Meu corpo estava todo mole, eu não conseguia controlar meus movimentos, mas implorei pro Nick me levar até a minha mãe. Ele ignorou os meus pedidos e se preocupou com a mordida no meu pescoço. Olhei para Josh que fez um sinal indicando que a minha mãe estava viva, mas viva não é o mesmo que bem. Acabei desmaiando.

Quando acordei estava em um dos quartos do segundo andar, torcia e rezava para que o ataque de vampiros tivesse sido apenas um sonho, mas as cortinas rasgadas não me deixavam acreditar nisso. Tentei me levantar, mas os braços falharam me fazendo cair novamente no travesseiro e estremecer com a pontada que levei no pescoço:

- Não se esforce. – Disse Nick entrando no quarto.

- Quanto tempo eu dormi?

- Algumas horas.

- Cadê a minha mãe?

- Em outro quarto.

- Ela está bem?

- Está viva.

- Mas está bem?

Ele mordeu o lábio inferior e virou o rosto, já entendi que o estado é grave. Voltei a tentar levantar e Nick me ajudou a sentar na cama:

- Mais alguém sobreviveu?

Ele nem conseguiu olhar para mim, apenas balançou a cabeça mostrando que não:

- Onde está o Josh?

- Lá fora, está queimando os restos dos vampiros.

- E os humanos?

- Vamos precisar de um motivo pra todos eles sumirem assim.

- Tá – Gemi encostando a cabeça na cabeceira da cama – Depois a gente pensa em alguma coisa.

Nick prendeu uma mecha de cabelo atrás da minha orelha e acariciou o meu rosto com as costas da mão, mas seus olhos estavam fixos no meu pescoço:

- O que aconteceu com o Gasper? Ainda não entendi.

- Eu também não entendi direito. Lembra que o Joshua disse que o seu sangue queimava... Bem... Ele queimou por dentro até morrer.

- Mas, isso não aconteceu com o Josh?!

- Pois é, mas aconteceu com o Gasper.

Fiquei quieta apenas pensando, tem alguma coisa muito errada nessa história toda, como é que o meu sangue poderia queimar? Mas pensando bem, aquele calor que eu senti no pescoço quando fui mordida não era normal. Se bem que a partir do momento que você é mordida por vampiros duas vezes na mesma semana, as coisas não estão normais, a menos que você more em Mistic Falls ou Forcks, mas como não é o meu caso então...

Joshua parou perto da porta e ficou quieto olhando para outro quarto:

- Ela já sabia sobre vocês? – Perguntei confusa e um pouco fraca.

Os dois se entreolharam mostrando que sim, mas não responderam verbalmente:

- Há quanto tempo?

- Ela já sabia quando cheguei. – Josh olhou para mim.

- Mas não fui eu que contei. – Completou Nick.

Franzi a testa e suspirei confusa:

- Posso falar com ela?

Nick estendeu o braço para que eu usasse de apoio e Josh abriu a porta do outro quarto para que pudéssemos entrar. Minha mãe estava deitada, seu rosto estava bastante pálido e ela tinha profundas olheiras. Me sentei a beira da cama e segurei a sua mão que estava bastante gelada:

- Luiza? – Ela murmurou abrindo os olhos cansados.

- Sim mãe. Estou aqui.

- A mordida ainda dói muito?

- Nem tanto. Quase não sinto, mas como você está?

- Minha ferida não tem mais jeito. – Ela sorriu com os lábios fechados, parecia conformada.

- Não diga uma coisa dessas. Vai ficar tudo bem... Você vai ficar bem!

- Não sobrou nada aqui pra mim Luiza...

- A gente dá um jeito. Não me assusta falando assim mãe – Senti as lágrimas descerem pelo meu rosto – Preciso de você.

- Não precisa não – Ela olhou pros dois rapazes atrás de mim – Já tem quem te proteja.

Abracei-a o mais forte que pude, mas ela estava tão fraca que parecia que ia quebrar. Minhas lágrimas já estavam molhando a sua blusa quando solucei:

- Não preciso de dois guarda-costas, preciso da minha mãe.

Ela riu debilmente e ameaçou de brincadeira:

- Luiza, se não puder se controlar vou ter que pedir ao Nicolas que te tire daqui...

- Não. – Protestei e olhei assustada para o vampiro – Nick, se você me tirar daqui eu juro que nunca mais olho na sua cara.

Os três começaram a rir e eu gemi:

- Parem que não tem graça. Eu aqui apavorada e vocês fazendo piada as minhas custas.

- Não se irrite filha, eu só estou tentando melhorar as coisas. E além disso é muito legal ver você chamando ele assim.

