Notas iniciais
Enfim galera, desculpa pelo atraso.
Enfim, gostei muito desse capítulo que escrevi. Com ele vocês terão uma ideia de como o resto da história irá acontecer. Mas acreditem, as surpresas estão por vir.
Obrigado :D

Honestamente, eu não sei com o que estou lidando agora. Não sei se esse DVD vai conter mais momentos empolgantemente assustadores como o que acabei de ver. O que acontece é, se Rafa está morto, porque estou vendo isso? Então alguém ficou com a câmera dele. E pegou as filmagens e resolveu passar para Dedé. E Dedé resolveu passar pra mim. Pois vou me sentir melhor e vou compreender as coisas, fecha aspas.

Quanto mais eu penso nessa sequência de acontecimentos, menos eu os entendo.

Esse filme que estou assistindo é um arquivo policial. Isso deveria ter sido entregue a polícia, e por algum motivo, não foi. Por um acaso, um DVD está no meu DVD player e outros três estão espalhados na minha estante.

Eu não consigo ter a mínima noção do que mais pode conter no resto das fitas. Meu coração dá pulos sucessivos quando minha mente encontra o pensamento de que pode existir alguma mensagem de Carol nisso tudo.

Ok Vinicius, respire. Continue.

Open.

Retiro o DVD e levanto-me. Fiquei tão surpreso com o DVD que não percebi o início de cãibra em minhas pernas. Ando até a estante e eeixo o mesmo sobre os outros DVDs e vou ao banheiro.

Estou sentado na cadeira de balanço da varanda do meu quarto. O clima aqui fora está tão indeciso que estou a um passo de voar para o interior do meu quarto, no caso de uma chuva repentina.

O notebook no meu colo emite um puuuuuuf suave, quentinho, quase como me remetendo a voltar pra cama.

São nove horas da manhã, e não tenho nenhuma outra preocupação no mundo agora. Mas no meu caso, infelizmente as duvidas pesam mais do que problemas. Então estou ferrado de qualquer jeito.

Coloco o DVD na bandeja do notebook e espero o programa padrão carregar o disco. Então, sem cerimônia nenhuma, acelero o filme até encontrar a parte em que estava. Tateio no chão até encontrar o fio do fone de ouvido e quando o encontro, puxo-o em minha direção. Coloco o fone.

PLAY.

Outra falha de estática e a câmera está filmando novamente. Estou vendo os pés de Rafa, e presumo que ele esteja sentado na calçada, encostado numa parede. A parede oposta à destruição?

Não posso ter certeza, mas ainda está de noite.

Ouço choros e sirenes de ambulância no fundo. Raios de luzes vermelhas e azuis passam de segundo em segundo nos pés de Rafa, um reflexo dos carros de polícia, minha mente relaciona.

E sim, o grupo ainda estava na frente do prédio. Carol me disse que não precisou dar nenhum tipo de declaração ou depoimento pra polícia, o que eu não achei estranho na época, visto que não conhecia a história toda. Ah claro, estou com um arquivo de policia na mão, nada mais importa.

- Me conta novamente como foi... – disse alguém do lado de Rafa.

Rafa suspirou.

- Ela só começou a dizer que haveria um acidente... – Rafa disse quase que inconformado. Rafa, ela salvou sua vida, que desânimo é esse?

E então vocês saíram... – a outra pessoa continuou. – Obrigado por me tirar de lá, Rafa...

Não, — Rafa disse, — eu não tinha certeza nenhuma do que ela tava dizendo... Eu, eu... – Rafa pareceu buscar algo pra dizer – eu só te chamei pra vir comigo pois eu achei que precisaria de ajuda...

O outro cara suspirou.

- Hm... entendi. Mas obrigado de qualquer jeito.

Rafa deu um assovio, aqueles que damos quando estamos sem nada pra dizer, mas concordamos com as pessoas.

Henrique, — Rafa disse.

Ah legal, temos um nome. O cara com quem Rafa está conversando se chama Henrique. Isso é bom.

Sim? – Henrique perguntou sem dar muita atenção.

Você acha isso certo? – existiu um tom de dúvida na voz de Rafa.

Isso o quê?

Nada.

Ela não pára de chorar... – Will disse, também fora do frame. Então duas pernas pularam sobre as pernas de Rafa e pareceram encostar-se do lado dele.

Você quer o que, cara? – Rafa disse sério. – Ela parece ter visto algo a mais do que nós...

