Final Destination 4: Case 180
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Finalmente.
Ui, eu demorei. Eu sei.
Sinto muito mesmo.
Pelo menos é um capítulo decente, ao meu ver.
Um dos meus favoritos. Um dos planejados desde o início.
Espero que aproveitem. E deixem reviews!
Carol se inclinou sobre mim e me beijou.
Estávamos há muito tempo naquilo. Basicamente, era o nosso próprio ritual, mas não anunciado como tal.
É assim que as coisas funcionam, não é?
Os anos passam e você precisa aprender a se tornar seu próprio pai ou mãe. Você precisa aprender a cuidar de si mesmo, como um adulto.
Aprender a ser seu próprio homem.
Não estou dizendo que a primeira vez é um ritual para se tornar um adulto. Mas ambas as coisas estão muito ligadas o tempo todo. Meu subconsciente entende a primeira vez como um ritual obrigatório. Meu consciente só não quer admitir.
Eu poderia repensar sobre todas as outras pessoas que tem sua primeira vez num beco fodido, 13 anos, 14 anos, e que levam esse momento apenas como um acontecimento comum, no susto. Mas não. Minhas memórias felizes são muito mais fortes do que pensamentos inusitados.
Estávamos no meu quarto. Estava escuro, mas eu conseguia ver todos os detalhes, pois o meu abajur estava ligado na outra parede.
É com a primeira lágrima que eu concluo, nunca, nunca, nunca, jamais irei me esquecer da garota que mudou minha perspectiva em relação à vida. Da garota que me fez crescer.
A vida é uma vadia. E então nós morremos.
XXX
Literalmente, São Paulo está indo num borrão.
Não.
É apenas o lado de fora que está indo num borrão. Eu só sei que não sou capaz de finalizar os DVD’s naqueles destroços idiotas.
A lágrima já secou. Estou bem novamente, na medida do possível.
Pelo menos sou um cara volátil.
Estou gastando gasolina.
Estou sem ter o que pensar. Tudo que tenho certeza é que só vou descer desse carro quando estiver parado na frente do Fourth Wall.
Estou ficando sem ideias.
Fourth Wall está demorando pra chegar. Acho que errei o caminho. Sim, sim, eu definitivamente errei o caminho.
Viro à esquerda. E então à direita. Meus olhos rastejam pelo para-brisa procurando alguma placa que indique onde infernos estou.
E como um maldito passe de mágica, estou na frente do Fourth Wall.
Fourth Wall é um edifício em construção.
Pego a mochila e saio do carro. Tranco-o e olho para cima.
Trancando minha visão ampla do céu tardio de São Paulo, o prédio é assustadoramente fantástico. Só quem já olhou um prédio alto bem embaixo do mesmo, sabe do que estou falando.
E nessa altura do campeonato, eu presumo que todos já fizeram isso uma vez na vida.
Você olha pra cima e se sente errado em relação ao mundo. Como se você estivesse inclinado em um tipo de diagonal espacial. Ou como se o prédio estivesse prestes a desabar em você.
É assim que me sinto.
Mas não vim pra isso. Preciso de um ar. E nada melhor do que subir num prédio muito, muito alto.
Preciso atravessar essas tábuas que os engenheiros acham que são suficientes pra impedir a entrada de alguém.
Eu só espero que meu carro fique bem aqui em baixo. Pelo menos da última vez ficou.
Coloco a mochila no chão.
Com a força do corpo, empurro-me de ombros contra uma das aberturas entre as tábuas. Na terceira tentativa, abro uma brecha maior.
Sou um cara forte.
E nessa brecha maior eu começo a literalmente cavar, tirando pedaços e pedaços de tábua vagabunda até abrir um espaço suficiente para atravessar.
Ok, isso é suficiente. Atravesso a mochila, e depois entro na brecha.
Há um tipo de ar úmido e empoeirado aqui dentro. Minha alergia vai incomodar hoje à noite. Várias vigas de sustentação são distribuídas num térreo amplo e bem planejado. E eu tenho certeza de que isso aqui será muito high tech no futuro.
Ignoro o elevador dos operários e desato a subir as escadas.
