Fim dos tempos 2
38 Capítulo 38 - Inimigo íntimo
Notas iniciais
Pov – Daryl
─Vão mesmo deixar os dois para trás? – Jay pergunta quando ganhamos a estrada e a horda já tomava todo pista logo atrás de nós.
─Se esses dois caírem Jay, então pode parar de lutar, não restou mais nada! – Katie avisa olhando para trás enquanto a horda ia sumindo da nossa linha de visão com seu andar lento e constante – Mich e Tommy vão chegar antes de nós, ou talvez ao mesmo tempo, vão cortar pela floresta e nada vai impedi-los, não se preocupe!
─Não estou preocupado! – Ele dá de ombros, tem muita magoa no pobre garoto, mas dá para entender, me concentro na estrada, os olhos fixos na pista enquanto Rick acelerava.
Carol de volta, Carol e seu ódio por minha pequena, por meus ratinhos, eu nunca mais tinha pensado nela, nem mesmo uma vez desde que a prisão caiu e pegamos a estrada, para mim estava morta, Rick tinha dado sua sentença e mesmo sem entender bem no fundo fiquei aliviado.
Finalmente chegamos, Rick para o carro próximo a vila e descemos, o carro sempre ficava ali, era o carro de fuga numa emergência, mas depois minha ratinha iria querer dar uma olhada nele, descemos e quando chagávamos nos portões vejo Glenn, Maggie e Carl voltando para dentro, Megan os esperava de guarda e sabia que algo estava errado, estavam tensos e armados, muito armados para um dia comum nos portões, a paz tinha chegado ao fim como sempre achei que aconteceria, Katie corre, não tem paciência para esperar, fazemos o mesmo, Jay nos acompanha confuso e impressionado.
─A meu Deus que bom que estão aqui! – Maggie diz num misto de medo e alivio.
Megan abraça Katie e faço o que sei fazer, observo os sinais a minha volta em busca de respostas.
─O que aconteceu aqui? – Rick pergunta.
─Não vai acreditar pai, Carol está de volta, viva, e decidida a começar uma guerra! – Carl conta – Mas o que importa é que saiu levando Liv e Lauren de reféns, seguimos para a estrada em busca do grupo dela, para ver se encontrávamos as duas, mas não vimos nada! – Merda eu penso, Carol esteve aqui e deixou seu recado, olho para o chão, caminho um pouco de um lado para outro.
─Seguiram daqui para a estrada direto? – Pergunto apontando para o caminho que sempre fazíamos para sair da vila, eles afirmam – Por isso não acharam o rastro, eles foram por aqui, entraram para a floresta, acho que decidiram pegar a pista depois da igreja.
Pego a arma da mão de Megan, Katie pega a de Carl, se alguém podia encontra-los éramos nós, mas duvido que a intensão de Carol era levar as duas, acho que queria apenas um passe para sair, elas estavam mortas.
─Tranquem tudo e nos esperem, depois falamos do que está acontecendo! – Eu aviso – Rick vou com a Katie e o Glenn e...
─Não é preciso! – Minha pequena avisa com os olhos marejados, acompanho seu olhar e Tommy caminhava com Liv a seu lado, enrolada em seu sobretudo, o rosto ferido, Mich a ajudava e se Lauren não estava é porque não teve a mesma sorte que Liv.
Megan corre para a amiga, as duas se abraçam, e choram, detesto ver minha ratinha chorando, ela toma o lugar de Mich e ajuda Tommy a levar Liv que caminhava olhando para o chão como se tivesse do que se envergonhar.
─Lauren está na clareira a uns duzentos metros, aquele filho da puta do Tom fez mais uma vez o serviço sujo dele! – Tommy diz com a voz carregada de ódio.
─Vamos busca-la e cuidamos de tudo! – Aviso quando ele passava sem parar para conversar.
Katie se encosta em mim, o rosto cansado, olhamos para Carl.
─Estão todos bem, mas Mary estava em trabalho de parto, não sei o que deu.
Não espero para ouvir mais nada, corro para casa junto com Katie com medo do que pode ter acontecido.
─Cuidamos da Lauren! –Glenn me grita e aceno sem olhar para trás.
Paramos um segundo na porta, nos olhamos dando força um para o outro, com medo do que veríamos quando atravessássemos a soleira, depois entramos.