Como se o que a gente viu não fosse suficiente, — Henrique disse ironicamente triste.

Oh meu Deus... – alguém que não consigo relacionar a voz disse próximo à Rafa. Mais alguns oh meu Deus surgiram, e Rafa ergueu a câmera.

Posso ver agora o estado em que a balada ficou. Não é nada além de um monte de tijolo e concreto amontoado numa pilha enorme de cinzas. O fogo não foi capaz de consumir todo o concreto, é claro, mas qualquer coisa além do mesmo parece ter sido reduzida a pó. Muita fumaça saía das pilhas, e algumas mangueiras de água ainda estavam apontadas para lá. As paredes dos prédios do lado estão muito chamuscadas, e droga, posso jurar que estou vendo rachaduras. Mas não é isso que gerou os “oh meu Deus”.

Dois homens do corpo de bombeiros estavam passando próximo ao grupo na calçada, carregando uma maca. Nela, existe algo que horas antes era uma pessoa feliz. Seu rosto está desfigurado, mas eu posso muito bem ver os buracos carbonizados que costumavam ser as órbitas oculares. A boca não passa de um emaranhado de carne viva e manchas escuras, e o corpo... bom, o corpo parece um churrasquinho humano reduzido a um palito na região da cintura – mas o palito é o osso da coluna. Eu sei que é uma comparação pesada, mas aqui estou eu, comparando uma pobre vítima a um churrasquinho humano.

Acho que a morte de Carol e Will me deixou mais frio para o resto do mundo. Como se eu já não fosse...

O cheiro deveria ser horrível como a visão que estou tendo, pois o grupo está soltando exclamações diversas sobre nojo e etc.

Só de pensar que poderia ser eu... – alguém que não conheço disse.

Percebi que Rafa se virou pra ver quem era, pois também ergueu a câmera para filmar a pessoa que tinha dito isso. É um cara desconhecido.

Chega Léo. – Angela disse desanimada ao fundo.

Ok, esse é Léo.

Léo parece ter a minha idade também. Que legal, o grupo dos maravilhosos 18 anos.

“Chega Léo”. Bom, acho que Léo deve ter aparecido com mais mimimis de “poderia ter sido eu” antes desse último.

Meu irmão já deveria ter chegado...

Olha, — Will disse enquanto sua mão passou na frente da câmera apontando algo do lado direito.

A câmera virou revelando Carol abaixada na frente de Emery, que ainda estava encostada na parede e chorando nos joelhos.

Carol está acalmando-a, e eu sinto muito por tudo isso. Ver Carol tentando fazer alguém retomar o controle, retomar um nível de confiança, me parte o coração. Pois eu deveria estar lá pra fazê-la retomar o controle antes de ela fazer tal burrada...

Carol sorriu, e Emery levantou o olhar pra agradecê-la. Emery soltou um sorriso um pouco forçado, mas eu a entenderia.

Na verdade eu não a entendo com esse aviso tão direto e surreal sobre a explosão. Mas eu entendo a parte de se esforçar pra retribuir um gesto de carinho.

Carol esfregou o joelho de Emery mais algumas vezes e se despediu. Fez o mesmo com Angela e veio andando em direção à Rafa.

Você ainda tá filmando? – ela perguntou curiosa, parecendo muito calma nesse instante.

Sei lá, — Rafa disse balançando a câmera. – Eu acabei de ligá-la, mesmo sem perceber.

Carol fez uma cara de tristeza, abaixou-se na frente da câmera e disse, quase num sussurro:

Guarda essa câmera senão os policiais vão pegá-la de você...

Ah, — Rafa disse como se tivesse acabado de acordar para a possibilidade remota de Carol – É claro...

Rafa, — Carol disse novamente, — eu liguei pro papai vir me buscar. Ele já tá ali na fila, e eu agradeço realmente pela carona.

Carol está muito calma. Quase como se tivesse superado totalmente o lance da explosão. Eu a conheço, ela costuma manter o nervosismo de lado até ele deixar de existir, assim como eu. Mas ambos sabemos que o nervosismo sempre vai ficar na nossa mente, é só o nosso corpo que resiste bem a tentação de perder o controle.

Ah claro, — Rafa disse. – Então, você vai com ela Willian?

Vou sim.

Rafa suspirou.

Will levantou-se do lado de Rafa e juntou-se a Carol.

