Notas iniciais
Enfim, agradeço de coração pelo feedback positivo. Sério!
Acho que vou postar um capítulo por semana, isso vai depender do meu rendimento como escritor.
E se você está esperando muitas mortes e soluções aqui, sinto muito. Ainda é uma introdução. O Vini ainda tá deprimido.
Aproveitem!

Está chovendo agora. Estou dentro do meu quarto, encarando a rua deserta da minha casa. De vem em quando algum carro passa correndo e acaba espirrando água no jardim da frente da minha casa. Minha mãe odeia isso. Eu continuo repetindo a ela que isso pode ajudar no crescimento do gramado, isso funciona quase como um sprinkler natural e artificial, mas ela simplesmente não quer esses carros idiotas espirrando essa água idiota no jardim dela.

As gotas de chuva deixam um rastro de gotículas no vidro, e isso é legal. Pois essas gotículas vão começar a descer, pra encontrar as outras gotículas e formar uma poça maior de gotas de chuva. E elas podem sentir que fazem parte de algo.

Era exatamente assim que eu me sentia com eles. Eu tenho a noção terrível do quanto isso soa dramático ou gay, mas é isso.

Eu me sentia fazendo parte de algo. Isso também soa um pouco As Vantagens de Ser Invisível, eu também sei disso, mas eu simplesmente não consigo pensar em nada mais original para esse momento.

Conheço Will desde que me entendo por gente. Will era filho do melhor amigo do meu pai. Meu pai tem dito nos últimos dias que nossas mães trocaram fraldas um do outro. Foi aí que o pai de Will mudou-se para San Francisco na Califórnia e levou Will junto. Mas isso não me fez falta alguma, pois eu tinha oito meses na época.

Não sou anti-social. Mas também não chego perto de ser o palhaço de uma turma. Mas por não ser nem de um lado e nem do outro, fui sempre uma peça neutra na minha escola.

Foi aí que Will voltou de San Francisco quando eu tinha doze anos. Seu pai foi derrubado por aquela crise financeira e voltou para o Brasil. Will tinha vivido por doze anos na Califórnia, por isso falava português muito, muito mal, e sofria por isso. Ele vivia mais ou menos no meu ritmo. E tinha aquele ar irônico que eu sempre me orgulhei em ostentar. Já nos conhecíamos por intermédio dos nossos pais, e bastou uma semana para sermos melhores amigos.

Eu não sei, mas estava meio desanimado com a vida já naquela idade. Escutava músicas depressivas e usava muito, muito preto. Mas não era emo ou alguma merda do tipo, era mais... alternativo. Se o termo geek fosse mais popular naquela época, eu me adequaria. E droga, ter um bom amigo me ajudou a retomar um nível de confiança em mim mesmo. E voltei a me sentir real. Me senti legal. Voltei a me sentir vivo.

Muitas pessoas costumam reclamar de sua adolescência banal. Bom, eu digo que minha adolescência foi foda. De fato, ainda sou um adolescente, mas não consigo ver o que vou poder fazer com o que restou dela. Sim, acho que a depressão dos doze anos está voltando lentamente. Por isso vou me lembrar da Carol.

Eu tinha treze anos. Sim, um ano depois do Will, Carol apareceu. Ela tinha vindo de uma cidade do interior de São Paulo. E era tão alternativa e irônica quanto eu e Will. Acho que ela era ainda mais, pois me lembro dos inúmeros olhares queimando sobre ela quando desfilava pelos corredores da escola. Ela não parecia uma garota vinda do interior. Não que Marília seja interior, mas a Carol... ela era diferente.

Ela era linda. A garota mais linda que eu tinha visto. E ela tinha aquele ar de inocência misturado com um ar selvagem de desprezo, e aquilo empacotou meu coração na primeira semana.

E o armário dela era do lado de Will. E o armário de Will era do lado do meu. Foi aí que Will a viu colando um adesivo de Evil Dead no armário. Faça as contas.

