Notas iniciais
Bom, peço desculpas novamente pelo atraso.
Esse capítulo deveria ser maior e ter sido postado antes, mas o Word do meu notebook deu pau na hora de salvar o capítulo e eu perdi ele inteiro.
Aí eu reescrevi metade do capítulo e aqui vai.
Acho que foi bom perder a versão anterior do capítulo 7, tava uma bela porcaria :D

E eu já não me sinto mais a vontade nesse lugar.

Minha mente já não se lembra do que Emily disse. Minha mente está pesando e as malditas paredes estão se fechando contra mim.

Léo escapou do acidente e morreu. Henrique escapou do acidente e morreu.

A teoria de Rafa encaixa-se com o que aconteceu.

Acho que preciso de um tempo pra me recuperar. Acho que preciso de um ar. Acho que preciso esquecer-me de tudo.

Impossível.

Foco. Foco.

Acho que preciso me recuperar da chuva de sangue que acabei de assistir.

Guardo minhas coisas na mochila e deslizo sorrateiramente pra fora do café. Minhas pernas estão tremendo. Então eu me concentro em não sucumbir na doce tentação de passar mal. Na doce tentação de chorar.

E se foi isso que pegou Carol e Will, então pode ser que não tenha sido um suicídio...

Ok, estou overthinking.

Já na rua, eu diminuo meu passo, fazendo o melhor que posso para não lançar um olhar para trás. Pois esse olhar pra trás vai me revelar o local exato em que Henrique foi morto.

Eu realmente não tenho certeza se vou conseguir voltar a esse café. Eu não tenho certeza alguma e estou cansado de pensar e repensar na minha falta de certezas.

Eu gosto das árvores. Sim, eu amo as árvores de São Paulo. Dizem que a cidade é um mar de cinzas, o que de fato é verdade. Mas o que acontece é: morar em São Paulo não significa ver o mundo cinza. Droga, morar em São Paulo é tão igual a morar numa cidade normal tipo... sei lá... Campinas. Pois só existe um sentido brilhante e Hollywoodiano em morar em São Paulo se sua vida é super badalada e dia sim dia não você fica de pé numa limosine com abertura no teto enquanto as luzes da Avenida Paulista passam rápidas como holofotes sobre você – enquanto balança os braços de um lado pro outro afirmando e gritando pra todo mundo o quanto você é cool.

Acho que estou confundindo o real com os filmes novamente.

Mas faz um tipo de sentido.

Eu amo essas árvores que estão vindo e se afastando de mim enquanto escorrego sobre as calçadas cinzas. Não que as árvores me lembrem de um passado remoto. E apenas amo o visual e as sombras fantasmagóricas que essas árvores deixam pela rua. E eu amo o cheiro de natureza que flutua ao redor delas, quase como uma auréola adequada.

Acho que quero uma árvore em casa.

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Já não estou pensando em árvores. Estou parado como um poste na frente dos portões da escola em que fiz o Ensino Médio com Will e Carol.

O nome da escola é Matilda Ramos. Ela não tem diferencial algum de qualquer escola pública que pode ser encontrada em qualquer lugar do mundo, além de armários individuais. Ela é bem grande e suas janelas são retângulos um pouco redondos. Eu sei que isso tem um nome, mas não estou interessado na ideia de tentar lembrá-lo.

Existem mais árvores dentro dos portões da escola, mas acho que já remexi demais nessa ideia de árvores.

Eu sei que é errado o que pretendo fazer. Mas sei que isso vai me deixar mais calmo para acompanhar a continuação dos DVD’s.

Claro que vou continuar vendo os DVD’s. Enquanto caminhei do café até esse lugar em que estou, pensei muito. E não estou preocupado mais com o sangue real que possa aparecer. Nesse momento não estou preocupado com o que posso descobrir. E sim, estou preocupado no que pode acontecer comigo se eu não assistir o resto dessa merda.

Eu passei sobre uma ponte. E me vi segurando os DVD’s numa mão, prestes a dar adeus pra sempre. E eu não consegui.

Espero um carro atravessar a rua. Então eu atravesso-a e dou mais uma olhada no interior dos portões. E dou outra olhada sobre minhas costas. O interessante é que a escola é cercada de empresas. E então não existe muito movimento nos dias não letivos.