Fique bem Rafa, — ambos disseram e se afastaram em direção a uma fila distante de carros em que presumo que o carro do pai de Carol estava.

Mas antes de distanciar-se, vi que Will lançou um olhar totalmente sóbrio para Emery, ainda encolhida no chão. Will estava incerto sobre ela, e incerto se deveria agradecer ou não.

Will virou as costas e foi embora.

Falha de estática. Escuro. Rafa desligou a câmera.

Pause.

E eu não sei o que pensar disso tudo. Eu não sei.

PLAY

A câmera está filmando os pés de Rafa novamente. Que mania estranha...

Tudo bem se eu for com vocês? – Henrique perguntou do lado de Rafa.

Claro que sim, — Rafa respondeu calmo. – Você mora a quantas quadras da minha casa mesmo?

Duas.

Ah sim. – Rafa concluiu — Você já ligou pros seus pais?

Ah, ainda não, — Henrique respondeu um pouco surpreso pela pergunta. – Sabe, eles trabalham muito, devem estar muito cansados...

Tipo, você acabou de sobreviver a o quê? Um desastre! Aqui em São Paulo. Quem sabe eles não estão assistindo a TV e preocupados com você?

Um celular balançou na frente da câmera. Henrique indicou que seu telefone não tinha tocado.

Um silêncio constrangedor.

Estou me sentindo muito estranho vendo essa conversa alheia.

Que cheiro é esse meu Deus! — Rafa exclamou num grito exausto.

Sem respostas. Rafa tinha essa mania de falar pro vento. Mas que o cheiro ali deveria ser terrível, eu tenho certeza. Acho que ele não tinha forças pra dar o fora dali e esperar seu irmão em outra calçada.

- Sua câmera é muito legal, — Henrique disse repentinamente.

Ah, valeu.

Onde você comprou? Eu queria uma dessas faz tempo...

Olha, — Rafa disse ainda mais exausto. — Me deixa pensar um pouco, eu sei que você quer cortar esse silêncio estranho, mas me deixa sozinho um pouco...

- Ah, tudo bem.

Aumento o volume do fone pra ter certeza de que realmente estou ouvindo o que estou ouvindo. Está tocando uma música da Kesha próximo ao grupo. Deus, quem iria ouvir Kesha no meio dessa cena trágica?

Rafa também percebeu a música e agora a câmera está balançando, pois presumivelmente ele está procurando a origem do som.

Um repórter passou na frente do Rafa com um câmera do lado, e eu imaginei que eles estavam criando o furo jornalístico da manhã seguinte. “Sobreviventes se amontoam na calçada”, alguma merda do tipo.

Tchau galeraaaaa – e ouço isso antes de ver a imagem. Léo passou correndo na rua em frente à balada num conversível vermelho destampado, sob buzinas de ambulâncias. Detalhe: ouvindo Kesha?

Às vezes eu não entendo as pessoas.

Eu só sei que todas as pessoas têm um background diferente, e elas reagem de diferentes formas em diferentes situações. Mas que essa cena é inusitada, claro que é.

Quem é ele? – Rafa perguntou mais alto, presumo que foi para Angela.

Rafa virou a câmera para a calçada a sua direita e vi Angela do lado de Emery, confusa.

Léo, — Angela disse sem se importar com a situação. – Um amigo.

Rafa concordou.

Tela preta. A câmera foi desligada novamente.

PAUSE

Naquela noite, Carol me ligou. Ela me contou que após a minha saída, uma garota chamada Emery tinha dito que era melhor sair da balada, pois poderia haver um acidente. E ela saiu e o acidente acontecera.

Eu não tinha me preocupado com os detalhes, pois, afinal, eu estava muito preocupado com Carol. Ela tentou me deixar calmo, tentou me fazer ficar em casa, mas mesmo com a viagem do dia seguinte, eu peguei meu carro e fui à casa dela. Assim que desci do carro, parou de chover.

Eram quatro da manhã e quando ela me viu, saiu correndo do portão, tão feliz quanto um cachorrinho empolgado. Ela me abraçou e com aquele sorriso, aquele abraço, eu entendi que tudo – falando de grandezas — estava bem com ela. Ela me dissera que só tinha chorado um pouquinho com o acidente, e que iria levar um tempinho pra tirar da cabeça as imagens que tinha visto, mas que ficaria bem. Então eu a abracei novamente, e ela perguntou se eu queria dormir na casa dela.

