Finais quase felizes

9 Capítulo 8- A escolha


Notas iniciais
Olá! Vim só assinalar que este capítulo ficou maior do que os outros e por causa disso, eu peço desculpas. Estou tentando manter um padrão de tamanho para que a leitura não fique cansativa, mas neste eu me excedi. Em contraponto, foi um dos capítulos que eu mais gostei e valerá a pena a leitura se você conseguir chegar até o final. Boa leitura Jay

Uma garota. Eles haviam achado uma garota perdida no meio da Floresta. Não parecia ser da região; tinha os cabelos negros e lisos e os cantos dos olhos negros levemente puxados. Sua pele era de um tom de pêssego suave e ela tinha covinhas fofas ao sorrir. Tinha o corpo delicado, e nenhuma memória de como fora parar lá ou de onde vinha.

Naquele atual momento, a garota estava no meio de uma roda de Tueders, agradecendo aos seus ‘’salvadores’’. Dominique avistou Sonni de onde estava encostada, a uns cinco metros do bando de adoradores. Ele sorria como um bobo e olhava encantado para a garota enquanto ela estremecia suavemente sob a coberta que lhe ofereceram. Parte daquele encantamento, Dominique pensou acidamente, com certeza vinha do fato de que a encontraram nua, no meio da Floresta.

– Inacreditável. – Dominique resmungou. Nunca fora tratada daquele jeito. Pelo contrário: desde sua primeira luta com Sonni até as brincadeiras dos dois, ela sempre fora tratada como um deles. Como um homem.

– Furiosa por não ser o centro das atenções, madame? – Uma voz melodiosa e zombeteira soou acima de sua cabeça. Dominique olhou para cima, e deu de cara com as botas do flautista. Ele girava metodicamente uma flauta dourada em seus dedos elegantes e sorriu malicioso para Dominique. Ela lhe revirou os olhos.

– Você sabe que eu nunca fui o centro das atenções por aqui. Sempre me mantive afastada.

E puxou com toda força a perna de Jonx, fazendo-o cair da árvore. Mas o maldito não caiu. Aterrissou com uma graça inumana ao lado de Dominique e soltou uma risada musical.

– Tem razão. Sempre foi razoável com todos nós, e a admiro por isso. – Seu sorriso sumiu e ele fez uma pequena reverência com a cabeça. – Gosto de mulheres fortes, assim como todos os outros. E – Apontou com a cabeça para Sonni. – Ele também.

E bamboleou para longe de seu grupo, ensaiando uma melodia doce na flauta. Dominique gostou de sua atitude. Menos um puxa-saco.

– Você pode emprestar uma roupa a Nimf?– perguntou Sonni, chegando perto dela. Dominique fez uma careta ao ver o rosto dele. Estava encantado, ela não tinha dúvida, mas nem parecia o mesmo Sonni de sempre. Não estava de mau-humor, e seu afeto não tinha a ver com os Tueders. Ele estava corado, e seus olhos brilhavam mais que o normal. Ele sequer parecia sexy, uma característica que Dominique atribuía secretamente a ele e o fazia parecer selvagem. Ele parecia... dócil. Ele resfolegou. – Por favor.

Deuses. Ele estava sendo educado.

– Não tenho outra roupa além dessa que está no meu corpo. – Ela declarou friamente.

– E a sua capa? É só até irmos a cidade comprar alguma roupa para ela. – Ela arregalou os olhos. Dominique nunca reclamara de suas roupas – aliás, nunca reclamara de nada – mas nunca lhe ofereceram nada do que o estritamente necessário. Ela se virava com a sua roupa da melhor forma que podia, mas...

– Tem ideia de quanto valor aquela capa tem para mim?

Sonni franziu a testa.

– Qual é o seu problema, Dominique? Não foi bem recebida por todos quando chegou aqui? Porque não pode ajudar uma pessoa?

Ela não entendeu a raiva dele.

– Sonni. – Ela sussurrou, tentando controlar sua raiva. – Minha avó me deu aquela capa, e ela foi da avó dela antes disso e está na minha família há muito tempo. Por favor, não me peça para emprestá-la a uma desconhecida.

Ele balançou a cabeça, decepcionado.

– Achei que você fosse mais que isso.

E lhe deu as costas. Dominique o encarou, chocada e depois sentiu as lágrimas lhe aflorarem nos olhos. As controlou, antes de arrancar a própria camisa e jogar em Sonni, ficando só de top.

– Ignorante! Eu nunca reclamei de nada por aqui, e nunca me importei de ter apenas um par de roupas e você me pede ele para dar para uma garota vestir, sendo que você nem a conhece? E prefere me deixar assim, sem nada? E nem entende o quanto aquela capa significa para mim? Pois bem. Eu achei que você fosse mais que isso. Fique com a merda da camisa.

