Fio da Eternidade
3 Capítulo III: A noite chama
Um pouco antes da aula acabar, Nicholas telefonou para seu pai, perguntando se poderia ir na
festa sexta e também almoçar com Arthur para depois irem comprar os ingressos. Seu pai
nunca lhe negava nada, e não foi dessa vez que lhe proibiu de fazer alguma coisa. Só pediu
para ver se sua mãe poderia lhe buscar e mais tarde, perguntou isso a ela, e estava tudo bem.
—Como vamos ao União comprar os ingressos Nick?
—Podemos almoçar na Cidade Baixa e depois vamos para lá de ônibus.
—Mas a Cidade Baixa é longe. Vamos no Subway do Shopping que é melhor- a
expressão no rosto que Nick fez convenceu Carlos- Vamos como?
—A pé, claro, é bom caminhar.
Era uma pernada só para ir num restaurante almoçar, na verdade era uma cafeteria,
mas Nicholas não preferiu contar essa parte para Arthur. Levaram uma meia-hora para chegar
na Rua da República. Foram cortando caminho por ruas desertas.
A Cidade Baixa era o lugar onde Hispster se encontravam. Um dia sua professora de
geografia falou que era um bairro com cara de revolução e o fez pensar por uns dois dias nisso.
Realmente era. As pessoas que se encontram ali, pensam diferente. Lembrou que no
Iluminismo, os pensadores se encontravam em cafés para discutirem ideias e fazerem debates.
E era realmente assim que era a Cidade Baixa. Um bairro cheio de bares e cafés em
casas antigas- muitas do século XIX-, boa parte das ruas arborizadas. As ruas um tanto estreitas
o que fazia algumas não terem tanto sol. A Rua da República era no meio do bairro, começava
estreita, mas no final já estava larga e dava para uma avenida que do outro lado há o parque
da Redenção.
Às vezes Nicholas sai com seu amigo Vladimir- ou para os íntimos, só Vlad- e caminham
pela Cidade Baixa e pela Redenção. Dois Hipsters. Nicholas era um. Tinha apenas quinze anos,
mas com mais pelo no rosto que todos os guris da turma juntos. Havia deixado ela crescer,
mas apararia um pouco para festa. Não era uma barba de adulto, mas com certeza ficava com
cara de dezoito.
Não soube o porquê de querer trazer Arthur na Cidade Baixa, ele não frequenta esses
lugares, mas sim, festas e sociais. Achava que era realmente por isso que o trouxe, para
apresentar o lugar que geralmente frequenta. Mesmo depois de no ano passado ter deixado
de fazer suas aulas de teatro, continuou na Cidade Baixa. Ela mostra a alma antiga e bela de
Porto Alegre, seus mistérios e histórias, quando se entra, não se quer mais sair.
Abriu a porta da cafeteria-livraria e pegou uma mesa próxima a uma estante de livros. Gostava
de ler os títulos de clássicos ou obras atuais. Uma moça de rabo de cavalo foi levar os
cardápios e no momento em que Arthur abriu, já arregalou os olhos:
—Cacete- fechou o cardápio- não vou pagar, olha o preço das opções de almoço.
—Vamos lá Arthur, não esta tão caro, por favor. Só hoje.
—Tá- voltou a abrir- Irei mastigar cada garfada como se fosse minha ultima comida na
terra.
Fizeram o pedido e logo a moça com rabo de cavalo- ele notou que era loiro- trouxe os
pratos. Quando terminaram, Nicholas esfregou os olhos e lembrou-se de um trecho de uma
musica do Oasis “Talvez eu só queira voar, eu quero viver, eu não quero morrer” e ficou
refletindo do que será da sua vida daqui a alguns anos.
Nicholas queria ser jornalista e ter seu próprio jornal. Acho que todo mundo já chegou
naquele momento na vida em que se pergunta se vai ter tempo de fazer tudo que deseja.
Principalmente os jovens pensam nisso. São muitas vezes impulsivos em suas decisões e não
medem as consequências.
As vezes pensa que a Terra é uma prisão, só que não acharam ainda a chave da cela.
Acredita que há outros planetas com vida e com capacidade se viver, e gostaria de estar lá
para ver isso. Gostaria de estar junto quando os dias finais da Terra acabassem. Simplesmente
por mera curiosidade e pela ambição do saber.
—O que foi mano?- perguntou Arthur.
—Nada demais.