Ninguém na sala, só a bagunça habitual, fico surpreso e subimos as escadas, uma conversa baixa a abafada vinha do quarto de Megan e entramos quase correndo, meu coração se acalma imediatamente, Mary estava deitada com seu bebê no colo, todos nos olham sorrindo, meus pequenos, Jimmy, Amy, Judy, todos em volta da cama debruçados sobre Mary com medo de perder qualquer movimento do bebê que parecia mamar alheio ao burburinho a sua volta.
─Que susto! – Digo me encostando na porta e buscando ar, Katie já chorando passa por todos para abraçar Mary e beijar o bebê.
─Que lindo! Tão perfeitinho! Ai que amor! – Ela beija a cabecinha do bebê que nem se incomoda, Jimmy envolve Katie num longo abraço, mais calmo vou até ele, seria um aperto de mãos se fosse outro pai, mas aquele era o Jimmy e ele era quase um dos meus ratinhos, então eu o abraço, o garoto ainda estava gelado e tremendo.
─Não é bonito papai? – Meu mini ratinho vem para meu colo, eu o abraço cheio de saudade, puxo Nick para mim, a mamãe que espere, os pais tem que ter alguma vantagem, eles me abraçam, depois Matt se solta rápido por que ele detesta ser agarrado.
─Como foi? Está bem Mary, precisa de algo? O bebê precisa? – Eu não consigo não me preocupar, não importa o quanto todos me chamem de protetor em excesso, não posso evitar de achar que Jimmy e Mary são duas crianças brincando de casinha exatamente como Megan e Carl.
─Foi tudo perfeito, eu tive ajuda de um grande médico! – Mary sorri e seu olhar segue para Nick, o que meu pequeno ratinho aprontou dessa vez? Vou acabar tendo um infarto se ele não crescer e parar de aprontar, eu e Katie olhamos para ele, já preparados para o que vinha pela frente.
─Nick foi um herói – Ele andava com essa síndrome mesmo, eu penso – Ele fez o parto! – Jimmy conta e ficamos boquiabertos, Nick? Meu ratinho fez um parto?
─Você ratinho? – Pergunto puxando ele para perto que sorri orgulhoso.
─Eu era tudo que a Mary tinha, não tivemos escolha, ele estava nascendo, a Lauren e a Liv estavam de refém, tive que fazer.
Em seguida eles contam tudo, ficamos ali ouvindo e naquele momento apenas interessados em Mary, Nick e o nascimento de um bebê, o resto ficaria para a reunião do conselho.
O bebê, resmunga qualquer coisa e tem uma infinidade de mãos e olhos sobre ele, rio de longe, esse ai está feito, tem protetores de todas as idades e tamanhos.
Puxo Katie para fora do quarto, não quero acabar com aquele momento feliz, descemos os dois para sala.
─Vou ver o Tommy, saber como ele está, acha que Megan pode cuidar da Liv? Entendeu o que aconteceu com ela? – Pergunto e minha pequena me olha triste, se encosta em mim.
─Carol não era esse monstro, nunca achei que permitiria algo assim, era algo direcionado a nós dois, não era?
─Era pequena, mas isso foi há muito tempo, pelo visto as coisas ficaram mais generalizadas agora, vou falar com o Tommy e quero que dê uma olhada nas meninas, veja se não precisam de nada, depois vamos fazer um velório e reunir o conselho, entende que estamos em guerra?
─Nunca estivemos em paz amor! – Ela me beija de leve e deixamos a casa.
Tommy está sentado na porta da pequena casa que agora divide com Liv, eu já tinha notado o quanto ele estava encantado pela menina, e mais o quanto ele e Lauren andavam próximos, ele era um cara fechado, eu sabia que tinha um mundo de coisas que não dividia com ninguém, mas que nem sempre era preciso falar para demonstrar amizade e apenas podia me sentar ali, como faço com Rick, nem sempre dizemos coisas, às vezes apenas dividimos olhares, silencio, e isso não nos torna menos amigos.
Ele continua imóvel quando me sento, o olhar perdido, Rick também se aproxima, olho em direção ao nosso pequeno cemitério, a cova estava aberta, o corpo enrolado num lençol ao lado, as pessoas morriam antes, mas agora quando alguém morre é sempre de um jeito trágico, não se envelhece mais.