E virou as costas para o grupo que de repente havia se silenciado. Ouviu a garota murmurar um agradecimento quando Sonni entregou a camisa a ela, e não acreditou nisso. Ela dera a camisa porque estava com raiva e porque queria forçá-lo a se desculpar, e não para que ele de fato a entregasse! Dominique chutou uma árvore ao passar e continuou andando furiosamente.

Antes que ela desaparecesse, Sonni deu um de seus sorrisos maliciosos e finalmente decidiu que sim! Ela sentia alguma coisa por ele. E ele iria lutar por isso.

****

Ela socava uma árvore, extravasando toda a sua raiva quando ele a encontrou. Dominique tinha vários vergões pelo torso, resultado de ter se embrenhado no mato, e as juntas dos dedos estavam vermelhas e sangrando. Sonni gentilmente deslizou as mãos pelos braços dela e envolveu suas mãos em um aperto firme.

– Chega – Ele sussurrou meigo e beijou o cabelo de Dominique. Ela se desvencilhou dele rapidamente e o olhou, furiosa.

– O que pensa que está fazendo? – Ela berrou, enxugando as lágrimas que haviam miseravelmente saído de seus olhos.

– Explicando o que aconteceu na clareira para minha Roux. – Ele explicou calmamente e sorriu divinamente para ela.

E ela o estapeou. Com força.

– Seu idiota! Sabe o quanto eu tenho sofrido com toda essa palhaçada de Iniciação e ainda mais sem nunca reclamar, o sacrifício que eu tenho feito para cumprir o nosso acordo e tudo pelo o que eu passei? Porque você se acha no direito de simplesmente, do nada começar a me tratar daquela forma? Seu cachorro, miserável... – ela começou a esbravejar, mas Sonni apenas se limitou a sorrir, triunfante, como se tivesse ganhado uma aposta.

E de repente, ele estava beijando-a.

Dominique o estapeou novamente e tentou afastá-lo, mas aquilo apenas serviu de incentivo para Sonni, que tornou o beijo mais voraz ainda, exigindo que ela lhe abrisse os lábios. Ele deixou que ela o batesse a vontade, enquanto segurava fortemente o corpo delicado de Dominique contra o seu musculoso, e lentamente moldava seus lábios ao dela.

E finalmente, ela desistiu e depois de um momento de hesitação, em que pensou em Asa e no que estava fazendo, Dominique retribuiu. Não foi o beijo suave e cálido de seu príncipe, mas foi exatamente igual ao gênio de seu touro. Era selvagem e o jeito que ele a segurava demonstrava todo o seu poder e ferocidade.

Quando se separaram, Dominique sentiu suas pernas trêmulas. Esperava tudo, menos ficar tão abalada com um beijo. Se encostou no tronco de árvore que estivera esmurrando e apoiou as mãos nos joelhos. Só percebeu que estava tendo uma crise de choro quando sentiu Sonni erguê-la do chão e carregá-la dali. Ele a aninhava forte contra o peito e Dominique não se importou.

Estava cansada. Exausta. Confusa. Se sentindo fora de órbita.

– Shhh. – Ele murmurou contra seu ouvido quando eles que finalmente pararam. Dominique olhou em volta. Estava escuro e frio e a garota percebeu com um susto que era uma caverna.

– Onde estamos, Sonni? – Ela perguntou com a voz embargada. Ele riu daquele jeito suave e baixo que ela percebeu adorar e a pôs no chão. Depois, a puxou delicadamente para uma pequena depressão no meio da caverna, onde um pequeno laguinho jazia. Do teto baixo da caverna, gotas caiam lentamente no lago. A água era tão clara que Dominique conseguia ver seu fundo.

Ele a puxou contra o peito e entrou na água. E era estranhamente morna. O luar refletia nela, e fazia do pequeno laguinho a única coisa iluminada da caverna.

– É uma caverna que eu descobri a muito tempo. – Ele falou distraído enquanto ternamente limpava o sangue das mãos de Dominique. Ela fez uma careta de dor e ele a olhou. – Foi um teste, Dominique. Eu sei que quem quer que você queira buscar no castelo é um homem, e que você sente alguma coisa por ele. Posso ver sua dúvida em seus olhos toda vez que eu chego perto de você, e isso me dói. E hoje essa garota apareceu... e eu resolvi que seria bom ver se você sentia algo por mim.

Ele sorriu e mergulhou as mãos dela na água. O sangue saiu, tingindo ela de um vermelho fraquinho. Ele pegou um sabonete e passou delicadamente em suas mãos, lavando.

– Mandei Jonx ver até onde você estava com raiva, e pedi suas roupas de propósito. – Ele parou por um momento e a olhou ferozmente – Roux. Eu sei que você tem só essa muda de roupa, e também sei o quanto você é apegada àquela capa. Sei de tudo isso, e a admiro por nunca ter sequer reclamado de nada.

