Finaly Freedom
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Meus planos eram acordar antes das 6 da manhã de segunda, caminhar pela vizinhança, voltar pra casa, tomar aquele banho, comer algo e ir pra faculdade; eu tinha que estar lá às 8:30 no máximo. Só que, sabemos que planos nem sempre saem como o planejado, ainda mais quando sua cama é confortável, quentinha e espaçosa, e quando você bebeu um pouquinho a mais que o recomendado na noite anterior, depois junte esses dois fatores com o fato de que sou a pessoa mais preguiçosa do Reino Unido inteiro. Pois é, acabei acordando 7:45am, o caminho a pé até o campus levava uns 15 minutos do meu tempo, logo, eu tinha cerca de meia hora pra tomar banho, me arrumar e comer algo decente. Ok, não é tão apertado assim, mas se você levar em conta que é meu primeiro dia, e eu tenho que dividir o banheiro com outras duas mulheres, a situação piora um pouquinho.
Pulei da cama e fui direto em direção ao banheiro, que por sorte estava sendo desocupado naquele momento por uma Cecília de banho recém tomado, e exalando um perfume forte e exagerado. Mas quando se trata da Cissa, não tem nada monótono ou tranquilo.
— Obrigada, amigas, por terem lembrado de mim, e me acordado cedo! – gritei, ironizando, enquanto eu percorria o corredor até o banheiro.
Entrei no banheiro em tempo recorde, tirando o pijama entre tropeços, ligando o chuveiro já com sabonete e shampoo na mão. Enquanto tomava meu banho, acalmei-me e tracei meus próximos passos. Colocar a primeira roupa que eu encontrar no quarto, e torcer pra que alguma das minhas amigas tenha pelo menos preparado um waffle e suco pra mim.
Já vestida, com jeans, tênis e um suéter fino, já que a manhã parecia fresquinha vista de dentro das janelas do meu quarto, fui para a cozinha, sentei-me no balcão, e graças à Aurora, um prato com ovos mexidos e bacon e um copo de suco de pêssego estavam à minha espera. O que seria de mim sem essa mulher?
— Bom dia, meninas! – falei, antes de pegar uma tira de bacon e enfiar toda na boca. Eu estava com fome. E estava delicioso.
— Nossa, Elena, isso tudo é fome? Vai com calma – um pouco surpresa, Aurora diz.
— Se já não tivesse bastado dormir mais que a cama e fazer maratona até o banheiro, ainda vai comer feito uma hipopótamo africana... Você é caso perdido, Elena – zombou Cissa, no seu jeito habitual.
Com toda minha educação e etiqueta de não falar enquanto como, só o que pude fazer foi erguer ambos dedos médios em direção à ela.
— Que isso, hein amiga. Hoje realmente não é o seu dia — ela finalmente começou a mastigar alguma coisa e calou a boca, enquanto gargalhava, com seu bom humor de todos os dias. De todos esses anos que conheço Cecília, vi ela mau humorada pouquíssimas vezes.
Terminei meu café da manhã rapidamente, e às 8:15 eu já estava pronta pra sair. Cissa e Aurora estavam à minha espera na porta, enquanto eu catava minha bolsa e coisas que eu julgava necessário levar.
Quando estávamos na portaria, pondo os pezinhos para mais um lindo dia na linda Dublin, lembrei de uma coisa.
— Tenho que ligar pra Friedrich pra avisar que está tudo bem comigo – enquanto isso eu apalpava as centenas de bolsos internos e externos da minha bolsa em busca do meu celular. – ah não, será que eu deixei meu celular lá em cima?
— Sobe lá, menina – disse Aurora
— Mas vai rápido, já estamos atrasadas, graças a um certo alguém, né Elena – puxa, será que a Cecília não cansa nunca de pegar no pé das pessoas?
— Cinco minutos, ou até menos que isso. Se quiserem indo na frente, eu alcanço vocês. – nem esperei resposta e já retornei pro prédio e chamei o elevador. Que não vinha, e não vinha nunca. Então optei pelas escadas, morávamos no terceiro andar mesmo.
O dia só tinha a piorar, demorei pra encontrar as chaves na bolsa, depois a fechadura deu uma leve travada, e pra finalizar eu não encontrava meu celular de jeito nenhum. Talvez eu teria tido mais facilidade de encontra-lo se não o tivesse jogado longe quando levantei num pulo pouco menos de uma hora antes. E lá estava ele, embaixo da minha cama.
Eu já tinha perdido mais de cinco minutos, então peguei meu celular, tranquei a porta e chamei o elevador, que chegou rápido dessa vez. Aleluia! Pelo menos uma coisa deu certo hoje. É, talvez não. Devido à minha pressa, entrei no elevador sem olhar e acabei esbarrando em alguma coisa, ou alguém, sei lá. Só sei que caí no chão com o impacto, e minha bunda doeu. Ai. Maldito dia.