- Assim como? Nick?

- É. A gente nunca imagina que alguém vai criar um laço sentimental com um vampiro na vida real.

- Há quanto tempo sabe que eles são vampiros?

- Eu sempre soube.

- O quê? Então por que deixou que se hospedassem aqui?

- Bem, eu... Depois de dezenove anos eu não esperava ver um vampiro outra vez, então admito que fiquei curiosa.

- Espera, outra vez? – Me endireitei na cama – Quando viu um vampiro pela primeira vez?

- Essa é uma história que eu sabia que ia ter que te contar um dia, e seria bom se os dois também sentassem para escutar, acho que irão ficar interessados.

Nick se sentou ao meu lado Josh puxou a cadeira da escrivaninha. Nós três ficamos super concentrados esperando a história e minha mãe começou:

- Quando eu tinha uns vinte e poucos anos, tinha acabado o curso de jornalismo e o editor da revista onde consegui emprego mandou um grupo cobrir os relatos sobre estranhos ataques de animais em uma cidade do interior. Isso já durava meses, mas os policiais juravam que agora estavam perto de capturar o responsável. Eu estava super animada com a ideia de escrever minha primeira matéria de verdade, nada poderia estragar aquela viagem.

“Eu e meus colegas de trabalho ficamos hospedados em um pequeno hotel próximo ao centro, não havia luxo, mas era tudo o que precisávamos. Passamos os dois primeiros dias apenas fazendo perguntas, e reafirmamos que se tratava de um animal grande e esperto, que só atacava a noite e não deixava testemunhas.”

“Muitas pessoas estavam desaparecidas, mas quase todas tinham seus restos encontrados em pouco tempo, exceto uma garota quase da minha idade que tinha sido a primeira a sumir e até então ninguém tinha achado nenhuma pista dela. Fiz dessa garota o alvo da minha matéria, e comecei a pesquisar toda a sua vida. O nome era Anita Swan, ela era filha da delegada e desapareceu enquanto voltava do salão em que trabalhava. Dois meses depois começaram os ataques da criatura. Os corpos eram abandonados em lugares aleatórios, retalhados, mas sem uma gota de sangue. Anita já estava desaparecida há quase dez meses e é claro que já tinha sido dada como morta, mas alguma coisa dentro de mim dizia que havia mais história por trás disso tudo. Perturbei a delegada por uns três dias tentando obter qualquer informação sobre a filha, mas ela só revelou que o pai da garota tinha morrido quando ela era pequena.”

“Busquei na biblioteca qualquer reportagem da época em que o pai de Anita estava vivo, ele era bombeiro e recém-chegado na cidade, houve uns dois casos de mortes parecidas com as que eu estava investigando, mas nenhum alarme foi disparado na época. Depois disso os hospitais começaram a receber pessoas que estavam feridas, mas muitas vezes não se lembravam de como tinha acontecido. Achei tudo muito estranho, e quanto mais eu investigava, menos as peças se encaixavam. Então em um dia eu fui chamada pelo resto do grupo para sair e beber alguma coisa, mas recusei, estava muito entretida com a história de Anita para sair com a galera. Voltei sozinha para o hotel, e no meio do caminho fui abordada por um homem que era muito mais rápido que o normal, ele me imobilizou quando tentei fugir e falou no meu ouvido ‘Quer saber sobre a Anita? Vou te levar até ela’ eu apaguei logo em seguida.”

“Quando acordei, me vi em um lugar grande e iluminado por velas, com imagens de santos nas paredes e uma cruz caída no canto. Era o interior da antiga igreja que estava fechada, pelo que me disseram, há quase um ano. Alguém gritava muito, eu sabia que era uma mulher, mas estava muito tonta para tentar identificar a pessoa. Haviam três homens encapuzados, sendo que dois estavam em pé e um abaixado ao lado da moça, eu olhei bem para o rosto dela e reconheci Anita Swan, ela estava grávida, estava dando a luz naquele momento, mas parecia exausta como se a torturassem. O líquido amniótico e o sangue do parto ensopavam o chão, a garota chorava e implorava para que a matassem, enquanto o homem que estava ao seu lado murmurava alguma coisa em outra língua e os dois que estavam em pé permaneciam inertes.”

