P.O.V Olivia B.

Alicia Smith havia sido tirada do coma induzido, aparentemente o inchaço em seu cérebro diminuiu significativamente. O time não poderia ser mais oportuno.

Eu não dormi, obviamente, e era a primeira pessoa a estar diante do quarto da garota, com uma xícara de café fumegante numa das mãos e uma cara meio psicopata. Precisava me recompor ou os pais dela nunca permitiriam que eu conversasse com Alicia e eu precisava conversar com ela, de alguma forma ela estava conectada com Carter, eu podia sentir.

– Você precisa se acalmar, Olivia – Amanda tocou no meu braço e me lançou um sorriso tenso que não fui capaz de retribuir.

– Nesse exato momento um Juiz está decidindo se minha filha merece ou não ficar numa cela até o julgamento, não é a hora para me mandar ficar calma – falei num tom mais ríspido do que tive a intenção.

– Exato, mas você precisa estar com sua cabeça em Alicia Smith agora, nosso trabalho vem antes dos nossos problemas, nossas famílias, antes de Deus se você preferir – Amanda tinha um jeito muito peculiar de me mandar pôr minha bagunça em ordem.

Achei melhor escutá-la, ela era a voz da razão naquele relacionamento. Pedi licença por um momento e fui dar um jeito na minha cara, me tornar minimamente mais apresentável por assim dizer, quando voltei o Sr. e a Sra. Smith estavam saindo do quarto da filha, muito emocionados (não era para menos, era um milagre ela estar viva). Me aproximei de Amanda e só então entramos no quarto.

Alicia não parecia à garota das fotos, sua cabeça estava enrolada por uma faixa branca, seu rosto apresentava diversos hematomas, assim como seus braços e aquele olhar inocente, aquele brilho... Simplesmente havia sumido, como se tudo que restasse fosse um enorme e intransponível vazio. Pensei em Carter, ela tinha um olhar semelhante àquele quando estávamos falando de família, casamento... Como ela não confiava em ninguém.

– Olá, Alicia – pelo menos Amanda se deu o trabalho de iniciar aquela conversa – Eu sou detetive Amanda Rollins e aquela é Olivia Benson – nos introduziu num ar paciente – Viemos falar sobre –

– O estupro – Alicia não permitiu que Amanda concluísse o raciocínio – Vocês vieram falar sobre o estupro – falou novamente e parecia estar fazendo um enorme esforço para que aquelas palavras saíssem por seus lábios.

– Qualquer coisa que você consiga lembrar sobre aquele dia é relevante, tudo bem? – a assegurei, só então me aproximei do leito.

Ela me encarou. Magníficos olhos azuis, como se não bastasse minha situação ela realmente tinha que parecer tanto com Carter?

– Eu estava numa festa, numa das fraternidades, estava bebendo... Típico caso garota conhece garoto, começamos a conversar – deu de ombros – Ele parecia legal... – deu uma longa pausa, como se estivesse voltando para o dia do ocorrido, respeitamos o espaço dela e apenas aguardamos. – Ele não era tão legal se eu pensar bem, só era bonito – concluiu — Ele pôs algo na minha bebida, a próxima coisa que eu lembro é estar vendada e amarrada pelos braços e pernas... – sua voz era carregada de emoção e ela deu outra pausa.

– Alicia... Alicia? – Amanda teve que tocá-la no ombro para a garota sair do transe – Você ouviu alguma coisa, era só esse garoto que estava com você? – perguntou pacientemente. Não tínhamos a intenção de fazê-la falar sobre o estupro em si, isso cabia para a equipe de psiquiatras que estariam a sua disposição. Só queríamos pegar os responsáveis.

A menina balançou a cabeça negativamente e era nítida a luta que ela fazia para controlar as lágrimas. Era uma garota forte, engoliu tudo e respirou pausadamente até controlar as próprias emoções. – Tinham mais dois caras, eles ficavam o mandando filmar – revelou com cansaço – Eu não acho que ele me tocou, não era a voz dele... – deixou a ideia no ar e entendemos o que ela pretendia dizer.

Eu e Amanda nos entreolhamos com certa confusão. Tirei a foto de Max da bolsa e a mostrei para Alicia – Esse é o garoto? –

Ela o olhou muito bem, pensei que estava prestes a confirmar, mas ela não confirmou.

– Não, não é ele – pelo menos Max não fizera aquilo. Lauren ficaria maravilhada com a notícia.

Um médico adentrou o cômodo e parecia particularmente preocupado – Vocês terão que me desculpar, mas essa visita precisar acabar, ela ainda está em recuperação – pediu polidamente.

Não tínhamos outra escolha se não acatar a ordem médica. Levantávamos para sair quando Alicia nos chamou mais uma vez.

– Esse garoto que você me mostrou, ele parece com o da festa, mas o cabelo é diferente – revelou o que ela considerou um detalhe banal, mas que para nós era ouro.

– Obrigada, Alicia – Amanda se despediu.