—Não liga para Joana, amanhã a gente vai sarrar um monte de novinha e dai só depois
de uns beijos, já vai esquecer aquela catiranha – cadela mais piranha.
Não se importava que ele chamasse Joana assim. Sabia que Arthur queria Nicholas
solteiro para ir a festas e ficarem com varias garotas na mesma noite. Sabia que era egoísmo
de sua parte, e também tinha medo de perder o melhor amigo. Uma vez os dois, depois de
uma festa, estavam atirados no sofá da casa da mãe de Nicholas, com a respiração pesada,
camisa molhada de suor. Sabiam que tinham feito um bom trabalho naquela noite. Arthur
tomou ar e falou “Regra da Branca de Neve, pra que se ter um, se pode ter sete”.
Isso foi numa época antes de Nicholas conhecer Joana. As melhores para Arthur.
Quando tinha o amigo junto sempre.
—Não estou nem pensado nela. E nem ai pra ela- na verdade estava- Mas, vamos fazer
amanhã valer a pena. Como nos velhos tempos. Quanto tempo faz que não vamos em alguma
festa?
—Quanto tempo faz que tu ficou com a Joana?- havia um tom de cobrança em sua voz.
Não precisou responder.
—Pois é, bastante tempo.
—Tu me trocou por ela, Nick.
—Não troquei, continuo sendo seu amigo.
—Mas nunca mais fomos numa festa juntos. Vocês agem como se fossem namorados,
mas não são. Na tua cabeça vocês tem um compromisso que na verdade não existe.
—Mas vai ter- ou não- Sabe que eu gosto muito dela.
—E tu só precisa de uma só festa para esquece-la. Vai por mi, tu precisa disso- ele sorriu
e deu uma piscada.
—Você é um grande filho da puta.
Inclinou-se na mesa para responder.
—Sou o melhor filho da puta.
Depois de terem chegado ao União e comprando os ingressos, ambos estavam sentados nas
cadeiras de praia do clube, e observando as garotas saindo da piscina de biquíni.
—Nick, amanhã será um dia daqueles- Arthur falava pausadamente-, em que os
meninos, viram homens. Está pronto para isso?
O garoto sorriu que nem o amigo.
—Com toda certeza. Seu grandissíssimo filho da puta.
E os dois, com nove anos de amizade, riram, até quando passou um garota que
provavelmente estará na festa no dia seguinte, e dai voltaram a ficar sérios.
O pai de Carlos de dentro do carro acenou enquanto deixava o filho na frente do prédio de
Nicholas.
—Pronto para hoje? – perguntou, logo depois de Nicholas abrir a porta do apartamento.
Era um lugar agradável, com móveis rústicos. Dois quartos e um banheiro. Casa típica de pai
solteiro com filho.
—Claro. Só que da próxima vez, avisa quando vier- pediu Nick bocejando.
Carlos notou que o garoto só se encontrava de cueca e com suas pantufas de cachorro.
—Desculpa. Tu não sente frio não? Deve estar uns cinco graus na rua, se não menos.
—Não exagere- Nick fez um sinal para Arthur entrar- Qual a graça do inverno se não
pode sentir frio?
—Saudades do verão. A graça é que no inverno só sai para rua as suas hipsters
arrumadas, mas no verão- jogou-se no sofá e colocou de lado sua mochila com pijama e a
roupa para festa- , no verão, as minhas gatas vão pra rua de short que vai na cintura.
—Verdade- disse rindo- Vou fazer um café, quer um?
—Aceito. Onde seu pai esta?
—Trabalhando, só vem pelas 19 horas – olhou para o relógio, era 16- Só vai vir para
fazer as malas e depois vai pra casa da namorada. Aposto que o seu fez o mesmo.
—Aham, e pelo que combinamos hoje na aula, minha mãe vai nos buscar na sua mãe
né?
—Exato- colocou as xícaras no micro-ondas.
—Quanto tempo seus pais estão separados?
—Estou com quinze. Faz uns, deixa eu ver...onze anos. E os seus?
—Acho que uns quatro.
—Prefiro assim. Ganhei uma irmã com minha mamãe e meu padrasto. Nada melhor que
isso- arregalou os olhos.
—Claro, por ser amor por crianças- estava sendo sarcástico.
—Quer canela no café?
—Dale- significava sim- Laura esta com quantos anos?
—Três aninhos. Uma leonina bem pestinha. Orgulhosa- soltou um risinho.
—Signo não define nada.
—Até define. Uma prova sou eu e tu. Sagitário e Gêmeos. Teoricamente é para nos
darmos bem.
