Final Fantasy Ix-2: Twilight Of Gaia

42 Frustrações para Uns, Realizações para Outros


A primeira coisa que Lark viu, ao despertar, foi um brilho dourado que parecia dançar na sua frente. Pouco a pouco, a nitidez retornava aos seus olhos, fazendo-o constatar que se tratava de uma fogueira.

— Acordou?

Só então notou que havia mais alguém, em frente a um barranco pouco mais à sua esquerda. Zidane estava sentado, com os braços apoiados sobre um dos joelhos, com um semblante de exaustão, mas parecia contente em vê-lo.

— Você! — exclamou Lark, e tentou se levantar apressadamente, mas foi detido por uma forte dor em quase todo o corpo — Aaargh!...

— Vai com calma, você deve ter se esforçado demais naquela hora, e o seu corpo sofreu as consequências — disse Zidane, encostando a cabeça no barranco, com os olhos fechados — Eu também não tô cem por cento...

Lark observava tudo em volta de si com desconfiança e incerteza.

— Que lugar é esse?

— Estamos perto da entrada da Evil Forest. Paramos no meio do nada e, depois de andar um pouco, me dei conta de onde estávamos e resolvi dar um tempo aqui até você acordar. — contou Zidane, ainda de olhos fechados

— Essa névoa...

— ...é a confirmação de que estamos mesmo no passado, conforme vossa maluquice tanto queria. — completou o garoto, erguendo as mãos

Mesmo não conseguindo se levantar, o jovem Summoner desembainhou sua espada e, um tanto trêmulo pela perda de forças, ergueu-a na direção de Zidane.

— Não sei por que não me matou enquanto teve chance; talvez, matar alguém, assim, não teria graça, certo? Preferiu esperar para me ver agonizando, mas não vai conseguir!— exclamou Lark, já à espera de algum golpe traiçoeiro.

— Oh, Deus... — disse Zidane, após um grande suspiro

Então, se levantou e foi até o Summoner. Em seguida, deu um chute na espada que a fez voar e, apanhando-a, apontou-a para o pescoço de Lark.

— Escuta aqui, cara.Você quase destruiu uma cidade, mandou a gente pros quintos dos infernos, quer despertar um bicho que vai aniquilar geral e ainda sequestrou minha namorada. Pra querer matar você, nem preciso ser o demônio que você pensa que eu sou, mas não vou fazer isso, então para de falar besteira, porque eu já tô cheio!! — exclamou, logo depois fincando a espada no chão e voltando para onde estava

— ...

Ambos ficaram calados pelos próximos minutos. Lark aproximara-se um pouco mais do fogo, quase precisando se arrastar, e Zidane, deitado sobre o chão, apenas observava o céu, tentando identificar estrelas, mesmo com a interferência da névoa que há tanto não via.

Bem longe dali, a bordo duma embarcação e a observar o mesmo céu, agora sem névoa, estava Evan, sentado sobre um caixote e tentando, sem muito sucesso, enganar o próprio nervosismo.

— Chegaremos em cinco minutos — disse um homem, também usando de um chifre falso, vindo ao seu encontro

— Ok.

— Olha...er...qual o seu nome mesmo?

— Evan — respondeu, sempre mantendo os olhos no céu

— Evan, não acha essa missão muito arriscada para um jovem como você?

— Talvez seja, mas sei me cuidar — retrucou, levantando a capa e exibindo duas pistolas, com cabo e gatilhos de madeira, mas com cano revestido de Mythril.

— Wow...calibre .233 e cápsulas compactas de quartzo....mas você realmente sabe usar isso!? — perguntou o homem, desconfiado

Num movimento rápido, mais ainda sem desviar o olhar, o garoto retirou a pistola direita da cintura, girando-a entre os dedos e, depois, mirando para a testa do homem.

— Certo, certo, já vi que sabe!!

Evan, gentilmente, guardou-a de volta, enquanto outro homem, o que conduzia o barco, dava um aviso:

— Chegamos!

Evan notou que o céu fora coberto com o que parecia o teto duma caverna, então se levantou e seguiu até o outro lado.