PLAY

Você tá bem mesmo, Rafa?

A câmera está filmando alguém dentro de um carro. Esse alguém é uma versão cinco anos mais velha do que Rafa.

Rafa estava no carro de seu irmão, indo pra casa.

Eu estou bem, — Rafa disse cheio de si. – Relaxa, só me leva pra casa.

Então, — o irmão de Rafa perguntou, esqueci o nome dele, então terei que chamá-lo de irmão do Rafa — então... porque é que você tá me filmando às... – irmão de Rafa olhou rapidamente para o painel do carro — quatro da manhã?

Rafa virou a câmera para o pára-brisa dianteiro. Posso ver a chuva começando a cair agora. O irmão de Rafa está dirigindo bem devagar.

Ah, eu não sei cara.

Ele tá filmando tudo, — Henrique disse em algum lugar, muito provavelmente o banco traseiro, — pois ele tá com medo de acordar mais tarde e ter se esquecido de tudo que viu.

Um silêncio tenso.

Como se eu quisesse me lembrar, — Rafa disse seco cortando o assunto.

Estou encarando os limpa-vidros indo e vindo, de um lado pro outro. As luzes dos postes do lado de fora vem e vão num borrão alaranjado. Vejo silhuetas de prédios sumindo atrás do carro. Vejo algo escuro, e presumo que seja o céu da noite.

Acho que estou conhecendo Rafa melhor com esse vídeo. Surpreendo-me com a idéia de que talvez, eu possa conhecer melhor Carol e Will com esses DVDs

PAUSE

Então eu olhei nos olhos de Carol e disse resignado, quase num sussurro.

— Eu gostaria de garantir que você irá ficar bem.

Ela sorriu para mim e virou-se para a própria casa, lançando um olhar tenso para a janela do quarto dos pais.

— Mas tipo, você vai ter que viajar amanhã, não é? – ela perguntou.

— Sim, mas não tem problema. E não se preocupe sobre seus pais, eu vou embora antes deles acordarem.

— Não é que eles vão se importar com você dormindo aqui... – ela disse franzindo a testa. E droga, eu amava vê-la franzindo a testa.

Eu coloquei meus dedos no queixo dela e balancei suavemente de um lado pro outro.

— Mas tipo, são quatro da manhã.

Ela sorriu. E então eu tranquei o carro e ela pegou na minha mão e me levou em direção à sua casa.

PLAY

Então, — o irmão de Rafa disse ao lado, — como foi que você escapou do acidente?

- Uma amiga do Will começou a pirar, — Rafa disse virando a câmera para o irmão, que ainda estava concentrado na estrada, — e então a gente saiu com ela.

Hum, — o irmão do Rafa disse bem calmo, — e então todos saíram com ela?

Naah, — Rafa exclamou, — só o nosso grupinho. Eu, Will, Carol, mais a amiga do Will e mais umas pessoas.

E eu também, - Henrique disse do fundo do carro.

É, — Rafa disse, — ele também.

O Rafa salvou a minha pele, — Henrique continuou do fundo. – Valeu Rafa.

De nada, — Rafa disse, ainda mais exausto.

O namorado da Carol tava lá também, não tava? – o irmão do Rafa perguntou.

Acho que estamos kites. Eu sou conhecido como “namorado da Carol” pelo irmão do Rafa, e eu o conheço como “irmão do Rafa”. Nada mais justo.

Ele foi embora antes da gente. Ele ia

E eu não ouvi o resto da frase do Rafa, pois surgiu um grito de pneu de carro deslizando e rasgando pelo asfalto. Eu mesmo tinha percebido que a estrada estava bem lisa.

O irmão de Rafa pisou no freio; pois ele e Rafa balançaram repentinamente para frente e voltaram contra o banco num baque.

Que porra foi aquela? – um dos dois gritou.

Ai meu olho, — Henrique falou no fundo, não fazendo muito sentido com a situação.

E eu estou curioso para saber o que aconteceu.

PAUSE

Eu fiquei parado ali no hall enquanto ela começou a subir as escadas. Ela me perguntou:

— Vai ficar aí até quando? – ela disse baixinho.

Eu não respondi. Pois estava esperando o pai de Carol aparecer e me chispar pra fora, pois eram quatro da manhã.

E ela desceu de novo as escadas e perguntou:

— Tudo bem?