Nick foi até Carlos entregar uma xícara do Pulp Fiction com a Uma Turman deitada com
um cigarro na mão, enquanto ficou com uma do Laranja Mecânica com o Alex e seus três
companheiros embaixo da ponte.
—Claro. Então é por isso que você e a Rice não se dão tão bem.
—Exato, ela é meu inferno astral. Vamos lá para o quarto, estou com o aquecedor ligado
e o Xbox também.
—Claro que tu não tá com frio, ali dentro deve estar uns trinta graus. E por favor, vista
uma roupa o Sr. Gostosão.
O quarto de Nicholas era o sonho de qualquer nerd. As paredes cheias de prateleiras e
quadrinhos e bonecos de super-heróis. Quadros de filmes antigos como Poderoso Chefão.
Uma televisão grande com um videogame de última geração. Diversos filmes em blu-ray, boa
parte são clássicos do cinema. E uma boa quantidade jogos. Alguns nem tinham sido abertos.
Seu pai chegou no horário em que havia combinado e em seguida os deixou na casa da
mãe de Nicholas. Era uma casa grande e amarela. Com três andares um enorme pátio. Foram
para a sala que ficava no segundo andar. Sabia que sua mãe não estava, havia saído com seu
padrasto para jantarem na casa de um amigo.
Deveriam se virar até as onze quando a mãe de Arthur fosse busca-los. Primeiro foram
jantaram- tentaram jantar-, pois ambos só sabiam fazer miojo e ovo frito. Quando Arthur foi
pegar os ovos na geladeira, os derrubou no chão, e depois teve que limpar. Nicholas foi colocar
orégano pois estava tentando fazer um omelete. Quando foi puxar o saco onde o orégano
estava, havia puxado o lado errado e todo conteúdo que ali havia, fora parar no chão. Pegou
uma vassoura e varreu tudo num ralo na área de estender as roupas e colocou um saco de lixo
em cima.No fim jantaram apenas um miojo puro com refrigerante.
Nicholas foi depois separar as roupas para tomar banho. Abriu a mochila e começou a
pegar as coisas.
—Calça, meia, cueca, camisa...
A camisa preta não estava dentro da mochila. Por um momento, ficou gelado sem
saber o que fazer.
—Arthur, pode dar uma chegadinha aqui.
—O que foi Nick?- disse entrando no quarto.
—Tu me viu pegando a camisa pra festa?
—Acho que não, por quê?
—Acho que esqueci ela em casa- tirou da casa a carteira para ver se tinha dinheiro para
um taxi de ida e volta. Olhou no celular e faltava quarenta minutos para a mãe de Arthur vir
busca-los- Podemos pegar um taxi.
Na pressa, usou um aplicativo do celular para chamar o taxi, e em três minutos ele
chegou.
—Na rua Catumbi por favor- Nick foi na frente, enquanto Arthur esperava no banco de
trás. O motorista era um senhor de idade. Quando a umas três quadras da casa de sua mãe-
Pare o carro moço, esqueci a chave de casa, precisamos voltar.
—O senhor é quem manda- disse o taxista quase rindo e fazendo a volta no percurso.
—Não acredito mano- falou Arthur colocando a mão na testa.
Voltaram e param o carro. Nicholas saltou do carro como uma gazela e voltou como
uma gazela com a chave na mão. Não perdera o folego e o motorista acelerou o carro no
momento em que o garoto fechou a porta. Param na frente do prédio e Nicholas foi correndo
e voltou correndo com uma camisa preta num cabide cinza. Fizeram a volta e já faltava meia
hora para mãe de Arthur chegar. As nuvens indicavam um tempo ruim e os trovões chamavam
a chuva.
A corrida ao todo deu trinta reais. O motorista com certeza teria uma boa historia para
contar sobre um garoto que o fizera voltar um quarto do caminho porque esquecera a chave
de casa. E Nicholas também teria uma boa historia para contar, mas naquela noite, muita coisa
ainda ia dar errado.
Nicholas desistiu da ideia do banho pois ficariam com o cabelo molhado na festa. Apenas
colocou desodorante e perfume. Arthur fez o mesmo. Nicholas não esqueceu de usar o seu
colar com uma Topázio- uma das pedras de Sagitário- que sempre usa no pescoço.Ambos
esperam sentados no sofá até que Arthur se levantou e abriu sua mochila jogando uma lata de
energético para Nick.
—Germany Dragan? Que porra é essa?