Enquanto vou subindo, recebo relances de raios de sol filtrando através das brechas das paredes das escadarias do edifício. Na boa, isso é lindo se não fosse tão trágico.
O andamento da construção não mudou muito desde a vez que estive aqui com Will e Carol. Além do reboque de cimento, é claro.
Subi aqui apenas uma vez com Will e Carol. Tínhamos ido buscá-la no curso de Inglês. Era um sábado horrivelmente, imensuravelmente quente. Eu não estava com meu carro, pois meu pai tinha nos dado uma carona até a Saraiva e então voltaríamos de táxi pra casa.
Eu e Will fuçávamos as prateleiras da loja (eu revirando páginas e Will cheirando livros maniacamente) – enquanto Carol estava no curso -, até que encontramos um pack especial de Texas Chainsaw que – entendemos no mesmo instante, — Carol precisava ver. E logo estávamos levando-a pra Saraiva antes de procurarmos um táxi para ir embora.
Ao passarmos pela construção, percebemos que estava vazio. Então Carol olhou pra cima através de seus óculos de sol enormes e disse algo do tipo:
- Que tal a gente tomar um ar lá em cima?
E Will disse:
- Isso é babaquice. Tem ar-condicionado pra eternidade toda na Saraiva. Acho que eles têm medo que os livros derretam.
E eu me lembro da frase de Will, pois eu ri.
Mas eu franzi a testa e comecei a fuçar entre as tábuas da entrada. E conseguimos entrar no edifício da mesma maneira que entrei minutos atrás.
E quando alcançamos o topo, ficamos em silêncio.
Não foi nenhum tipo de medo que nos silenciou. Nem o calor que pareceu ser magicamente abafado no topo de São Paulo. E sim a sensação de que mesmo nas horas ruins (como o calor), o mundo poderia fazer sentido (sentir-se bem).
E contemplamos o horizonte paulistano de outra maneira.
XXX
Saio no terraço e ando calmamente em direção ao mesmo montezinho de concreto em que me sentei com Carol. Então ali eu me instalo e respiro fundo.
É exatamente o mesmo ar poluído que tenho inalado nos últimos dezoito anos. Mas agora é diferente.
É um ar de quem vive sozinho.
E ignorando o fato de que nenhuma das sensações boas daquele dia voltou, eu abro a mochila e puxo meu notebook.
Enquanto o mesmo carrega, eu dou uma boa olhada no abismo de cinza.
As ruas parecem serpentear através da floresta de concreto. Todas guiando a um destino diferente, mas todas vindas do mesmo lugar. Do coração invisível da cidade.
Os prédios apenas impedem um olhar mais dinâmico, impondo com suas janelas de vidro um tipo de autoridade surreal, inexistente no nosso mundo. Mas isso tudo é parte do show. É isso que faz São Paulo.
Lentamente percebo que aqui o ar é mais calmo. São menos pessoas pra dividir o mesmo oxigênio, eu sei.
Os olhos da cidade testemunham a minha solidão. E por incrível que pareça, não existem helicópteros retardados dando rasantes inúteis por aqui hoje. E isso é bom.
Evito lembrar a letra de Don’t Jump que atinge minha mente como um dardo. Tokio Hotel, sim, outra das bandas foreign de Carol.
E antes de perceber, meus lábios estão sussurrando aquela cantiga que agora, parece um tipo de piada horrível.
“I scream into the night for you, don’t make it true, don’t jump”.
E eu gritaria por você Carol. Você sabe.
“The lights will not guide you through. They’re deceiving you, don’t jump”.
E eu tenho medo desse último trecho fazer mais sentido do que deveria na minha história. Luzes te atrapalhando, o mundo te enganando, isso tudo parece fazer parte do plano da morte.
Estou overthinking.
“Don’t let memories go, of me and you, the world is down there out of view. Please don’t jump...”
Suspiro. Com outro baque percebo que não sei a continuação da música.
Play.
- E se ela não acreditar... – ouço a voz de Carol vindo num murmúrio muito distante. Quase como se aquilo fosse gravado embaixo da água.
- Nem me fale, — Rafa diz.
