Find me in Pictures

1 Find me in Pictures


Notas iniciais
Ele devia ter dito o que sentia enquanto podia. Mas mesmo na eternidade de uma fotografia, agora é tarde demais. {{ LeoPika assim com uns sentimentos bittersweet à mistura. Prenda para a minha BFF ♥ }}

A impiedosa luminosidade da manhã irradiava da grande janela do quarto, as cortinas fantasmagóricas ondulando com a brisa. Com os raios a teimar nas suas pálpebras exaustas, Leorio forçou-as a abrir, mas não sem antes praguejar entre dentes e contorcer a face numa expressão de preguiça.

Agradeceu mentalmente a uma entidade mística cuja veracidade estava ainda por confirmar por ter acordado uns segundos a tempo de desactivar o relógio despertador que programara na noite anterior, antes que este entoasse pela divisão. Rolou nos lençóis de seda púrpura, e sorriu ao encontro do corpo seminu, que descansava a seu lado. Não se perdoaria, se o jovem que ocupava metade da sua cama acordasse perturbado com as guitarradas intensas e penetrantes, o único som capaz de despertar um Leorio hibernado.

Pegou a preciosa Nikon D5000 da mesa-de-cabeceira e alinhou-a com o seu olhar, apontando a lente para o rapaz adormecido. Antes que pudesse clicar no disparador para capturar o momento, a máquina cedeu à falta de bateria, o ecrã ficara repentinamente negro.

— … Hm. – Teria de fotografar com o olhar, de momento. E com o toque.

Sobre as costas descobertas, distribuiu longos beijos e doces carícias, desde a região lombar até à nuca arrepiada. Um ronronar satisfeito ecoou nos seus ouvidos, o que Leorio entendeu como uma permissão para continuar. Demorou-se no pescoço do outro, os seus lábios contornando as clavículas salientes enquanto as suas mãos se ocupavam de carinhos nas ancas e abdómen do moço. A pele celta ainda detinha marcas da noite anterior. Os dedos grossos de Leorio assinalados na cintura e coxas, chupões espalhados pelo peito ossudo, dentadas fincadas no pescoço e ombros. O corpo em baixo do seu estremeceu, curtos suspiros abandonavam os lábios entreabertos. Deixou que a sua língua formasse um percurso húmido de saliva pela garganta, deslizando-a para o maxilar. Ansiava tanto por aqueles lábios… Ficou-se por um pequeno beijo na bochecha sardenta do loiro quando sentiu os dóceis olhos azuis postos nos seus. Era difícil conter a vontade de provar aquele fruto proibido, mas uma regra era uma regra, e o pobre rapaz nunca pedira nada a não ser isso: nada de beijos. Mas só Deus sabia que se alguma vez tomasse aquela boca, nada o iria parar...

— Bom dia, dorminhoco.

— Bom dia... – A amabilidade do sorriso de Kurapika era contagiante. Viciante, até, ao ponto de substituir a necessidade de um café matinal. O rapaz elevou-se até se ver sentado na cama, os cabelos loiros espalhados pelas costas descobertas. – O que achaste da sessão de ontem? As fotos que tiraste servem para o teu projecto?

— Ainda não as vi. – O moreno manuseou o pequeno cartão de memória que extraíra da câmara animadamente por entre os nós dos dedos. – Mas aposto que ficaram espectaculares. Estiveste lindamente.

Mesmo sem olhar para o mais novo, Leorio soube que Kurapika encurvara os cantos dos lábios e que as maçãs do seu rosto ruborizaram brevemente. Admirava aquela timidez. Era algo totalmente fora da pessoa que ele mostrava ser exteriormente.

Adorável.

— Ahm, Leo, eu devia ir embora… — Passado uns longos minutos em que Leorio quase regressara ao mundo dos sonhos, embalado com os suaves afagos no seu cabelo, o outro falou, procurando as suas roupas com o olhar na confusão que era aquele quarto. Ou melhor, a confusão que fizeram daquele quarto, na noite passada.

O fotógrafo não pode evitar um suspiro entristecido.

— Claro. – Deixou que o seu amante se levantasse. Observou como os skinny jeans se colavam às pernas finas, encaixando perfeitamente naquelas belas ancas, e como a t-shirt de uma banda de rock dos anos 80 lhe ficava larga no torso magro. Kurapika sentou-se na beira da cama para calçar os ténis com um aspecto velho, ainda que estimado, e Leorio abraçou-o por trás, o queixo apoiado no ombro do jovem. Deuses, queria voltar a perder-se naquele corpo… Arrastou-se no colchão até que a sua carteira na mesa de cabeceira estivesse ao seu alcance e tirou umas notas que escondeu na palma da mão do outro.

— Obrigado, Mr. Paradinight. Um prazer fazer negócio consigo.

E aí estava; aquela frieza que a princípio fizera Leorio arrepender-se de contratar um prostituto para um projecto fotográfico. Não que se esperasse algo mais de um profissional no negócio do erotismo. Nada de laços; nada de “liga-me amanhã”. Nada de "fica comigo mais um pouco", nem um olhar sobre o ombro antes de abandonar o apartamento de vez. Tivera realmente sorte quando o loiro aceitara ficar a dormir, apesar de tal proposta ter vindo acompanhada de uma curta mentira associada ao tal projecto que ele desenvolvia.