—Comprei dez, agora são nove.
—Tem gosto de mijo de gato- disse depois de ter tomado um gole.
—Já provou mijo de gato? Então bebe e não reclama. Ouviu? Mamãe chegou.
Os dois desceram e Arthur levou a sacola com os energéticos.
—Olá Ema- disse Nick sentando-se no banco de trás.
—Oi mãe- Arthur sentou-se no banco da frente.
—Garotos- puxou o filho para dar um beijo na bochecha. Arthur fez cara de nojo.
—Nick, me da mais uma lata. Obrigado. Tem razão, é horrível isso.
Começou a chover. Mas não uma chuva fraca, mas sim, uma grande tempestade. Raios
trovejavam. Parecia que pedras batiam no para-brisa do carro. Ema era mulher de quase
quarenta e cinco anos e parecia irritada pelo fato de o transito não estar andando. Buzinas dos
outros carros gritavam uns para os outros. Para Nick, a buzina era um negocio inútil. Não fazia
diferença se um carro ficasse buzinando para outro, se não havia como se comunicar.
A Perimetral estava engarrafada. Até que quando cruzaram um viaduto e o transito
começou a andar.
—Nick, me avisa qual rua que eu tenho que entrar.
—Claro.
Fazia tempo que não ia numa festa, e parecia que havia perdido a pratica de como
chegar em garotas. Lembrou-se de uma vez, que havia saído com Joana, no inicio de março e
conversavam sobre festas.
—Não gosto de ir a festas, sempre que eu vou, fico sentada num canto conversando
com alguém. E geralmente são caras feios e nada interessantes.
—Só que você foi naqueles Quinze anos da sua amiga- tomou um gole da coca que
dividiam na Praça de Alimentação em outro shopping. Um que ficava mais perto da casa de
Joana.
—Pois é. Não foi muito bom. Tu poderia ter ido comigo.
—Claro que eu queria. Mas nós brigamos.
—Culpa sua. Que queria algo mais sério.
—Quem não quer né?- disse sarcasticamente.
—Verdade.
Ambos sorriram e Joana saiu da sua cadeira na frente de Nick, e sentou-se em seu colo
onde começaram a se beijar. Foi longo, e quando pararam, os cabelos de Joana estavam
bagunçados. Ela estava sorrindo. Algumas pessoas os olhavam, mas eles não se importavam.
Levantou-se e fez um sinal para ele ir junto. Levantou-se e em seguida voltou a sentar.
—O que foi?- ela perguntou.
—Espera um pouco, okay?- pediu puxando discretamente a camiseta para baixo na
direção da virilha.
Acordou dessa lembrança com Ema perguntando onde deveria dobrar novamente.
—Pega essa direita, agora!
Mas nesse exato momento um carro cortou na frente e Ema teve que seguir em
frente.
—Filho da puta!- Ema apertava a buzina- Filho da puta! Onde eu pego o retorno Nick?
—Ah- pensou um pouco- Pode seguir reto, e mais dois quilômetros para frente fica o
próximo retorno.
O problema era que o próximo retorno ficava a três quilômetros na frente. Ema não
teve paciência para andar até lá, e entrou em umas ruelas secundarias. Passaram na frente de
um colégio onde no inicio do ano varias garotas fizeram greve para o uso de shortinhos. Isso
teve uma relevância nacional, e totalmente desnecessária.
—Pra onde eu vou?- Nick não soube o que responder- Arthur, ligue o GPS do teu celular
pra ver onde estamos.
Esperou um pouco para responder.
—Mãe, siga em frente e depois dobre na próxima rua- Nick fingiu que estava se
enforcando- Puta que pariu Nicholas- Arthur riu, mas sua mãe não- Ah, depois pega a primeira
direita e então estaremos de volta na Perimetral-falou olhando para o GPS do celular.
—Dessa vez me avisa com frequência Nicholas!
—Sim senhora- Bateu continência.
Estavam de volta na Perimetral e dessa vez ele avisou quando deveria entrar. A chuva
diminuiu um pouco. Desceram a lomba da rua do União. Estava cheia de carros de pais
deixando seus filhos.
—Peguem seus ingressos.
Nicholas pegou os seus e Arthur desesperadamente procurava nos seus bolsos. Abriu a
carteira e nada estava.
—Mãe- o garoto estava com uma voz assustada- Deixei o meu ingresso na mochila na
casa da mãe de Nicholas.
A expressão de Ema mudou totalmente. Ela já não estava de bom humor, então
explodiu.
