Fire
4 Capítulo 3
O vestido serviu.
Não que este fosse um comentário essencial ou algo que realmente importasse, mas pareceu importante quando Catherine entrou no quarto depois que terminei meu banho e viu-me vestida nele. Por um momento ela pareceu realmente emocionada antes de lembrar quem eu era, então ela disfarçou e perguntou porque estava tão calor no quarto.
Eu não disse, é claro, que não importava o quão quente a água de sua torneira fosse, não era o suficiente, e que usei magia elementar para esquentá-la ao meu ponto.
Catherine parecia boa em ignorar meu silêncio, porque ela apenas rolou os olhos e mandou que eu descesse. Não perguntei o motivo. Não pareceu necessário na hora.
Do alto da escada consegui ouvir claramente um coração batendo. Não era de Catherine, que estava ao meu lado, e nem de Derek, seu marido medíocre. Era outra pessoa.
– Aqui está ela! — Catherine anunciou alegremente enquanto terminava de descer as escadas comigo.
Nem precisei usar a conexão para saber o quanto aquela alegria era forçada.
Terminei de descer também e olhei para cima, nem um pouco ansiosa para conhecer outro humano.
– Blair — Catherine continuou. — Esse é meu irmão, Lucas.
Meu coração errou uma batida.
Era um rapaz. Não parecia ter muito mais do que a idade que eu aparentava e ele sorriu para mim educadamente. Sim, ele podia ter uma aparência considerada “atraente” para as medidas humanas, com seu rosto proporcionalmente perfeito, com seu tipo “alto e magro” e músculos em todos os lugares corretos, mas não foi por isso que meu coração errou uma batida e meu cérebro se alarmou. Não. Aquele estranho precisaria de muito mais do que um sedoso cabelo cor de areia e atrativos para isso.
O que me alarmou foram seus intensos olhos azuis que me analisavam com conhecimento. Um tom tão incomum de azul que na mesma hora eu tive certeza: aquele estranho tinha luz nele.
Lucas Maddox era descendente de anjos.
Fiquei em silêncio, encarando aquele rapaz bonito e pensando em milhares de maneiras diferentes de fugir daquele lugar.
Isso explicava porque havia sido mais difícil compelir Catherine, ela também tinha luz nela, apenas era em uma quantidade extremamente menor da que havia em seu irmão.
Inferno, eu quase podia ver asas crescendo nas costas dele.
– Blair? — Catherine chamou minha atenção, olhando para mim nervosamente.
Eu não pisquei. Não mudei minha expressão facial. Apenas virei meus olhos para ela e a encarei.
– Sim? — respondi.
Minha mente ainda estava distante.
Diabos, como alguém podia ter tanto azar?
E por “alguém” eu me referia a mim.
– Está tudo bem? — ela questionou.
Não tentei forçar um sorriso, porque eu sabia o quanto ele sairia errado, então apenas assenti, virando para o nefilim e forçando-me a estender uma mão para cumprimentá-lo sem fazer careta alguma.
– Muito prazer — falei em um tom quase robótico. — Blair Thorne.
Mas ele não pegou minha mão estendida, porque estava ocupado demais olhando para o vestido que eu usava.
Sim, o maldito vestido florido do quarto melancólico.
Seu olhar voltou para Catherine, que ele encarou interrogativamente.
– Ela veio apenas com a roupa do corpo — ela se defendeu. — E nenhuma roupa minha serviria nela, olhe o quanto ela é pequena! Tive que improvisar.
Continuei congelada, uma careta ameaçando tomar conta de meu rosto por causa de seu comentário. Mas preferi não discutir por causa de meu tamanho.
– Sinto muito. É estranho ver outra pessoa usando roupas da Liza — Lucas Maddox disse, se dirigindo a mim, estendendo a mão e pegando a minha em um cumprimento humano e comum. — Muito prazer.
Agora eu sabia o nome da pessoa que viveu naquele quarto. Liza. Não pude deixar de me perguntar o que havia acontecido com ela.
Em um tipo de teste, expandi minha conexão mental, tentando alcançá-lo utilizando o contato visual direto e o de nossas mãos unidas, mas falhei miseravelmente. Como eu temia, o maldito nefilim tinha um bloqueio mental impossível de driblar.
Teria que tomar cuidado com ele se quisesse ficar escondida ali por um tempo.
– Você é quente — ele comentou, olhando para nossas mãos ainda unidas.