E eu ainda não enxergo nada na tela do notebook.
- Viemos parar nesse fim de mundo pra falar com ela,– Will diz ao fundo – ela tem que ser muito vadia pra não acreditar na gente...
- E se a Emery falou com ela... – Carol diz calmamente.
E a câmera me revela algo reluzente de prata num único relance antes de desaparecer. Percebo um lance de escadas mais a frente e vejo muita parede e muito chão pela frente.
E eu presumo que estejam se embromando num dos becos de um dos bairros mais embromados de São Paulo. Atrás de Angela.
- Por aqui,– Rafa diz esticando a mão na esquerda e entrando em outro beco. – O cara me passou quatro vezes o caminho da casa dela, se eu errar é putaria.
Will apenas ignorou isso, passando na frente de Rafa.
- E se a Emery falou com ela...– Will repetiu a possível afirmação de Carol.
- E se ela falou, então facilitou pra gente. Angela deve ter achado tudo isso uma piração e ficado com a pulga na orelha. É só explorarmos essa brecha que... possivelmente... Emery abriu.
Há um silêncio.
Esquerda. Direita.
Deus, eles são corajosos de entrar num local desses. E agora, estou vendo inúmeras prateleiras de madeira nas paredes externas de fundos de casas, carregadas com vasos de flores e latas vazias. E os três continuam deslizando pelos becos mais e mais estreitos desse raio de lugar.
- Você mudou tanto Rafa. – Carol suspira.
- Eu tive que mudar– Rafa disse tranquilamente. – Isso tudo... sei lá...
- Te fez querer aproveitar a vida? – Will perguntou. – Pois em partes foi isso que me deu esperanças nos últimos dias.
- Mais ou menos,– Rafa disse. – Isso tudo me fez querer ter o controle de toda a minha vida. Ser um homem e não um filho.
Will concorda, de costas pra câmera.
E o grupo continua.
Estou começando a ter overdose de beco.
- Certeza de que estamos no caminho certo? – Carol questiona.
- Olha aquilo, — a mão de Rafa esticou em direção a um balanço perdido a alguns metros de distância. – O carinha me falou do balanço.
- Hm.
- DEUS! – Carol exclamou — como diabos ela mora aqui?
- De fato ela não mora aqui,– Rafa disse. – Ela só tá passando o fim de semana com o pai. Ela faz faculdade no centro, mora numa república perto da casa da Emery.
- Hm.
Mais e mais passos. A tensão está crescendo.
- Eu queria que o enterro tivesse dado certo,– Rafa diz subitamente.
Sinto muito dizer Rafa, mas você teve um enterro.
- Dar certo como? – Will questiona, como se não tivesse entendido uma única silaba de Rafa.
- Terminado o ritual. Pra ver se funciona.
- Podemos tentar novamente... – Carol disse no fundo, não tão certa de coração em sua afirmação.
Rafa parou subitamente. Então Will e Carol também pararam. Rafa esticou a mão e eu vejo dois pedacinhos de papel dobrados nela.
- Peguem isso. Quero que fiquem sabendo de outro ritual... vai que acontece algo comigo?
Will franze a testa. Carol suspira fundo demais. Ambos pegam os papéis.
- Vamos passar por isso,– Will diz repentinamente e volta a andar. Rafa filma pra trás e revela Carol abrindo o papel.
- Não, — Rafa diz fechando a mão dela com sua mão livre. – Ainda não.
Carol concorda. E volta a marchar atrás de Rafa.
Will para novamente.
- Chegamos? – ele pergunta olhando pra um espaço aberto no meio do beco.
Rafa ergue a câmera e revela uma casa alta, imponente, quase como se não pertencesse a aquele tipo de lugar. E existe outra casa alta idêntica do lado, e outra e outra. Inúmeros sobrados grandes. Todas as casas... sobrados, que seja, todas as casas da rua tem uma varanda enorme no segundo andar.
Estranho.
E enrolados ao redor dos sobrados lotados de janelas, quase como um enfeite não planejado, existem inúmeros fios de energia, telefone, muitos gatos... Varais e linhas de pipas e cabos e árvores e galhos atravessando fios de gatos e... postes de luzes. Muitos postes.