—O que! Você é burro? Como tu esquece o ingresso lá?
—Desculpa. Como tu acha que eu tô me sentindo? Eu sou muito burro.
Nicholas pensava no banco de trás no que fazer. Pensava em dizer que desistiria da
festa e pediria para Ema os levar para casa, mas não foi preciso.
—Eu pego um taxi pra ir lá buscar o ingresso, mãe.
—Não precisa seu filho da puta, vai ficar de castigo por muito tempo depois disso.
Nicholas, eu te deixo aqui e depois vocês dois se encontram.
—Obrigado Ema- disse abrindo a porta e entregando a chave da casa para Arthur.
Ela o deixara bem na frente da entrada do clube. Chovia bem pouco, parecia que
naquele momento o destino havia sido bom. Centenas de garotos com camisa social e garotas
com vestidos ou saias curtas. Uma fila para meninos e meninas se seguia para serem
revistados por segurança. Não entendia o por quê ,talvez por drogas ou armas. Bebia a ultima
garrafa de enérgico. Arthur havia ficado com a sua ultima.
Jogou numa lixeira enquanto olhava para as garotas. Foi para sua fila . Quando chegou
a vez, o segurança pediu para levantar sua camisa acima do umbigo. Deixou-o passar.
Seguiu para o grande salão. Não sabia dizer quantas pessoas havia ali. Com certeza
mais de mil. Era um ambiente escuro, havia apenas algumas luzes coloridas brilhando. Sua
claustrofobia não atacou. Era um lugar bem grande. No outro lado, havia um palco com um DJ
se aquecendo com algumas musicas “leves”.
No lado direito, algumas mesas e umas pessoas sentadas. Observou uma garota com
cabelos negros, bem menor que Nicholas, discutindo com sua amiga que a tentava convencer
para ir dançar. A garota de cabelo preto se irritou e ficou sentada enquanto sua amiga foi
pisando forte para pista. Nicholas foi na direção da mesa.
—Olá, posso me sentar?- pediu o garoto.
Ela o olhou. Sua maquiagem estava borrada. Lágrimas escorriam de seus olhos
castanhos bem redondos e desciam pela sua pele bem brancas e bochechas coradas. O que
deixava os cabelos mais negros ainda. Usava uma saia preta que ia até o joelho. Ela concordou
com a cabeça. Nick puxou uma cadeira para o lado da garota.
—Então, qual o seu nome?
—Helena- ela soluçava. Estava com a cabeça abaixada. Nick esperou que ela
perguntasse o seu.
—Meu nome é Nicholas, caso queira saber- disse estendendo a mão.
—Vocês garotos são todos iguais- ela não esticou a mão de volta e ele recolheu a sua-
Cada garota que pegam, é só mais uma para sua lista. Para elevar sua moral.
—Out, essa doeu- ele sorria- Não podemos generalizar todos. Por que esta chorando?
Ela pensou um pouco antes de responder.
—Minha amiga, ela me arrastou para festa. Queria que eu ficasse logo com um cara.
Mas só vi idiotas por aqui.
—Será meio difícil encontrar um príncipe encantado aqui. Que bom que riu. Não gosto
de ver os outros tristes ou chorando. Principalmente se for uma linda garota com os cabelos
mais escuros que já vi. Entenda como um elogio.
—Obrigada- ela agora o olhou nos olhos.- Você não é como todos os garotos. Olhe lá
minha amiga, já esta agarrada num cara que nem sabe seu nome.
—É difícil encontrar pessoas que pensam assim.
—E o que o traz para essa festa?
—Buscando garotas como você.
Ela corou.
—Não recebo com frequência elogios- olhou para barba de Nick. Ele havia aparado um
pouco à tarde- Quantos anos tu têm?
Ele geralmente mentia sobre isso, dizia sempre ser mais e dessa vez não queria mentir.
—Quinze. E tu?
—Quatorze. Serio mesmo? Quinze, parece ser bem mais velho- ele riu.
—Todo mundo diz isso- ele pensou um pouco, e teve uma ideia- Quer dançar? Uma
garota tão bonita como você não deve ficar numa mesa chorando.
Ela parecia que não aceitaria a ideia. Até que ele se levantou e estendeu a mão direita,
e fez beicinho. Ela dessa vez pegou sua mão e sorriu.
Ele a guiou bem para o meio da pista. Ela acariciava de leve sua mão. Não tirava os olhos dele.
Achava realmente que tinha achado seu príncipe encantado. Suas pupilas estavam dilatadas.
