Fio da Eternidade
1 Capítulo I: A Escorpião e o Sagitário
Notas iniciais
Existem coisas que estão fadadas a dar errado, mas continuamos insistindo no erro de
qualquer jeito, pois ainda temos a esperança, mesmo mínima, de que o nosso desejo dê certo.
E existem coisas que estão fadadas a dar certo, só que no momento errado.
—Inferninho Astral- disse Nicholas Eliot, enquanto encarava Joana Rice através de seus
óculos com um alto grau de miopia. Estava com a cabeça apoiada na mão e com um leve
sorriso nos lábios.
—Não me chame assim, sabe que eu não gosto- respondeu a ruiva que também usava
óculos só que com um grau de miopia um tanto menor, só que atrás das lentes, estavam dois
lindos olhos azuis diferentes dos castanho-escuros de Nicholas. Ela desviou a atenção do
sanduiche do Subway estava comendo para encarar o garoto- Não vai comer nada? Me sinto
mal comendo e você ai- fez uma pausa- só observando.
—Não estou com fome- com a outra mão ajeitou a franja que estava um tanto grande
nos seus cabelos negros.
—Mas deveria estar, daqui a pouco tu desmaia e não sabe porquê.
—Eu sei que caso eu desmaie- ele não soube como terminar a frase, mas a garota o fez.
—Vou te deixar aqui no meio do shopping e vou embora para casa.
Ele sorriu ao vê-la irritada.
—Tá rindo de que?
—Cala boca- disse o garoto calmamente.
—Vem calar- e só foi o tempo dele se inclinar para beija-la. Durou um bom tempo, e
quando terminou, ela já estava sorrindo.
—Satisfeita?
Ela não precisou dizer nada, o seu sorriso já dizia tudo.
—Inferninho astral- disse Nicholas, e o sorriso de Joana logo desapareceu.
Os dois jovens estavam abraçados na fila do cinema. Não era um abraço de dois apaixonados,
mas sim de dois viciados nos seus celulares. Cada um mexia no seu. Às vezes Nicholas beijava
seu pescoço. Então a fila andou, e ambos soltaram-se. Havia antes uma mulher que não sabia
que lugar escolher, por isso, a demora.
—Dois ingressos para o Capitão América.
—Escolham as cadeiras.
Não havia duvidas que escolheriam a ultima fileira. É desse jeito desde que ficaram
pela primeira vez em janeiro. Ultima fileira. Existe lugar melhor para fazer coisas proibidas
entre adolescentes do que na ultima fileira? O que seria dos jovens apaixonados sem o
cinema?
As cadeiras eram confortáveis e quando escolheram os lugares, cuidaram para que não
houvesse ninguém na fileira da frente para poderem apoiar os pés. No fundo tocava uma
musica leve, muito próximas as de elevador, antes do filme começar. Ela sentou a sua direita e
não deu outra e ela já o puxou para outro longo beijo.
Ele lembrava muito bem como fora janeiro. Lembrava-se do nervosismo de quarta-
feira até domingo quando haviam combinado de sair. Não conseguia ler as paginas de 2001:
Uma odisseia no espaço sem em algum momento pensar que ela não iria aparecer. E quando o
dia chegou, pediu a papai que o acordasse às 11 horas mesmo tendo combinado com Joana às
14 horas no mesmo shopping que estavam.
Queria impressionar e não mostrar nervosismo. Ao vê-la apoiada num pilar na frente
do cinema no shopping, já se acalmou. Ela estava com um vestido branco e com um All Star
preto da mesma cor de Nicholas. Seus celulares eram os mesmos também.
Passaram o filme inteiro rindo e conversando. Era uma comedia nacional, mas só riam
quando o resto das pessoas na sala ria. E no final do filme, ele sabia que haveria um
casamento, e todo casamento tem um beijo. Tomou coragem para que na cena final a beijasse
e assim o fez. Fogos de artificio saíram da sua cabeça e se transformavam em arco-íris com
unicórnios azuis.
Nicholas acordou dessa lembrança quando seus lábios foram aos poucos se separando.
Lembrou-se do trecho de Arabella :E seus lábios são como a beira da galáxia, e seu beijo, a cor
de uma constelação se encaixando. Ajeitaram seus óculos o que virou um costume quando
isso acontece. Ela era escorpião e queria mais. Ele era sagitário, e queria ela.
—Domingo vou sair com um garoto que conheci um dia que estava esperando a Dani no
shopping. Ele parece ser bem legal- eles estavam indo para o estacionamento de mãos dadas
esperar o pai de Joana vir busca-la.
—Foda- se – respondeu friamente Nicholas.