Havia alguns sentinelas do outro lado que aproximaram-se para averiguar quem vinha, mas, ao se depararem com três Summoners, voltaram para seus postos. Os recém-chegados conversavam de maneira descontraída, exaltando frases como \" Ah, por que você não vem com a gente? \" e \" Já se cansou de novo, seu molenga? \", até que os dois que insistiam para que o companheiro não os deixasse resolveram partir sem ele.

O jovem ainda ficou parado por mais alguns instantes, com os olhos fixos no barco cada vez mais distante.

\" Só mesmo numa encenação para eu estar num diálogo assim...\" pensava

Evan passou pelos sentinelas após um ligeiro cumprimento, e logo teve acesso às escadarias subterrâneas que levavam à cidade de Madain Sari. Sua missão era simples: descobrir o paradeiro de todos os fragmentos da joia de Alexander, que fora dividida em quatro após a tentativa fracassada dos Summoners de controlar seus poderes.

Os Summoners, normalmente, eram hostis com qualquer outro povo que tentasse se aproximar deles, mas tinham uma rivalidade particular com os Thasimianos, povo místico, repleto de muitos avanços e conhecimentos; e essa rivalidade transformou-se em desconfiança com o surgimento de boatos de que Thasima estaria colaborando secretamente com os planos de Terra.

Nem se importava com o fato de estar numa cidade pouco amistosa, e pôs-se a caminhar sem rumo, observando cada lugar e pensando em como procederia para conseguir a informação desejada.

No entanto, o que não poderia deixar de apreciar, naquela situação, era a sensação de liberdade e independência que tomava conta de si nas raras vezes em que deixava seu lar. Não que não gostasse de sua mãe ou de Thasima, mas, de vez em quando, sentia que precisava dar um tempo de tudo ou ficaria louco.

Minutos depois, encontrou a placa de uma taverna, com uma seta indicando o que mais parecia ser uma entrada subterrânea. Vendo que pessoas entravam e saiam de lá, rindo e falando alto, decidiu entrar. Não foi preciso descer muito para ouvir mais vozes, gargalhando com voracidade e, mesmo não sendo seu tipo de lugar favorito, prosseguiu até o fim dos degraus, deparando-se com um amplo estabelecimento.

\" Uma taverna numa caverna...legal...\"

Aproximou-se do balcão e sentou num banco. O atendente lavava alguns copos numa pia improvisada e interrompeu o serviço para vir atendê-lo, enxugando as mãos.

— O que vai querer?

— ...leite.

O homem não conseguiu segurar o riso.

— Leite!??

— É, leite! — repetiu o freguês, a contragosto

Evan era dono de uma rígida e inabalável doutrina profissional. Mesmo se quisesse e tivesse oportunidade para fazê-lo, jamais se permitiria beber uma gota de álcool enquanto estivesse numa missão, mesmo que esta se consistisse em caçar oglops.

Estando num local propício para trocas de informações, teve de esforçar-se novamente para bancar o sujeito comunicativo:

— Sabe, aquele episódio do Alexander ainda não sai da minha cabeça — disse, e assim que seu pedido chegou, virou num único gole — O senhor Gohn deve ter tido um motivo muito forte para tomar uma decisão assim...

O atendente, ao ouvir isso, olhou disfarçadamente para um lado e para o outro, e inclinou o corpo no balcão, sussurrando quase aos ouvidos de Evan, e sem nem desconfiar que, essa atitude sim, o tornaria suspeito.

— Isso não é nada, andam dizendo por aí que os chefões já estão de olho em algo muito pior.

— Em que!? — perguntou o garoto, interessado

O homem fez uma cara de lamentação.

— Isso, infelizmente, não sei dizer — e olhou para as mesas, como se procurasse por alguém — Ah, vê aquele cavalheiro sentado naquela mesa, perto da parede? Ele poderá lhe dar todas as informações sobre isso.

Evan observou na direção indicada, mas tudo o que via era uma criatura pequena vestindo colete e chapéu azulados, de onde despontava uma antena com a ponta vermelha, e também tinha asas minúsculas.

— É um moogle! — exclamou o jovem

— Exatamente.

Por um momento, pensou tratar-se de uma brincadeira, mas, depois de pagar a bebida, resolveu ir até a tal mesa.

— Com licença, senhor...

— São 80 Gil. — respondeu o moogle, de imediato

— Do que está falando?

— Da informação que você quer.