— Claro, — eu respondi.

PLAY

Após o silêncio da freada repentina do carro, veio algo que eu não esperei.

Eu quase caio da cadeira quando ouço o BLAM repentino, em algum lugar não muito distante do carro do irmão do Rafa.

Merda, — alguém no vídeo gritou.

“Merda”, eu penso.

SPLAAAAAAASH!

Ok, eu não esperava ouvir um “splaaaaaaaash!”. Eu ficaria mais surpreendido com qualquer outro tipo de onomatopéia, mas veio um splash. Mas Rafa, Henrique e o irmão de Rafa estão surpresos com alguma coisa.

Não vamos conseguir sair dessa porra de lugar hoje mesmo, — o irmão de Rafa exclamou e saiu do carro.

Rafa empunhou a câmera. Agora tenho um ângulo de visão ótimo, mas ainda não consigo ver o que aconteceu.

Ouço alarmes de carro começando a gritar.

Rafa abriu a porta do carro e saiu. Vi uma sombra fazendo o mesmo atrás dele, e presumo que foi Henrique.

E Rafa filmou o chão. Uma onda pequena de água limpa passou sobre os pés dele, pude ver isso com o reflexo que surgiu das janelas dos prédios acima.

Merda, — Rafa disse meio calmo meio pirando.

Que droga foi essa, — Henrique exclamou, mais do que uma interrogação.

Olha lá, — Rafa virou a câmera em direção ao lugar do acidente. E eu posso reconhecer tão rápido o que aconteceu. Tão rápido quanto eles, que estavam lá.

Aquele carro que passou voando ao lado atingiu em cheio a carroceria de um caminhão-pipa, que vinha pelo cruzamento. E pelo que estou vendo, a carroceria do caminhão estourou instantaneamente para o outro lado.

PAUSE

Carol precisava de um tipo de confiança, um tipo de força. E dessa vez eu estava lá.

Ela deitou-se na cama de casal e eu deitei do lado dela. Coloquei o relógio pra despertar às 5:30 da manhã e ficamos encarando o teto por alguns minutos.

— Tudo bem? — eu perguntei.

— Claro que sim, — ela disse. – E você, tudo bem?

— Com certeza, — eu respondi.

Eu fiquei parado por mais alguns minutos. Ela virou pro outro lado. E eu dei um beliscão leve na coxa dela.

E então ela virou-se pro meu lado e me beijou. E então sussurrou: "não".

Eu apenas assenti. Sorri.

Ela sorriu de volta e murmurou: "obrigada".

Fechou os olhos. E dormiu.

E eu dormi também.

Não me entenda mal, mas é que ambos precisávamos de um ao outro naquele momento. Ela chegou em casa pelas duas da manhã e só me ligou às três e meia, pois precisava da minha presença por lá.

E eu fui.

Mas aconteceu algo que me deixa confuso até hoje. E sinto que estou prestes a descobrir alguma coisa.

PLAY

Rafa e Henrique, assim como todas as pessoas na madrugada paulistana naquele local, estavam correndo em direção ao acidente. Eles escorregam nas poças de água e pulam sobre os carros parados. E estou surpreso comigo mesmo por conseguir reviver tão bem uma memória que não me pertence. Apenas um pedaço de filmagem está sendo o suficiente. E estou arrepiado.

O carro descontrolado praticamente invadiu a carroceria do caminhão-pipa. E ela – a carroceria — cedeu para o outro lado, é a lei da física.

Rafa atravessou correndo em frente ao caminhão pipa e olhou do outro lado. O que ele e Henrique viram, e o que eu vou ver agora, é surpresa, mas pra cada um em cada momento.

A água que foi expelida num turbilhão com o rompimento da carroceria lavou a rua, quebrando vidros, amassando e arrastando carros, empilhando-os num poste e pela extensão da rua. A onda de água está se distanciando pelo asfalto. Mas os carros empilhados, Deus, têm algo de errado.

E existem gritos.

Meu coração está batendo mais forte.

Enquanto Rafa e Henrique se aproximam, eu reconheço o conversível vermelho, amassado de lado contra o poste, na diagonal. E alguém está nele.

PAUSE

Se eu estava sonhando naquela noite, eu não me lembro de como era. Eu estava cansado demais. Só sei que repentinamente, eu levei um tapa barulhento na cara – "merda" — e levantei cambaleando da cama direto pro chão, esperando encontrar o pai de Carol me encarando furioso com uma 35 numa mão e um facão na outra.

