Finais Felizes
1 Capítulo 1
“Aparentemente eu não fui feita para ter finais felizes” gritei batendo a porta atrás de mim. Caminhei mecanicamente até o meu quarto no fim do corredor e não pude deixar de estremecer quando passei pela porta aberta do cômodo mais sombrio da casa. Para dizer a verdade, há duas semanas eu chamaria aquele cômodo de tudo menos sombrio, mas agora que o sangue e as lembranças o marcaram, eu sabia que nunca mais poderia entrar lá.
Maldita a hora em que os meus pais resolveram transformar a nossa casa em pensão, uma casa é para uma família morar e não qualquer estranho que a gente nem conhece. Cansei de ouvir a mamãe dizer “Acalme-se Luiza, não é o fim do mundo” pois agora não tem como contestar o fim do meu mundo.
Ainda posso ver o momento em que ele chegou, era manhã de sábado e as panquecas tinham acabado de ser servidas, viam-se braços de todos os cantos da mesa para tentar garantir o seu café da manhã, parecíamos lobos esfomeados. Papai entrou na cozinha acompanhado de um novo hóspede, ele tinha chegado de madrugada em meio a tempestade e eu ainda não tinha tido a chance de vê-lo. Tratava-se de um rapaz alto e forte, de pele clara, cabelos negros e olhos azuis. A primeira vista todas as mulheres da casa sofreram de falta de ar, ele era lindo, mas trazia consigo um ar pouco confiável que me liberou do transe hipnótico rapidamente, aproveitei a distração dos demais e me servi das panquecas. O movimento da casa não se normalizou com o decorrer do dia, na verdade Nicolas tinha conseguido abalar as estruturas da pensão de uma forma até engraçada, apesar de se tratar de um cara jovem, acho que uns 20 anos, até as senhorinhas suspiravam quando ele passava.
Não mudei a minha rotina por isso, o Nicolas era só mais um hóspede, e mantive esse pensamento firme até a mulherada começar a colocar coisas na minha cabeça, quem o observou atentamente pela semana que se sucedeu viu claramente que o cara não falava muito do passado, restringia as conversas à monossílabos, nunca comia com a gente e mantinha o conteúdo de seu quarto em total sigilo. Sozinha eu nunca teria percebido essas coisas, quero dizer, meus hábitos não eram muito diferentes e o que chocava a Sra. Moura e a dona Shirley para mim não passavam de informações triviais. Mas admito que na sexta fiquei curiosa quando ele saiu todo nervoso resmungando alguma coisa em outra língua, tentei ignorar e voltei a minha atenção para as tarefas da faculdade, mas a mamãe me chamou e pediu para que eu trocasse a roupa de cama do quarto dele.
Subi as escadas arrastando os pés e entrei no cômodo que permanecia tão normal quanto antes de ser habitado. Me peguei rindo quando vi que poderia afirmar com veemência que o nosso hóspede não tinha nada de anormal. Todas as enxeridas de plantão estavam se espremendo no corredor para tentar dar uma espiada nas coisas do rapaz, mas eu as ignorei e me concentrei em cumprir a tarefa que tinha me mandado ali. Terminei de forrar a cama e estava pegando os lençóis sujos quando vi o notebook aberto, sei que é errado bisbilhotar, mas eu não podia decepcionar o meu eu curioso. Tinha duas janelas abertas, uma era de um jornal que mostrava a notícia de um homem que foi atacado por um cachorro e acabou todo estraçalhado. A outra mostrava um mapa do estado, e tinha vários pontos marcados.
Nada daquilo era absurdo, um pouco estranho talvez, mas tolerável. Passei os olhos pela escrivaninha e vi um papel com alguns nomes escritos em uma letra caprichada: Caroline, Samantha, Ester e Julie.
