Finais quase felizes

1 Prólogo- Era uma vez


Era uma vez, uma linda princesinha. Ela nasceu em um reino pequeno e cativante, longe de todos aqueles que ansiavam por poder. Era linda como a aurora boreal e doce como o mais refinado mel, e diziam ter a benção dos deuses correndo por suas veias. Seus pais eram poderosos e gentis, e ela não poderia ter tido mais sorte na vida. Diziam até que ela levava essa sorte por onde passava, deixando as dádivas da abundância e alegria a todos sem exceção. Alguns apostavam que teria o casamento perfeito quando crescesse, e que pela primeira vez naquela parte pequena e aconchegante do reino, se veria um verdadeiro final feliz.

Mas, como todos sabem, finais felizes não existem. Existem finais diferentes, com finais melhores do que os outros.

Este não é o caso dessa historia.

Alguns relatam que a rainha, a mãe da pequena e meiga princesinha foi pega com um amante pelo próprio rei. Outros sussurram pelos cantos velhos segredos que a rainha escondia do rei. Que ela era uma fada. Uma bastarda. Uma traidora. Uma bruxa. E outros – uns poucos, os mais ousados provavelmente, devo dizer – diziam que a rainha fizera algo muito ruim e a menina fora amaldiçoada, e tinha ligações estranhas e sombrias com as criaturas que assombravam a floresta.

Qualquer que tenha sido o caso, em uma tarde gelada no reino algo dentro do rei se quebrou. Ouviu-se um urro sobre humano do castelo, e desde aquele momento, o rei se tornou taciturno e sombrio. Sua esposa nunca mais foi vista. Sua filha também não. E o reino se tornou uma casca triste cheia de memórias de tempos mais quentes, mas que aos poucos foram esquecidas pelo povo, lentamente castigado por algo que sequer sabia ter feito.

O rei renegou seu próprio povo.

E sua esposa amada.

E talvez, o mais importante, a razão de seus sorrisos.

Sua própria filha.

Como eu disse, caro leitor, não existem finais felizes. Não nessa história.