Fios de ouro
1 O menino de cabelos mágicos
Notas iniciais
Era uma vez um casal apaixonado, Emi e Hideki Matsumoto. Viviam uma vida tranquila em um pacato povoado ao norte das montanhas e possuíam muitos bens: dinheiro, servos, o casarão mais belo da cidade e, ainda, eram donos da maior parte dos hectares ao oeste, em uma época que terra era o maior sinônimo de fortuna. Eles tinham tudo, menos aquilo que mais desejavam: um herdeiro.
Anos e anos tentando, sonhando em ouvir o riso infantil e o som de pés pequenos correndo pela casa, contudo, o momento tão aguardado nunca chegava, parecendo mais distante a cada dia, mais difícil de se tornar realidade. Emi sentia-se profundamente frustrada, estava envelhecendo e sabia que o tempo estava se esgotando. Só o que ela queria era dar um filho ao seu marido, gerar em seu ventre o fruto do amor que existia entre eles, ainda que Hideki lhe dissesse que estava tudo bem, que mesmo assim podiam ser felizes. Porém, no fundo, ela sabia que não era totalmente verdade, o amante possuía o anseio de ser pai, tanto quanto ela de ser mãe.
Por isso, desesperada, Emi decidiu procurar na floresta a estranha feiticeira de quem tanto ouvira falar. A bruxa em questão não era feia como as fábulas costumavam dizer, pelo contrário: era jovem, com um ar fofo e infantil que conquistava confiança facilmente. A magista ouviu o lamento da mulher e, quase compadecida, acatou seu pedido. Por um pequeno preço, claro. A senhora Matsumoto, esperançosa, entregou de forma precipitada todos os sacos de ouro que trouxera consigo achando que assim a dívida estaria paga.
Os meses foram passando rapidamente até que enfim aconteceu. Seu sonho se realizara: estava grávida. Exorbitantes de tanta felicidade, Emi e Hideki convidaram todos os nobres para uma grande festança, afinal, a notícia merecia uma comemoração digna.
A gestação seguiu tranquila, com todos os sintomas comuns. Seu marido, bobo como era, paparicava a esposa com tudo que tinha direito.
Tudo corria às mil maravilhas, exceto por um fator: as dívidas do casal foram aumentando em uma proporção assustadora e sem explicação aparente. Perderam terras, bens, despediram metade dos criados e tiveram que se mudar para uma casa menor e mais simples. Quanto mais a gravidez avançava, mais perto ficavam da falência absoluta.
Preocupada em como criaria o filho em tais condições, a mulher decidiu procurar a feiticeira mais uma vez, a fim de consultá-la sobre o futuro. A bruxa não parecia surpresa em vê-la, pelo contrário. O que ela não esperava, no entanto, era que a preocupação da futura mamãe não se tratava do dinheiro em si, era em relação à criança em seu ventre.
Emi não tinha qualquer receio de perder suas vestes caras, suas joias, tampouco tinha medo de passar fome se necessário, desde que nada faltasse ao filho, o que ofendeu a bruxa. Ora! Imaginara que ela retornaria desesperada, a fim de recuperar os bens que perdera, mas tudo o que importava era aquele maldito parasita crescendo dentro dela? Perceber que a mulher possuía uma alma tão bondosa e altruísta soava-lhe como o mais absurdo dos insultos.
Mas, sem se mostrar abalada, a bruxa se aproximou de Emi com um sorriso perverso bailando nos lábios vermelhos. Pousou a mão sobre a barriga dela e, afagando a região em um carinho fingido, murmurou:
— Não se preocupe, minha senhora. Você dará à luz um menino muito saudável e em breve já não terá de se preocupar com dinheiro. Ele será muito próspero e ouro será algo que nunca lhe faltará.
Assim, no dia 1° de Fevereiro, quase no fim do inverno que castigava a região, o bebê nasceu. Forte e esbanjando saúde como a bruxa dissera.
Possuía olhos claros, num tom verde amarelado. Sua pele era clara, quase tão branca quanto a neve lá fora, e havia ainda duas pintinhas charmosas no rostinho: uma embaixo do olho esquerdo e a outra exatamente no cantinho do queixo; sua característica mais chamativa, porém, eram os fios loiros bem clarinhos em sua cabeça, algo extremamente raro entre os japoneses. Isso não era mais que um mero detalhe que apenas o deixava mais lindo.