— Ai, que saco! – bufei, me levantando, esfregando a bunda, e enfim enxergando a pessoa, vulgo, magnifica, na qual eu tinha esbarrado – porra, desculpa. Ai meu Deus.
Eu esbarrei num típico boy magya que molha sua calcinha só no olhar. Nossa. Fiquei até em dúvida sobre se isso foi bom ou ruim. Foi interessante pois acabei de conhecer um homem maravilhoso, e terei três andares de elevador pra investigar sobre a vida dele, e foi um desastre, pois ninguém quer começar um romance de cabeça, literalmente, batendo de cabeça com a pessoa. Ele era alto, porte atlético, cabelos bem escuros e olhos castanhos, vestido parcialmente casual, uma delícia.
— Puxa, me desculpa. Eu, eu estou atrasada, e meu dia foi, está sendo uma coisa horrível. – me enrolei toda ao falar. Ele me intimidava.
— Calma, não foi nada, pelo menos não comigo – Senhor Jesus, me abana, que voz de locutor é essa? – Você se machucou?
— Não, foi só a dor do impacto, mesmo, Estou bem – não estou não. Estou espantada com tanta beleza, virilidade e gostosura num homem só, me socorre – Prazer, Elena.
— Sou Jacob – ele estendeu a mão, e nos cumprimentamos brevemente.
Batemos um breve papo de elevador, falei pra ele que havia me mudado recentemente, que vim para estudar e todas essas coisas que vocês já sabem, ele disse que já morava ali há dois anos, era corretor de imóveis e também planejava, em algum futuro um pouco distante cursar medicina, ou seja, nesses dois minutos dentro do elevador, já consegui imaginar que casaríamos e teríamos lindos filhos. Ok, estou sendo precipitada, mas deixem eu sonhar, pra alegrar e melhorar um pouquinho esse dia de merda.
Saímos do elevador trocando sorrisos de quem não tinha mais assunto pra conversar, quando quase tropeço em outro homem lindo. Olha que meu dia está só melhorando. Obrigada Senhor!
— Amor, você aqui? – Jacob se dirigiu pra o segundo homem lindo. AMOR??? COMO ASSIM AMOR
— Pois é, querido, resolvi te fazer uma visita, você disse que não ia trabalhar hoje pela manhã. – Eles ignoraram minha presença totalmente, e eu fiquei feito um vaso de flor parada, e fazendo parte do ambiente.
Enquanto eles tinham o que parecia uma DR no meio do hall de entrada, o tempo passava e meu atraso só aumentava,
— Então, Jacob, tenho que ir andando, como disse, estou atrasada. Foi um prazer te conhecer. – saí em passos largos.
— Foi um prazer te conhecer???? Quem é essa daí, Jacob? – baixou a louca no segundo homem, e só o que eu queria era dar o fora dali naquele instante.
— Espera Elena, deixa eu te apresentar meu namorado – Jacob me chamou, mas eu já estava na rua, caminhando apressada, e ainda por cima, muito decepcionada por ter criado planos incríveis com aquele homem, e no final ele era gay. E ainda por cima, acho que causei confusão com o namorado dele.
Que dia está sendo esse? Só pode ser praga da minha mãe. Não tem outra explicação. Olhei meu relógio de pulso rapidamente e já eram quase 8:25. Eu tinha pouco mais de cinco minutos pra chegar no campus. A essa altura, Cissa e Aurora já deviam estar quase chegando lá.
Eu podia pagar um táxi, pegar um ônibus, bancar a louca e sair correndo pelas ruas de Dublin no meu segundo dia lá, mas decidi parar num Starbucks e comprar um cappuccino gigante. Segui meu caminho até a faculdade tranquilamente, como se eu estivesse dentro do horário, e no melhor dia da minha vida.
♥
No momento em que pisei no campus, meu celular vibrou, ao receber uma notificação. Era da Aurora.
“amiga, tá tudo bem? O professor já se apresentou pra gente, cadê você?”
“relaxa, to chegando”
Decidi que não ia me esquentar mais. Era quase 8:45, mas me dirigi tranquilamente à um balcão de informações e perguntei onde ficava a sala que eu tinha que ir. Quando cheguei a sala, a porta estava fechada, trancada, chaveada. MAS QUE PORRA É ESSA? Bati na porta com um pouco a mais de agressividade que o necessário.
Um homem com cerca de 35 anos, olhos verdes, barba espessa e bem aparada apareceu do outro lado da porta, e pude vê-lo através do vidro. Ele tinha um olhar pacífico. Devia ser o professor.
— Quem é você? – Perguntou ele, arrogante demais pro meu gosto.
— Elena Eisenhauer e você?
— Philip Jones. O que você deseja?
— Entrar na sala.
— E por que eu deixaria você entrar?
— Porque sou aluna do curso e estou aqui pra isso.
— Você deveria estar aqui há cerca de 15 minutos antes.
— E você deveria ser menos chato e relevar. Hoje é primeiro dia.
Ele me olhou com descrença e sorriu debochadamente.