O larguei bruscamente, como se seus dedos me queimassem em brasas.
Derek soltou uma curta gargalhada enquanto entrava na sala, ouvindo e entendendo as palavras de Lucas como sendo de duplo sentido.
– Tenha cuidado, garoto — ele disse, bem humorado. — Essa ai parece ser difícil.
Dessa vez não pude conter a careta que tomou conta do meu rosto. Lucas apenas franziu a testa e desviou o olhar enquanto Catherine encarava o marido como se o censurasse.
Ninguém disse mais nada sobre isso, todos se esquecendo da minha presença por alguns minutos e se focando em Lucas, que havia acabado de chegar de algum lugar que ficava no centro da cidade, que, pelo o que entendi, era onde de concentrava a população daquele fim de mundo.
– E como estão os preparativos para a Dark Week? — Catherine perguntou a ele.
Aticei meus ouvidos. De novo aquelas palavras.
Lucas deu de ombros, sentando-se no sofá e se esticando um pouco, como se a caminhada o tivesse cansado.
– Estão como sempre — resmungou, — exatamente como estavam no ano passado. E no anterior. E no anterior. E no anterior também.
Arqueei uma sobrancelha. Pelo seu tom aquele evento não deveria ser o ponto forte da cidade. Não em sua opinião.
– Não seja estraga prazeres — sua irmã retrucou. — Todo ano eles mudam a apresentação. Qual vai ser a desse ano?
Derek se aproximou da esposa, rodeando um braço na cintura dela.
– Ouvi a Srtª. Ramirez comentando que seria algo sobre mitologia infernal — disse entusiasmado. — Como é a diferença do inferno nas diferentes mitologias.
Bufei alto, incapaz de me conter.
Todos os olhares se viraram para mim.
– Desculpe — murmurei.
Os olhos de Lucas brilharam, como se ele se sentisse feliz por não ser o único que achava aquilo uma idiotice.
– Já participou de uma Dark Week, Srtª. Thorne? — ele me questionou.
Balancei a cabeça negativamente.
– Nem faço a mínima ideia do que seja — confessei.
Derek riu.
– De onde ela veio? — perguntou, buscando os olhos da esposa.
A mandíbula de Catherine travou e ela não disse nada. Fazendo com que o bom humor de seu marido diminuísse e que ele lhe franzisse o cenho.
– Dark Week — Lucas disse, ignorando sua irmã e Derek, — é um evento que nosso prefeito imitou descaradamente da Golden Week japonesa. Mas ao invés de ser a junção de feriados em uma semana, é como uma semana de lendas da cidade. Temos passeatas, desfiles e teatros a semana inteira, tudo baseado nas lendas de Lake Falls. Nem queira se aproximar do centro da cidade nessa época. É como um ninho de bestas.
E ali estava. Lendas. Outra palavra que atiçava minha curiosidade.
Aproximei-me do sofá, indo contra meus instintos e me sentando perto do nefilim.
– Que tipos de lendas? — perguntei.
Ele pareceu surpreso com a aproximação, não apenas ele, Catherine parecia estar prendendo a respiração arduamente, talvez com medo do que eu faria.
Quase rolei os olhos ao constatar isso. Duvidei que houvesse forma mais rápida de anunciar minha localização do que manchando minhas mãos com sangue celestial.
– Lendas normais — o nefilim continuou. — Demônios, gênios, dragões, kappas, wendigos, sereias monstruosas no Lago Crawfield. Esse tipo de lendas. E toda semana alguém inventa uma aparição sobrenatural diferente.
Congelei. Sangue fluiu em meus ouvidos enquanto meu cérebro trabalhava a mil por hora.
Existiam lendas em todas as partes do mundo, isso eu sabia. Mas de forma tão impactante a ponto da cidade criar desfiles e eventos em volta disso? Isso era extremamente raro.
Eu saberia. O inferno controla arduamente as aparições demoníacas em terra mundana — claro que uma hora ou outra deixamos algo passar, daí surgem as tão famosas lendas, — mas se o que Lucas falava era verdade, então os Nickars no lago não eram os únicos seres demoníacos naquele lugar. Claro que eu sabia que existia essa possibilidade. O que eu não esperava era me encontrar na própria personificação do Triangulo das Bermudas em terra firme.
O nefilim estava errado, não apenas o centro da cidade era um ninho de bestas...
Lake Falls inteira era.
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