Deram-lhe o nome de Takanori Matsumoto.
Estranhamente, desde que o menininho viera ao mundo, a situação financeira dos pais começou a melhorar. Tão rápido quanto perderam, passaram a recuperar. Os pais, felizes como nunca, associaram a boa sorte ao menino. Takanori era especial. Os dias outrora tenebrosos e incertos, agora, voltavam a brilhar. Mesmo com as chuvas frias que rodeavam a primavera, aquela, em especial, prometia ser a mais bela e florida de todos os tempos. No entanto, o que ninguém sabia ainda era que a calmaria antecedia a tempestade e uma das grandes se aproximava.
Emi, como uma boa mãe, estava sempre atenta ao seu filho, portanto, não demorou para notar a velocidade incomum na qual os cabelos do menino cresciam. Qual não foi sua surpresa quando, a fim de aparar a franjinha que caía sobre os olhos do neném, percebeu com horror que os fios cortados tomaram uma tonalidade mais escura. A raiz continuava a mesma, mas as mechas pelo chão adquiriram instantaneamente um tom dourado, brilhante e reluzente... como ouro.
Não demorou até a notícia se espalhar pela cidade, logo as pessoas curiosas vinham de todas as partes, querendo ver e tocar no menino, como se Takanori fosse o protagonista do circo dos horrores. O brinquedinho preferido dos nobres. Então, cansados da exposição à qual o garoto, ainda com poucas semanas de vida, estava sendo submetido, os pais venderam tudo o que tinham e se mudaram.
Todavia, não importava em qual cidade se instalassem ou quantas milhas percorressem, os momentos de paz não duravam muito. Aparentemente, os rumores sobre o menino de cabelos mágicos haviam se espalhado pelos quatro cantos do reino.
Em uma época e lugar em que todos possuíam praticamente as mesmas características físicas, os mesmo olhos puxados e, principalmente, os mesmos cabelos negros escorridos, a cabeleira loira do pequeno herdeiro Matsumoto chamava atenção. "Bruxaria! Deveriam matá-lo, queimá-lo vivo" alguns diziam, e essa nem era a pior parte. Se os ricos enxeridos e os comentários maldosos já não eram ruins o suficiente, o desespero dos mais humildes, a fim de obter apenas alguns fios dourados era infinitamente pior.
Apesar das adversidades, o casal nunca se deixou abater. Isolados no campo, passaram a viver propositalmente de forma humilde, sobrevivendo do plantio da terra que cultivavam e apenas iam à cidade em casos estritamente necessários. E assim, Takanori foi crescendo, cada dia mais lindo. Uma criança alegre, cheia de energia e que adorava aprontar algumas travessuras de vez em quando. Amava todos os animais que criavam: as galinhas que botavam ovos para o desjejum, o cavalo manso em que cavalgava todas as tardes com seu pai e, principalmente, as vaquinhas que forneciam o leite mais gostoso e fresco do mundo, em sua humilde opinião, claro. Desse modo, a família foi feliz por algum tempo, esquecendo-se, durante esse período, da maldição que o menino carregava consigo.
As coisas mudaram drasticamente quando, na noite de aniversário de sete anos do pequeno, tentaram raptá-lo. A senhora Matsumoto havia preparado, com a ajuda do filho curioso, um bolo. O pai colheu os morangos mais vermelhos e saborosos de sua plantação, a fruta preferida do garoto. Estavam prontos para cantar o tradicional "parabéns pra você" quando a porta foi derrubada. Depois disso, houve gritos, tiros e a casa ficou em chamas enquanto Takanori chorava assustado... Por sorte, o patriarca, com ajuda do senhor Menjo — o único servo da família —, colocou os invasores para correr.
Não houve feridos, porém, naquele momento, os pais perceberam que algo deveria ser feito. Já não podiam mais viver fingindo que estava tudo bem, ignorando os fatos. Ou tomavam uma atitude, ou da próxima vez, quem sabe, o resultado seria pior. E bem sabiam: não iriam parar até obterem o último fio de cabelo do garoto. Não havia qualquer piedade ou preocupação se Takanori era apenas uma criança. Queriam o menino a todo custo. Vivo ou morto.
Por isso, recorreram ao Plano B: Esconderam o pequeno em uma torre rochosa, além dos vales verdejantes, entre as montanhas tortuosas, numa região tão remota que tinham certeza absoluta que ninguém jamais poderia encontrá-lo.
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