Finais quase felizes

7 Capítulo 6- Sonni


Dominique não esperou. Passou a rasteira nele antes que ele pudesse atacar primeiro. Se havia uma coisa que ela havia aprendido em todos aqueles anos na Floresta, é que a maior vantagem em uma luta corpo a corpo em que seu oponente é mil vezes maior que você, é não deixá-lo atacar. É enfraquecê-lo com ataques rápidos e certeiros, para que então se possa dar o golpe final.

Dominique só não aprendeu como fazer isso com um pequeno exército. Ela torcia fervorosamente para eles não atacarem todos juntos.

Felizmente, isso não aconteceu. Ou infelizmente.

O homem pulou com a rasteira de Dominique e ela passou com uma cambalhota rápida para trás dele. Habilmente, chutou seus tornozelos antes que ele pudesse se virar e em um segundo pequeno de desequilíbrio, Dominique puxou violentamente seus braços em sua direção e os usou como impulso para enlaçar o pescoço do homem com suas pernas e derrubá-lo no chão.

Aconteceu tudo tão rápido que o grande homem nem teve tempo para reagir e já estava no chão, sufocando. Dominique pegou o braço que ainda estava segurando e virou o punho para trás, ameaçando quebrar. Olhou ameaçadoramente para os seis homens, que não haviam se mexido.

– Quem são vocês? – Ela cuspiu. Ninguém respondeu, e o homem enfim conseguiu se livrar do aperto de Dominique e levantar seu peso leve.

Depois, rapidamente jogou o corpo dela no chão, em um movimento de quebrar os ossos. Imobilizou as mãos de Dominique e conteve os seus pés ajoelhando-se em cima das pernas. Se não fosse uma situação critica, Dominique poderia até ter achado a posição dos dois constrangedora demais. Poderia até ter rido.

Mas ela bufava e se remexia tentando se livrar do aperto, mas não conseguindo.

– O que querem comigo?! – Sibilou, ainda se debatendo.

O homem a sua frente soltou uma das mãos rapidamente e tirou o capuz e o pano que o cobriam, revelando um rosto... lindo. No mínimo.

– Eu vou te soltar. – Ele falou numa voz rouca e sexy. – Mas você tem que parar de se debater, tudo bem?

Ela o analisou por um momento, tentando decidir. Ele era moreno claro, e tinha cabelos negros e uma barba bem aparada, mas os olhos era de um tom vivo de verde. Tinha o corpo forte e rápido, e lábios cheios. Uma cicatriz pequena deixava falha a ponta de sua sobrancelha direita, repartindo-a em duas partes.

Depois analisou suas opções. Bem, ela não tinha opções. Eles poderiam acabar com ela, por mais que ela conseguisse machucá-los.

– Tudo bem.

Ele se levantou devagar, mantendo o olhar cravado nela. Dominique tirou o capuz, que incrivelmente tinha ficado em seu lugar, encobrindo seus olhos turquesa. Depois, tirou a capa, expondo sua calça e sua camisa, além das botas, do chicote enrolado no pulso e sua adaga comprida com o cabo aparecendo do cano da bota. Seus cachos de fogo caíram sobre seu ombro, ainda presos na trança.

– Não tenho nada que possam querer. – Falou enquanto tentava recuperar o fôlego e ignorar a dor por todo seu corpo. Observou atentamente marcas de dedos em seu pulso. Levantou ele para que o homem à sua frente visse e falou sarcasticamente. – Bom trabalho.

– Você também não foi nada mal. – ele passou a mão pelos fartos cabelos e Dominique sentiu que a ameaça de perigo não existia mais. Eles estavam de passagem por ali, e ela também.

Ficaram em silêncio por um momento, se analisando. O homem na sua frente tinha um olhar de predador, mas não de um jeito desrespeitador. Era mais curiosidade e um senso de proteger seu bando.

Mas Dominique já havia visto o suficiente em sua vida para saber que por trás daquela pose de machão e do olhar sexy, havia alguém dócil e vulnerável.

– Sonni. – Ele estendeu diligentemente a mão para ela.

– Dominique. – Ela acenou para ele.

– Não vai aceitar meu cumprimento, Dominique?

– Não quero outra briga.

O homem gargalhou e se virou para os companheiros.

– Acho que gosto dela. – Falou algumas palavras baixo demais para Dominique ouvir, e eles tiraram os capuzes e os panos. Ela percebeu que quase todos eram jovens, à exceção de uns dois, que aparentavam ter meia idade. Sonni virou novamente para ela.

– Vai para onde? – Dominique olhou o castelo na penumbra e suspirou. Era para já estar perto dele.

– Lugar nenhum.

Ele assentiu.

– Temos lugar para mais um hoje. Se aceitar, quem sabe podemos ajudar você – Apontou levemente para o castelo com a cabeça – E você nos ajudar?

– Como? – Ela indagou confusa.

– Você não é a única que é esperta por aqui.

Dominique os observou por um instante indeciso. Ela precisava de ajuda para entrar. De muita. E provara seu valor ao derrubar Sonni. Não tinha nada a perder se fosse com eles, mesmo correndo o risco de que estavam enganando-a. Mas ela preferia acreditar neles. No seu atual desespero, aquilo era sua única opção.

– Tudo bem.

