Abri os olhos com dificuldade, meu corpo todo estava dolorido e eu não conseguia me mexer. Olhei ao redor e não reconheci o quarto, o teto estava mofado, as cortinas estavam fechadas, e tudo era uma confusão como se ali estivesse um animal selvagem. Olhei para mim mesma, minhas roupas estavam rasgadas e eu sangrava muito. Pensei em gritar e pedir por ajuda, mas não tinha voz, minha garganta ardia como se eu tivesse gritado por horas. A porta se abriu e vi alguém entrar, era um homem, mas eu não consegui ver seu rosto. Ele se aproximou e correu as mãos pelos meus braços, não era o Nick. O homem levou sua boca até o meu pescoço e mordeu com força, nunca senti tanta dor na minha vida, eu sentia o sangue quente escorrer pelos cantos de seus lábios, mas não podia fazer nada pra me defender. Por fim desmaiei de novo.

Dessa vez quando acordei me vi no meu quarto na pensão dos meus pais, eu vestia o meu pijama e havia cortes pelos meus braços e pelas minhas pernas. Me pus de pé com dificuldade, pois tudo me doía, e lentamente fui arrastando os meus pés pelo corredor, desci as escadas apoiando quase todo o meu peso no corrimão e ouvi a barulheira habitual da cozinha. Quando me viram, meus pais e os hospedes mais antigos correram pra me abraçar e saber como eu estava:

- O que aconteceu? – Gemi com a voz fraca quando me sentei à mesa do café.

- Você sofreu um acidente de carro Luiza. – Disse o meu pai – Ficamos apavorados quando a polícia ligou...

- Cadê o Nick? – Olhei ao redor e não o encontrei.

- Quem? – Perguntou a minha mãe.

- O Nicolas, mãe cadê o Nicolas.

Eu tinha perdido a paciência e minha mãe ficou confusa:

- Ah filha, o Nicolas foi embora há alguns dias.

- Alguns dias? – Gaguejei – Que dia é hoje?

- Quinta-feira. – Respondeu a Sra. Moura consultando o calendário da parede.

- Quinta? – Me assustei – Quando foi esse acidente?

- Sexta-feira passada filha – Meu pai me olhava preocupado – Você não se lembra?

Não, como poderia me lembrar? Sexta passada eu saí em viagem com o Nick. Minha mãe me ofereceu um copo de suco de maracujá, mas eu dispensei e fiquei tentando entender o que estava acontecendo. Ouvi a dona Shirley sussurrar “Acabou de acordar e a primeira coisa que faz é perguntar por homem” e a Sra. Moura respondeu “ Eu falei pra você que os dois estavam tendo um caso, ela só se fazia de desinteressada”. As palavras daquelas duas queimaram nos meus ouvidos como ácido e eu perdi a cabeça:

- Olha aqui, com quem eu tenho um caso ou não, não é da conta de vocês. Então não me acompanhem porque eu não sou novela pra entreter desocupados.

- Ô Luiza, — Minha mãe estava mais assustada do que brava – Isso é jeito de falar?

- Cheguei em má hora? – Perguntou uma voz grave e desconhecida.

Me virei para olhar o rosto do homem que tinha acabado de entrar na cozinha. Ele parecia jovem e admito que era bonito, mas não era o Nick, e foi por isso que os suspiros da mulherada da pensão me irritaram tanto:

- Você deve ser a Luiza – Ele estendeu a mão que estava coberta por uma luva – Todo mundo aqui só falava de você. Eu sou Daniel.

- O Daniel é o nosso novo hospede. – Disse o meu pai meio receoso.

- Seja bem vindo. – Forcei um sorriso e apertei a sua mão que ainda estava estendida.

Depois disso eu não sei como, mas recuperei as minhas forças o suficiente para voltar pro meu quarto sem mancar ou me arrastar. Fiquei sentada na cama pensando e analisando os cortes dos meus braços. Como isso podia estar acontecendo? Porque o Nick não estava comigo? Por que estavam todos mentindo? Permaneci trancada no quarto a manhã inteira e meu choro foi abafado pelo barulho da chuva forte. Também dispensei o almoço e fui para a varanda onde sentei em uma das velhas cadeiras de balanço e meus pensamentos se perderam entre as gotas de chuva:

- Gosta quando chove? – Daniel se aproximou e sentou na segunda cadeira.

Eu puxei as mangas do meu moletom para que cobrissem as mãos e murmurei:

- Prefiro o sol.

