Finaly Freedom
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Não podíamos de forma alguma dar qualquer margem pra qualquer pessoa imaginar qualquer coisa sobre nós. Porém, 8:30 da manhã começa o primeiro período, e já sendo esse horário, seria definitivamente impossível chegar no campus sem atraso. Sem chance. Outra coisa fora de questão seria chegarmos juntos. Mesmo que todos saibam que não nos damos muito bem, ficaria muito subentendido. A alternativa mais fácil seria faltar aula. Mas também não podíamos faltar nós dois. Philip teria ainda mais dificuldade em se explicar, afinal, é efetivado, não pode faltar o trabalho sem dar explicações cabíveis, e com antecedência, de preferência.
E enquanto eu ficava tentando pensar em alguma solução plausível pra esse problema, Phil continuava dormindo serenamente ao meu lado. Quando o notei, tão tranquilo e lindo, respirando baixinho até esqueci a situação em que nos encontrávamos. Mesmo assim, decidi acordá-lo. Comecei a acariciar seu rosto, as costas nuas, o cabelo, até que lentamente, ele foi se elucidando, abriu os olhos e me contemplou com um sorriso jovem e despreocupado. Se espreguiçou, e sua boca se abriu para me saudar. Porém ele bateu o olho no relógio e teve uma reação bem parecida com a minha.
— Puta que me pariu. Estou muito atrasado. – e esqueceu do bom dia e das amabilidades afins. Pulou pra fora da cama, correu em direção ao que eu imaginava que fosse o seu banheiro e ouvi o chuveiro ser ligado.
Decidi que não ficaria desesperada. Perder um dia de aula, pra mim, não seria o fim do mundo. Principalmente porque o professor também não iria. Não, pelo menos no primeiro momento. Levantei da cama também, catei minhas roupas pelo quarto e comecei a vestir-me.
Não achei minha sapatilha no quarto, devia estar na sala, onde começamos as preliminares, portando, fui até lá. Quando estava sentada no sofá calçando-me, ouço um grito abafado, provavelmente, vindo do quarto do Philip.
— Elena? Elena, cadê você? – não respondi. E ele continuou resmungando qualquer coisa. A voz se tornava mais alta, presumi então que ele estava vindo em direção à sala. – Jurei que você tivesse ido embora, mulher. Pensei que tivesse me usado.
— Não sou como certas pessoas, querido – pisquei o olho e ergui-me. – Acho que devo ir embora.
— Você não quer uma carona pra faculdade? Vai se atrasar ainda mais. – perguntou, ingenuamente, acredito.
— É claro, Phil – ironizei – seria ótimo chegarmos juntos ao campus. Que tal descermos do carro de mãos dadas e darmos um beijo em frente ao reitor também?
— Para com isso, Elena. Estou falando sério. É só uma carona.
— Pra mim não é, não. E aliás, já que presumo que meu professor vai se atrasar, e a aula não vai render, vou aproveitar pra ficar em casa, ou dar uma corridinha no parque.
— Tudo bem. Bata a porta quando sair. Tenho que ir, estou muito atrasado. – me deu um selinho rápido. Philip cheirava a perfume. Perfume caro, bem encorpado. Maravilhoso.
E saiu. Fiquei sozinha na sua casa. Que confiança que ele tem em mim, não é mesmo? Deixar uma mulher que ele conheceu intimamente há pouquíssimo tempo sozinha em seu apartamento caríssimo e cheio de coisas finas. Se eu tivesse má índole, faria uma limpa na casa dele, pensei. Mas isso não é uma hipótese. Jamais foi. Não sou cleptomaníaca nem nada disso. Apenas arrumei a ‘pequena’ bagunça que fizemos na noite anterior e fui pra casa. Como não tinha nenhum compromisso, fui a pé. Me perdi um pouco, demorei um tempão, afinal, nossas casas são bem longes. Cheguei em casa bem mais de 10hrs, um pouco suada, e com corpo pós-sexo ainda. Precisava de um banho, urgente.