Uma imensidão de fiação. Muito São Paulo pra pouco lugar.
É um labirinto de tudo que você já encontrou numa cidade grande. E é muito estranho, mas é bonito.
- Um bairro prestes a explodir de tantos gatos elétricos,– Rafa disse com um tom de riso, uma piada interna assustadora. — Sim, chegamos.
- Digamos que as casas são bonitas demais para serem daqui, não é? – Will perguntou. E ele estava pensando exatamente a mesma coisa que eu.
- Estranho– Carol disse num tom que eu reconheço como “estou surpresa”.
A câmera desliga.
O vento sopra repentinamente, e eu sinto um calafrio percorrendo minha espinha. Acho que meu corpo sabe o que vai acontecer.
Sem enrolações, eu continuo.
A câmera liga novamente. E num único relance embaçado, eu sei o que estou vendo. É apenas o meu timing.
Estou vendo um pôster de Texas Chainsaw 3D na parede. É aquele pôster branco com o Leatherface novo num visual parecido com o original.
- Então você gosta de Massacre da Serra Elétrica? – Will perguntou fora do frame, um pouco surpreso.
Rafa recuou a câmera e girou ao redor do quarto. Inúmeros pôsteres dos sete filmes da franquia lotam as paredes de um quarto branco e aconchegante.
Angela aparece na frente da câmera, mal parecendo se dar conta do equipamento com Rafa. Usando uma blusa de moletom acinzentada e muito longa. Ela parece muito mais cansada do que da última – primeira vez – em que eu tinha a visto.
- Gosto sim,– ela quase sussurra, dando de ombros — meus filmes favoritos.
- Caralho, — Carol disse, uma palavra difícil de ser ouvida a partir dela, — e isso é um autógrafo do Dan Yeager?
Angela sorri dessa vez. Feliz, pois encontrou alguém que leve o negócio de fã tão a sério quanto ela, eu presumo.
- É sim, — ela se controla pra segurar um sorriso exagerado. – Eu virei amiga dele.
- Que foda!
- É né.
Um silêncio.
Angela é fã de filmes de terror. Talvez ela acredite nessa merda que estou vendo.
- Então,– Rafa disse enquanto o foco da câmera abaixou e enquadrou Angel em frente a outra cadeira. Rafa se sentou. – Então... Você era muito amiga do Léo?
Angela pareceu ainda mais surpresa com a pergunta, mas balançou a cabeça e respondeu seriamente.
- Mais ou menos. Eu já tinha conversado sobre filmes com ele na Internet, mas não tinha nada de mais. Pessoalmente ele foi um saco comigo.
- Imaginei,– Will sussurrou.
- Entendi... – Rafa disse sério. – Entendi.
- Hmmm,– Carol interveio, — você é muito amiga da Emery?
- Sou,– Angela respondeu num piscar de olhos, e depois pareceu recuar. – Pelo menos eu achei que era.
- Como assim? – Rafa perguntou. Mais uma vez tirando a questão da minha mente.
- Ah, — Angela deu de ombros, finalmente sentando-se numa cadeira na frente da janela. – Depois daquilo que aconteceu ela andou meio estranha comigo.
- Estranha tipo...? – Carol disse acelerando a resposta.
- Estranho tipo: “eu estou com medo”. Se afaste.
- Ela tem motivos– Will disse, e eu o imagino dando de ombros.
Angela olhou para o teto e suspirou.
- Ela me ligou e me contou que vocês tinham a procurado. E também me contou sobre tudo que aconteceu em seguida. Ela tá com medo. Eu tô com medo.
Houve um silêncio ainda mais profundo. Tenho um flashback de Will e Carol trocando olhares que significam algo como jogo perdido. Alguém suspira.
- Não precisa ter medo, Angela. – Rafa disse pausadamente.
- Não é bem assim,– Angela replicou, — existem coisas além da compreensão humana, eu já ouvi falar sobre isso. E por mais que Emery não quisesse admitir que tinha acreditado em vocês, eu percebi o que estava acontecendo com ela. O que vocês fizeram com ela.