Na mesma semana Carol já estava indo na minha casa assistir filmes. Com Will. E re-assistimos inúmeros filmes que já tínhamos visto, e descobrimos muitos gostos e filmes em comum. Indicamos filmes e livros um para o outro, e Deus, isso era tão bom.

E o grupinho de três estava completo. Éramos nós e mais ninguém. O mundo todo poderia ir para o inferno se estivéssemos juntos. E brigávamos muito. E um ia à casa do outro pra ficar falando mal do outro de fora. E o que ficara de fora da briga tinha que rejuntar os nervosos. E dava certo.

Foi na formatura da oitava série que eu pedi para ficar com Carol. Se ela fosse contar essa história, ela diria que foi ela quem pediu isso, pois eu sempre fui meio cabisbaixo e sem iniciativa – palavras dela, — mas eu posso jurar que fui eu que pedi para ela ficar comigo. Por intermédio de Will.

Will apenas piscara os olhos e rira.

– Você tá brincando? – ele perguntara com os olhos brilhando.

E eu tomei outro gole de um líquido muito forte e estranho que estava na minha mão.

– Claro que não.

– E quanto a Marcela?

– Quem?

– Marcela. A garota que você prometeu que ficaria.

– Eu quero ficar com a Carol, Will.

– Tudo bem então.

Quinze minutos depois eu estava encostado contra a parede gélida do ginásio da minha antiga escola. Eu estava observando as pessoas dançando. Na verdade eu estava mal me importando ou observando as pessoas dançando, pois estava beijando Carol.

Na primeira semana foi um pouco estranho, tínhamos de lidar com o fato de que estávamos meio que... namorando.

Na semana seguinte Will começou com a crise assassina de ciúmes. Ele dizia que estávamos esquecendo-se dele e tals. Foi aí que eu e Carol arranjamos a Marcela pra ele.

E tudo ficou bem novamente.

E os anos passaram e nós aproveitamos. Aproveitamos tudo o que a vida poderia oferecer – claro que com um limite imposto por nossos pais. Saíamos sozinhos. Lidávamos com as coisas juntos. Tornamo-nos adultos, juntos.

Carol me fez entender melhor como o mundo e as pessoas funcionam. Ela também não era super popular, mas entendia as coisas. Ela sabia como jogar, e me ensinou a jogar também. E eu só sabia que ela era a mulher da minha vida.

E foi ai que surgiram as promessas. De viver uma vida longa. Iríamos fazer faculdade de Cinema. Nós três. Iríamos começar no início de agosto e...

E agora estou sozinho; perdido e esquecido em um dia chuvoso de maio. E parece que nem agosto – muito menos o futuro – vai chegar.

Reviver todas essas memórias me deixa ainda mais confuso sobre os suicídios. Por que eles fizeram isso? Quais são as drogas dos motivos? Por que estou recontando tudo isso para a minha mente?

O fato é: a camada de gelo ainda está de pé. Não derrubei uma lágrima sequer relembrando disso.

Estou sentado numa cadeira. Ainda estou assistindo a chuva caindo. Ainda estou observando da janela os carros lançando jatos de água no jardim da minha mãe. E nada vai ser como antes.

Meus pais abrem a porta do quarto de cinco em cinco minutos para ter certeza de que estou bem. Acho que eles temem que eu vá me matar também. De fato, eles estão certos em fazer isso. Mas eu não vou me matar, não quero fazer isso. Jamais quero que meus pais sintam o vácuo bizarro que eu estou sentindo agora. Eu ainda preciso entender. E quando eu entender, eu vou estar crescido o suficiente para continuar não querendo tirar a minha vida. E suicídio é tão 2009.

Eu quero ir à sala e dizer a eles que não quero me matar. Assim posso ter sossego e mais tempo para refletir – sem interrupções – o que está acontecendo.

Eu também tenho medo de entender e me sentir culpado. Tenho medo de entender e ficar com medo. Tenho medo de entendê-los e aí sim, querer me matar também.

