Fique Vivo
1 Capítulo 1
— Senhora, estamos com diversas ligações como a da senhora, peço, por favor, que espere.
A atendente da polícia dizia rabiscando com força um papel ao seu lado. Nele, ela não escrevia nada, apenas rabiscava. A mulher gritava em seu ouvido. O plug em seu ouvido lhe incomodava, tinha vontade de batê-lo e quebrá-lo, mas sabia que não podia dar as costas para mais uma vítima daquela notícia que já causava uma catástrofe.
Pela primeira vez desde que começara a trabalhar ali, aquele escritório fervia como uma panela com água no fogo. Tudo estava terrível. Havia barulho, zumbidos de vozes de atendentes pedindo calma às vítimas do outro lado das linhas. Rute apoiou o rosto nas mãos enquanto a mulher gritava em seu telefone. As únicas coisas que haviam naquela mesa, eram os botões de liga e desliga do plug fixo em seu ouvido, e o bloco de notas, além de um computador fino como um vidro, transparente, que por si só registrava todas as conversas. Em uma hora de catástrofe como essa, em que as linhas estavam congestionadas, já não se tinha tempo de pedir calma à pessoa para teclar algo no computador.
— Senhora, eu já...
Antes que pudesse terminar a fala, um grupo de soldados do Alto Patamar entrou no escritório, batendo suas botas pesadas no assoalho, tão branco quanto as mesas. Aquela cor já lhe irritava os olhos. Eles cruzavam o escritório rapidamente.
— O que está acontecendo com esses caras? Por que não estão na rua ajudando quem precisa? Temos milhares de ligações e pedidos aqui, e eles não estão nem ai?
A atendente ao seu lado, número 12, conforme eram chamados para não terem a necessidade de se identificarem no plug, reclamara com ela. Rute, número 11, não falara nada, apenas silenciou a mulher de seu plug e observou aqueles soldados cruzarem o local. Seus uniformes negros, se destacavam naquela sala iluminada de branco.
Téo entrou na sala larga, espaçosa e totalmente fechada, assim como seus colegas, naquela correnteza de homens como ele, carregando seus capacetes. Aquele local branco, diferente de toda a cidade cinzenta na qual viviam em volta, lhe cegava, o fazendo apertar os olhos e coçá-los. Todos os vinte soldados chamados para aquela conversa no escritório do sargento, estavam ali, parados, com pequenos murmúrios. Téo olhou em volta procurando pelo sargento que havia deixado sua cadeira vazia. Não gostava de esperar. Bufou abaixando a cabeça, coçando a nuca e passando a língua sobre os dentes. Todos os homens consigo estavam cansados. O trabalho estava sendo intenso e movimentado naquela manhã. Nunca tiveram tanto problema naquela cidade, desde que entrara na Armada. Então houve silêncio. Ele entrou. O Sargento que havia o colocado naquela posição de soldado, entrara na sala batendo a porta parecendo mais estressado que o normal. Téo levantou o olhar ao ouvir a batida. Todos acompanharam o Sargento com o olhar, até ele parar atrás de sua mesa e colocar as mãos fechadas sobre a mesma. O completo e tenso silêncio foi quebrado, assim que alguém resmungou algo. Téo olhou em volta rapidamente, sabia que Sargento enlouqueceria.
— Silêncio!
Ele gritou. Téo procurou algum jovem desatento que poderia ter quebrado o belo e amado silêncio do Sargento. Percebeu um rapaz, com a mesma idade que ele talvez, não o conhecia. Sabia que foi ele que deve ter resmungado aquelas palavras inaudíveis, já que o homem parecia vermelho. Pobre coitado. Pensou Téo que voltou o olhar para frente novamente. Sargento coçou a cabeça, como sempre fazia. Estava ficando careca, Téo o conhecia desde que seu cabelo era forte e cheio.
— Acho que vocês já viram que alguma loucura aconteceu. Estamos tentando falar com a merda do governo, e vocês são o mais próximo que conseguimos chegar disso, então, por enquanto, temos vocês. — O Sargento parou, olhou para aquele grupo parado em frente dele, suspirou, passou a mão no rosto. — Grande merda, vinte.
Resmungou ainda com a mão tapando parte de seu rosto. Alguns toques na porta.
— Estou ocupado!
Gritou o Sargento, mas mesmo assim, a porta foi aberta.
— O que é agora?
Ele gritou mais uma vez, dessa vez endereçado ao jovem que procurava lhe dar um recado.
— Temos cerca de mais cinquenta ligações na espera, Senhor.
Sargento se afastou da mesa. Abanou a mão.
— E o que posso fazer?
Ele resmungou. O jovem de olhos arregalados e um tablet na mão, apenas piscou enquanto encarava o chefe. Téo riu pelo nariz enquanto abaixava a cabeça olhando para suas botas.
— Hein garoto? O que posso fazer?
Gritou mais uma vez o Sargento. O rapaz gaguejou:
— Só...só achei que o senhor precisaria saber que nossa unidade não está dando conta de...de todas as ligações.
Sargento concordou. Respirou fundo. Parecia arrependido com o tratamento que dera ao rapaz.
— Tudo bem, filho. Pode ir.
Abanou a mão. Dispensado, mais que depressa, o garoto fechou a porta e se afastou. Sargento deu uma risada sem fundamento, como se risse para não chorar.
— E quem está dando conta?
Resmungou para si mesmo. Depois voltou a olhar para os soldados enquanto caminhava de um lado para o outro atrás de sua mesa de madeira importada, de pinheiro cipreste, que não havia no Brasil. Cara demais para aquele escritório branco em uma delegacia. Téo conhecia de pinheiros e madeiras, por conta da profissão que seu pai assumira após se aposentar, o homem era apaixonado por marcenaria.