Dei uma risadinha, aquilo eu ia fazer questão de contar, e depois me virei para sair do quarto, mas como sou muito estabanada acabei tropeçando em um sapato e caí de cara no carpete. Ia me levantar quando reparei em algo escuro embaixo da cama, eu teria ignorado se as minhas suspeitas não fossem tão sinistras então me vi esticando o braço para alcançar, seja lá o que fosse, puxei para perto e congelei, tratava-se de uma bolsa de sangue:
– O que você está fazendo? – Perguntou uma voz grave atrás de mim.
Me apressei em soltar a bolsa e me pus de pé segurando os lençóis:
– Só vim trocar a roupa de cama e acabei tropeçando. – Respondi seca e sem conseguir olhar para ele.
Senti os olhos de Nicolas em mim até que eu descesse as escadas e por isso só deixei minha postura rígida quando cheguei à lavanderia. Passei o resto da tarde com a sensação de estar sendo vigiada e quase surtei, não aguentei esperar o jantar e resolvi sair para dar uma volta. Entrei na minha caminhonete e peguei a estrada com o rádio bem alto para espantar qualquer pensamento perturbador, caso o som não funcionasse também tinha as janelas que mantive bem abertas para sentir o vento no máximo de sua intensidade.
A minha casa fica em uma chácara afastada, e meus tios sempre compararam a um hotel fazenda, o único meio de acesso é uma estrada de terra comprida que leva até a rodovia principal. Eu estava atravessando esse caminho de terra quando vi alguma coisa pular no banco ao meu lado, me apavorei e freei bruscamente derrapando com as rodas. Afrouxei o cinto de segurança no meu pescoço e comecei a gritar:
– O que você tá fazendo? Seu louco... Sai do carro!
Nicolas estava sério de uma maneira apavorante, ele desligou o rádio e puxou os meus braços até a altura dos seus olhos. Tocou com a ponta dos dedos o esfolado que o carpete me deixou e depois me soltou rosnando. Eu estava completamente horrorizada e não sabia como reagir, abri a boca para tentar falar alguma coisa, mas ele foi mais rápido:
– Não devia ter entrado no quarto!
– Então da próxima vez deixa um aviso na porta “Não perturbe”.
– Por que mexeu no computador? – Como ele sabia disso?
– Não pretendia... Me desculpe – Gaguejei quase sem voz – Mas não vi nada...
– Você não viu, mas eles te viram.
– Eles quem? – estudei seu rosto apavorada.
– estão me perseguindo há semanas, e agora vão atrás de você. — Seu olhar era tenso.
– Quem?
– Os outros como eu.
“Os outros como eu”, oque? Maníacos psicóticos? Deixei clara a interrogação na minha testa e ele respondeu irônico e impaciente:
– Ah, por favor... Pense um pouco.
Me senti frustrada de não achar uma resposta imediata, forcei a minha mente e chutei uma resposta ridícula:
– Vampiro?
Ele arqueou uma sobrancelha questionando a minha interrogação:
– Vampiro. – Afirmei para mim mesma chocada.
Nicolas passou o braço pela minha cintura e trocou de lugar comigo assumindo o volante. Fiquei sem reação, eu só tremia sem saber o que fazer:
– Você vai me matar? – Honestamente não queria a resposta.
– Não. – Ele foi seco e começou a avançar com a caminhonete pela estada que começava a escurecer.
– Por que não? – Minha pergunta causou um olhar curioso, mas não teve resposta.
O sol estava se pondo e não estávamos voltando para a pensão, a estrada de terra foi substituída pelo asfalto da principal e eu me virei para ele:
– Por que estão atrás de você?
– Fiz umas escolhas perigosas nos últimos anos e teve quem não gostasse.
– Bem específico!
– Quer mesmo os detalhes?
Ponderei antes de responder baixinho:
– Não.
Avançamos no silêncio por vários quilômetros e os minutos se arrastaram, por fim perguntei:
– Para onde está me levando?
– Preciso resolver um assunto e você vai comigo.
– Pra quê? – Pulei no banco.