— Quem você pensa que é pra falar comigo dessa forma, garota. Você tem que me respeitar. Sou seu professor. – ele se tornou ainda mais arrogante e autoritário.
— E será que meu professor vai permitir que eu entre ou vou passar o resto do dia na porta plantada? – devolvi sua afronta, eu realmente não estava com paciência pra discutir, mas ele me forçava a isso.
Ele liberou a porta, muito a contragosto e permitiu que eu entrasse.
— Obrigada, professor. Prometo não atrapalhar sua aula – pisquei pra ele e saí rindo em direção às minhas amigas e demais colegas.
Ao todo éramos oito. Gosto da turma pequena assim, mas com esse professor, seis meses, estou vendo que ele vai pegar no meu pé com muita insistência.
— Amiga, você bebeu, está louca? – Aurora virou-se pra mim, já que eu estava sentada atrás dela, e ao lado de Cecília.
— Estou apenas de saco cheio. Meu dia está sendo bem chato. – desabei na cadeira e não falei mais nada durante os dois períodos de aula que tivemos. O professor Philip olhava pra mim a cada minuto, sempre com expressão séria e levemente enraivecido.
♥
O sinal do intervalo tocou, e eu suspirei aliviada. Queria dar uma volta no campus, pois esses dois períodos foram muito maçantes. O Excelentíssimo Sr. Jones passou o tempo todo falando como seriam os seis meses, o jeito que ele avaliava os alunos e blá blá blá. Só o que eu queria era uns minutos de papo descontraído com as meninas.
Íamos saindo da sala, e o carinha chato chamou.
— Srta. Eisenhauer? É assim que se pronuncia? – ele me chamou corretamente de primeira. Prêmio pra ele.
— Sim. O que você deseja? – parei de caminhar e olhei pra ele com postura.
— Eu gostaria de falar com você um instante. – ele parecia mais calmo agora, e mesmo eu estando com zero vontade de falar com ele, aquele pinguinho de educação que me resta pro dia de hoje permitiu que eu ficasse ali.
— Eu já encontro vocês, meninas. – elas saíram e ficamos só nós dois – devo fechar a porta?
— Por favor.
Feito isso, me aproximei dele, e escorei-me na classe em frente à mesa dele, que imitou meus movimentos.
— Percebo que você não está no seu melhor humor hoje, então serei breve. Quero que você entenda que não tenho paciência pra alunas rebeldes como você. Não sei como você fazia em Londres, mas as coisas aqui são diferentes. O mínimo que eu espero de você é respeito e pontualidade nas minhas aulas. Se o horário é 8:30, 8:30 a porta será trancada e você não entra mais. Relevei hoje por ser o primeiro dia. Mas a partir de amanhã as coisas não serão assim. – ele despejou isso sobre mim e eu fiquei perplexa. Quem esse cara pensa que é? O dono do mundo? Eu sei que cheguei atrasada, mas não foi de propósito, sei que fui um pouco rude, mas as circunstancias meio que me obrigaram.
— Sr. Jones, primeiramente desculpe pelo meu comportamento e meu atraso. Espero que não volte a se repetir. Meu dia foi desastroso hoje. Cheguei em Dublin ontem, estou deslocada. Mas peço também que você seja menos arrogante e autoritário. Não pense que por ser professor, você é melhor que alguém aqui. Compreendo que não estou correta na minha postura, mas como professor, você está deixando a desejar nesse aspecto de respeito, você não acha? – eu até tentei ser simpática, mas estou levemente irritada com esse homem. Talvez nem tão levemente assim.
Ele se mostrou surpreso com a minha resposta. Então se ajeitou, mexeu as pernas, passou a mão pelo cabelo um pouco bagunçado, e fixou seus olhos verdes nos meus.
— Nossa relação aqui é de professor-aluna. Não pense que pode falar o que quiser pra mim, não, garota.
— Desculpe, não sabia que agora tínhamos ditadores dando aulas em faculdades. Perdoe minha falha, senhor. – reverenciei-o com ironia.
— Você já passou dos limites, garota.
— Caro professor, estou dentro dos meus limites, apenas não devo e não vou aceitar ser subjugada, e receber ordens a cada momento, não mais. Quero, realmente quero, ter uma relação amistosa com o senhor, mas isso será possível se o senhor colaborar.
— Pare de me ironizar, Elena. – ele estava vermelho, e a ponto de me dar um soco, imagino.
— Com sua licença, posso me retirar? – eu estava de saco cheio daquele papo, daquele homem, daquela sala, daquele dia. E só conseguia pensar no quanto minha mãe rogou praga pra minha viagem. Não posso permitir que ela tenha razão e que esses seis meses se tornem torturante. Olhei pra ele, derrotada e fui sincera. – perdão. Estou tendo um dia ruim.
Não esperei que ele permitisse minha saída, levantei-me e segui andando, desanimada. Querendo ir pra casa, cair na cama e dormir. Esperando um amanhã melhor.
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