É estranho o paradoxo do momento, acabo de celebrar a vida num quarto de garota cercado por crianças num mundo de esperança e com cara de futuro feliz, e uns passos depois estou diante da morte em seu estado bruto, a fria e inevitável certeza que esse mundo nos deu, nenhum de nós está seguro, não tem futuro, não importa o quanto você fuja, uma hora ela te encontra, a morte vem nos caçando há muito tempo, é uma caçadora experiente, atenta, acima de tudo é paciente, não tem pressa, sabe que somos presas fáceis, desatentas, uma hora caímos em uma de suas armadilhas e então ela nos recebe, sem qualquer piedade nos abre os braços sorridente, satisfeita.
Katie passa por nós três, silenciosos sentados ali, toca o ombro de Tommy, são bons amigos, seu carinho diz muito e ele toca sua mão em gratidão, depois ela entra para ajudar Megan a cuidar de Liv, nós três ficamos.
─Lauren era uma mulher incrível, eu vi que andavam próximos, sinto muito! – Digo sem olhar para ele, nenhum dos três se encarava, ele fica calado um minuto, depois respira fundo.
─Gina estragou tudo! – Tommy começa e ninguém abre a boca, o código masculino, garotas ponderam cada frase, dão palpite, contestam, homens escutam calados – Eu estava decidido a passar por isso sozinho, era assim que devia ser, me abstive de todo tipo de desejo ou sentimento pelo sexo oposto, se ia morrer não queria mais essa complicação.
Sei como é, achei o mesmo um dia, mas minha pequena, passou por cima de tudo.
─Então ela achou que não estava bom, me enrolou todo naquela rede dela – Tommy sorri – Era um pingo de gente, num primeiro olhar você pensava, a pobre precisa de proteção, mas então um olhar mais atento e só se via força, energia, Gina não precisava de nada, nem ninguém, mandava e desmandava, em mim, na vida, em tudo, e era bom, ela não me exigia nada, não era como vocês e suas esposas, éramos só eu e Gina dividindo alguns momentos, sem compromisso e ela estragou tudo morrendo e pior deixando uma maldita porta aberta, então veio Lauren e não era nada além de admiração e o cuidado que tínhamos com Liv em comum, Lauren era inteligente, perspicaz, tinha uma conversa fácil, estava sempre um passo à frente e se não era paixão, era um carinho que eu achava que podia chegar em algum lugar, e ai está – Ele olha para o cemitério – Mas a Michonne é diferente, ela...
─Michonne? – Eu e Rick dizemos juntos, mandando os códigos masculinos para o inferno, olhamos para ele que fica de mim para Rick sem saber o que dizer.
─Eu disse Michonne?
─Disse.
─Não disse, não disse coisa alguma, eu...
─Ah você disse! – Queria saber aquela história e ele iria falar.
─Beijei a Michonne! – Ele admite por fim, eu olho para Rick, tão pasmo quanto eu – Eu sei que não faz nenhum sentido, andamos juntos por ai um milhão de vezes, nunca nem sequer notei ela e então do nada, quando eu nem esperava, quando achava que estava voltando e que talvez eu e Lauren... Beijei ela e foi uma coisa devastadora, uma merda maluca de coisas estranhas me dominou e fiquei... esqueçam, não vai se repetir, não vou mais pensar nisso e isso é tudo.
─Certo, se está dizendo.
─Sabe que se abrir o bico para sua mulher eu nunca vou ter paz?
─Sabe que ela manda muito em mim e que se me perguntar vou gaguejar e entregar os pontos num minuto? – Aviso.
─Você é um fraco Daryl! – Tommy me acusa e nem posso me defender porque sou mesmo, Katie tem tudo que quer de mim, mas já avisei, se ela descobrir ele não foi enganado.
─E a Liv? – Rick pergunta.
─Vou enterrar Lauren e depois vou caçar e matar aquele desgraçado, ele vai se arrepender do dia que nasceu, vou dar a ele uma morte lenta, cheia de muita dor, eu sei exatamente como fazer, quero vê-lo implorar pela morte.
─Calma Tommy, vamos reunir o conselho e tomar decisões juntos.