Nicolas me olhou de rabo de olho e suspirou antes de responder:
– Os vampiros que estão atrás de mim hackearam a minha webcam e te viram no quarto mais cedo... Eu sou um vampiro, indetectável, mas você está no sistema do governo e é muito fácil te achar. Se voltarmos agora você e todos na pensão morrem.
Senti um tremor chegar as minhas pernas e um calafrio percorrer a minha espinha, ele tava mesmo falando sério? Fiquei olhando o meu reflexo pálido no espelho retrovisor:
– Por que se importa comigo?
Ele deu de ombros e ligou o rádio para encerrar a conversa. Devo ter cochilado, pois só me lembro de abrir os olhos e ver o carro parando em uma lanchonete:
– O que estamos fazendo aqui? – Perguntei.
– Você é humana – Ele deu um sorriso – E ainda não jantou.
Na verdade eu também tinha dispensado o almoço mais cedo e por isso não questionei sua dedução de que eu estava com fome. Fiz um grande esforço para soltar o cinto de segurança, já que as minhas mãos não paravam de tremer, e foi quando vi o braço musculoso de Nicolas atravessar a minha frente e me liberar. O rapaz tinha saído, dado a volta no carro e aberto a porta para mim – Que cavalheiro – agora mantinha a mão estendida para me ajudar a descer, mas dispensei o seu gesto e caminhei com as pernas bambas até a lanchonete.
Cutuquei o peito de Nicolas dizendo que ele iria pagar a conta e pedi um sanduíche do tamanho da minha fome, que por sinal era imensa, ele riu divertido e foi até o caixa enquanto eu me sentava em uma das mesas, fiquei observando sua figura alta enquanto ele pagava o meu lanche e paquerava a garota do caixa, dali a alguns minutos ela pediu para que uma outra a substituísse e saiu com ele para os fundos da loja. No momento em que fiquei ali sozinha, me lembrei da lista de nomes que encontrei no quarto dele e deixei escapar uma risadinha, tentei contê-la dando mordidas no sanduíche, mas ela se tornou uma crise de risos nervosos e acabei atraindo olhares.
Já estava terminando de comer quando o vampiro se sentou a minha frente e tomou um grande gole do meu refri:
– Você demorou. – Comentei em tom brincalhão.
– Um vampiro precisa comer. – Ele respondeu com um sorriso de malícia.
Dei um pulo na cadeira e me virei para olhar a garota que tinha retomado o serviço, ela estava usando um lenço no pescoço:
– Está louco? E se ela fala pra alguém sobre você?
Ele riu achando a minha reação divertida:
– Obrigado por se preocupar comigo.
– Não me preocupo. – Retruquei séria.
– De qualquer forma obrigado. Mas não há motivo para alarme, você vê vampire diares? ela não se lembra de nada.
Pensei por um momento e me lembrei que, pelo menos na série, os vampiros podiam hipnotizar as pessoas:
– Você a hipnotizou? – Perguntei e ele assentiu com a cabeça – Então por que não...
Minha frase morreu pelo caminho quando me veio a mente a ideia de que ele podia sim ter feito o mesmo comigo. Passei a apalpar as partes do meu corpo que não estavam visíveis, a procura de qualquer coisa que pudesse indicar que eu tinha sido vítima de um ataque vampiresco:
– Eu não hipnotizei você Luiza. – Sua voz era sincera, mas ele tinha no rosto um ar de malícia.
– E por que não? – Perguntei sem pensar.
Nicolas riu e ficou pensativo por um minuto antes de responder:
– Quando se hipnotiza alguém, essa pessoa vira um fantoche. E estar com um fantoche é o mesmo que estar sozinho.
– Então foi por isso que me trouxe com você. – Pensei — Você tá se lixando pra proteger a minha vida, só não queria ficar sozinho.
– Pode até ser – Ele me encarou – Mas isso não muda o fato de que você está sim correndo perigo.
– Vai me falar mais sobre esse perigo?
– Quem sabe amanhã? – Ele disse indiferente e se pôs de pé me apressando – Vamos embora?
Quando voltamos para a caminhonete eu não demorei até pegar no sono outra vez.
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