♥
Almocei bem tranquila, e perto das 15hrs, minhas amigas/colegas/amores da vida chegaram. Estavam falando sobre Albert. PUXA, ALBERT. Eu esqueci que eles tiveram um encontro ontem. Saí pulando do conforto da minha cama, abandonei meu livro brutalmente sobre o carpete e fui ao encontro de Aurora.
— E então, como foi o encontro, mulher? – eu parecia empolgada demais.
— Olha quem deu as caras, Aurora. – falou Cissa, meio que me ignorando. E então se dirigiu a mim – por acaso você foi sequestrada, assaltada ou torturada na última noite, e manhã?
— Não, ué, por quê?
— Mandamos milhares de mensagens pra você, e você não dormiu em casa, não deu as caras na faculdade, não retornou às ligações. Estávamos quase ligando pra polícia – respondeu Aurora, com sua preocupação excessiva habitual.
— Calmem meninas. Só saí com um carinha aí, e acabei dormindo demais que a cama. – não menti, apenas omiti. Elas não precisam saber do meu caso.
— Teve outra pessoa que dormiu mais que a cama também. Professor Jones chegou super atrasado na aula hoje. – comentou Cissa, sem maldade, espero.
— Puxa, ele, logo ele? Que não tolera um atrasinho – remendei da melhor forma, pra não dar margem à pensamentos que entreguem os fatos. – mas me conta, amiga. Você e Albert ontem, o que rolou?
— Então, estou atordoada até agora, Elena. Foi uma tortura. – havia um misto de sensações no rosto dela, parecia realmente confusa.
— Ai, Deus. O que houve? Vem, senta aqui. – arrastei ambas para o sofá.
— Ele me levou num restaurante lindo, à luz de velas, romântico no último grau, mas não foi objetivo. O jantar todo falando sobre nossas vidas nos últimos dez meses, ele disse que veio à Dublin à trabalho, e ficamos nessa enrolação até o final. – suspirou.
— Puxa, então ele só queria te ver? Apenas isso. E pra que a pressa toda então?
— Calma, ainda não contei tudo. – ela sorriu, e seguiu – então saímos do restaurante, e a noite estava agradável. Ele me convidou pra dar uma volta, ir até o Liffey, pra que eu apresentasse a cidade pra ele. Só enquanto caminhávamos que o assunto começou a se direcionar pra romance. O Albert começou a me perguntar se alguém já tinha surgido na minha vida, foi jogando verde, sabe? Eu fui honesta, falei que ainda não estava pronta pra conhecer ninguém, que o que tinha rolado entre nós dois foi intenso demais pra esquecer e já partir pra outra. Tive medo de rebater a pergunta, e ele me dizer que já havia estado com diversas mulheres, ou pior, me dizer que estava com alguém sério. Mas, como tinha aceitado o convite pra jantar, resolvi arriscar a pergunta.
— E foi a melhor coisa que eu fiz, Elena. Ele também disse que estava sendo difícil lidar com o término, e que não entendia porque tínhamos terminado. Ele começou a metralhar coisas inesperadas, e não parava. Estávamos numa maldita cena de filme de romance. Na ponte sobre um rio, à luz da lua, declarando coisas que estavam entaladas na garganta. E, como um legítimo filme de romance, veio o beijo. Foi tão suave, me trouxe uma enxurrada de lembranças, fiquei tão confusa, emocionada. Não consegui retribuir o beijo. Foi ótimo, eu sentia que necessitava daquilo, mas foi estranho. Pedi que ele me trouxesse em casa, e marcamos de sair hoje de novo pra conversarmos.
— CA-RA-LHO, Aurora. Que loucura foi essa? – fiquei de fato perplexa. – Eu sinto muito, imagino como você deve estar se sentindo – pausei – bem, na verdade, não imagino não. Nunca passei por isso.