Tinha quase certeza que ele era um garoto diferente. Queria que ele fosse diferente. Seu
coração começou a bater mais rápido. Por ela, poderiam ficar ziguezagueando para sempre
naquela pista de dança. Ele era educado, pedia licença para passar no meio das pessoas.
Eles ficaram bem no meio do palco. Nicholas parecia que procurava alguém e Helena
queria saber.
—Algum problema?- ela teve que se inclinar perto do ouvido de Nicholas para ele poder
ouvir. As caixas de sons gritavam. O DJ terminou de se aquecer.
—Nenhum. Só estou procurando meu amigo. Ele daqui a pouco deve chegar.
—Ah, tudo bem.
Nicholas começou a dançar. No fundo tocava alguma musica eletrônica que ele
conhecia, mas não sabia o nome. Helena estava meio tímida, mas em seguida se soltou. Ele
não tirava os olhos da porta da festa, e ela não tirava os olhos dele. Estava impressionada pelo
garoto. Parecia ser sério e ao mesmo tempo muito divertido. Se perguntava onde ele esteve a
sua vida inteira.
Queria que fossem para um canto para conversarem mais. Estava nervosa. Tinha medo
que seu estivesse com alguma parte do vestido resgado, que sua maquiagem estivesse mais
borrada do que achava que estava. E ao mesmo tempo sentia-se confortável perto de
Nicholas. As vezes ele dava olhada e sorria, e seu coração disparava.
Queria que ele ficasse ali para sempre, que aquele momento fosse eterno.
Sentiu seu telefone vibrar na calça. Era uma mensagem de Arthur perguntando onde estava.
Não sabia dizer exatamente onde, e também não poderia deixar Helena agora sozinha.
Respondeu simplesmente.
{com uma garota :v}
{Ela pelo menos é gata?}
{Bastante}
{Então aproveita, a gente se cruza por ai}
Sabia que essa não era bem a festa que Arthur queria. Ele imaginava que os dois
chegassem nas garotas de grupinho, em grupinho, mas ele compreendeu que Nick precisava
conhecer pessoas novas. Sabia que a maioria das garotas da festa não eram seu tipo, e se ele
estava com uma garota é por que valia a pena.
—Algum problema?- perguntou Helena novamente.
—Nenhum- respondeu Nick- Meu amigo chegou, ele vai dar uma volta pela festa e
talvez eu encontre ele por ai.
—Ótimo- sorriu a garota.
E os dois ficaram ali dançando por mais um tempo. Já era quase uma hora da manhã e
sua mãe disse que os buscaria as três. Havia gostado de Helena. Gostava do tipo dela. Tinha
quase certeza que ela não havia ficado com ninguém. Notou o jeito que ela o olhava. Não iria
decepciona-la. Estava esperando o momento certo até o DJ parou a musica e pegou o
microfone:
—Agora dedico- sua voz era de um maconheiro frequente- Essa musica aos casais da
noite.
Começou a tocar outra musica que Nick não sabia o nome, mas já tinha ouvido em
algum lugar. A letra era bonitinha. Conseguia entender um pouco de inglês. Helena estava com
a cabeça abaixada, mexendo só os pés. Nicholas pela prática não deveria ficar nervoso nesses
momentos, mas sabia que ela era especial. E para ela seria especial.
Delicadamente, colocou a mão direita em seu rosto e com a esquerda em sua cintura a
puxou para o beijo, fechou os olhos e deixou a musica levar.
Arthur estava agarrado em outra guria. Ela estava com uma saia curtíssima e com um decote
gigante. Ele não sabia seu nome. Ao longe, viu Nicholas dançando com outra guria. Agora era
uma lenta, parecia uma valsa ou algo parecido. Estavam abraçados e de mãos dadas. Ela o
apertava forte, e ele acariciava seus cabelos.
Não havia como muda-lo. Aquele Nicholas que ano passado ia nas festas com ele e
ficava com varias garotas, se perdeu. Mas estava feliz pelo amigo, não sabia quem era a garota
ali com ele, mas preferia ela do qualquer Joana Rice.
O DJ reiniciou com as musicas eletrônicas e Nicholas e Helena foram para um canto
conversarem. Lá o som não era tão alto e não era preciso ficar gritando e fazendo leitura labial.
—Acho que só temos uma meia hora, meus pais vem me buscar as duas e meia.
—Não tem problema, vamos conversar o tempo que tivermos. Um fato sobre você.