- Eu gosto de chuva – Ele me lançou um sorriso – Me da uma sensação de liberdade.

Pela primeira vez analisei a sua aparência, Daniel era alto e forte, seus cabelos castanhos estavam penteados para trás e ele tinha profundos olhos verdes. Ficamos calados olhando a chuva e o vaivém das pessoas que tinham que sair pra cumprir com as suas rotinas:

- Desculpa perguntar – A voz dele era vacilante – Eu sei que você sofreu um acidente, mas... É que parece que está triste. Posso fazer alguma coisa?

— Não tem nada pra ser feito. – Respondi em voz baixa – É só que o passado ficou confuso de repente.

- E não seria melhor deixar no passado? Você sabe... Esquecer.

Esquecer o Nick? Está fora de cogitação! Eu sabia que o Daniel não tinha dito por mal, mas aquilo me queimou por dentro, por mais irônico que pareça, a última coisa que eu poderia querer era esquecer os dias que passei viajando com aquele vampiro, mesmo com tudo indicando que isso nunca aconteceu. Entrei em casa buscando ficar sozinha, mas mesmo sendo dia de semana, tinha gente em todos os cômodos. Minha mãe me prendeu na sala com a Sra. Moura e a dona Shirley para assistir o último capítulo da novela e eu tive que fingir que todas as declarações de amor não estavam embrulhando o meu estomago:

- É assim que tem que ser – Gritou dona Shirley para que sua voz fosse ouvida por sobre o barulho da tempestade que tinha se formado lá fora – Todo mundo merece um final feliz.

- Não... Aparentemente eu não fui feita para ter finais felizes. – Gritei em resposta e sai da sala batendo a porta atrás de mim.

Os trovões encobriram o barulho dos meus passos subindo a escada, depois caminhei mecanicamente até o meu quarto no fim do corredor e não pude deixar de estremecer quando passei pela porta aberta do cômodo mais sombrio da casa. Mesmo que outro estivesse morando ali, para mim aquele era o quarto do Nick.

Acho que voltamos ao ponto de partida da narrativa, mas o que eu poderia fazer a seguir?

Finalmente sozinha de novo eu corri as mãos pelo meu pescoço e senti um grande curativo para o qual ainda não tinha dado importância. Abri a porta do armário para me ver no espelho e aos poucos fui tirando o curativo, ele revelou uma ferida em forma de lua... Em forma de mordida. Meu pensamento foi automaticamente levado para o estranho sonho que tive antes de acordar no meu quarto. E se não foi um sonho? Tentei me lembrar do máximo de detalhes daquela cena horrível e o rosto do homem me foi ficando mais nítido, logo era claro como a água.

Em geral não sou uma pessoa fria, mas quando tenho um objetivo a alcançar meus sentimentos são facilmente deixados em segundo plano. E foi isso que eu fiz pelo resto da tarde, fingi que estava bem e que tinha me convencido que o Nick que eu conheci tinha sido um sonho. Meu objetivo principal era confrontar Daniel, mas não ia fazer isso ali na frente de todo mundo. Eu queria saber por que ele tinha me mordido, por que ainda estava na pensão e onde estava o Nick, mas tinha que esperar o momento certo.

Esperei que anoitecesse e todos fossem se deitar, vampiro não dorme, então desci as escadas sabendo que ia encontrar nosso novo hóspede na sala. Daniel estava sentado no sofá com um livro no colo e eu estava tão nervosa que achei melhor ir primeiro até a cozinha beber um copo de água. Voltei à sala com o copo entre as mãos, me sentei em uma poltrona e fiquei bebericando a água enquanto pensava em que dizer. Por mais que eu tivesse passado a tarde inteira ensaiando esta conversa, estar ali agora era completamente diferente. Quando fico nervosa, não consigo ficar parada, e por isso mudava de posição na poltrona quase compulsivamente:

- Está tudo bem Luiza? – Ele falou sereno levantando o olhar do livro para mim.

- Sim. – Minha voz quase não saiu.

- Quer me dizer alguma coisa?

Era a minha deixa, mas as palavras ficaram presas na garganta e eu só balancei a cabeça em sinal negativo. Daniel voltou seu olhar para o livro e comentou:

- Vejo que está bem melhor. Até o seu olhar triste desapareceu.

- Tenho motivos pra me reerguer.

- Fico feliz em ouvir isso. Você é uma mulher bonita, não pode ficar chorando pelos cantos.