Antes de parar aqui, eu dei duas voltas ao redor dos portões e me certifiquei de que o vigia magrinho e bigodudo que fica aqui de manhã não está dando sopa. Pelo menos era esse vigia até eu terminar o colegial. Honestamente eu não tenho ideia do que ele poderia fazer se acontecesse algum tipo de imprevisto como ladrão na escola, — ou até mesmo eu invadindo — pois ele vivia andando com uma cara de fome. Ainda sim, era um cara legal.

Sobre o lance de isso me deixar mais calmo pra ver o resto dos DVD’s, isso é verdade. Pois ele lugar vai me trazer memórias boas. E quando as coisas ficarem difíceis demais para minha mente insana acompanhar, então eu vou olhar para o lado e ter um flashback feliz. É o que espero.

E nessa crença feliz, eu escalo um dos portões.

Estou esperando um “hey” ou um “políciaaaaaaaaaa”, mas isso não vem. Então eu continuo subindo enquanto minha mochila insiste em pender ora pra esquerda ora pra direita.

Parece fácil. E é. Quando tínhamos 16 anos, eu e Will viciamos na prática de invadir locais abandonados. E ficamos bons. Mesmo ambos um pouco grandes demais, ficamos ótimos. E nunca fomos pegos.

Bom, na verdade... a escola não está exatamente abandonada...

A gente gostava da sensação. Dava uma dose de adrenalina bizarra, quase como se nos revigorasse para um dia inteiro que viria em seguida. Paramos com isso ainda com 16 anos.

Estou no topo. Estou há quatro metros do chão. Caralho.

Com um pouco de dificuldade, passo ambas as pernas para o lado de dentro. E firmo-me nas barrinhas e atravesso o resto do corpo.

Estou descendo cuidadosamente. Minha mochila está pesada demais pro meu gosto.

Estou no chão. Estou dentro. Gostaria de lembrar um nome de um personagem que invade locais dessa maneira apenas pra pensar com um tipo de orgulho surreal: “chupa fulano”.

Gosto da palavra surreal. Assim como gosto das palavras nostalgia e flashback.

Lanço mais alguns olhares caçados pela extensão do interior dos portões da escola. Estou sozinho.

Que bom.

Ando com passos largos e rápidos em direção às arquibancadas. Sim, aquele local será ótimo. Será maravilhoso. É coberto, e posso ter flashbacks e olhar para as árvores...

Enquanto continuo meu caminho, não posso deixar de notar o fato de que uma das entradas da escola está aberta. E dessa entrada, eu estou vendo o armário que costumava ser da Carol.

Meu Deus. Isso é demais para meu velho coração.

Eu sei que isso é louco. Mas eu simplesmente preciso satisfazer esse lado estranho que não pensa antes de fazer as coisas. Provavelmente tem alguém dentro da escola, mas estou sem ideias de quem pode ser, pois o estacionamento está vazio.

Mas minhas pernas já estão indo até lá.

Se alguém aparecer lá de dentro me ver eu apenas digo “hey, eu vi essa porta aberta e vim fechar”.

Talvez a porta tenha sido aberta com os ventos. Sim, pode ser. Mas hey, ela vive trancada...

Existe alguma coisa errada.

Atravesso a porta e já estou praticamente de frente com o armário.

Carol passou muito tempo do terceiro ano aqui. Então eu deslizo meus dedos no ferro gélido, quase para tentar senti-la novamente.

É, definitivamente não funciona.

E o armário se abre.

Por um instante eu fico ali, esperando a portinhola seguir seu caminho e me revelar o que de tão interessante pode haver ali dentro. Bom, algum aluno deve ter usado isso aqui nos últimos meses e...

Observo que não tem cadeado. Armário vazio. Assim como todos os outros da fileira.

A portinhola para antes de me revelar o conteúdo. Suspenses assim me matam. Então com um resmungo, eu o abro.

Droga.

Acho que qualquer coisa poderia ter sido melhor do que isso. Bom, estou clamando por flashbacks de momentos bons o tempo todo então eu deveria estar um pouco feliz. Mas não estou.