Mas tudo que encontrei foi Carol se engasgando, meio dormindo, meio acordada.

Talvez fosse o meu estado meio sóbrio, mas eu levei alguns segundos pra entender o que estava acontecendo. E quando percebi, eu já estava balançando-a e dizendo coisas como "acorda".

Eu estava me sentindo um cara de "Hora do Pesadelo".

E quando ela acordou, ela me disse o seguinte:

— Eu estou me afogando.

Lembro-me que olhei para o relógio na cabeceira e eram quatro e pouco da manhã.

— Amor, você não tá se afogando, — eu disse baixinho.

— Sim, — ela continuou nervosa, mas sem derrubar uma lágrima – havia água por todo lado e eu não conseguia...

Ela lançou um olhar de terror ao redor, que eu havia entendido como reconhecendo a área. Então passou as mãos no cabelo, quase como os ajeitando e balançou a cabeça.

— Tudo bem, — ela disse.

— Calma, — eu tentei dizer, — foi só um pesadelo...

Ela concordou. Beijou-me. E voltou a dormir.

PLAY

Eu não sei como, mas as luzes dos postes ainda estão acesas. Acho que acostumei em não confiar com a energia elétrica de São Paulo. Qualquer chuvinha leva a sua energia, hoje em dia não existe mais nada garantido...

E as luzes dos postes refletem nos carros empilhados, quase como alterando a cor deles para torná-los ainda mais irreconhecíveis.

- É o carro do Léo? – é exatamente isso que Rafa disse. E é exatamente o que estou pensando.

Droga, — Henrique disse, - parece que sim.

Eles recuaram um segundo, mas continuaram em direção ao carro virado na diagonal. O lado do motorista estava tombado para o chão enquanto a outra extremidade estava recostada no poste. Outro carro estava de costas para o conversível, mas na mesma posição.

Merda, é ele.

Eu quase me afogo de susto.

Ainda preso no cinto de segurança, estava Léo.

- Oh meu Deus, — as pessoas exclamavam.

O golpe da onda do caminhão pipa foi tão forte que posso ver que não sobrou sequer um osso inteiro de Léo. As roupas, pouco visíveis, estão esfarrapadas e pingando. E seu rosto está desfigurado, oh meu Deus.

Respiro fundo. Não sei se quero ver isso.

Sim, minha curiosidade mórbida é muito mais forte do que o meu estômago.

Os cabelos estão colados desajeitadamente na testa, quase como se tivessem sido arremessados com um monte de cola. Os contornos faciais, a pele, obtêm um tom branco morte, que nem o sabão em pó mais poderoso do mundo conseguiria imitar. Um olho está fechado, imobilizado pelo choque. O outro, droga, o outro está pendurado pra fora da órbita – agora arregaçada e coberta por um tipo de pus – apenas por uma única artéria amarelada. E está encarando o chão.

A boca está aberta num ângulo em que nenhum ser vivo conseguiria imitar. O nariz parece apenas uma esponja espremida, com mais buracos do que o comum.

E um sangue fraco, misturado com água, está saindo por todos esses buracos do rosto.

Meu estômago está revirando. Acho que se eu tivesse comido bolacha de manhã, ela já estaria voltando.

Repentinamente, o "cadáver" tosse, babando um rio de água escurecida pela boca. Léo ainda estava vivo – e sofrendo. Rafa recua, o cadáver sai do frame e ouço o som do estômago de Rafa – e talvez de Henrique – de encontro a rua.

Rafa desligou a câmera. Um bipe. Fim do DVD #1. A bandeja do notebook o tira e eu seguro-o em minha mão.

Droga. Acabei de ver o que sobrou do cara que estava ouvindo Kesha horas antes.

Eu poderia estar pensando em milhares de coisas que passaram pela mente do pobre garoto em seus últimos momentos de vida, mas eu não posso. Ninguém sentirá o que ele sentiu.

Rafa não me contou sobre Léo.

Estou me sentindo estapeado por algo que não existe.

Léo continuou vivo alguns segundos, talvez minutos, após o impacto.

Mas agora, eu rezo por Deus, que a faísca de vida dentro dele não tenha durado muito tempo.

Notas finais
TCHARAM!
O que acharam? Eu quero reviews pô!
Enfim, valeu por tudo. Obrigado por ler.