Final de Outubro

1 Capítulo 1 - Tudo o que eu senti.


Graças aos céus tinha dado certo. Beatriz já não aguentava mais trabalhar naquele lugar horrível. Passara a última semana trabalhando em condições emocionais que passavam de todos os limites aceitáveis.

“Bia, infelizmente vou ter que te desligar da empresa. Obrigada por tudo. Deus abençoe.”

QUE PACHORRA. A mulher era o próprio diabo desejando que deus a abençoasse. Não fazia sentido nenhum, mas não aquilo minimamente vinha ao caso, já que a felicidade do momento era que aquele pesadelo não fazia mais parte de sua vida. Sentiu uma onda de positividade percorrendo seu corpo, terminando em um sorriso de orelha a orelha. Tranquilidade. Tudo estava em paz agora.

— O melhor dia de todos! – Riu sozinha e foi tomar banho. Era dia de ir pra Santos!

**

“AAAAAA

Vamo dar um role se parar essa chuva meuuuu”

Seu coração gelou um pouco com a mensagem que acabara de receber do amigo de tantos anos. Há muito tempo não falava com o Daniel e a última vez tinha sido ótima, mas talvez tivesse deixado um clima engraçado, já que fumaram tanto que acabaram se beijando ao final do passeio.

“Mas gente, o que será que eu respondo?”

Ponderou um pouco ao analisar a disponibilidade de tempo que teria, já que aquele era o único dia que passaria na praia. Pensou seriamente em deixar para outra ocasião, já que dali a alguns dias, iria ao encontro do colégio e ele, possivelmente, também estaria lá. Após muito pensar, decidiu que dizer não seria apenas aquilo: perder uma oportunidade legal de reencontrar um amigo de longa data e, naquele momento, não queria desperdiçar chances que a vida dava, ainda mais depois de se livrar de um fardo tão grande que havia sido seu último emprego. Respondeu com uma confirmação animada e sorriu forte lembrando da amizade que costumavam ter no colegial.

“Porra, a gente não se fala faz mil anos. ‘Cê deve ter infinitas paradas pra contar.”

Ela riu gostoso com a afirmação do Daniel e isso foi como uma passagem de volta ao passado. A sensação foi de que tinha 16 anos de novo e ele estava ali, sendo o seu amigo de sempre. Uma das coisas que mais admirava nele era essa atenção desmedida, que ele nunca economizava ao conversar com ela, mesmo depois de anos. Ele sempre tinha uma recepção calorosa, um abraço gostoso e muita conversa pra jogar fora e isso era uma das coisas que fazia com que Bia não abrisse mão da sua amizade nem por um segundo. Tratou de logo perguntar quando ele podia sair e que horas iriam. Não dava pra perder o monte de risadas que tinham pra dar ainda.

Combinaram de sair pra tomar uma cerveja em um bar qualquer em um horário pouco usual e isso fez com que ela achasse graça naquilo tudo. Ao chegar pertinho da hora de ir, Bia se ajeitou como pôde porque não havia levado nem uma muda de roupas. Escovou os dentes, passou um pouquinho de perfume da sua prima e pegou um Uber até o local de encontro. Quando ele perguntou se ele poderia buscá-la, ela prontamente recusou. Talvez por vergonha, talvez por não querer parecer abusada e talvez porque realmente não dependesse disso, mas não deixou de achar um amor. Seu coração se apaixonou um pouquinho e ela tratou de retrucar: “pare com isso, vocês são só amigos”.

Foi conversando com o motorista e, dividida entre a culpa por deixar sua vó pra trás e a vontade de chegar logo, nem viu o tempo passar. Quando viu que estavam chegando, ficou eufórica, um frio no estômago aconteceu rapidinho e logo voltou quando viu que ele estava ali, sentado em uma mesa do lado de fora, esperando que ela chegasse. “Que amor!”. Saiu do carro rapidinho, se despedindo do homem com quem havia conversado a viagem toda e correu um pouquinho até chegar na entrada do bar. Quando Daniel levantou para lhe dar um abraço, ela perdeu um passo.

“O que é isso aqui?”, pensou ao dar uma breve olhada para o amigo.

Ele estava impecável. Mais bonito e mais estiloso do que se lembrava e o sorriso... Ah, o sorriso. “Cadê o aparelho?”. Gente do céu.

Ele a puxou para um abraço de cumprimento e o choque até passo, porque o abraço estava exatamente como ela havia deixado: cheio de carinho, atenção, cuidado e conforto. Era impressionante como ela sempre coube tão bem naquele espaço que sempre a acolhia como se dali nunca devesse ter saído. Ele era bem mais alto que ela, como sempre fora, e ali nunca lhe faltou espaço nem aconchego. Ela respirou fundo, inspirando tudo o que podia naquele breve momento e sorriu mais ao sentir o cheio de perfume recém passado. Amadeirado, forte e envolvente. Naquele momento, sentiu que poderia ficar ali por horas, mas logo foi arrancada de seus pensamentos porque ele a havia soltado a fim de que eles fossem sentar em algum lugar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.