Agora, Evan já parecia convicto de que aquilo tudo tratava-se de uma piada.

— 80, só pra ouvir um mero boato!? Deve estar louco.

— Não é um mero boato, kupo! — protestou, saltando à altura dos olhos do garoto — Percebe-se que não me conhece nem um pouco, pois bem, sou Valentine, o mediador, e minhas informações são totalmente confiáveis.

O rapaz se surpreendeu ao ver como o moogle se alterara por ter duvidado dele e, embora ainda estivesse desconfiado, deixou-se levar pela curiosidade.

— Está bem, aqui está. — disse, espalhando algumas moedas sobre a mesa, as quais o moogle rapidamente guardou nos bolsos e, em seguida, o rapaz puxou uma cadeira e sentou-se ao seu lado — Agora diga, o que Gohn está tramando?

— Nem faço ideia.

— Ah, seu...!

Apesar de não gostar de violência, já estava quase a ponto de estrangular aquela criaturazinha.

— Acalme-se, kupo! Não faço ideia do que Gohn está tramando, mas sei o que os outros estão.

— Que outros?

Valentine abaixou o tom de voz.

— Zera, um de seus suplentes. Aparentemente, ele está reunindo energia de diversos Eidolons...inclusive, parece que também está de olho nos que chamam de \"titãs\".

Evan inquietou-se na cadeira, pensando em várias coisas ao mesmo tempo. Enquanto isso, o dono do bar, que o atendera, havia chamado, discretamente, dois homens que estavam numa das mesas e apontou-lhes o rapaz, balbuciando qualquer coisa.

— Sabe do paradeiro dos fragmentos de Alexander? — perguntou Evan

— Bem, um ainda está aqui, sob a guarda de Myu, enquanto outro foi entregue a um forasteiro que viaja num chocobo dourado. Os outros, infelizmente, não sei onde estão.— lamentou Valentine

— Não faz mal, já me disse o suficiente — replicou Evan, levantando-se às pressas — Obrigado!

Saiu da taverna a passos rápidos, e, desta vez, tinha um brilho no olhar, que antes transmitia unicamente serenidade e melancolia. Nem ao menos notou que era seguido pelos dois homens.

Depois que todos saíram, Valentine seguiu até o balcão, com algumas moedas.

— Aqui está sua parte, kupo — disse, entregando-as ao dono do local — Não pude deixar de notar aqueles caras...será que vão prendê-lo?

— Não sei, mas eu não quero complicações pro meu lado!

— Nem eu, aliás, acho que vou embora, pois já fiquei tempo demais nessa cidade — ponderou o moogle

Evan teria de esperar quase um dia inteiro até que o barco que o trouxera retornasse, conforme haviam combinado, então, saiu à procura de uma hospedaria ou qualquer outro lugar onde pudesse passar a noite.

Mas, naquela noite, dormiria num lugar muito diferente de tudo aquilo que esperava, pois os dois sujeitos o atacaram por trás, deixando-o inconsciente com um golpe surpresa e, depois disso, levaram-no consigo.

Ainda estava tonto quando voltou a abrir os olhos, e tentava identificar onde poderia estar. Ouvia vozes, mas não se importava com isso, tudo o que queria era saber que lugar era aquele, embora sua visão viajasse em círculos por todo o local. Não, um simples impacto não o deixaria assim, com certeza também estava sob o efeito de alguma coisa.

— Seja bem-vindo — pronunciou-se alguém, sentado à sua frente e logo acenando com a mão — Estou aqui, mais à sua esquerda, filho...e perdoe-me pela recepção e hospitalidade não muito exemplares.

Só então percebeu que também estava fortemente amarrado nas mãos e nas pernas.

— Mas o que...

— Acho que não precisará mais deste chifre falso — acrescentou Zera, exibindo-o — Como estão as coisas em Thasima?

Evan não poderia se sentir pior. Logo recobrou completamente os sentidos e pôde ver aquele homem debochando de seu fracasso, como também seus comparsas, pouco atrás de onde estava. Na verdade, não estava preocupado com a situação em si, mas sim com o que ela representava: o seu fracasso.

Reconhecendo imediatamente que perdera, começou a observar à sua volta, ignorando sua presença, e descobriu que estava no que parecia ser uma residência comum, mas, certamente, não ficaria ali por muito tempo.

