Finais Felizes
16 Capítulo 16
Abri meus olhos com muita dificuldade, minhas pálpebras pareciam pesar uma tonelada cada. O quarto estava com as cortinas fechadas, e quase não tinha iluminação. Impulsionei meu corpo para frente pra tentar levantar, mas algo segurou meu ombro, voltando a me deitar delicadamente. O toque era familiar, mas minha mente estava muito embaçada pra tentar reconhecer, então optei por simplesmente olhar quem era.
– Evite fazer esforço – Escutei a voz de Josh – O veneno se espalhou muito depressa.
– O-O que aconteceu? – Minha voz mal saiu, mas ele ouviu perfeitamente.
O rapaz comprimiu seus lábios em uma linha fina e me olhou preocupado, minhas lembranças estavam todas embaçadas, eu não estava certa do que havia sido sonho ou sido real. Ele acariciou ternamente o meu rosto antes de murmurar de forma calma:
– Você é muito especial Lu.
Senti uma leve ardência nos olhos e percebi que estes estavam lacrimejando, aos poucos a lembrança do que fiz à Julie voltou me deixando com o coração extremamente apertado.
– Eu... Eu a matei? – Perguntei sem ter certeza se realmente queria a resposta.
Joshua se limitou a negar com a cabeça, estava claro que aquele era um assunto o qual ele não se sentia a vontade pra falar, mas eu tinha perguntas a fazer.
– Como... Fiz aquilo?
– Não sei direito. Como você sabe, não existem muitos filhos de vampiros com meio-sangues. Não existe... Um vampiro puro.
– É isso que eu sou? – Minha voz estava um pouco mais forte – Como chama? Sangue puro? Não me sinto tão “pura”!
– Luiza, entenda, você não é má. – Sua voz era calma e em tom suplicante.
– Se fiz metade do que acho que fiz então eu sou sim, Josh. Sou má! – Dei um longo suspiro antes de continuar falando – Eu podia ver a corrente sanguínea, e isso me deixou com água na boca. Eu ouvia os batimentos de vocês e achei agradável. Eu estava me divertindo com a situação. Se isso não é ser má...
A frase morreu no ar e eu fechei meus olhos de forma cansada. Senti-o segurar a minha mão e levar até seus lábios roçando-os de leve em meus dedos. A sensação que tive foi aconchegante, nenhum fogo ardente, mas um calor acolhedor de verdade.
– Eu sei o que quer dizer pequena, foi igual comigo. Não pretendo mentir pra você e dizer que fica mais fácil com o tempo, mas sua preocupação mostra que ainda é humana. E isso de fato me deixa extremamente orgulhoso. Sei que tem um coração maravilhoso Luiza.
Quando dei por mim já estava chorando.
– Não tenho não, Josh! Aquilo, com a Julie... Foi mentira! Eu não estava fazendo aquilo pelo Jefferson, estava fazendo por mim, pelo Nick... Por ciúmes! Eu não sou alguém equilibrado, e posso fazer de novo. Posso atacar outra pessoa. Posso matar alguém...
– Você não faria isso – Joshua tentou secar as lágrimas que corriam livremente pelo meu rosto – Sei que não faria. Fique calma.
– Mas eu já fiz! Aquele vampiro na casa dos meus pais. Ele morreu quando bebeu do meu sangue, sou um veneno, fui feita para ser uma arma. Nem sabemos explicar porque você sobreviveu após me morder.
– Pare de colocar ideias tolas na cabeça. Acharemos respostas para as perguntas que forem realmente pertinentes. – Com isso beijou a minha testa – Agora descanse. Precisa se recuperar logo para sairmos desse lugar.
Com certeza nada me motivaria mais do que a vontade de ir embora. Segurei firme a mão do rapaz ao meu lado e logo adormeci profundamente. Quando abri meus olhos outra vez, percebi uma figura sentada ao pé da cama de costas para mim.
– Nick? – Chamei-o esboçando um leve sorriso em meus lábios.
– Como se sente? – Perguntou frio, sem se virar.
– Como se tivesse sido atropelada por um caminhão. – Ri sem humor e ele se levantou, caminhando em direção à porta.
– Troque de roupa e me encontre no Hall.