– Eles irão pagar, Alicia, eu prometo – foi minha vez de me despedir e eu falava sério. Nunca faço promessas vãs, eu iria pegar os desgraçados.

– Peça para o médico avisar quando Alicia puder colaborar novamente, a mostre a foto de Caleb dessa vez – deleguei para Amanda que apenas concordou.

Casa parecia um bom lugar para eu estar naquele momento.

†

Nunca pensei que ficaria grata pelo meu cubículo na casa dos Benson’s, mas eu fiquei, tomei o banho mais demorado da história e dormi por cinco horas seguidas. Estava exausta, mas nenhuma exaustão tiraria à cena de Crash da minha cabeça... Então me contentei com as cinco horas que pude ter de sono.

A casa parecia deserta, parei no topo da escada e cogitei não descer se isso significasse me deparar com alguém. A situação não poderia ser mais incômoda, ninguém sabia o que dizer, e por vezes me olhavam num misto de pena e medo, ou algo no meio disso. Não estava particularmente interessada em receber mais olhares que diziam basicamente: “olha aí a assassina suicida”, ou talvez fosse apenas minha cabeça criando esse cenário e eles não me olhassem dessa forma... Vai saber, parei de confiar nela a muito tempo.

Ouvi sussurros vindos do escritório e minha curiosidade acabou superando meu bom-senso, me aproximei o mais gatunamente que pude e me abaixei ao lado da porta, ouvindo através da fresta.

“Não podemos colocá-la para depor” meu avô falou.

“Por que não? Eles têm que ouvir o lado dela” Olivia e Hank falaram ao mesmo tempo.

“Ela ameaçou matá-lo, tem histórico de abuso de drogas e já esteve num hospital psiquiátrico, Olivia, seja razoável...” Thomas deixou a ideia no ar.

“E se ela tiver razão, e se o Crash tiver algo a ver na morte daquelas meninas? Isso ajudaria?” a mulher quis saber.

“Isso ajudaria se ela confessasse saber do envolvimento dele em qualquer coisa, mas o testemunho dela é cheio de suposições, suspeitas que uma garota de dezesseis anos inventou a fim de matar um ex-namorado” eles mantiveram-se em silêncio, enquanto eu engolia as lágrimas. “Pelo menos é isso que o júri irá pensar a menos que ela diga algo mais convincente” ele finalizou.

“Então você está dizendo que não há como vencer isso?” Hank fez a pergunta que pairava na minha mente.

“Se por vencer você diz não enfrentar algum tempo, temo que não, mas eu irei assegurar a penalidade mínima e que ela seja condenada como uma menor. Podemos tentar arranjar um acordo, um ano e quatro meses por algo que ela já admitiu, é melhor que quinze anos se ela responder como uma adulta.” deu sua resposta mais profissional.

Um ano e quatro meses...

“Mas a alegação de legítima defesa?” Jane parecia igualmente preocupada.

“Ela foi a pessoa a ir a casa dele, eu poderia alegar legítima defesa se tudo houvesse ocorrido aqui, mas ela foi na casa da vítima, admitiu ter iniciado uma discussão com ele... A promotoria vai dizer que ele apenas se defendeu, vai usar o histórico dela contra nós.”

– O que você tá fazendo? – a voz baixa de Lauren me pegou de surpresa.

– Merda – xinguei no mesmo tom e apenas me levantei antes que o grupo dentro do escritório nos escutassem. – O que foi? – perguntei assim que a alcancei, mas ela apenas me arrastou até o quarto dela, trancou a porta e ligou o som. Realmente me falaria algo importante.

– Eu sei o que você fez! – parecia me acusar e zanzava pelo quarto num ar preocupado.

– Você tem que ser um pouquinho mais específica – aconselhei com ironia.

– Max me contou tudo, sua idiota – manteve o dedo em riste na minha cara.

– Você que é a idiota por ir falar com um provável assassino – me defendi com mau humor. Já deveria saber, Max não tinha os nervos para se manter calado e poria tudo a perder.

– Não tente mudar de assunto, por que você fez isso? É seu futuro, sua vida, nossa vida – seu rosto já estava completamente vermelho, não sabia se era de raiva ou porque ela tentava conter as lágrimas.

– Ele fez por mim – admiti num sussurro baixo – Ele o matou por mim, eu tenho uma consciência Lauren, e ela vale mais que o meu futuro. Max me salvou, agora eu o salvarei – decretei com fúria e aproximei-me dela, segurando seu rosto entre minhas mãos – Agora você fale com ele e o mande ficar quieto, porque falso testemunho também te leva para a cadeia, daí seremos nós dois atrás das grades, que bem isso faria para alguém? – usei minha lógica para convencê-la.

– O que aconteceu, Carter? – sussurrou e me fitou com os olhos completamente marejados. Odiava-me por fazê-los sofrer daquela forma, eles não mereciam nada daquilo.

– Ele estava me enforcando, Max chegou... –

– Eu não estou falando do que houve naquele apartamento – Lauren me interrompeu e eu desviei do olhar dela – O que houve entre você e Crash? – quis saber.