Estou triste, pois tudo o que descansa no antigo armário de Carol é um adesivo de EvilDead. Não é exatamente o adesivo que a fez conhecer Will anos atrás. Definitivamente não é o mesmo. Mas esse adesivo me lembra da época em que eu a conheci.

E eu descobri que ela tinha um vício enorme por EvilDead e comprava adesivos de EvilDead todo início de ano pra colar em seu notebook, seu caderno, seu guarda-roupa – ela tirava os adesivos velhos, — e em seu armário.

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Abro o notebook enquanto observo as árvores fantásticas do pátio aberto que cheira desinfetante. Estou sentado na arquibancada e me pergunto por que diabos uma arquibancada e um pátio cheiram a desinfetante.

Estou overthinking novamente.

Play.


A tela me mostra a escuridão por alguns longos segundos. Estou segurando meu fôlego quando vejo uma silhueta de alguém em frente a um sofá. E existe mais alguém nesse sofá.

E é Carol.

Acho que eu devo começar a prestar atenção a partir daqui.

Logo percebo que a silhueta era de Rafa, ligando a câmera.

Não tenho ideia de onde ambos estão. E sim, o ciúme vem a tona novamente.

Acho que eu não deveria sentir ciúme de pessoas mortas.

Err... Acho que não deveria ter pensado a última coisa.

- Então vai continuar gravando? – Carol pergunta séria, olhando da câmera para Rafa.

Carol estava deslumbrantemente linda nesse dia. Meu Deus. Espero que eu tenha a elogiado. Ela usava uma blusa de moletom cinza com uma estampa da Minnie e tinha os cabelos muito lisos ao redor do busto. Meu Deus. Meu Deus.

- Pois tipo, — ela continua, — está começando a ficar bizarro.

Eu também acho Carol. Mas esse é o lema do Rafa.

- Me deixa cara, — Rafa solta num lamento e desaba no espaço vazio do sofá. Ele olha pra cima e suspira.

Não fale assim com minha mulher, Rafael, — eu não consigo deixar me imaginar dizendo isso. Pois eu diria.

- Vocês duvidam dessa merda toda, — Rafa diz ainda encarando o teto, — pois não viram duas pessoas morrendo, como eu vi.

Inevitavelmente eu também vi, Rafa.

Um silêncio.

- Sua mãe me contou que quase teve um ataque do coração quando te viu entrando em casa,– Will disse em algum lugar fora do frame.

Ah que bom, Will estava com eles. Não posso deixar de pensar que estou muito aliviado.

- Você já tomou uma porra de chuva de miolos?– Rafa perguntou encarando Will friamente. – Aposto que não.

- Rafa,– Will disse, — eu não estou dizendo isso para parecer engraçado ou uma merda do tipo. Eu estou apenas...

- Tentando me entender? – Rafa pergunta num tom alto e inesperado, — não, não vai ser necessário. Espera só a próxima pessoa da lista morrer...

Carol balança a cabeça negativamente, ela não quer ouvir isso.

- Não vamos perder a cabeça agora. Droga! Isso é demais para mim.

Isso foi muito pra você Carol. Você se matou e estou encarando uma causa plausível e...

Às vezes eu tenho a impressão corriqueira de que Carol nunca se matou. Muito menos Will. E não, não estou falando de realidades alternativas em que as coisas são melhores e diferentes, e sim teorizando que aquilo foi um acidente.

- E caso, — Carol suspira, procurando as palavras. Ah, eu conheço essa expressão tão bem que isso corta meu coração, — e caso isso realmente estiver acontecendo, como se faz pra sair disso?

- Então você já acreditou nele? – Will questiona, tirando as palavras da minha mente.

- Não. Eu não acredito.

Rafa dá uma risada triste. Um pouco caçada, um pouco incerta.

– Droga.

- E então,– Carol continua, — como se escapa disso?

Rafa ri novamente. E Carol faz uma expressão ruim, uma que eu conheço bem. Ela quer dar um murro no olho dele. Mas Carol se segura e apenas vira os olhos.

- Bom, — Rafa diz encarando-a de frente, — existe o lance de um ritual.

- Ritual? – ela pergunta mastigando as palavras.

