Fire
3 2 - Sobre pessoas e suas reaçoes
Notas iniciais
Abrir cadáveres era rotina para Evvie Queen, a médica legista era bem conhecida no DP por ser uma das funcionarias mais bonitas. Com quarenta anos, mas aparência de trinta, ela abraçava a sua beleza de origem africana, a pele escura, cabelos cacheados sempre volumosos, as feições marcadas e o corpo esbelto já chamavam atenção de quem passava, mas sua gentileza e alegria iluminavam o dia de qualquer um.
A sala de autópsias perfeitamente esterilizada e organizada da forma mais prática que o Transtorno Obsessivo Compulsivo de Evvie deixava. A entrada na sala era permitida para pouquíssimas pessoas, apenas os funcionários mais antigos e íntimos, que sabiam – alguns por experiência própria – que não se mexe nas coisas de Evvie Queen.
O mínimo detalhe pode ser a prova mais importante de um caso, ela não pode deixar passar nada, analisando cada milímetro de pele iluminado por um conjunto de LEDs brancas ao redor de uma lupa. Parou no pescoço, uma marca fina, azulada contornava todo o pescoço do garoto. Começou a repassar tudo que poderia ter feito aquela marca, barbante ou talvez uma corda fina... não, a marca era muito delineada, um arame ou a corrente de um colar, sim, isso era mais provável.
Causa da morte: enforcamento. Adicionou ao seu relatório mental.
Descendo um pouco mais com a luz, observou os cotovelos do garoto, a pele que cobria a articulação estava arranhada e roxa, mas o sangue já havia coagulado quando ele morreu.
Lesões in vitam: ferimentos de defesa, mãos completamente queimadas, marca no pescoço.
Começou a procurar por algo nas roupas do garoto, com sorte, encontraria as digitais de quem brigou com ele antes da sua morte.
*
Um corredor depois da sala de autópsias, estava a sala do jovem Nicholas Dooley, provavelmente o mais jovem empregado do DP, com apenas 27 anos, mas talvez a sua idade condissesse muito bem com a sua função ali, trabalhava coma parte tecnológica de uma investigação.
Algumas poucas horas depois que lhe entregaram o celular de Chad Devney o seu software já havia decodificado a senha de quatro dígitos, 2423, digamos que não é a senha mais difícil de ser descoberta, por dois motivos muito simples, 1: é uma sequência muito básica, e 2: são os números correspondentes as letras do seu nome. Fácil, com algumas tentativas, Nick teria descoberto essa sem a ajuda do seu computador.
A melhor forma de conhecer uma pessoa é olhando o celular dela, não tem jeito, absolutamente tudo de nossas vidas está guardado ali, conversas pessoais, arquivos, e algumas vezes coisas mais importantes como senhas de bancos. Mas para conhecer um adolescente: entre nas redes sociais da pessoa em questão, quantos seguidores ela tem? Com que frequência ela posta algo? Que tipo de coisa ela posta? Essas são as perguntas mais importantes, que vão definir se a pessoa é sociável, se é muito aberta com relação à sua vida pessoal, e com que tipo de coisa ela se importa.
Depois, olhe as mensagens, com quem ela mais conversa? Amigos, família, pessoas do trabalho? Como ela conversa? Agora você sabe quem é mais importante, e sabe como essa pessoa se comporta em diferentes ambientes e situações.
As respostas de Chad para essas perguntas eram típicas do garoto rico, popular e o mais bonito da universidade, ou seja, ele tinha muitos seguidores, postava umas duas fotos por dia, sendo que a maioria dessas fotos eram montadas de uma mesma forma: ele e mais alguém ou alguma coisa, mas ele estava em todas as fotos. Seu histórico de mensagens tinha um número impressionante de garotas que pareciam ser sua namorada, alguns poucos amigos homens, e em último lugar sua mãe, e nas mensagens ele apenas pedia a ela para lhe comprar alguma coisa.
É isso, uma rápida olhada no celular e você sabe absolutamente tudo sobre o dono do aparelho.
*
Jenn já havia treinado Harlow para esse tipo de situação, mas era a sua primeira vez na prática. Contar a uma pessoa que ela perdeu um ente querido é difícil, mas, contar a uma mãe que ela perdeu seu filho é a mesma sensação de levar uma facada na alma. Não foi diferente com Anne Devney, mesmo sabendo que seu filho não era o melhor tipo de pessoa, era seu filho.
Em meio aos soluços e as lagrimas, sua voz abafada no peito do marido implorava:
– Por favor... Jim, me diga que não é verdade...
– Eu sinto muito, mas talvez... – Harlow começara a dizer, talvez não seja o seu filho. Jenn lhe repreendeu com um olhar, realmente existia possibilidade de não ser o filho deles, mas não se deve dar falsas esperanças, a ninguém, especialmente alguém que já está fragilizado.
– Vocês estariam em condições de fazer um reconhecimento?
– O que é isso? – Perguntou Jim. Essa pergunta é cruel, nunca é bom explicar esse tipo de coisa, e a resposta não podia ser suavizada. Jenn limpou a garganta e disse:
– Nós precisamos que vocês olhem o corpo, e garantam que é seu filho.
– Mas vocês não estavam com a identidade dele?
– Sim, mas é um procedimento padrão.
– Tudo bem, — Respirou fundo – Eu vou. Você pode ficar aqui Anne. – Ela concordou com a cabeça.
– Harlow, fique aqui com a senhora Devney. – Ele a guiou para uma das cadeiras da sala de espera, tirou um lenço prateado do bolso e entregou a ela.
*
– Evvie, pode abrir o 407? – Pediu Jenn. Era horrível dar apenas um número para uma vida perdida, ela sabia, mas a organização é necessária.
Evvie abriu uma das portas de alumínio e puxou a maca onde o corpo ficava, com delicadeza, tirou o lençol apenas do rosto do garoto. Jim apenas fechou os olhos e abaixou a cabeça, deixando algumas lágrimas caírem. Era tudo que Jenn precisava para ter certeza.
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