“Finalmente o bebê nasceu, e quando começou a chorar o homem que estava abaixado comemorou como se fosse um experimento realizado com sucesso. Ele foi até os outros dois e disse que já não eram necessários, só então reconheci a voz de quem tinha me capturado. Ele girou o pescoço dos outros um de cada vez e então se virou pra Anita dizendo ‘Agora você precisa se alimentar, ou não irá sobreviver’. Fez um corte não muito profundo no meu pescoço e a garota virou o rosto pro outro lado mostrando repulsa, mas ele passou a mão com o meu sangue na boca dela e logo não parecia mais a Anita. Seu rosto não parecia humano, seus olhos castanhos brilharam da cor do fogo das velas e de algum jeito ela reuniu forças para se arrastar na minha direção e morder o corte no meu pescoço. A dor que eu senti era quase indescritível e não demorei a perder os sentidos.”

“Só acordei no dia seguinte, no hospital. A enfermeira disse que a minha irmã queria falar comigo e saiu do quarto, foi quando Anita cruzou a porta. Ela estava completamente diferente, bem disposta, sua pele um pouco mais pálida, mas não estava mal, na verdade parecia algum tipo de modelo internacional e ninguém diria que tinha acabado de ter um bebê, ainda mais naquelas circunstancias. ‘Te machuquei muito, não foi?’ Ela perguntou com um olhar de arrependimento e eu levei a mão ao pescoço, onde pude notar o enorme curativo. Perguntei onde estavam os homens da noite anterior e ela me respondeu que dois estavam mesmo mortos e o que me cortou tinha simplesmente ido embora. Não entendi direito e perguntei o porquê, e ela respondeu apenas que ele tinha conseguido o que queria.”

- O quê? Como assim? – Pulei na cama sem entender nada.

Nick passou o braço pela minha cintura e me puxou para perto dele mostrando que era pra esperar o fim da história:

- Aquele hospital foi o último lugar que vi Anita Swan – Continuou minha mãe – Mas antes de partir ela me pediu um enorme favor... Pediu que eu levasse a criança para bem longe dali.

- E o que você fez com o bebê? – Perguntei olhando para os olhos baixos de minha mãe, mas ela não respondeu.

Joshua pôs as mãos na frente do rosto e Nick afrouxou o braço na minha cintura, minha ficha foi caindo aos poucos e eu comecei a chorar. O bebê de Anita Swan era eu:

- O quê? Não pode ser! – Afundei o rosto no peito de Nick que me abraçou forte, mas ainda estava sem reação – Então o que eu sou?

- Você é a mesma coisa que era antes Luiza – Respondeu Joshua baixando as mãos e respirando fundo – Humana.

- Mas, e a Anita? – Gaguejei – Eu não entendi o que aconteceu com ela.

- Pelo que eu pude perceber – Josh não sabia se ficava confuso ou nervoso – O vampiro queria um filho e usou essa garota para conseguir, mas... Não se preocupe Luiza, ela era humana quando você nasceu, não há nada que diga que você é diferente.

- Mas se eu sou filha de uma humana com um vampiro, significa que tenho o gene vampiro dentro de mim, não é? Se provar de sangue humano me transformo como vocês...

- Não vamos fazer o teste! – Nick parou meus pensamentos antes que fossem para um caminho mais sombrio.

Joshua se levantou e andou até a porta, onde parou e olhou pra mim:

- Venha Lu, é melhor deixarmos a sua mãe descansar.

Concordei com a cabeça e Nick me ajudou a levantar, embora eu não precisasse mais de apoio. Caminhamos juntos até a porta onde ele parou e rosnou baixinho pro irmão:

- Não chame ela desse jeito.

Josh riu debochado e orgulhoso consigo mesmo, depois nós três fomos para o quarto onde eu estava antes, nenhum dos dois queria que eu descesse as escadas e não vou contrariar dessa vez:

- O que a gente faz agora? – Perguntei apoiando as costas na parede.

- Temos que ir para algum outro lugar – Respondeu o mais velho – Assim como os vampiros de ontem nos encontraram, outros virão e não daremos conta de todos.

- Não acho que a Luiza esteja pronta pra sair daqui. – Nick estava bem sério.

- Eu estou sim Nick, na verdade o que eu mais preciso é me afastar o máximo desse lugar... Tenho um plano. Minha mãe precisa ir para o hospital, as pessoas que morreram precisam de um fim e nós precisamos voltar para a estrada então... Sugiro um incêndio.

- Quer incendiar a pensão? – Nick se assustou, ele não esperava essa.

- Quero. – Mantive o tom calmo para mostrar que falava sério – Assim os corpos somem... E esse lugar também.

Joshua acenou com a cabeça mostrando que apoiava a minha decisão, Nick não aprovava, mas não contrariou. Eles levaram a minha mãe pro hospital da cidade mais próxima, onde inevitavelmente ela entrou em coma, depois conseguiram um carro deus sabe onde, e logo no início da noite a enorme casa onde meus pais me criaram foi engolida pelas chamas.