Incomodado com sua aparente indiferença, Zera avançou contra a cadeira e obrigou-o a olhar em seus olhos. Um verdadeiro concurso de encarar, onde dois olhares pouco expressivos mediam suas forças.

— O que estão tramando!? — vociferou

— Na verdade, eu que deveria perguntar isso, senhor. — respondeu, de forma calma, porém sem ironias

— Ah, então veio apenas inspecionar...? — perguntou Zera, girando os dedos — Está escrito \"idiota\" na minha testa!??

Ao ver que o jovem continuava quieto, começou a espernear, sacudi-lo com brutalidade e a falar mais alto.

— Senhor, acho que deveria se acalmar... — sugeriram, em conjunto, Evan e os outros dois

— SILÊNCIO! Eu deveria te torturar, mas é você quem me tortura com essa cara! Tranquem-no no calabouço até que resolva colaborar!

Sem pensar duas vezes, Biggs e Wedge desamarraram Evan e o levaram para a masmorra, temendo que acabasse sobrando para eles também.

— Garoto, você tirou o chefe do sério! — disse Biggs, quando já estavam nas ruas

— Mas eu não disse nada de mais.

A masmorra também ficava na parte subterrânea da cidade, situada pouco à esquerda do palácio central. A prisão parecia um verdadeiro labirinto, com diversos corredores, porém, apenas duas celas, curiosamente bem distantes uma da outra, e ambas sem nenhum rastro de vida. Provavelmente, era verdade os rumores de que Gohn era um líder benevolente e piedoso, não gostando de manter prisioneiros.

— Ficará aqui até resolver colaborar com o senhor Zera! — afirmou Biggs, com uma cara de assustado, empurrando-o para dentro da cela e trancando-o em seguida

— Um de nós estará por aqui, caso resolva falar — continuou Wedge, que também tinha nas mãos as suas pistolas — Isto também estará sob nossa custódia.

Conformando-se com a situação, sentou num canto, esperando que o sono viesse para ajudar a passar o tempo, já que não poderia dizer o que tanto queriam, até por que não fazia ideia do que mais poderia dizer além do que já fora descoberto.

Enquanto isso, uma sombra vagava por sobre as muralhas da cidade, de onde surgiu um ser alado pairando alegremente. De fato, Belphein voava sem conseguir disfarçar o contentamento.

— Enfim...agora só mais um pouco...

Já estava flutuando ao nível do solo, mas não era notado pelas pessoas ao redor, pois, desde que chegara àquela época, seu corpo assumira uma forma espectral, tornando-o invisível para todos. Guiado por antigas memórias, chegou rapidamente à casa que servira de cativeiro provisório para Evan, onde estava Zera, ainda nervoso e resmungando para si mesmo.

— Aquele vermezinho vai acabar abrindo o bico, nem que tenha que tortura-lo lentamente, então saberei em que aqueles traiçoeiros estão pensando. — disse, bebendo uma taça de vinho com nervosismo e tamborilando os dedos na mesa.

Belphein, aproximando-se dele vagarosamente, transformou-se num feixe de luz que adentrou pelo corpo de Zera, iluminando toda a residência e fazendo-o gritar.

A imensa resplandecência, bem como os berros, atraíram a atenção de pessoas que ali passavam e Biggs, que dirigia-se para lá, correu desesperadamente para saber o que havia passado na casa.

— Chefe, o que foi!? O senhor está bem!??

— Bem...? — perguntou Zera, levantando-se e jogando os cabelos para trás, fitando teto e, depois, virando-se para o subordinado — Nunca estive melhor.

— ...

\" Eu venci...depois de quinhentos anos, eu me consagrei como o único vencedor. \"

Naquele momento, em algum lugar longe dali, numa sala ampla e com vários móveis cristalizados, uma jovem mulher, de cabelos loiros, olhos azuis e pele muito pálida, que descansava sobre uma cama, começou a sentir-se perturbada com o som de um trovão que se fez ouvir nos céus.

Um homem, vestindo trajes de guarda, veio ampará-la:

— Althea, o que acontece?

— Vieram...vários vieram para cá além do espaço e tempo... com eles veio o Herdeiro...e também a maior das ameaças...

***IX***

Notas finais

Se possível, deixem reviews, obrigado!