Um rapaz de cabelos esverdeados bebia em uma mesa de plástico durante uma festinha de Halloween na casa de um amigo da faculdade. Apesar de gostar muito de beber, Zoro estava puto por ter perdido mais uma vez no kendô de seu pai. Foi até por isso que aceitou o convite de Luffy para estar ali na casa dele, queria deixar de pensar na sua derrota e uma tristeza cobria seu peito quando não sabia mais por que praticava o esporte. Admirava o pai e queria ser como ele, mas agora tinha a sensação de que tudo não passava de uma pressão idiota. E nem podia desistir, porque estaria admitindo sua derrota (como a palavra “desistir” propõe mesmo).

Zoro tinha apenas 21 anos, mas já estava cansado pra porra e Usopp costumava lhe dizer pra se focar em outra coisa. Esse era outro motivo pra ter ido naquela festa cheia de engomadinhos fantasiados nos seus fetiches favoritos.

Num momento que revirava mais uma garrafa, seus sentidos se tornaram lentos e nem notou que acontecia uma briga bem ao seu lado. A bexiga de Zoro estava cheia e foi atrás de um banheiro, mas parou na floresta que havia por trás da casa boa de Luffy. Decidiu mijar ali mesmo, senão se mijava todo. Olhou ao redor, não viu ninguém, até porque todos estavam dentro da casa prestando atenção na briga que estava acontecendo. Somente Zoro ficara sozinho e enquanto abaixava as calças, pensou que nem ao menos estava com alguma fantasia. Foi tão de última hora resolver estar num lugar desprezível com jovens que só pensavam em sexo e nada mais, que não teve tempo nem de comprar uma máscara.

Quando terminou, saiu de perto da árvore em que se aliviou e ouviu um barulho. Zoro entendeu que não estava sozinho, ainda mais depois de ver uma garota saindo de um arbusto, enquanto ajeitava sua fantasia de coelhinha e seus cabelos castanhos muito desgrenhados. Definitivamente, estava fazendo sexo com algum garoto e saiu primeiro para não levantar suspeitas.

Continuou parado até a garota desaparecer, só depois se aproximou do arbusto para ver quem restava, e já tendo ideia de que não seria seu namorado e sim um rapaz de cabelos loiros com sobrancelhas enroladas.

— M-Marimo?! — Sanji quase deu um grito ao ver Zoro depois de sair do arbusto.

— Você é mesmo desprezível!!! — Disse enojado, Sanji era o colega do grupinho que não media escrúpulos nenhum. E era exatamente o exemplo de jovem fútil que Zoro mais odiava.

Puxou o esverdeado para o outro lado do arbusto, que era uma área aberta cercada por árvores. — O que faz aqui? Pensei que não gostasse desse tipo de festa, só você tá aqui? Sim, né?

Zoro notou que ele parecia nervoso quando falava sem parar em sussurros e olhava ao redor desesperado.

— Só. — Respondeu apenas, e o loiro buscou um cigarro. Notou suas mãos tremendo, e acabou tendo que acender o isqueiro para ele.

— Ok. — Tragou. — Marimo, tu não viu nada.

— Claro que eu vi!

— Acho que você não entendeu direito... — Tirou do bolso uma nota de dinheiro e se escorou bem perto do esverdeado. — Tu não viu nada, certo?

Zoro encarou o dinheiro e depois subiu um olhar estreito para Sanji. — Você acha mesmo que vai conseguir me comprar?

— Que merda! Vai ser certinho assim no inferno!

— Não sou certinho!

— Então, aceita meu suborno!

— Claro que não! Aquela era a namorada de Law!

Coçou bem seus cabelos cheios de folhas (por ter rolado na grama com a garota) e pediu por silêncio. — Fica quieto, porra!! Ele pode ouvir!!

— Em troca de quê?

Piscou os olhos e apurou os ouvidos, se perguntando se ouvira certo. — Como assim?

— Tô te perguntando em troca de quê.

— Sim, eu ouvi isso, idiota! Mas você não aceitou o dinheiro, esqueceu? E é a namorada de Law, não se importa?

Zoro desfez a carranca que carregava no rosto desde o momento em que viu o alvo na sobrancelha do outro, e deu um sorrisinho. — Não quero dinheiro.

De princípio, o loiro ficou confuso, mas então, abriu o olhar chocadíssimo. — Tu gosta de homem?

— Não é disso que tô falando também!!!!

— Mas que porra!!! O que você tá falando!!!

— Eu só quero que você vire meu escravo.

Sanji suspirou aliviado. — Ham... é só isso? Então, tudo bem. — Pensou melhor. — Pera, isso também é horrível!!!!

— Ou isso ou nada.

Não restando outra opção, Sanji cedeu muito injuriado.

Passou uma semana e os dois estavam mais juntos do que nunca. No grupinho mal se conheciam, se viam só quando a turma toda se reunia e por isso que a conversa no arbusto se tornou a primeira vez em que conversaram a sós. Apesar da distância, Zoro sabia do apelido que Sanji lhe dera e vice-versa, isso só afastou mais ainda os dois de serem íntimos, mas potencializou o desejo de Zoro em ver o sobrancelha enrolada fazendo tudo que mandasse, um tratamento de primeira como ele dava às garotas que passavam na sua reta. E era satisfatório vê-lo com o cenho enrugado, a ponto de lhe dar um soco na cara, mas disposto a obedecê-lo.