— Os plugs de nossos atendentes estão congestionados com diversos tipos de casos. Sejam ataques cardíacos, ataques de fúria, vandalismo, loucos invadindo as casas dos outros, medo da morte, tentativas de suicídio e assim vai. Nossos bombeiros e os socorristas já estão correndo atrás de atender esses pedidos. Mas vocês são meus soldados do Alto Patamar, sei que estão na rua desde a madrugada, mas preciso da cooperação de vocês, mais um pouco, só isso. Vocês estão apenas em vinte no momento, mas nos avisaram que já mandarão mais. Vocês sabem que as manifestações começarão logo, muito rápido, já estão acontecendo em alguns pontos pra falar a verdade. Essa notícia nos ferrou. A bosta do governo americano que solta a notícia, o governo brasileiro que fez o plano e agora a gente que segura as pontas. Bando de merda. Mas depois que tudo passar, ou ao menos amenizar, eu digo as manifestações porque não sabemos como vai ser daqui em diante, vocês terão hospedagem e doze horas de descanso no mínimo, tudo bem? Mas agora, realmente precisamos de soldados do Alto Patamar nas ruas. Estamos em estado de atenção, pelo menos em São Paulo. Se a merda do governo responder nossos chamados, saberemos mais. Mas parece que a Cúpula não atende mais ninguém.
Sargento terminou resmungando a frase e gesticulando, como se voltasse a conversar consigo mesmo. Os soldados ao lado de Téo pareceram decepcionados, mais cansados que o normal, olharam para o chão, sem alternativas. Eram apenas vinte, outros soldados do Alto Patamar estavam espalhados por outras zonas de São Paulo e ali era apenas os vinte que teriam que dar conta do Centro. Aos poucos, foram saindo pela porta por onde haviam entrado, voltariam para a confusão, atender os chamados, impedir revoltas. Ah as revoltas. Téo sabia que logo começariam, as que aconteciam agora estavam fracas demais, estava muito cedo para algo acontecer, mas logo viriam, como sempre e com força. Uma notícia daquela era mais do que propícia para uma revolta pior do que todas já vista. Ele, ao contrário do resto, esperou na sala. Sargento estava de costas sentado em sua cadeira, coçava o queixo e olhava para cima.
— Sargento?
Chamou, assim que o último saíra pela porta. Sargento virou-se na cadeira, espantado por saber que ainda havia alguém ali, estava pronto para urrar e apontar para a porta, mas viu Téo e um leve ar de sorriso pareceu surgir em sua face.
— Téo!
Exclamou se levantando. Téo sorriu.
— Venha cá garoto.
Abriu os braços enquanto dava a volta na mesa. Téo foi ao seu encontro retribuir o abraço apertado, com fortes tapas nas costas que ele tanto conhecia. Sargento o segurou pelos ombros enquanto o observava com orgulho.
— Quanto tempo faz que não te vejo! — Bateu novamente em seu ombro. E se afastou voltando para trás da mesa. — Vamos, sente-se. Como vai aquele idiota do seu pai?
Apontou para a única cadeira em frente à mesa. Parecia faltar uma, já que esta estava muito para a direita.
— Vai bem. O senhor sabe, ainda com as madeiras.
Sargento coçou o queixo novamente enquanto ainda observava Téo.
— Quem diria que ele viraria marceneiro. Era tão ativo, e agora prefere ficar preso em um quartinho. Nunca vi.
Bufou entre dentes enquanto gesticulava com a mão. Téo riu.
— A madeira parece que foi a única coisa que o fez parar um pouco.
Sargento negou com a cabeça.
— Desde que sua mãe morreu, meu querido. Ele nunca mais foi o mesmo.
Téo sabia disso. Sua mãe morrera já faziam seis anos, quando ele tinha dezenove. E agora, quem ordenaria a hora de chegada e de saída da casa? Quem impediria que seu pai tomasse algumas cervejas e chegasse um pouco alcoolizado para casa após o trabalho pesado? Quem o faria parar de correr mais do que a velocidade permitida na avenida? Quem cuidaria de seu ferimento quando ele chegasse baleado em casa? Afonso do Vale teria agora que controlar-se, o que Téo sabia que nunca aconteceria. Pensou que o pai se afundaria no trabalho e morreria rapidamente em algum confronto ou alguma investigação. Mas errou. Afonso entrou em uma profunda depressão e nem sequer levantava da cama para trabalhar, tudo parecia ter perdido o sentido para ele. Primeiro, foi afastado do trabalho por "Transtornos Psicológicos", depois, aproveitou de sua depressão para aposentar-se de vez, alegando "invalidez". O trabalho que tanto amava, antes da esposa morrer, parecia ter perdido o sentido já que ela não estaria em casa para esperá-lo voltar.
— É...eu sei.
Confirmou com a voz amena, enquanto parecia lembrar-se de tudo que ocorrera desde esse período. Sargento bateu as mãos na cadeira, dando impulso para levantar.
— Então é isso, vamos lá meu garoto. Temos trabalho a fazer!
Ele afirmou sorridente. Téo não entendeu o motivo do sorriso. Aquele trabalho, no momento, não era uma coisa para se sorrir. O homem passou os braços sobre seu ombro, o acompanhou até a porta enquanto resmungava rindo.
— Na verdade, você tem trabalho né? Eu não. Estou muito velho para isso.
Téo forçou um sorriso. O homem apertou seus ombros o encarando mais uma vez.
— Qualquer coisa que precisar chame por minha ajuda, filho.
Afirmou. Téo concordou dando-lhe mais um abraço rápido antes de virar as costas e caminhar de volta para o escritório tão incômodo quanto a sala.
Fale com o autor