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1 Mudança
Notas iniciais
O despertador tocou seis da manhã, do jeito que eu tinha o programado durante esses últimos meses. Com a mesma música de sempre, no mesmo horário, mas porque algo parecia tão diferente?
Percebi porque tudo parecia fora do lugar. Hoje era o dia de mudança. Estava prestes a me mudar de New York, e ir frequentar uma escola em Los Angeles.
O meu sonho sempre foi ir para a faculdade, mas depois que minha família desapareceu, o que eu queria não importava mais. Eu tinha que descobrir o que estava acontecendo.
Por algum motivo do destino ou por alguma estranha coincidência vou frequentar uma faculdade como disfarce.
Se eu dissesse para os meus parentes que já me acham maluca que eu iria para o outro lado do país para seguir uma pista que pode ter sido deixada pelo meu irmão “morto” eles nunca me deixariam ir.
Então aqui estou eu, olhando para as minhas malas encostadas no canto do meu quarto de hóspedes, localizado no inferno, também conhecido como a casa da Tia Mila, tentando criar coragem para levantar e continuar com esse plano maluco.
Ergo-me vagarosamente dos cobertores que parecem chamar meu nome. Meu cérebro funciona a mil.
Me arrastando, e esbarrando em tudo que possa surgir no meu caminho, finalmente chego ao banheiro.
Minhas roupas já me esperam em cima da bancada e meu corpo clama por uma ducha gelada. Escovo os dentes e guardo a escova dentro de um nécessaire que vai direto para uma das minhas várias malas. Eu sei que estou levando mais malas do que realmente preciso e quero. Aparentemente minha tia não quer nada ligado a mim em sua casa pelo resto de sua vida.
Tiro as roupas e ligo o chuveiro. Precisava muito de uma ducha fria.
Entro no boxe e enfio a cabeça na água. Nunca demorava no banho, mas hoje a única coisa que eu queria era ficar ali pensando até que eu conseguisse uma resposta satisfatória.
Onde eles estão? O que houve com eles? Por que eles não me levaram junto? E a pergunta mas importante: eles estão vivos?
Todos parecem acreditar que não, mas se não quem teria me enviado uma carta com uma foto que tiramos em uma viagem de família para a Argentina? Aquela foto ficava na carteira da minha mãe, pois ela dizia que quando a via, se sentia feliz.
A carta não dizia muita coisa, na verdade só tinha um endereço atrás da fotografia.
N Alta Vista Blvd, 1483, Los Angeles.
Finalmente havia chegado a hora de descobrir o que aquele endereço significava.
Saí do chuveiro e me enxuguei com a toalha. Vesti a calça e a blusa que havia separado. Sequei meu cabelo só com a toalha mesmo e quando ergui a cabeça me deparei com o espelho.
A garota que ele refletia não era a mesma de um ano atrás. Aquela menina desapareceu com a família. A garota que me fitava não passava de cacos de vidro tentando se juntar.
Desviei o olhar e voltei minha atenção para as malas. Ia demorar umas três viagens para descer tudo aquilo, então chamei meu primo Nate. Ele era o único que não me achava doida.
– Nate!
– Como posso ajudar madame? – disse ele sorrindo.
– Você pode me ajudar levando as malas lá pra baixo – devolvi o sorriso — Por favor?
– Não tem como dizer que não, fala sério, quem resiste a esse sorrisinho?
Ri e terminamos a conversa, começando o trabalho.
Com ajuda dele descemos tudo de uma vez só. O táxi já estava lá fora e a Tia Mila parecia mais ansiosa que o normal.
– Ellie, minha querida. Vamos sentir tanta saudade — pude sentir a ponta de ironia em sua voz. Ela estava literalmente me chutando de sua casa.
– Eu sei que vão – retruquei com um tom meio sarcástico sem ligar se ela ia reparar. Lhe dei um abraço como toda boa sobrinha faria e parti para me despedir de Nate.
– Eu – disse ele com uma expressão triste – Realmente vou sentir sua falta.
Quase pulei em cima dele o abraçando e ele sussurrou no meu ouvido:
– Como vou aguentar mais um ano com essa velha louca?
Ri e respondi baixinho.
– Do mesmo jeito que você aguentou esses dezessete anos. Aguenta firme. Que ano que vem será seu ano de liberdade.
– Obrigada Ellie, por tudo.
– Eu que tenho que te agradecer. Você me acolheu quando eu não tinha ninguém. E não me julgou. Obrigado.
Dei um beijo na sua bochecha e sai pela porta de entrada. Entrei no banco de trás do taxi e a primeira coisa que me veio na cabeça foi: hoje é o primeiro dia da minha vida. Prometo ao mundo que eu vou descobrir onde está minha família e não vou parar até descobrir.
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