Ele estava debruçado sobre os joelhos a encarando como um garoto bobo apaixonado.
Ela não demonstrava isso, mas por dentro estava assim e muito mais.
—Tu foi meu primeiro.
—Eu sei.
—Foi tão ruim assim?
Ele foi beija-la para não precisar responder. Não queria conversar, queria que ficassem
assim até a hora de irem embora. Ela não sabia muito o que fazer nessa hora. Ela não queria ir
embora. Quando foram se afastando, foi ela que perguntou:
—Um fato sobre tu agora.
—Bem- pensou um pouco- Sou sagitariano, e tu?
—Peixes.
Isso foi meio surpreendente. O que Nicholas sabia de peixes era o signo mais inocente
do zodíaco. Pessoas inocentes o irritam. Principalmente porque tem que ficar explicando a
piada várias vezes e dai a pessoa quando entende, não ri porque perdeu a graça.
—Interessante, de quem é a vez agora?
—Sua.
—Na verdade sua, porque eu só repliquei a pergunta que tu me fez, mas tudo bem.
Quero ser jornalista. E tu?
—Não sei muito bem o que quero fazer. Sou muito boa em matemática, poderia fazer
faculdade de estatística. Meu pai disse que quando fizesse dezoito anos ele me daria algumas
de suas ações.
—Fascinante. Adoro filmes antigos. Qual seu filme favorito?
—O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. E o seu?
—Poderoso Chefão. Já viu?
—Não, mas é o filme favorito do meu pai. Ele tem um quadro no escritório dele do Don
Corleone segurando um gato com uma frase que eu não me lembro o que esta escrito.
— “Eu lhe farei uma oferta irrecusável”. Tenho um no meu também.
—No seu escritório?
—Não – riu – No meu quarto. Gosta de filmes antigos?
—Nem tanto. É que não tenho muito tempo pra ficar vendo filmes e series. Fico
estudando boa parte do tempo, ou me exercitando.
—A é? Interessante. O que você faz?
—Fazia academia, agora só faço natação.
—Eu fazia natação até ano passado. Mas parei. E eu fazia teatro, mas também parei.
—Por quê?
—Não sei. Talvez eu queira fazer coisas diferentes, o problema é que não sei que coisas
diferentes eu posso fazer. Passo a maior parte do tempo escrevendo algum texto, ou andando
pela cidade.
—Escrevendo? O que tu escreve?
—Escrevo o que me da vontade de escrever- achou que havia soado grosseiro- Quero
ser escritor. Mando alguns textos para jornais e as vezes eles compram. Mas estou escrevendo
um livro.
—Sobre o que?
Não queria falar sobre o que estava escrevendo. Tratava seu livro como um filho, e
queria protege-lo. Proteger a ideia. Foi salvo pelo gongo. Seu telefone vibrou. Era uma
mensagem de Joana.
{Dani viu você num canto conversando com uma guria na festa do União. Nem me
avisou que ia numa festa ;-;}
{Pois é, depois a gente se fala}
Olhou para os lados procurando Dani. Achou ela no outro lado do salão, sentada numa
mesa com um grupo de amigos mexendo no celular. Ela falou alguma coisa e todos se viraram
para Nicholas. Ele sentiu um calafrio no estomago. Dani foi uma das amigas que botou pilha
em Joana para brigar com Nicholas em Janeiro.
—Vamos sair daqui- pegou a mão de Helena e foram para fora do salão. Passaram pela
porta e ela perguntou.
—Algum problema?
—Nenhum, só pessoas que não gostam de mim.
—Por que elas não gostam de ti?
—É complicado. Um dia eu te conto. E falando nisso. Qual seu telefone?
“Um dia”. Isso arrepiou Helena. Significava que ele não queria ela apenas uma garota
para ficar naquela noite, mas sim que queria manter contato. Ela não pensou duas vezes em
dar o numero. Seu telefone começou a tocar e ela atendeu.
—Ah sim, já estou indo para ai- desligou- Meu pai está chegando.
—Eu acompanho você até lá.
—Claro, quero dizer, obrigada.
—Vamos?- ele esticou a mão e assim foram.
Enquanto iam para frente, Nick apontava para pessoas que conhecia. Algumas foram seus
colegas de teatro, outros conheceu com na Cidade Baixa. Eles se despediram com um abraço.
Os pais de Helena cuidavam de dentro do carro e obviamente os dois não iram se beijar na
frente deles. Quando abriu a porta e entrou no Mercedes, ela acenou delicadamente para
Nicholas. Ela estava radiante.