A calma com que ela cospe essas palavras é perturbadora.
- Não fizemos nada com ela,– Carol disse rigidamente. – Fomos avisar.
- Vocês foram avisá-la, e ela não conseguiu dormir de noite. Ela não conseguiu ir ao trabalho hoje. Mas não é disso que tô falando agora...
Angela, você está perdendo o ponto.
- Você acredita na gente? – Carol perguntou.
Angela deu de ombros novamente. Ela fazia aquilo muito.
- Sim,– ela disse.
- Ótimo, — Carol disse.
- Então você vai nos ajudar a convencer a Emery a ficar do nosso lado,– Will disse, forçando um aceno positivo.
Angela concordou.
- Tudo bem. Mas... de acordo com essa lenda urbana... então eu posso morrer a qualquer momento?
Angela descarrilou ao dizer essa frase. Então ela seca as lágrimas com a costa da mão.
- É tão injusto sabe?
Foi muito mais fácil do que pensei. Angela acreditou. O gosto por filmes de terror simplesmente afia os sentido sobrenaturais das pessoas.
Carol andou em direção a Angela e coçou o cabelo dela. É um ato comum, mas repensar nele como uma descrição me atordoou.
Angela abraçou Carol.
- A gente vai dar um jeito de contornar isso,– Carol disse. – Estamos estudando umas teorias...– Carol lançou um olhar pra Rafa. Um olhar que queimou.
Rafa suspirou.
- Me digam que tudo isso vai acabar bem,– Angela disse entre soluços.
- Vai acabar... – Will começou a dizer.
- Vamos fazer o possível,– Rafa disse. – O possível pra descobrir como dar a volta por cima nessa merda...
Angela concordou e sorriu novamente.
Carol arrumou o cabelo por trás da orelha e se afastou novamente.
A luz da lua começou a brilhar repentinamente na janela atrás de Angela.
E esse foi outro dos momentos incríveis.
Ouvi Rafa rindo.
- Eu tiraria uma foto disso se não estivesse gravando,– ele disse.
E eu só consigo sorrir com essa frase.
- A lua não tem preocupações,– Carol disse rindo.
- Galera, parem com essa merda de filmes melosos. Estamos correndo risco aqui.
Will Will. Você merece um prêmio por isso. Um prêmio.
- Temos que ir,– Rafa disse repentinamente.
- Nosso ônibus é pra daqui a pouco... – Will disse se levantando.
- Meu pai também deve estar chegando com meu irmão,– Angela disse se levantando da cadeira e dando um pequeno escorregão, e disfarçando. – Ele é policial sabe? Ele não gosta de qualquer um entrando aqui.
Tenho certeza que Angela não pensou no sentido total da última frase.
A câmera desligou.
Eu honestamente queria saber os diálogos que se seguiram após isso.
E se Angela estiver viva?
E se essa teoria é só uma teoria?
As dúvidas anteriores estão começando a voltar. Com força.
A câmera é ligada novamente. Eu vejo um carro passando ao lado de Rafa. O reflexo das luzes dos postes nos vidros. Rafa vira a câmera e eu vejo a casa de Angela se distanciando.
- Foi mais rápido do que pensei, hm? – Will disse e parou.
Houve um zunido estridente, que fez com que Rafa se abaixasse. E então ele se levantou novamente, e eu vejo uma pequena explosão na frente da varanda da casa de Angela... seguida por uma chuva de faíscas.
Um homem gritou ao mesmo tempo em que um carro freou.
Alguns cabos de energia do poste arrebentaram, outros continuaram fazendo um som contínuo de choque elétrico. Da mais pura alta tensão sendo descarregada no ar.
Choque. Morte.
E Carol e Will estão gritando.
E eu percebo uma coisa pegando fogo no poste. E eu percebo que, enrolada entre os fios e gatos dos postes, presa em chamas, está Angela.
De algum jeito, ela simplesmente virou da varanda. E caiu nos fios. E está presa.
Que ironia.
Que porra de ironia.
Que vida.
Rafa começa a correr em direção a cena. E eu vou vendo mais detalhes a cada segundo.