Acompanhou as figuras silenciosas pelo escuro. Eles passaram longe de seu acampamento, o que foi bom, porque Dominique ainda não confiava totalmente neles. Sonni logo tomou a frente do grupo, guiando-os habilmente pela campina e Dominique ficou mais atrás, meio afastada do grupo. Quando Sonni deu um passo para dentro da Floresta, Dominique se manifestou:

– Não posso entrar aí.

– Porque não? Tem medo? – Ele provocou.

– Não tenho medo. Mas não posso entrar.

Sonni se virou para os homens e falou em outra língua, com palavras truncadas e pesadas. Alguns não se manifestaram, outros murmuraram, e uns poucos protestaram.

Por fim, ele se virou para ela.

– Meus homens preferem estar protegidos na floresta. Mas, como eu tenho um interesse especial por mulheres que lutam e você tem interesse de entrar no castelo, eu fico aqui e montamos o acampamento juntos. Pela manhã decidiremos o que fazer.

– Só você e eu? – Dominique engoliu em seco. Sonni deu de ombros.

– Não se preocupe. Essa não é a primeira vez que me aparto do meu grupo em nome de alianças. E acredite. Eu sei respeitar uma mulher.

Dominique pesou suas opções com muito cuidado. Ela tinha medo. Não o conhecia, e logo no primeiro dia ficaria sozinha com ele. Mas não via outra opção. Não podia entrar na Floresta e não podia pedir para o grupo dele vir também. Pareceria fraca, e ela via que não lhes agradava o fato de estar entre eles.

E ainda precisava de ajuda para entrar no castelo.

Por Asa, ela tinha que correr riscos.

Dominique assentiu e os dois se distanciaram do grupo, seguindo na direção contrária que ele. No caminho, Sonni não fez nenhuma pergunta, o que Dominique achou bom. Gostava do silêncio e da forma como ele o colocava. Sem pressão ou exigência. Dominique só podia imaginar que o que quer que ele fizesse também exigisse silêncio da sua parte.

Quando alcançaram a planície de pedra, bem longe da Floresta e do castelo, pararam. Acharam uma saliência natural na rocha e se abrigaram atrás dela. Sonni preparou uma fogueira pequena e Dominique achou água potável entre as rochas e preparou as pedras irregulares em frente à fogueira para dormirem, espalhando folhas verdes que Sonni trouxera a seu pedido.

– Não gosta de dormir em contato com o chão? – Perguntou ele enquanto esfolava o coelho que caçara. Dominique ficara impressionada. Nem ela conseguia caçar a noite, principalmente em noite sem lua. Mas ele se limitara a rir e dizer que era fácil encontrar coelhos.

– Gosto. Mas acho que estou meio quebrada depois que você me jogou no chão.

Ela encostou-se à pedra e fechou os olhos, cansada. Ouviu um riso baixo.

– Eu não fui o único a jogar alguém no chão hoje.

– Mas minha intenção não era te matar.

– Tem certeza?

– Não.

Ela abriu os olhos e o viu encarando-a intensamente. Ela sustentou o olhar, até que teve que resmungar:

– Se não botar esse negócio no fogo logo vamos ter que jantar pedra.

Sonni continuou o trabalho, e logo o coelho assava acima do fogo, pingando gordura.

– Não entendo o que uma garota sozinha estava fazendo no meio do nada. – Ele murmurou e foi se encostar na pedra ao seu lado. Ela sorriu amargamente.

– Nunca viu uma garota sozinha? – provocou, batendo no ombro dele com o seu.

– De botas e pronta para me matar? – Ele olhou pensativo para ela. – Só minha mãe. Conta?

Ela gargalhou, divertida.

– E o que traz um bando de encapuzados a essa parte insignificante do mundo?

Ele levou um tempo para responder.

– Viemos roubar.

Dominique se assustou com a sinceridade, mas mesmo assim assentiu. Desde o inicio sabia que eles eram ladrões e sabia o que eles faziam.

Mesmo assim era assustador.

O coelho ficou pronto e eles comeram em silêncio. Depois, Sonni se levantou, espreguiçou e passou a mão pelo cabelo curto.

– Eu fico com o primeiro turno. – Anunciou.

– Não confio em você.

Ele parou e a encarou, divertido.

– Ainda não?

– Com certeza não.

Ele assentiu e deu de ombros.

– Sábia decisão. Eu também não confio em você. – Pensou por um momento e declarou. — Bom, sabemos lutar e não confiamos um no outro. Então dormimos ao mesmo tempo e deixamos a sorte não trazer ninguém.

– Eu não tenho sorte. – Murmurou Dominique sombriamente.

– Que bom. – Comentou Sonni, arrogante. – Porque eu tenho.

E se deitou de costas para ela, encerrando a discussão. Deus, pensou Dominique. Como ele é teimoso. Depois de um tempo de indecisão, Dominique virou as próprias costas para ele e se deitou. Antes de dormir, teve a breve consciência de que eles estavam apoiados um no outro.

Queria mexer-se para virar para o outro lado, mas dormiu antes, exausta.

Pela primeira vez desde que tudo aquilo começara, Dominique dormiu profundamente e não sonhou.

Notas finais
Pessoal, queria deixar a tradução do nome Sonni aqui. Quer dizer touro. Talvez isso vá ajudá-los a construir a imagem do personagem, o que é muito importante para mim. Até a próxima. Jay