Finais quase felizes
3 capitulo 2- O príncipe.
As primeiras gotas de chuva caíram antes do amanhecer. Dominique estava se movendo, camuflada pelo manto na parte mais densa da Floresta Sombria, quando sentiu a chuva atingir a terra e seu manto. Não estava muito longe do castelo e da vila, mas mesmo assim ela se escondeu atrás de um tronco grosso e velho de salgueiro e tirou o capuz.
Ela suspirou. Sentia-se febril, cansada; o sonho a exaurira e levara sua mente ao limite. Como sempre, o peso intenso que a floresta silenciosa exercia e o verde dominador da natureza em nada ajudava. Servia apenas para lembrá-la de que não pertencia à floresta, apesar de sua avó sempre insistir de que a garota era filha dela. Uma Filha da Floresta não tinha pesadelos terríveis com os pais, pensou Dominique com pesar. Não sonhava com príncipes. Não ajudava às escondidas o povo da vila.
Uma Filha da Floresta tinha raiva da Civilização. E isso Dominique não conseguia ter.
Ela levantou o rosto suavemente, fechou os olhos e deixou as gotas geladas escorrerem por ele. Sempre se sentira estranhamente conectada com o povo miserável da vila próxima ao castelo. Toda aquela pobreza e aquelas crianças cobertas de sujeira deixavam seu coração compadecido. Então, às vezes, ela saia escondida e os visitava, sempre de capuz. Tratava as feridas que o povo tinha principalmente por causa do trabalho forçado, e dava de comer às crianças desnutridas e aos velhos raquíticos.
Se a Floresta Sombria e seus habitantes soubessem de suas incursões à vila, Dominique seria excomungada de seu lar.
A Floresta não aceitava erros ou bondade com o povo que a destruiu e a isolou. Que a fez se tornar arisca, e a guardar em suas entranhas sua magia, do tempo em que o sol reinava absoluto em todo reino.
Ninguém poderia saber. Nem sua própria avó. Era seu segredo, e apesar de ser conhecida na vila como Esperança – devido à sua capa e sua extrema bondade — ela não conseguia fazer muito mais pelo povo. Não se quisesse continuar sem que fosse descoberta.
De repente, Dominique se lembrou de algo que sua avó lhe dissera àquela manhã. Que a floresta sabia de tudo. Ela conteve um arrepio de medo e tentou respirar novamente. Seus olhos se abriram e esquadrinharam atentamente a vegetação espessa ao seu redor, mas nada se moveu. Ela respirou de alívio para logo em seguida congelar.
Nada estava se movendo.
Nenhum pássaro. Animal. Habitante da Floresta Sombria. Nem o vento.
Dominique aguçou os ouvidos. Algo estava errado. Não com ela, porque se a Floresta tivesse descoberto sobre suas visitas á vila, já teria acontecido algo.
A garota assoviou. Foi um som bem baixinho, um trinido suave de pássaro. Ela levantou o dedo e um segundo mais tarde um belo e pequeno pássaro pousou nele. As penas da ave eram negras como breu, tão negras que chegavam quase a ser azuladas. O bico também era negro, mas os olhos tinham uma tonalidade de um branco leitoso.
O pássaro cego inclinou sua cabecinha minúscula e perturbadora para Dominique e trinou no mesmo ritmo que ela.
– O que esta acontecendo, Blind? – Ela murmurou em uma cantiga.
O pássaro abriu o bico e sua língua fina e bifurcada apareceu. Ele sentiu o gosto do ar, e logo em seguida seu bico apontou suavemente para o sul.
– Seja meus ouvidos. Que os deuses da Floresta Sombria te protejam.
Dominique sussurrou essas palavras ao pássaro e o lançou para o ar. Ele logo sumiu, e nenhum ruflar de asas foi ouvido. Dominique botou o capuz novamente e esperou, ouvindo atentamente.
Logo, ouviu o pássaro assoviar sua canção mais à frente. Ela seguiu na direção do som, movendo-se silenciosa e rápida. Seguiu o trinar do pássaro pela floresta, até que ele parou de cantar e o silêncio voltou a reinar. Dominique farejou o ar e agora que a chuva havia parado, podia sentir o cheiro de humanos civilizados por perto. Ela se arrepiou. Como eles conseguiram chegar tão longe sem serem pegos pela Floresta? Por mais que agora Dominique estivesse mais perto do castelo do que nunca, ela sabia que era quase impossível se embrenhar na mata fechada se você não a conhecesse muito bem e fosse um Filho da Floresta, e ainda andar por ela sem que nada acontecesse.
A garota avançou cautelosamente e então, quando as árvores se abriram um pouco para revelar uma pequena clareira, ela estancou em seu lugar subitamente.
À sua frente, um grupo de homens estava encurralado no meio do espaço, com as costas viradas uns para os outros. E ao redor deles, rosnando e salivando de fome, cinco lobos os rondavam, casualmente avançando para assustá-los. Os animais riam como hienas, mas Dominique sabia que eles poderiam falar se quisessem. Falar rosnado, mas falar. Dominique ofegou de pavor. Aqueles eram os cachorrinhos dos Guardiões da Floresta. Seu povo os chamava de Madra, e eles eram temidos pela sua crueldade e sangue frio.
A garota sabia muito bem que poderia virar as costas para aquela cena e continuar seu caminho. Não devia nada aos Civilizados, principalmente aos ricos como aqueles jovens aparentavam ser, e ela ainda tinha que entregar a cesta antes que todos acordassem. Mas...
Algo a parou. Não um coração solidarizado com a situação deles, ou a certeza de que eles seriam mortos com crueldade pelos Madra. Era algo nos três jovens.
Um tinha cabelos castanhos, olhos da mesma cor e sardinhas no nariz. O outro era loiro, de olhos azuis e pele bronzeada. Não, Dominique decidiu. O que a estava incomodando não eram esses dois. Era o terceiro.
Ele tinha pele branca e lisa, era alto e seu porte era musculoso, mas elegante. Tinha dentes retinhos e brancos, pelo que Dominique conseguia ver, e cabelos negros, tão negros quanto as penas de Blind. Os olhos eram insondáveis e sedutores, e tão escuros quanto os cabelos. Ele era lindo, decidiu Dominique.
Mas não era isso que a estava incomodando.
Ele parecia familiar, e algo estranho, como uma conexão a atraia para ele. Ela tentou se lembrar de como o conhecia, e o sonho veio a sua cabeça...
Deus.
Ela sabia quem ele era.
Aquele era seu príncipe.
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