Eu queria contá-la, eu realmente queria, mas eu nunca confiei em alguém ao ponto de dizer aquilo, nunca. Nem a minha mãe. Escrevi em um diário qualquer e lidei sozinha com o resto, não lidei muito bem, admito... Mas amadurecer é difícil.

– Ele merece estar morto, é a única coisa que você precisa saber – respondi friamente.

– Eu preciso contar para nossa mãe, ela está se culpando por isso, Carter – apesar do tom de voz permanecer baixo havia fúria ali.

– Você o ama? – perguntei naturalmente.

– O que?! – rebateu com confusão.

– Max, você o ama? – inquiri com determinação.

Lauren maneou a cabeça numa afirmativa.

– Aí está sua resposta – concluí.

– E por eu amá-lo você merece ir para cadeia? – levou as mãos até os cabelos como sempre fazia quando estava nervosa.

– E ele merece? – a fitei longamente, como se aquilo fosse fazê-la enxergar a situação em sua totalidade e não apenas fragmentos – Você tem que ficar calada e o Max também, porque a verdade, Lauren, é que se eu tivesse tido a oportunidade de pegar aquele taco, eu teria matado Crash, e eu não teria parado após o primeiro golpe, eu iria atingi-lo tantas vezes que teriam que fazer um teste de DNA para confirmar que era realmente ele – admiti no ar mais sinistro possível, mas nem por isso deixava de ser verdade.

– Você não sabe o que está falando – quase amaciava meu ego Lauren confiar daquela forma em mim.

Dei um riso nasalado e abaixei os olhos – Eu sei exatamente o que eu estou falando – voltei a encará-la – Quem você acha que merece ir para cadeia, um cara que tentava proteger sua amiga de infância ou alguém que se tivesse tido a oportunidade cometeria um crime hediondo? –

Lauren manteve-se calada, o que eu tirei como um bom sinal, era como eu queria que ela permanecesse, calada. O que estava feito, estava feito, não tinha mais volta daquilo.

Algumas batidas na porta nos transportou de volta a realidade. Ela abaixou o volume do som e só então foi atender.

– Vocês estão bem? – Olivia indagou e alternava seu olhar entre mim e Lauren, como se soubesse que escondíamos um segredo dela.

Dei de ombros e forcei um sorriso – Tudo ótimo – menti da forma mais natural possível. Eu com certeza possuía uma veia artística, ou uma veia sociopata.

– É, tudo ótimo – Lauren seguiu minha atuação e Olivia apenas assentiu, não parecia tão convencida assim, mas parecia cansada de tentar arrancar algo de nós.

– Você tem visita, Carter – anunciou seu propósito ali.

Lancei um olhar de aviso para Lauren antes de sair do quarto e ver quem era.

– Elliot – sorri timidamente.

Primeiro ele me abraçou como se não me visse à séculos, depois me avaliou, como se checasse meu estado e só então sorriu, aliviado.

– Você está bem? Estava preocupado – enfim falou algo, enquanto eu me sentia incapaz de respondê-lo.

– Sim – falei após alguns instantes embaraçosos de silêncio. – Estou tão bem quanto uma pessoa que admitiu ter matado alguém poderia estar – completei na minha conhecida ironia.

– Seu avô é o melhor advogado da região, ele dará um jeito – ele tentou me animar, mas eu havia escutado as previsões e, infelizmente, elas não eram tão otimistas.

– É, ele dará – Elliot não precisava saber do meu provável tempo no reformatório. – Como está o colégio? – perguntei a primeira coisa que brotou na minha mente.

Ele deu aquele sorriso reconfortante e sentamos na varanda – Todos estão preocupados com você – revelou e pôs uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, apenas uma desculpa para tocar meu rosto e acariciar minha bochecha. Elliot era tão encantador que machucava a forma que ele me olhava, a forma que ele tentava me resgatar de certa forma... Já havia arrastado todas as pessoas com as quais me importo para a lama, não traria mais uma.

– Eu não posso, Elli – afastei minha cabeça quando ele tentou me beijar.

– Desculpa, eu entendo, me perdoe, fui um idiota... Será ao seu tempo – se retratava apressadamente, como se houvesse cometido um horrendo crime.

– Não é isso, Elliot – o fitei brevemente, mas não pude o olhar por muito tempo, era doloroso demais ver a expectativa que eu estava prestes a frustrar – Eu não quero vê-lo novamente – falei com toda frieza que consegui reunir.

– Por que, o que eu fiz? – franziu o cenho ao inquiri.

– Nada – admiti naturalmente – Eu só não quero vê-lo novamente – repeti e o encarei sem emoção, me levantando da varanda e indo para dentro de casa novamente.

– Carter! – ele tentou me alcançar, mas eu apenas fechei a porta na cara dele – Carter? – ele tentou mais uma vez, mas eu já estava no alto da escada a essa altura, com um nó gigantesco preso na garganta e uma única certeza, eu estava fazendo o que era melhor para ele. Por mais doloroso que fosse.

†