Pegando o seu computador portátil e pousando-o sobre o seu colo, Leorio inseriu o cartão SD na respectiva ranhura e rapidamente viu todas as fotos que havia capturado na noite anterior. Ângulos ousados, detalhes emancipados que se tornam o foco da foto, marcas temporárias num momento eterno, o orgasmo atrasado na distância de um clique. Mesmo o que queria capturar.

Deuses, a cada sessão Kurapika parecia ficar mais belo. Mesmo sem fotografar directamente a cara do rapaz, cada foto era mais intensa do que a outra, cada momento mais frenético, e o moreno teve de parar por aí e fechar a tampa do computador se não queria ficar já com outra irremediável erecção pela manhã.

Tinha um longo dia pela frente, e uma exposição para organizar.

Depois de uma rápida refeição constituída por nada mais que uma taça de cereais, Leorio regressou ao trabalho, planeando umas edições nas fotos, embora subtis. Kurapika não precisaria de nada mais. Era perfeito.

Um pensamento congelou-lhe o peito ao notar um sintoma físico — pequenas manchas castanhas — na pele do seu anjo; ainda não tinha sido desta vez que admitira os seus sentimentos pelo loiro. Se bem que tal parecia estranho — pagar a alguém para passar tempo e do nada admitir uma atracção sentimental. Gritava desespero, até. Mas na verdade, e no seu honesto sentimento, tudo o que era processado entre a lente da máquina fotográfica e o resultado final era a forma mais verdadeira de ver uma pessoa, além de tudo o que ela aparentava ser; para conhecer alguém, Leorio fotografava essa pessoa. E tinha sido graças à sua parcial educação em medicina (curso do qual havia desistido para perseguir uma carreira no mundo das artes) que percebera que Kurapika era vítima de uma rara doença. Não lhe tinha dito nada; com certeza que ele sabia, e que estava a tomar os devidos cuidados na sua luta.

Mas o tempo era relativo, e uma vez mais, Leorio ficara calado.

Decidiu que iria convidar o prostituto para a inauguração da sua exposição. Mas não sem antes admitir o que realmente ia no seu coração, ainda que tal pudesse dar para o torto. Era algo que merecia ser enfrentado, antes que fosse tarde demais.

~

Na noite de abertura, na galeria da baixa da sua cidade Natal, Leorio não conseguia largar o telemóvel. Era cumprimentado por artistas de topo, convidados especiais que tinham coisas mais importantes para fazer, mas por mais que o fotógrafo tentasse, a sua mente estava numa outra dimensão além desta grande oportunidade na sua carreira. Nem conseguira entrar e admirar o seu próprio trabalho, não quando o modelo...

Merda...

Ainda por cima tinha de fazer um discurso à volta do seu trabalho, como o seu agente o relembrava a cada dez minutos via SMS. De facto, estava quase na hora de o fazer, e ele teria de pensar numa forma de ocultar o facto de que bebera uns sete ou oito copos de champanhe só na última hora. Para o bem da sua reputação, teria de sair desse buraco negro de pena e arrependimento imediatamente.

Atravessando a carpete vermelha e mostrando falsos sorrisos no caminho, Leorio contemplou em pensamento a sua burrice sem remédio. Era guiado para um pequeno pódio, e toda a multidão de celebridades e media da cidade pareciam estar à frente dele, ansiosos pelas suas palavras demolhadas em conhecimento fotográfico e sabedoria artística, mas tudo que ocupava a sua mente era o modelo das fotografias que expunha.

Não o convidara até esta manhã. Através de uma mensagem de texto.

Não recebera uma resposta, como temia. Era... tarde de mais.

Várias perguntas foram atiradas na sua geral direcção, palavras essas que o Paradinight não conseguira assimilar nem de longe. As lágrimas queimavam-lhe os olhos enquanto o seu cérebro gelava e os seus pulmões secavam, mas tudo isso por trás de um sorriso mal esboçado.

Um beliscão no braço por parte do seu agente lembrou-lhe de que os convidados esperavam o seu discurso.

Algo sobre...
Sim... arte. Fotografia. Modelo. Kurap-....


— É uma... arte cruel... e irónica, a fotografia... — disse por fim, ganhando os tomates que lhe faltavam para aclarear a voz e enfrentar as câmaras fotográficas dos paparazzi e os seus flashes reluzentes, e os microfones da imprensa. — O arrastar de momentos únicos para um futuro incerto; momentos que deviam ter evaporado no passado. Apenas memórias deveriam existir, enevoadas pelos eventos que vieram a seguir até serem totalmente pintadas por cima, com memórias mais recentes. Fotografias obrigam-nos a olhar para as pessoas, antes de terem o peso do seu futuro nos ombros... Antes de morrerem.

... Antes de morrerem... e antes de ouvirem o que Leorio tinha a dizer.

Notas finais
"Find me in Pictures" fanfic by: abyssiniana Hunter X Hunter Modern AU Photographer!Leorio x Kurapika Prendinha para a niisan que faz aninhos hojeee ~ 05.02.2017 ♥ Toma feels, bab.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!