Ouço meu coração batendo na minha garganta.
Sinto meu sangue correndo mais rápido.
Angela ainda está presa. Rafa pressionou zoom, e eu vejo como é que as cordas estão a mantendo.
Pelo pescoço.
Enforcando!
Reconheço o homem que está gritando como possivelmente, o pai dela.
- ANGELA NÃO! – o homem gritou novamente.
E ela não está sequer gritando.
- MERDA! – Rafa gritou.
- Ajudem! – Carol gritou.
- Como? Porra! – Will gritou.
Acho que foi assim que Angela morreu.
- NÃO!
Repentinamente, vários outros cabos ao longo da extensão da rua começaram a estalar... em seguida, eles se soltam e a riscam o ar em jatos contínuos de faíscas. Rafa se afastou para não ser atingido por um deles.
Angela ainda estava viva, percebo agora. Ela esticou um dos braços desesperadamente no ar, tentando se soltar, tentando respirar...
Tentando recuperar o controle de sua vida...
E é aí que ela parou de se mexer.
- CHAME A AMBULÂNCIA PAULO! – O homem gritou repentinamente e alguém que presumo ser o irmão de Angela saiu correndo.
- ANGELA! ANGELA!
E o homem desatou a chorar.
Veio outro ruído.
E. O. Cabo. Rompeu.
Rafa filmou toda a cena horrível até o fim. Essa maldita câmera que não desvia os olhos de coisas que os humanos deveriam evitar ver.
Essa maldita sina que perseguiu Rafa.
Angela despencou, sem vida. E atingiu o pedaço de concreto no quintal em um baque estrondoso. Daqueles que fazem o chão tremer. Daqueles que arranca o seu fôlego. No mesmo instante, um jorro de sangue subiu a parede branquíssima, eternizando o acontecimento.
Meus olhos ardem muito.
- Não... – Rafa disse chorando.
Carol está gritando. Está gritando muito, muito alto.
Rafa se aproximou do quintal. A câmera filmando tudo pateticamente.
Angela atingiu o chão de cabeça. E fez um estrago muito, muito grande. Irreparável. E eu percebo, que não existe apenas sangue na parede. Existem miolos... e isso sim é terrível. É o cúmulo do pior. É o abismo.
Rafa recuou, vomitando. E logo se recuperando, ele se levanta, revelando o pai de Angela encarando-os viciosamente. Seus olhos, mesmo na câmera, refletem uma quantidade imensa de cálculos sendo feitos. E quando o brilho súbito de ambos se apaga, eu sei, ele já terminou.
- Ela estava bem,– o homem disse repentinamente. Parando de chorar. Se levantando de pé.
Os três apenas acompanharam em silêncio. A câmera ainda virada para o policial.
- Ela estava bem, ela não iria fazer isso,– o homem disse mais pra si mesmo do que pra qualquer um dos que estavam ali.
E se engasgou com o choro.
E eu o vejo levando a mão em direção a cintura.
E Rafa, Carol e Will perceberam muito rapidamente o que estava acontecendo.
O pai de Angela.
Um policial.
Armado.
E agora aqui, pensando, eu percebo: tudo o que ele viu foi três garotos saindo de sua casa, e sua filha caindo da janela logo em seguida. Algo teria acontecido, ele formulou; eles fizeram alguma coisa pra ela.
Mente do caralho.
E esse algo envolvia os três.
Ele sacou a arma num gesto muito rápido, mesmo pra alguém que acabara de perder a filha.
POW!
O primeiro disparo fez o microfone da câmera emitir um ruído surdo, que me fez recuar.
Rafa está correndo novamente. E eu vejo os passos apertados de Will e Carol, metros na frente dele.
- CORRAM!
- CORRAM!
POW!
O som não está abaixando. Isso significa que o pai da Angela correu atrás deles.
E agora eu não posso distinguir mais nada. Vejo apenas relances dos cadarços de Rafa voando pelo ar.
POW!
Carol gritou.
- Eu não consigo enxergar nada! – Carol exclamou distante, choramingando.
- Vai! Aqui! – Will gritou.
POW!