—Ah é? Qual o problema?
—Qual o problema? E tu ainda pergunta! Poxa Rice. Nos conhecemos a quase seis
meses. Eu não quero ser seu amigo com benefícios, qu...
—Não vamos ter essa conversa novamente, por favor- pediu calmamente Joana.
Ambos sentaram-se apoiados num carro cuidando os que estavam vindo.
—Rice...
—Não me chama de Rice, meu nome é Joana.
—Joana então- disse Nicholas pegando na sua mão- Me de uma chance, nos
conhecemos há bastante tempo.
—Eu conheço meu outro amigo, que às vezes eu fico com ele, a mais tempo que tu e
não quero nada serio com ele- Joana ficou encarando ele esperando uma resposta, mas
Nicholas estava já bastante abalado- Um dia, quem sabe. Você é um dos meus melhores
amigos e não quero perder isso Nick. Entenda, por favor. Sabe os meus motivos- eles
imediatamente se abraçaram- Eu queria muito mesmo.
Nicholas estava feliz dentro do abraço dela, lembrou-se de um trecho de musica que
um dos seus amigos às vezes canta e sussurrou no ouvido de Joana:
—Talvez não seja nessa vida ainda, mas você ainda vai ser a minha vida.
E assim ficaram os dois. Sem dizer nada. Até que o pai de Joana chegou. Eles não se
beijavam na frente do pai dela, mas dessa vez ela o puxou para o beijo e depois sussurrou:
—Um dia.
Ajeitou a franja e viu o carro se afastar. Ficou mais um tempo ali sentado. Já era noite.
Precisava ligar para papai vir busca-lo. Não queria ir para casa, poderia ficar ali a noite toda,
até chegar a hora de ir para o colégio no dia seguinte. Onde ele estava com a cabeça de aceitar
um convite de ultima hora para sair na quarta-feira no meio da semana? Mas as vezes ela se
esquece, que ele faria tudo por ela. Nunca conseguiu dizer um não.
Janeiro além de ter sido o mês que ficaram, foi o mês em que brigaram pela primeira
vez. Estavam no shopping almoçando, quando ela tocou no assunto namoro:
—Nunca namore Nick. Já te contei o que meu ex fez comigo.
—Eu soube que vocês namoraram por um tempo.
—Sim, mas ele terminou porque queria ficar com outras garotas. Na época me magoo
muito, mas eu superei.
Ele ficou pensando no que falar, então abriu a boca.
—Se, não vamos namorar, por que estou aqui?
—Não sei- ele demorou para falar, mas ela foi ríspida.
—Por que não?
—Meu ex me magoo uma vez, eu não quero sofrer de novo como houve antes. Foi
horrível, tu não faz ideia. Eu tento, juro que tento me apaixonar pelas pessoas, mas eu juro
que não consigo. Sempre penso que em algum momento elas vão me deixar como ele fez.
—Mas eu não sou ele.
—Eu sei, mas não Nick. Um dia talvez você entenda.
Dias depois eles brigaram e ficaram uma semana sem se falar. Três dias foram por
causa de um temporal que abalou Porto Alegre e deixou maior parte da cidade sem luz. Saíram
novamente como se nada tivesse acontecido. Pareciam crianças de sete anos que num dia
diziam que se odiavam, mas no outro brincavam na caixa de areia.
Quando pegou o telefone para ligar para papai, lembrou-se que estava na casa de sua
namorada e só viria pelas 23 horas para casa. Respirou fundo para recuperar a paciência.
Caminhou até a esquina e tomou um taxi. A corrida não saiu caro, mas como o país mergulha
cada vez mais numa crise, é difícil dizer o que esta caro e o que esta barato.
Abriu a porta do apartamento, jogou o celular na cama e assim que o sinal do WI FI
apareceu, surgiram mensagens do Whats app. Algumas eram de sua amiga que apresentou
Joana, outra de um de seus melhores amigos perguntando a mesma coisa que a outra
mensagem. “Como foi lá?” Outra mensagem que ele preferiu ignorar “Você tem merda na
cabeça?”.
Foi para cozinha. Não tinha o costume de beber, e seu pai não se importava de deixa-
lo. Mas hoje estava diferente. Hoje era diferente. Estava melancólico, o seu sentimento
favorito. A mistura de tristeza com a felicidade que no fim havia mais felicidade. Estava
apoiado no balcão da cozinha com a sala, bebendo uma taça de vinho conversando com seus
amigos.
Nicholas era um garoto comum. Com suas próprias ambições, sonhos e desejos. E
Joana era também uma garota comum que era amada por ele.
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