Ele saiu do quarto fechando a porta atrás de si. Fiquei estática encarando o nada, ele nem olhou pra mim... Levantei-me sentindo meu interior formigar e cambaleei até a cômoda. O vestido que Jefferson me deu estava muito manchado de sangue e as costas abrigavam um rasgo feito pelas garras de Julie. Apanhei a capa vermelha e quando a vesti, esta se moldou sobre os restos do vestido que cobria-me o corpo transformando tudo em uma regata com um moletom por cima, e uma calça jeans resistente e escura. Assustei-me com a mudança e fiquei encarando meu reflexo no espelho gasto, a única coisa que ainda indicava a presença da capa era o forro vermelho do moletom. Terminei por calçar as mesmas botas de antes e saí para o corredor.
– Você parece bem melhor! – Comentou Josh sorridente quando cruzei a porta.
– Pena que é só a aparência. – Respondi mordendo o lábio inferior de forma insegura.
Ele segurou o meu queixo com uma mão e me fez olhar em seus olhos verdes:
– Você é uma mulher incrível Luiza. Não deixe que nada te abale.
Por um momento as senas do dia anterior me bombardearam, tornando meu semblante triste.
– Como pode dizer isso depois de me ver em um estado tão...
– Não pense nisso! – Josh entrelaçou seus dedos nos meus – Venha, vamos encontrar Nicolas antes que ele venha atrás de nós.
Assenti silenciosamente e fomos caminhando pelos corredores em direção ao Hall. Meus músculos estavam doloridos, provavelmente pelo esforço recente, mas tentei impedir que isso transparecesse. Também não queria causar problemas entre os irmãos, então tratei de soltar a minha mão da de Joshua assim que avistei a jaqueta de couro do meu namorado.
– Não gosto deste lugar – Comentou bem humorado o de cabelo castanho – Sinto-me sendo observado.
Nenhum de nós respondeu sua tentativa de fazer humor, afinal nós três tínhamos plena certeza de que Serenity realmente observava. O silêncio reinou durante a nossa caminhada pelo jardim até o grande carvalho, este estava com o tronco bastante chamuscado e quebradiço, bem diferente de como eu me lembrava, mas da mesma forma que antes, ele se incendiou, abrindo um véu para que passássemos.
– Que lugar é este? – Perguntei ao me deparar com uma floresta fechada e sem sinal de qualquer estrada perto.
Os rapazes ficaram estáticos por um tempo, acho que também não esperavam estar naquele lugar. Era quente e abafado como uma floresta tropical, não havia caminho de volta, e não sabíamos onde estávamos. Num susto senti os braços fortes de Josh me abraçarem, e este me carregou para um pouco mais distante, onde colocou o seu corpo como um escudo para me proteger. Já estava abrindo a boca para perguntar o que estava acontecendo, quando ouvi um baque surdo e pedaços de troncos voaram para todos os lados.
– Tire-a daqui! – Bradou Nick com a voz meio engasgada, como de houvesse pressão sobre a sua garganta.
O outro não hesitou em me colocar nas costas e começar a correr muito rápido, não consegui ver o que estava acontecendo, mas claramente estávamos em perigo. Passávamos entre as árvores tão depressa que estas se tornaram apenas borrões aos meus olhos. Eu podia escutar barulhos altos vindos de algum lugar distante, como algo se quebrando ou alguém gritando, meu coração apertou só de imaginar que poderia ser Nick. Josh permanecia com os músculos retesiados e vez ou outra mudava de direção, como se percebesse algum obstáculo à frente.
– O que est... – Fui impedida de concluir o pensamento por algo pesado que nos atingiu, ou algo que nos atingiu com força.
Caímos os dois no chão e eu escorreguei para um barranco, tendo que me segurar na raiz de uma arvore.
– Lu!
Joshua se inclinou sobre o barranco para me ajudar, mas foi impedido por um soco no rosto que o fez cambalear para longe. Meu amigo se recompôs e olhou para seu oponente, um rapaz ruivo, com o rosto cheio de pintinhas que podia ser mais novo do que eu.
– Nós confiávamos em você, senhor – O garoto parecia desolado – Traiu o clã inteiro como o seu irmão.