Dominique baixou os olhos. Deuses, ele entendia. Ela soltou um suspiro de alivio e deixou uma lágrima escapar. Ele botou as mãos em sua barriga e começou a limpar os cortes ali também.

– Sei que fui longe demais. Mas eu tinha que ver até onde eu podia avançar sem ser chutado por você. E eu peço perdão. Apesar de tudo isso, eu vou lutar por você. Ferozmente. Por cada parte sua.

Ele chegou pertinho dela e pegou seu queixo. Beijou cada lado de seu rosto, enxugando suas lágrimas. Dominique ainda não conseguia falar nada, apenas digerindo aquilo tudo e tentando botar seus sentimentos em ordem. Ele esperou.

– Eu... fiquei com muita raiva, Sonni. Ciúmes, eu admito. De toda aquela atenção que a garota estava recebendo e por você estar dando a atenção para ela. Quer dizer... eu nunca fui delicada e bonita como ela. Vocês sempre me trataram como uma de vocês. E aquela garota... me incomoda de um jeito que ao sei explicar. E eu gosto de outro cara sim... e eu estou confusa. Admito que estou passando por tudo isso por causa dele... mas aparentemente o que eu sinto por você é mais forte. Você pode lutar por mim sim. Eu adoraria isso. E nos podemos tentar ficar juntos. Ver se dá certo. Mas não posso te garantir nada.

Os olhos de Sonni brilharam e um sorrisinho sexy surgiu em seu rosto moreno.

– Então você me perdoa?

Ela fez cara de brava.

– Nunca mais faça aquilo. Se quiser saber de alguma coisa, venha falar comigo, tudo bem?

– Tudo bem. – Ele concordou prontamente e se afastou. Dominique sentiu um vazio no peito imediatamente. Ele estendeu a mão para ela. – Amigos?

Ela encarou a mão e depois ele.

– Você é inacreditável.

E avançou para ele, beijando-o carinhosamente. Ele riu de alegria, como um menininho com um doce e afagou seu cabelo.

– Ainda quer entrar no castelo?

– Devo uma explicação a Asa. – ela murmurou e fechou os olhos. Enterrou a cabeça em seu peito, e ele não fez nenhuma pergunta e não julgou ela em momento algum. E isso era uma das coisas que ela mais gostava nele. Ele não exigia nada. Apenas aceitava quem ela era, ou seu passado, ou até mesmo que ela amasse outro. E estava disposto a lutar para ter esse amor só para ele.

– E desculpe pela cena, Mauka.

– Tudo bem, Roux. Foi até divertido.

Ela o socou.

– Como? Isso não é divertido!

Ele riu e quando ela tremeu, a puxou da água. Apontou para uma pilha de roupas e murmurou, de repente tímido.

– Para você, Roux.

– Espera. Você já me planejava trazer aqui? Mas... nós achamos a garota só hoje de manhã!

– Sim, eu planejei. Quer dizer... eu já tinha comprado essas roupas para você. Também planejava me declarar para você, apesar de saber que pareceria um completo idiota.

– Comprou roupas para mim? – Ele assentiu e olhou cautelosamente para ela. Ela fechou os olhos e sorriu. – Obrigada. – Sussurrou.

– Tudo pela minha Roux.

Ela vestiu devagar a calça e a camisa quentinha, e deixou as botas novas junto com as sua velhas, que estavam encharcadas. Depois se virou para Sonni e viu que ele tirara a camisa e trocara a calça. Gelada, ela foi para o calor de seus braços. Ele a arrastou para uma cama improvisada e se deitaram juntos no espaço apertado.

– Você pensou em tudo. – Ela comentou maliciosamente. O peito dele retumbou em uma risada.

– Eu estava inclinado a pensar que você me recusaria, me xingaria e sairia batendo os pés. Planejei passar a noite aqui, pensando.

– E agora, vai pensar?

– Com você aqui? Não.

Ficaram em silêncio por tanto tempo, que Dominique começou a cochilar nos braços quentes e confortáveis de Sonni.

– Você é um homem incrível, Mauka. – Ela sussurrou antes de pegar no sono.

– E você é a mulher mais incrível que eu já conheci, Roux. – Ele murmurou e se preparou para vigiar o sono dela. Se aquilo fosse um sonho, Sonni queria passar o maior tempo possível sonhando.

Enquanto os dois se aqueciam nos braços um do outro, uma certa Nimf desaparecia misteriosamente de perto do grupo de Tueders. Em sinal de agradecimento à ela, a Lua deu a honra à ninfa prateada de se tornar uma de suas muitas estrelas.

Mais ao longe, a exatamente quatro dias de caminhada do mágico Reino da Lua, um lobo uivou, atormentado por sua amada estar nos braços de outro.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.