Ainda estou pensando no telefonema. Ainda estou pensando no que me atrasou naquele dia. Ainda estou sozinho. Ainda estou tentando me lembrar das últimas palavras que ouvi de cada um deles.

Mas não lembro.

Lanço um olhar selvagem pelo quarto, caçando qualquer coisa que que possa lembrar-me dela. Um urso – sim um urso; um CD; um porta-retrato. Tudo isso está aqui no meu quarto, mas nada disso me faz senti-la.

O fato é que a morte de uma pessoa significa o desligamento da essência que ela tinha sobre tais objetos. Pelo menos é isso que está parecendo.

Chega de devaneios. Preciso resetar minha mente. Preciso reiniciar em modo de segurança e continuar rastejando pela casa como um zumbi.

Droga.

–-:--

Acordo de manhã. E a primeira coisa que sinto é a camada de gelo intacta. Mexer nela na última noite não deixou um arranhão sequer.

Eu trabalho. Mas não vou hoje também. Não quero ir. Sou vendedor de bilhetes de cinema. O emprego mais genérico para jovens como eu. Eu estou juntando dinheiro para gastar em compras para a faculdade, já que ganhei a bolsa por um desses programas do governo.

Sim, eu sou inteligente. Carol e Will também eram, mas um deles ganhou só metade da bolsa. Não que isso venha ao caso. Mas é pra eu perceber a noção de como as coisas aleatórias do dia-a-dia fazem lembrar-me deles.

Desço até a cozinha. Minha mãe está lavando a louça. Ela é professora, mas está de férias. Meu pai trabalha com eucaliptos, e precisa morar próximo as plantações, por isso não está aqui. Mas tem vindo nos dois últimos dias pra tentar conversar comigo.

– Tudo bem? – Minha mãe pergunta.

– Claro – respondo. – Estou bem melhor – minto.

Ela suspira. Eu suspiro. Sento-me na cadeira e espero. Ela passa o café tranquilamente e logo está me servindo.

O café me acorda de um jeito único. Mas só tomo um gole do café, e então coloco o leite. Tenho que parar com esses rituais antigos. Tenho que parar com isso. Tenho que parar com...

- Você vai trabalhar hoje? – ela pergunta, me encarando do outro lado da cozinha.

Engasgo-me pra responder.

– Ainda não.

Ela franze a testa.

– Tudo bem. Hoje é sábado.

Normalmente eu sairia com Carol num dia de sábado.

– E você sabe o que vai fazer hoje?

– Ah, — solto, pego de surpresa – acho que vou dar uma saída mais tarde.

Ela concorda. Entende isso. Não me pergunte pra onde mãe, pois não tenho ideia.

– E pra onde? — ela dispara. – Você vai com alguém?

Encho o resto do copo com leite. Bebo um gole.

– Vou ver ainda. Depois do que aconteceu, eu tenho certeza que alguém vai querer sair comigo só por dó.

Ela ri.

– E eu vou aceitar, — continuo. – Preciso sair mesmo.

Ela ri novamente. Concorda comigo.

Termino meu café enquanto ela termina de lavar a louça. Ninguém diz nada. Não que eu e minha mãe sejamos duas matracas insuportáveis, mas hoje estamos calmos. Acho que todos estão entendendo o valor do silêncio. Seja lá o que isso signifique.

– Mãe, — digo, sem mesmo ter controle do que estou falando.

– Sim? – ela joga o pano de prato no ombro.

– Olha mãe, — continuo, — eu sei que a senhora sabe que a ficha ainda não caiu para mim.

Ela me encara. Ela quer que eu continue. E eu continuo.

– Eu ainda não tenho ideia do motivo dos suicídios. E eu vou descobrir e...

– Vinicius, — ela começa a dizer.

– E, — continuo ainda mais alto, — e eu quero que a senhora e o pai confiem em mim. Eu não vou fazer nada de mal para mim, ok?