– Kyle, por favor – Tentou Josh – Tem mais coisas envolvidas nessa história do que você pode compreender no momento...
– Por que não tenta? – Rebateu o outro o encarando de frente – Eu estou aqui agora, estou ouvido. Por que não me fala o que o torna diferente daquele traidor do sangue?
Josh tinha quase duas vezes a altura de Kyle e parecia mais forte também, mas permanecia com os ombros encolhidos e pronunciava suas palavras com extrema cautela. Eu sabia muito bem o porquê desse cuidado todo, o garoto estava na metade do caminho entre nós dois. Qualquer coisa que Josh pensasse em fazer com Kyle, esse poderia facilmente fazer comigo primeiro.
– Nicolas não traiu o nosso clã Kyle, mas alguém o fez. Sei que fui eu mesmo a fazer a denúncia, mas não estava em minha plena consciência – O garoto escorregou de leve o pé no cascalho e soltou uma lufada de ar, claramente não estava acreditando – Eu entendo, não é fácil de acreditar, mas você precisa fazer um esforço... Pense, o que eu ganharia traindo a minha família? – O ruivo pareceu ponderar – Nada. Não ganharia nada e viraria brinquedo de caça para toda a eternidade.
– Há um mês vocês mataram Gasper! – A menção a esse nome fez meu estômago embrulhar, espera, ele disse um mês? – Vai dizer que não estava em sua plena consciência?
– Ele veio atrás de nós Kyle, você o conhecia! Sabe como era! Não queríamos mata-lo, foi... Um momento infeliz...
Havia dor nas palavras de Josh. Eu ainda não tinha visto as coisas pelo lado deles, não fui a única a perder a família naquela noite na mansão. Minha mão que segurava a raiz começou a escorregar, fazendo com que a madeira arranhasse a sua palma.
– Eles não vão acreditar senhor – O ruivo falou depois de um breve momento de silêncio. Seus olhos encarava o chão de forma meio perdida – Em nada que disser. Os Assamites já estão levando o seu irmão, e virão atrás do senhor também.
– Por que está com os Assamites Kyle?
– Alguém precisava guia-los...
– Onde nós estamos? – Dessa vez a voz de Josh saiu firme e ele endireitou os ombros, mostrando sua superioridade em comparação o oponente.
– No leste – Informou o outro – Próximo o acampamento dos Ravnos.
Ravnos? Onde eu já escutei esse nome antes? Foi então que me lembrei da primeira visão que tive na cachoeira de gelo “Cuidem para que o nosso convidado aproveite da hospitalidade Ravna”. Estas foram as palavras de Anita... então não estamos longe do nosso objetivo. Nesse momento escorreguei mais um pouco e a raiz acabou cortando a palma da minha mão.
– O que é isso?! – Kyle pareceu ter finalmente me notado – O que essa coisa tem nas veias?
Joshua finalmente veio ao meu socorro, tirando-me do barranco enquanto o outro cobria o nariz apertando-o contra a parte interna do cotovelo. Assim que me sentei no chão mais plano, uma parte da manga do meu moletom escorregou até a minha palma e pressionou o corte enquanto envolvia a minha mão como uma bandagem, por fim se tornando independente do casaco e sendo uma tira de pano vermelha que me servia de curativo.
– Esta é Luiza Swan – Josh não pareceu nem um pouco abalado com o último acontecimento – Ela é a única pessoa que pode nos ajudar a concertar tudo.
O ruivo me analisou atentamente com seus olhos felinos, ele tinha o cenho franzido e uma expressão pensativa, como se ponderasse se devia confiar em mim ou quebrar o meu pescoço... Mas ele não avançou em mim quando comecei a sangrar, isso deveria ser um ponto positivo, não?
– Saiam daqui o mais rápido possível – Falou finalmente – Vou tentar criar uma distração, mas precisam agir depressa.
Josh afirmou com a cabeça e tornou a me acomodar em suas costas, então se virou mais uma vez para o garoto:
– Kyle, sei que é pedir demais, mas... Cuide do Nicolas.
– Não prometo nada. – Respondeu o outro dando-nos as costas e partindo pelo caminho o qual viemos, então Josh começou a correr na direção contraria.
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