Rafa está respirando muito fundo. Aquilo tudo foi demais para os três.
E num súbito choque, me dou conta de que sei o que vai acontecer aqui. Eu já ouvi essa história antes. Eu já imagino qual seja o fim do footage.
POW!
Repentinamente, a luz da câmera acende. E tudo que eu vejo, está num tom variante da cor verde. Ah, os found footages.
A primeira coisa que reconheço é o olhar diabólico verde de Carol, muito caçado, muito em pânico, a alguns metros de distância. Um braço esticado, a mão agarrada na de Will.
Ainda correndo.
E Will nunca deixando de estender a mão para trás, esperando o toque de Rafa.
Porque é que ninguém parou aquele idiota com a arma?
Carol corria às cegas, uma mão tateando pateticamente o ar, a luz da câmera não ajudava muito. Rafa tinha uma melhor visão, mas estava por último.
POW!
Um vaso de flor explodiu a centímetros da cabeça de Carol. Pergunto-me se era ali que ela deveria morrer.
E eu percebo que nesse exato momento, não sinto nada além de desgosto com a vida em geral.
Dou de ombros. Suspiro.
- Anda Rafa,– Will exclamou chorando, parando um segundo e tateando o ar esperando Rafa – que disparou em direção a ele, a mão livre esticada na frente da câmera, para fugirem juntos dali.
POW!
E foi um Pow seguido de um grito metálico. Um grito fininho, muito agudo. Irritante até para eu que não estive lá.
- Merda! – Rafa gritou.
Em seguida veio o som contínuo de vários tipos de materiais se espalhando. Se soltando. E num único relance da câmera eu vejo uma barra de ferro em pé.
Não mais em pé.
A barra começou a inclinar pra diagonal. Rafa parou. Will e Carol se distanciaram no beco escuro, desaparecendo da luz da câmera.
POW!
Veio o som de uma estrutura cedendo. E é um andaime. Uma de suas bases fora atingida por uma bala. E está desabando.
Desabando em Rafa.
Ouço um som cortante, seguido da chuva de sons de metal atingindo o concreto. Um gemido abafado. Então a imagem perde o foco e eu ouço um baque seguido de um CRACK ruidoso e ensurdecedor no meu fone de ouvido – e a imagem de falha de estática da câmera.
A câmera caiu.
Rafa caiu.
A câmera volta ao foco e tudo que eu vejo é um tijolinho numa parede. Ainda verde. Uma rachadura pequena no canto da imagem – Rafa iria odiar aquilo.
- Rafa? – Will perguntou.
POW!
- RAFA? – Carol gritou. – RAFA? – Ela não queria acreditar que algo tinha acontecido.
Há um silêncio perturbador. De novo. Então uma mão surge na frente da câmera e ergue-a, girando no ar. Will, eu reconheço.
- Rafa? – Will diz num remorso insano. – Rafa?
Will não está enxergando. Então a câmera volta a filmar com paciência novamente, e eu sei que isso é Will procurando Rafa com a luz da câmera.
Will nunca esteve preparado para o que viu.
Muito menos eu.
Em meio a uma bagunça de entulhos, incluindo sacos, tijolos, barras metálicas, pranchas metalizadas, telhas e ferramentas, Rafa está caído, imóvel, de rosto no chão. A mochila estatelada a alguns metros de distância.
POW!
Não restou nada que possa ser visto das pernas de Rafa, da região abaixo dos joelhos. Seus membros inferiores foram pregados, esmagados no concreto do beco por uma chuva de tijolos – tijolos que caíram da estrutura.
E sobre suas costas, quase como um monumento surreal, quase como se a morte quisesse dar a certeza de que tinha ganhado novamente, existem dois vergalhões de ferro enormes. Em pé. Enfiados entre as costelas. Mergulhados na carne.
Sorrindo.
Will recua. A imagem de Rafa morto durou apenas por dois segundos, mas foi o suficiente para eu guardar. Para o resto da vida.
O último grito de Carol antes de a câmera desligar foi o pior de todos.
Notas finais
Espero que tenham gostado. Quero reviews!
O próximo capítulo, hmmmm, será daora.
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