Ela recua. Como se tivesse levado uma bofetada, mas droga, essa não é minha intenção.

– Mas...

– Mãe, eu estou vendo o quanto vocês estão preocupados comigo. E se a senhora estiver a fim de saber, eu não estou pensando em suicídio.

Ela suspira. Olha pro chão.

– Eu jamais faria isso com vocês, — continuo – jamais. Então podem relaxar e me deixem viver no meu tempo e sem interrupções, pode ser?

– Tudo bem – ela concorda. – Você sabe que eu te entendo. Quer falar sobre eles?

– Ainda não mãe. Ainda não.

– Tudo bem.

O lado bom de ser filho único é que você aprende a negociar com seus pais. E isso eu sei desde que aprendi a falar. Eles me tratam como um adulto quase o tempo todo. E eu falo bem, me orgulho disso, e me orgulho das coisas que – falar bem – podem me trazer.

De fato, eu não sou tão falante assim. Eu sei é negociar. Tenho um pouco de dificuldades em manter um padrão de diálogo ok. E estou longe de estar me preocupando com isso.

O problema é que as pessoas com quem eu mais falava estão mortas. E agora também estou com medo de continuar uma vida sem amigos, — assim como fora antes de conhecer Will e Carol.

E eu estou triste. Pois estou sozinho. E isso é tudo que consigo pensar.

Ando em direção ao meu quarto tentando encontrar alguma coisa para fazer. Talvez eu devesse ter ido trabalhar hoje, pra manter a cabeça ocupada. Talvez eu vá navegar na Internet. Talvez eu vá assistir a algum filme.

Encontro o case que André me entregou na noite anterior. Está do lado do meu notebook.

Lembro-me de tudo que ele mencionou sobre esses DVDs. Ah claro, algo importante está ali. Preciso assistir até o fim e bubu. Não consigo imaginar em algo mais importante do que minha camada de gelo e ser condenado a uma vida solitária. Mas mesmo assim, acho bom dar uma olhada.

Com o case na mão, ando em direção ao meu DVD. Ligo a TV enquanto abaixo-me para conectar a tomada do player no plugue. A televisão acende com um pzzzzzz maligno e eu ainda abaixado, ando de cócoras até a bandeja do DVD. Tiro o DVD #1 do case e coloco no aparelho.

Sento-me no tapete em frente a TV. Apalpo até encontrar o controle remoto embaixo da cama. Aperto o play.

O DVD player emite um som de velocidade sendo introduzida no disco. Relaxo. Suspiro. Não estou esperando nenhuma revolução, apenas consigo pensar que preciso ir ao banheiro fazer minhas necessidades. Não estou esperando absolutamente nada.

Tela azul. Tela Azul. Tela Azul.

Uma falha de estática na tela. Um bipe.

É uma balada. Pessoas estão dançando. É um vídeo de uma câmera qualquer. Caramba, quatro DVDs?

Quase caio para trás. A pessoa que está dançando é Carol. Sim, é ela. Tão linda, tão especial, tão feliz... Eu posso me lembrar disso agora. Tenho certeza. E o rapaz bonitão do lado dela, sou eu. E isso foi há alguns dias atrás.

E foi gravado pelo Rafa. Claro que foi. Que droga Rafa. Rafa, Rafa, que droga mesmo.

PAUSE

Um sorriso único de Carol ficou no pause. E um sorriso bobo no meu rosto na tela da TV.

Estou suando. Não existem motivos para uma transpiração repentina, mas merda, estou suando que nem um cavalo. Tão de repente, tão sem sentido.

O que pode existir nesses quatro DVDs?

Coço o pescoço. Coço a cabeça. Ajeito o cabelo.

Aperto o play.



Notas finais
Enfim, reviews? Eu acharia bem legal KKKKKKKK
Enfim, as coisas vão começar a melhorar no próximo capítulo!
Eu estarei esperando seus reviews.
Muito obrigado por ler.
Quero saber o que estão achando.
Até semana que vem.