu do seu rosto, e ela não sabia dizer a razão. Acontece que não haviam explicado para a pequena Jenn que seu avô acabara de ter uma parada cardíaca, decorrente do AVC que havia sofrido no dia anterior.

Ela estava sentada na cadeira mais distante que poderia ter encontrado, aparentemente, ela não poderia de forma alguma saber o que estava acontecendo. Tudo que sabia era que toda a família teve que ir para o hospital.

Jenn já havia estado no hospital no ano anterior a esse, quando quebrou o braço andando de bicicleta. Toda a família foi visita-la, levando presentes e chocolates. Tudo que sua mente ingênua se permitiu formular foi que o mesmo havia acontecido com outro.

Mas claro que em algum momento alguém teria que lhe explicar o havia acontecido, mesmo que a pessoa tenha tentado deixar a notícia um pouco menos cruel para uma criança. Algumas horas depois que deixaram o hospital, ela perguntou a uma de suas tias onde seu avô estava, e esta não teve escolha se não lhe contar a verdade. “Querida, seu avô já estava bem velhinho, como você sabe, e também sabe que, quando as pessoas ficam bem velhinhas e fracas, elas vão para o céu.” levemente confusa, afirmou com a cabeça. “Então, como seu avô estava assim, papai do céu já chamou ele, meu bem.”

Ela nunca chorou tanto, seu avô era uma das pessoas que ela mais amava nessa vida, era um segundo pai. E ele a havia deixado, e pior havia deixado sua mãe. Jenn não suportava escutar uma única música, ver uma foto, ou até mesmo ver uma garrafa de vinho – a bebida preferida de seu avô – sem se lembrar dele e começar a chorar. Mas claro que fazia isso escondido, ela não queria que sua mãe ficasse ainda pior do que já estava só por que sua filha estava triste, mesmo depois de muitos anos, é uma dor que nunca passa, parece que uma parte de você foi arrancada, e, acredite, nunca será devolvida.

Dizem que o tempo cura tudo... bem, nem tudo. Selina começou a beber muito, muito mesmo, não conseguia trabalhar, nem mesmo sair da cama em alguns dias, foi ai que Jenn teve que amadurecer cedo de mais, logo depois que seu pai também decidiu deixa-las, pois não aguentava mais a esposa chegando bêbada em casa, jogada na cama chorando o dia inteiro e falando coisas completamente sem nexo. O tempo não curou nada, não curou a dor de ninguém, é o tipo de dor que não pode ser curada, ainda dói, você só se acostuma com a dor.

Depois de muitos anos de terapia, Selina se recuperou, mas não totalmente, os problemas que decorreram da morte de seu pai deixaram algumas sequelas, uma delas, diabetes, o álcool destruiu seu pâncreas, parando a produção de insulina. A outra, Jenn perdeu grande parte da sua infância e adolescência sendo adulta. E claro, ela também tinha que lidar com problemas no colégio, ela conhecia muitos imbecis que nunca haviam perdido alguém, e ficavam fazendo brincadeiras idiotas sobre como ela era uma pessoa fria e antissocial.

Foi assim que o problema de raiva começou, no inicio das brincadeiras, ela não ligava, mas começaram a ficar incomodas. A primeira vez que sua paciência se esgotou completamente, uns três garotos estavam falando besteiras sobre ela, que estava quieta no seu canto, mas a provocação durou tempo de mais, ela se levantou num pulo e foi na direção dos garotos, eles nem se moveram. Ela pegou a cabeça de um deles e bateu com força contra o acabamento de mármore botticino das paredes da escola, criando uma marca vermelha em meio ao dourado com bege.

A sensação que lhe causou foi algo libertador, um sentimento incrível, viciante... violência é a droga que Jenn usa, até hoje, mas agora tem um lugar especial para isso, o campo de tiros. Mas, na época da escola, não saber controlar esse vício lhe custou muito, fora manchar sua ficha com advertências e suspenções, perdeu as poucas amizades que possuía.

Agora, muitos dizem que ela não tem aquele brilho nos olhos de alegria, e perguntam onde ela o perdeu, bem, tudo que ela pode responder é que essas pessoas podem procurar esse brilho ai no tumulo de seu avô, por que foi ali que ela o deixou.

Notas finais
COMENTEM!!!!!!!!!!