A luz da manhã era fraca, e a cama quentinha, tão aconchegante que não dava vontade de levantar. Só acordei quando Jeferson começou a chamar o meu nome. Sentei-me gemendo e comecei a tentar desembaraçar o cabelo com as pontas dos dedos. O rapaz me ofereceu uma caneca que continha um líquido fumegante, o cheiro não era dos mais agradáveis, mas ele me garantiu que aquilo me manteria aquecida, então não tive escolha a não ser mandar pra dentro. Não tinha gosto de nada e não estava quente a ponto de me queimar, mas em poucos segundos precisei jogar os cobertores para longe e Jeferson danou a rir da minha cara.

- Ha ha ha. Engraçadinho – Coloquei-me de pé com as mãos nos quadris – Podia ter me avisado!

- Não. – Ele fez uma careta de menino travesso – Assim foi melhor. Mas não se preocupe pelo menos a poção não vai te deixar congelar.

O rapaz calçou as botas e saiu da cabana mandando eu me apressar. Corri até o armário onde estavam as roupas da mãe dele e encontrei um belo par de botas impressionantemente preservados apesar do tempo, e que por sorte me serviram. Vesti a mesma capa do dia anterior e saí da cabana torcendo para que Jeferson não tivesse ido longe demais. Encontrei-o de braços cruzados e com as costas apoiadas em um pinheiro. Seu grande casaco de pele estava aberto e eu pensei se a camisa branca era suficiente para lhe aquecer o peito. Ora, se eu que sou eu não congelei ainda, ele também não vai. Jeferson não esperou que eu me aproximasse para retomar a caminhada e como consequência, fiquei um pouco para trás na trilha.

Ele avançava seguro e experiente pela floresta, enquanto eu me atrapalhava completamente com a facilidade com que meus pés afundavam na neve, e mais de uma vez o rapaz precisou voltar para me ajudar a ficar de pé.

- Como alguém tão leve afunda tão fácil? – Pensou Jeferson em voz alta quando estendeu o braço para que eu me apoiasse.

Com certeza a minha dificuldade em atravessar a floresta branca atrasou os nossos planos, mas ele não demonstrou qualquer frustração, parecia até estar se divertindo.

- Para onde estamos indo? – Perguntei desenterrando um dos pés.

- Para um lugar chamado Cachoeira de Gelo. – Ele respondeu levantando um galho para que pudéssemos passar.

- O nome é interessante! Deve ser um lugar bem especial!

- É o centro espiritual desse lugar. – Ele disse – Acreditam que a cachoeira responde algumas das nossas perguntas... Mas só algumas.

- Tem haver com magia, não é? Algum feiticeiro ou feiticeira que viveu aqui?

- É... Algo do tipo.

Respirei fundo e fiquei quieta por um tempo, a floresta inteira era muito quieta. Só conseguia ouvir o soprar do vento ser cortado pelos galhos das copas das arvores, e os nossos passos confusos na neve.

- Você disse que todas as pessoas moram num vilarejo longe daqui, mas e os animais? Onde estão?

- Os animais previram o perigo e foram embora. Sabem que não podem confiar na criatura que se esconde entre essas arvores.

A voz de Jeferson se manteve calme, e ele não demonstrou qualquer alteração no comportamento, imaginei que não estivesse dizendo aquilo só para me assustar, mas parecia um discurso bem ensaiado, ou algo que ele repetiu até que pudesse dizer com naturalidade. Senti calafrios que não estavam relacionados com a temperatura ambiente e me agarrei com mais força ao seu braço.

- A-Acha que devo me preocupar? – Gaguejei.

- Não – Ele respondeu me puxando com mais força para que apressássemos o passo – Basta ir embora o quanto antes.

Tropecei em uma raiz, mas consegui ficar de pé, isso me fez pensar em quando Jeferson pulou da arvore e foi para o chão sem qualquer lesão aparente. Pensei na forma como ele falou dos vampiros, Joshua falou da mesma forma quando nos conhecemos, apenas mais conformado.

- Jeferson, eu... Se me permite perguntar... – Suspirei e mudei a pergunta no último instante – O que aconteceu com a sua mãe?

Ele parou de andar por uns segundos e então retornou de cabeça baixa, estava óbvio que era um assunto doloroso.

- Meu pai era lenhador... Ele morreu quando eu ainda era muito pequeno. Minha mãe era jovem e teve que sustentar a casa sozinha. Tornou-se dona de um boticário, mas foi mal vista pelas pessoas da vila...