- Isso, — Rafa segue, — na verdade é só misturar umas coisas e dizer umas palavras, basicamente você restaura seu espírito a um nível anterior.

A facilidade com que Rafa cuspiu a última frase me assustou, admito. Já ouvi isso antes, mas não deixo de admitir.

Carol concorda perplexa.

- Deus... – Will diz fora do frame.

- E existem outras coisas também...

- Que tipo de coisas?– Will pergunta agora, mais interessado no que deveria aparentar.

Rafa vira-se de frente pra um local em que presumo que Will estava. E sorri:

- Ressuscitar.

Will explode numa gargalhada maníaca.

E para subitamente quando percebe o olhar de pânico que se formou no rosto de Carol.

- Mas tipo... , — Carol prossegue fazendo as contas, — para... ressuscitar... é preciso morrer.

- Bingo!– Rafa exclama. – Aí é que as coisas começam a complicar.

Um silêncio. Carol começa a enrolar os cabelos nos dedos.

- Cara, — Will começa num tom de admissão que eu conheço, — se você estiver inventando isso...

- Eu nunca faria isso,– Rafa diz pausadamente.

Justo.

- E por onde a gente começa então? – Carol pergunta. Rafa olha subitamente pra ela, e presumo que Will fez a mesma coisa, pois ela recuou no sofá. – Eu quero dizer,– ela continua, — que se tiver alguma coisa fácil a ser feita, eu topo. Essa história tá começando a me assustar.

Como eu queria te abraçar...

- Eu vou conversar com a garota que nos salvou,– Rafa diz, — pode ser que ela saiba de algo.

- Deveria ter feito isso antes,– Will conclui.

- Eu precisava falar com vocês, — Rafa devolve.

Outro silêncio.

- Quem sabe ela não teve mais... visões? – Carol pergunta.

- Com certeza,– Rafa diz, — eu a encontrei no Facebook da Angela.

Carol o encara por um momento.

- Amanhã eu vou no trabalho dela, — Rafa segue, — fica a alguns quarteirões daqui de casa... Seria bom se vocês viessem comigo...

Carol concorda. Will provavelmente concordou também.

- E você falou pra ela disso tudo? – Carol questiona... – Por mensagens?

- Na verdade não,– Rafa diz.

Carol ri. E Rafa e Will riem também. Até eu estou rindo.

Good times....

- Preciso falar isso pro Vini,– Carol diz puxando o celular.

E eu já estou arrepiado e nervoso. Mas ela não me contou nada disso...

- Eu acho melhor manter ele longe,– Rafa diz.

- Mas por quê? – Will exclama.

- Um,– Rafa ergue um dedo, — ele não estava lá na hora do acidente... Isso meio que tira ele de qualquer plano que a gente possa estar... envolvido. Dois, — ergue o outro, — quanto mais gente ficar de fora, melhor.

- Tudo bem,– Carol concorda.

E foi assim que eu fui excluído dessa história. Na verdade, Carol e Will sempre souberam que eu fui excluído de histórias paralelas na minha vida.

Mas exceto nas deles, e eles me excluíram dessa vez. Estou um pouco magoado.

- E depois,– Rafa continua, — vamos ao ritual.

Rafa esfrega ambas as mãos num gesto maligno. Carol lança aquele olhar pra Will.

Rafa olha pra câmera. E anda em direção a ela, e eu não posso deixar de me lembrar de Rafa fazendo a mesma coisa após a morte de Henrique.

Mas agora Rafa não está sujo de sangue. Rafa não está como um zumbi e não está coberto de cérebros e pele. Ele parece estar mais feliz.

Acho que se eu fosse Rafa, eu já teria pirado no meio do caminho. Acho que Rafa não pirou no meio do caminho, pois teve um Rony e uma Hermione do lado dele.

Rafa desligou a câmera. E eu só consigo pensar que as coisas vão começar a ficar mais tensas do que já estão.

Acho que estou overthinking.


Notas finais
Enfim, sei que não foi o melhor capítulo, mas here we are, dando um pontapé na correria :)
Blood is coming, calm down the perereca.
Bom, até sexta-feira que vem eu posto o capítulo 8.
Deixem reviews por favor, eu realmente adoro.