No início, Zoro — e até mesmo Sanji, afinal acreditava que o marimo tinha neurônio nenhum. — não sabia o que ordenar, até porque a ausência de Sanji parecia ser ainda mais prazeroso, mas depois de observar como ele tratava as garotas, entrou num consenso consigo mesmo.

— Me faça marmitas.

— Quê?! Isso quem faz são garotas, e você acha que estamos no ensino médio?

— Então, por que faz?

— Porque garotas têm bucetas!

Zoro quase o empurrou, além de tarado, Sanji tinha uma boca suja do caralho. — Apenas, me obedeça.

Assentiu, mas achava que o marimo idiota não sabia o que fazer realmente com ele...

Uma vez Sanji descobriu algo sobre Zoro... na verdade, ele já havia ouvido isso de Luffy ou Usopp, mas só lembrou disso naquela manhã na universidade. Zoro abriu a porta de sua sala por engano, tudo bem, é comum nos enganarmos de vez em quando. Porém, quando se enganou pela terceira vez consecutiva, se lembrou que o marimo costumava se perder. Portanto, de boa fé mesmo, se levantou de sua carteira e levou Zoro para os prédios de educação física, o curso que ele cursava.

— Obrigado.

Zoro agradeceu, enquanto o via se afastar com suas mãos nos bolsos da calça, sua típica postura indiferente e, que por um motivo desconhecido, fazia o marimo pensar que o sobrancelhas era bem estiloso às vezes. E também parecia legal, porque resolveu ser sua bússola a partir daquela manhã, sem ao menos dar alguma ordem.

— Não tenho nada pra fazer.

Era o que respondia, quando Zoro lhe fazia perguntas. Costumavam parar numa árvore do campus, Sanji fumava olhando de soslaio com medo de alguma autoridade aparecer, já Zoro se prontificava de comer a marmita antes de esfriar.

Em pouco tempo, os dois se viam mais do que viam os outros colegas, e cada um soube mais do outro. Sanji soube que Zoro fazia kendô e que seu pai era até um profissional, já Zoro ficou sabendo que Sanji tinha três irmãos gêmeos, achou bizarro...

— E todos são tarados?

— É... ninguém nasceu bundão igual a você...

— Ora!

Sim, continuavam a trocar alguns tapas e chutes. Contudo, a visita de Sanji no apartamento de Zoro se tornou constante até ser algo comum. Sanji até mesmo fez uma cópia da chave para poder acordar Zoro e não perder o horário para faculdade. E dormir muito seria outra coisa que Sanji descobriria em relação ao marimo de merda. E por falar em “merda”... Zoro percebeu que essa era a palavra que o sobrancelha enrolada mais gostava de repetir.

Naquele sábado, os dois teriam a conversa mais profunda até àquele dia e que determinaria de vez a existência de um laço entre eles. Estavam no apartamento de Zoro, sentados no sofá depois de fazerem uma faxina caprichada. Sanji não aguentou ver o apartamento do marimo mais um dia sujo, e teve que fazer algo a respeito. Ser maníaco por limpeza seria outra coisa que Zoro saberia de Sanji. E realmente aquele idiota era engomadinho demais, apesar de ser estiloso, mas ainda era um filhinho de papai quando andava tão arrumado e ostentava coisas de marca. Seus cigarros eram da marca mais cara, por exemplo. Se Zoro fumasse, ele provavelmente chegaria num boteco e diria “me vê dois derbys aí, cara”.

— Ei, marimo... será que posso morar contigo?

Com esse pedido, Zoro se engasgou com a cerveja que tomava. — Por quê?!

— Não tô me dando muito bem com meu pai...

— É? Por acaso o filho garanhão está dando trabalho?

Sanji detestava essa visão tão bidimensional do marimo, parecia que tudo era bem resolvido. — No seu mundo só há preto e branco?

Zoro não entendeu. — Oi?

— Estou te perguntando se tudo com você é tão preto ou branco, ou se você enxerga as várias tonalidades de cinzas que há entre os dois?

Ótimo, um tarado falando de filosofia, não tinha mais o que esperar de Sanji. — Ainda não entendo.

— Marimo, por que você acha que uma pessoa como eu não possa tá passando pelo mesmo problema que você?

— Que problema, diachos?!

Sanji rangia os dentes com a burrice sem tamanho de seu amigo. — Eu tenho problemas com o meu pai também.

Encarava o olhar confuso de Zoro, sem pestanejar. O marimo largou a lata de cerveja na caixa de madeira que servia de mesa central e passou a fitá-lo com a mesma densidade.

— Como sabe que tenho problemas com meu pai?

Não se lembrava de ter dito algo para Sanji, não era possível que ele percebeu nas poucas vezes em que foi para o dojô.

— Eu vi. — Respondeu firme. — E até fiquei feliz com sua desgraça.

Zoro não começou uma nova briga, ele entendeu o que Sanji quis dizer. — Se sentiu menos só?

— É...

O loiro estava constrangido, e já não mais encarava os olhos castanhos do outro. Zoro o achou fofo, devia ser a primeira vez que se abria com alguém.

— Ok, você pode morar aqui.

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