—Quem era o garoto filha?- perguntou seu pai.
—Seu nome é Nicholas. O conheci na festa. Não foi tão ruim quanto eu achava que
seria. Tu iria gostar dele papai. Ele gosta de filmes antigos e o seu favorito é Poderoso Chefão.
Ela falava como uma criança feliz no Natal. Ela estava apaixonada.
—Que bom querida, mas ele parece ser bem mais velho que você.
—Ele tem quinze anos. Sei que parece por causa da barba, mas não, só quinze mesmo-
falava rápido- Ele parece ser esperto. Ele é diferente. E também bem popular. Conhecia muita
gente na festa, mas não os cumprimentava porque era tímido. Havia um grupo de pessoas mal
encaradas que não gostavam dele. Ele contou também que frequenta a Cidade Baixa.
Ela foi para casa assim. Não parava de falar de Nicholas chegou em casa e fora dormir
pensando no seu príncipe encantado. Imaginando quando o encontraria novamente.
Nicholas procurou Arthur. Mas ao invés disso, topou com Dani. Ela era uma garota alta e
magra. Uma cabeça a mais que ele. Usava cabelos curto e preto.
—Olá Nick.
—Por que falou para Joana que eu estava aqui?
—Nada demais, só avisei que te vi.
—Tudo bem.
—Ela ficou brava que tu não avisou pra ela que tu veio na festa.
—Não tenho obr...
Foi interrompido por Arthur que chegou dando encima de Dani.
—Eae gata, tudo bem?
Ela em seguida se virou dando um tchau de costas.
—Conhecia ela? Ou só queria pegar mesmo?
—Ela é amiga da Joana. E serio mesmo que tu queria pegar ela Arthur? Pulta que pariu.
—Pelo menos minha cabeça da nos peitos dela.
Não demorou muito e o telefone de Nicholas apareceu com mensagens de sua mãe
dizendo que estava chegando mais cedo do que o combinado. Disse que estava muito cansada.
—Arthur, mamãe disse que esta chegando. Não me olhe com essa cara, ela que esta
mandando.
Ele melhorou o rosto.
—Tudo bem, já beijei o suficiente por uma noite. Quem era aquela garota que tu estava
dançando.
Sorriu ao se lembrar de Helena.
—Não precisa responder, só por esse sorriso sei quando começa a gostar de alguém. Eu
não falei que era só uns beijos e tu já esquecia Joana?
Foram para frente do prédio. Havia um grupo de adolescentes pedindo “Fora Temer” e
outros defendendo seu governo. Foi a primeira vez que via isso saindo de uma festa.
{Vai subindo o morro que eu e Júlio estamos presos num engarrafamento aqui em
cima}
Obedeceu sua mãe. Havia dezenas de carros trancados, pois cada um tinha que parar
para buscar seu filho. Continuava chovendo, o que dificultava um pouco a subida. Nicholas
escorregou numa folha e caiu de joelhos. Arthur o ajudou a levantar e riu também.
Ouviu a buzina do carro do seu padrasto. E foram correndo- Nicholas nem tanto- para
dentro do veículo.
—Boa noite mãe, Júlio.
—Como foi a festa?- perguntou sua mãe.
—Foi boa- respondeu Arthur- O Nicholas que o diga, não é mesmo garanhão- deus uns
soquinhos de leve no ombro do amigo.
—Verdade- fez um sorriso forçado.
—Então tinha bastante gatinha?- perguntou Júlio.
—Sim- responderam os dois garotos.
E Nicholas não tirava Helena da cabeça.
—Vocês dois vão dormir no quarto de sua irmã. Ela está dormindo na cama comigo e com Júlio-
contou Ivone, a mãe de Nicholas. Ela lembrava muito a cantora Preta Gil. Seu pai vive fazendo
piada disso- Boa noite- se virou e foi dormir.
O quarto era rosa cheio de bonecos de pelúcia. Com uma cama de casal apenas.
—Então- disse Arthur agarrando um boneco do Barney com um metro de altura- Vamos
ser amiguinhos e dormir juntos?
—Para com essa viadagem.
Arthur tirou a camisa social e a colocou em cima de um baú de brinquedos de Laura.
Agarrou o Barney, e se jogou na cama para dormir. Nicholas fez o mesmo. Mas antes se serviu
de uma Coca bem gelada. Abriu a camisa, tirou os tênis e pegou no sono pensando em Helena.
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