Bonita eu? Será que todo o vampiro tem visão retorcida ou tem açúcar no meu sangue? Fiquei sem graça com o comentário e tentei mudar de assunto. Eu queria confronta-lo, mas as palavras não seguiram o mesmo caminho que a mente e acabei perguntando:

- O que você está lendo?

Daniel me lançou um sorriso entusiasmado e mostrou a capa do livro de poemas e poesias:

- Nossa! – Estranhei.

- Não gosta de poesia? – Apesar da distância ele olhava dentro dos meus olhos.

- Não desgosto. Só não tenho paciência na verdade.

- Mas alguma você tem que gostar. – Ele riu – Veja estes versos.

Me sentei ao seu lado e ele deslizou o livro para o meu colo enquanto lia em voz alta:

“ Oh! Que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das Bananeiras,

Debaixo dos laranjais... ”

- É um trecho de “Meus oito anos” de Casimiro de Abreu. – Ele me olhava sorrindo.

- Realmente, é muito boa. – Folheei o livro em busca de palavras já que as minhas não vinham à boca – Mas veja esta.

“ Vampiro infame, eu sorveria em beijos

Toda a inocência que teu lábio encerra,

E tu serias no lascivo abraço

Anjo enlodado nos pauis da terra “

- Amor e medo – Ele murmurou quando terminei de ler – Também de Casimiro de Abreu.

- E eu não entendi uma linha. – Me virei para ele.

- Ele fala do medo de se entregar aos sentimentos e ferir a pureza da mulher amada. – Daniel aproximou o rosto do meu – Não podia ter escolhido uma criatura melhor do que o vampiro para usar de referência. Um ser sombrio que destrói tudo o que toca.

Eu não sei o que ele estava tentando fazer, seus olhos estavam presos aos meus e ele continuava se aproximando do meu rosto. Sua boca estava a centímetros da minha quando consegui reagir:

- Quem é você de verdade?

Sua postura mudou. Ele se afastou e virou o rosto para o outro lado:

- Quando descobriu?

- Deixou a sua marca no meu pescoço. – Falei seca – Cadê o Nick?

- Já te disse que é melhor esquece-lo.

- Não é uma opção. – fui firme.

Daniel se levantou do sofá e olhou pela janela, depois se virou para mim e suspirou:

- O que há de errado com você? Não está nem um pouco com medo?

Me mantive em silêncio. Não, eu não estava com medo:

- Eu tentei de tudo pra te tirar do caminho, – Ele parecia nervoso e confuso ao mesmo tempo – Tentei várias vezes te transformar, mas não deu certo. Tentei te hipnotizar, mas você continuava firme. Por fim te mordi... E quando bebi seu sangue parecia que eu estava bebendo óleo fervente.

Seus olhos diziam que ele estava dizendo a verdade, mas não fazia sentido algum. Olhei para mim mesma, o que eu tinha de diferente? Voltei a olhar para ele e falei com ousadia:

- E para quê fez tudo isso?

- Eu precisava te tirar do caminho do Nicolas, mas ele iria te seguir até os confins da terra.

- Precisava por quê?

- Porque é muito fácil te encontrar Luiza. Eu mesmo só levei alguns dias. Se ficasse com o meu irmão...

- Seu irmão... – Congelei – Você é Joshua.

Ele também congelou. Aquela não era uma informação que quisesse me dar. Pensei por um momento antes de perguntar sem conseguir olha-lo:

- Por que se importa se é fácil me achar?

- Não queria que achassem o Nicolas.

- Mas foi você mesmo que colocou 600 vampiros atrás dele.

- Eu não queria fazer aquilo...

- Você matou o seu outro irmão!

Ele avançou rápido na minha direção e agarrou meus ombros, fixou os olhos nos meus e falou entre dentes:

- Eu não queria fazer aquilo!

Joshua me soltou e se sentou no sofá colocando as mãos no rosto:

- Não sei por que matei Guilherme... Eu nem lembro como foi. E depois quando o Nicolas apareceu eu coloquei a culpa nele e também não sei o por que.

Fiquei sem reação, que história mais maluca. Pensei em tudo o que me contaram até agora, pensei na raiva de Nick e na história das feiticeiras e cheguei a uma conclusão:

- Joshua, — Gaguejei – Não sei se isso é possível, mas...

Ele descobriu o rosto e se virou para mim olhando desesperadamente no fundo dos meus olhos enquanto eu terminava:

- Você não matou o Guilherme. Alguém te hipnotizou.

Notas finais
Por favor, comentem. É muito importante para mim.