— Conta pra ela, amiga, aonde vocês vão jantar. – Cissa se introduziu no assunto. Eu tinha até esquecido que ela estava ali. É difícil ela se manter calada, portanto, quando ela fica alguns minutinhos sem dizer nada, dá pra esquecer que ela está no recinto.
— Vamos jantar no restaurante do hotel dele. – ela soltou um risinho com dupla interpretação.
— Hmmmm, no hotel? Sabemos no que isso pode dar, né?! – rimos juntas.
♥
Ficamos toda tarde falando besteiras e aconselhando Aurora no seu encontro, porém Cissa hora ou outra, se entretia no celular.
— O que tem de tão interessante nesse celular, Cissa? – perguntei, interrompendo o assunto com Aurora.
— Tem um carinha aqui flertando comigo.
— Olha ela... E quem é? Fala pra gente, mulher.
— Ele morava perto da minha casa, em Londres, mas tem namorada. Não sei nem o que quer comigo.
— Fala o nome, pelo menos.
— Kevin.
— Kevin? Mas que puta nome bosta, hein.
— AI MEU DEUS, VOCES NÃO VAO ACREDITAR! – Cecília caiu na risada olhando pra tela do celular. E em seguida, virou a tela pra nós duas.
Posso dizer que preferia ser cega, do que ver aquela imagem repugnante na frente dos meus olhos.
— Af, Cissa, que merda é essa? – levemente irritada, mas não de verdade, perguntei.
— Pensei que mesmo com sua mãe marcando em cima, você soubesse, pelo menos o que é um pau, Elena. – ela continuava rindo compulsivamente, e Aurora só balançava a cabeça. Estava nas nuvens, devido ao futuro encontro.
— Sério, Cecília. Que nojo. Ele te mandou isso agora?
— Sim, mandou uma mensagem assim: “Você quer ver uma foto daquilo?”. A princípio não entendi a que ele se referia, então respondi “manda ver”. Mas ele é muito nojento. Fala cada coisa, que fico até com repulsa.
— Cada cara que você arruma, que não duvido mais nada, quando se trata de você. Jamais apresente um desses caras pra mim, ok?!
— Ok. E aliás... – ela falou sorrateira – você não vai falar nada sobre o cara bom de foda que te fez dormir demais essa manhã?
— Não é nada sério, já disse. Apenas uma diversão.
— Custa falar o nome?
— É.. Ele também... também tem namorada. – gaguejei, porra.
— Elena, sua puta. Pegando alguém comprometido, não sabia que você era dessas – dessa vez Aurora saiu do transe pra me xingar.
— Poderia ser pior – é, poderia ser um professor da faculdade, o que ocasionaria minha volta pra Londres devido à expulsão da faculdade, e o possível fim do sonho de me formar em medicina logo – nem é o fim do mundo.
Comecei a sair de fininho, indo pro meu quarto, e Aurora me chamou.
— Elena, tem uma carta pra você no aparador. Chegou hoje de manhã. Caso você não tenha pego.
PORRA, ficar com Philip me dá amnésia. Esqueci totalmente do informante anônimo, mas agora que Aurora me lembrou, todas as questões, até então postas embaixo do tapete, vieram com tudo.
— Ah, obrigada! – corri no aparador, achei a carta e fui pro quarto, rasguei o envelope, e nele dizia, breve como sempre:
“Se quiser mais algumas informações, vá amanhã no Subway da St. Antonie, às 18h.”
Até que a carta me aliviou. Pode ser que conhecendo esse cara pessoalmente as coisas façam mais sentido. Ele marcou num lugar de movimento, então menos um motivo pra me preocupar. Eu ficaria mais receosa se fosse em um parque, ou lugar mais várzea. Mesmo assim, ainda há muitas coisas a serem esclarecidas. Como disse, minha esperança é que esse maldito informante pare de me cozinhar e fale o que ele tem a dizer sobre a minha mãe.
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