- Me desculpe – Desenterrei os pés – Mas ao meu ver essas pessoas são ultrapassadas. Uma mulher que trabalha para cuidar da casa e do filho pequeno não é motivo de vergonha, e sim de orgulho.

- Isso aconteceu há muito tempo. – Ele puxou o capuz de forma que eu não pudesse mais ver o seu rosto.

Continuamos avançando em silencio por um longo tempo, e tive a sensação de o solo inclinou, estávamos subindo. Escorreguei em um ponto e Jeferson me amparou, mas não disse uma única palavra, fiquei imaginando o que eu poderia ter dito para magoa-lo daquele jeito.

- Diziam que ela fazia bruxaria – Assustei-me quando a voz dele rompeu novamente a calmaria da floresta – Todos tinham medo dela e as crianças fugiam de mim. No início me incomodava, mas depois passei a ignorar.

Embora estivesse atenta, evitei olhar para ele e disse a mim mesma que não faria mais comentários.

- Uma noite ela me mandou ficar no quarto e trancar a porta, não sair por absolutamente nada. Eu fiz o que ela mandou e fiquei lá por um bom tempo, até que escutei vozes na cozinha, ela não estava só. Não resisti à curiosidade e fui ver o que estava acontecendo.

Pensei ter ouvido um barulho mais acima na colina, mas Jeferson não manifestou interesse, então julguei ser a minha imaginação e continuei escutando o seu relato:

- Havia um homem com ela. Minha mãe queria alguma coisa, mas ele se recusava. Havia sangue em sua boca, mas isso não parecia incomoda-lo. Ela continuou implorando agarrada a camisa dele, e parecia que o homem estava cedendo. Ele a empurrou de leve para que o soltasse e foi quando vi a ferida no pescoço dela, o sangue que estava na boca do homem era o sangue da minha mãe.

Jeferson usou a outra mão para apertar a minha que estava em seu braço.

- Arquejei assustado e foi então que ele me viu, não cheguei a fazer barulho, portanto sua audição era realmente boa. O homem me encarou por um tempo com a expressão indecifrável, então seu rosto se contorceu em uma careta de raiva e ele colocou minha mãe contra a parede falando algo em seu ouvido. Ela gritou em protesto e então o cara foi embora a deixando chorando no chão.

- É por isso que odeia os vampiros? – Perguntei relutante – Porque eles atacaram a sua mãe?

- Eu comecei a odiar os vampiros, porque depois desse ataque, a minha mãe ficou obcecada. Queria encontra-lo a qualquer custo e foi então que percebi que as pessoas da vila estavam certas... – Havia amargura em sua voz – Ela era uma bruxa.

Jeferson parou de andar e suspirou fundo antes de ficar de frente para mim. Seu rosto estava vermelho.

- Ela me culpou pelo vampiro ter ido embora naquela noite, mas eu não entendia, isso deveria ser uma coisa boa.

Escutei novamente o barulho mais a diante, não pode ser a minha imaginação.

- Depois de alguns meses fazendo poções e feitiços, apareceu uma mulher na nossa casa e minha mãe foi embora com ela... Deixando-me sozinho.

O rapaz me deu as costas e encarou o topo da colina.

- A procurei durante anos. Aos poucos fui aprendendo sobre as diversas feras que existem, e me tornei o que podemos chamar de “caçador”. Mas me distraí e acabei sendo pego pelos Gangrel.

- O que são Gangrel? – Perguntei quando vi que ele não explicaria.

- Fica atrás de mim, Luiza!

Abri a boca para questionar a sua ordem, e foi quando notei o motivo de ele estar olhando para cima na colina. Vários animais parecidos com lobos de gelo, mas do tamanho de leões, estavam nos encarando com seus dentes pontiagudos a mostra. Eles rosnavam em um tom baixo e harmônico que eu não identificaria se não estivesse olhando para a sua fonte.

- Gangrel são vampiros – Falou Jeferson sem olhar para mim – Com a capacidade de mudar de forma.

Com isso ele jogou o seu pesado casaco na neve e se inclinou na direção das feras. Seus ossos começaram a se mexer sob a pele moldando uma nova estrutura. Sua boca se alargou mostrando fileiras de dentes pontiagudos, enquanto seus olhos se transformavam em amarelados e animalescos. Seu corpo todo foi coberto por uma pelagem espessa e escura enquanto ele se curvava para o chão. Logo o que estava na minha frente não era mais Jeferson, e sim um lobo tão grande quanto os outros.