─Me reúno com vocês, mas depois ele vai ter o que merece, ela é só uma menina, eu nunca devia ter deixado ela com Lauren, devia ter deixado com o Glenn, ela não teria passado por isso se tivesse ficado com a família.
─Lauren era como a família para ela, ninguém sabia que algo assim aconteceria, ela estavam apenas aqui, foram até nosso quintal!
─Rick, sabe o que aquele monstro fez com ela, não sabe?
─Sei.
─Eu não sei dizer porque gosto dela, porque me sinto responsável, mas me sinto, deve ser como aconteceu com o Daryl, foi assim não foi, Daryl, um dia eles eram seus e pronto?
─Foi, eu nem sabia o que estava acontecendo.
─E então eles eram tudo que tinha e queria proteger, não é isso? – Eu afirmo – Me sinto assim, só que fez um bom trabalho, eu não, deixei acontecer de novo.
─Vamos Tommy, vamos dar a Lauren uma cerimônia e depois nos reunir, tem muito a ser decidido antes que saia por ai em busca de vingança! – Rick pede se erguendo, Liv sai de dentro da casa, com Megan, Katie e Michonne, nunca mais vou conseguir olhar para minha velha amiga sem imagina-la aos beijos com Tommy e isso é absurdamente estranho para mim.
Liv caminha até Tommy e o abraça, outra coisa estranha de ver, Tommy abraçado com alguém, já o vi engalfinhado com inimigos vivos ou com zumbis, mas sempre em luta e vantagem, mas agora estava abraçado e em desvantagem, por que se Liv sabia o que estava fazendo, Tommy ao contrário não tinha a menor ideia ou jeito.
A cerimônia é muito simples e rápida, nada de discursos, apenas algum silencio respeitoso e lagrimas, até mesmo as lagrimas eram agora privilégio de poucos, andávamos cansados de chorar.
─Sei que todos estão confusos e assustados! – Rick diz aproveitando que toda vila estava reunida ali – O conselho vai se reunir, entender melhor o que se passou e tomar decisões, claro que essas decisões serão para o bem de todos, e a opinião de vocês será importante, então se quiserem se pronunciar, agora é uma boa hora e o conselho vai analisar depois.
─Ela deixou claro que não quer os Dixons e os Grimes aqui, vão discutir a possibilidade de partirem como ela quer? – Eu encaro John, me lembro perfeitamente de tê-lo trazido junto com a mulher e um irmão para a vila há uns três anos, isso depois de salvar a vida da mulher dele colocando a minha em risco matando sozinho meia dúzia de zumbis.
─A família Grimes e a família Dixon construíram esse lugar! – Jeff anuncia – Estamos com eles e quem não está é bom arrumar as malas e sair da casa deles.
Jeff era um bom amigo, estava aqui há muito tempo e sempre foi um cara forte e importante para o grupo, era bom saber que estava conosco.
─Vamos reunir o conselho! – Rick diz apenas.
Só então noto Jay sentado em uma porta assistindo ao enterro de longe, deixamos o garoto jogado desde que chegamos, mas agora ele seria recebido, caminhamos para minha casa e faço um sinal chamando por ele, o garoto vem em nossa direção, Liv ainda está abraçada a Tommy e ele se aproxima.
─Sinto muito por sua perda Tommy! – Diz solene – E a sua! – Ele encara Liv que acena.
Nos sentamos na sala, as crianças ainda estão no quarto cercando Mary.
─Porque não sobe e vai ficar com a Mary e seus amiguinhos? – Tommy diz a Liv que ainda estava grudada nele, ela nega com a cabeça, “amiguinhos? ” eu era um pai muito sem noção, tratava meus ratinhos como bebês, mas o Tommy estava nesse momento dando um show de falta de habilidade, ninguém se atreve a comentar e Liv continua encolhida a seu lado.
─Acharam a comunidade? Quem é ele? – Carl começa a reunião apontando o dedo para Jay, não vai ser uma reunião fácil.
─Achamos, se chama Horizonte, fica a um dia de carro, e este é Jay, ele estava fugindo quando nos encontramos e pode nos ajudar a entender o lugar – Rick encara Carl, as velhas questões pai e filho, o velho embate entre proteção e liberdade.
─Carol nos deu um prazo, já viram que não vamos ter todos ao nosso lado se ficarmos aqui esperando.
─Carl não vamos embora, essa é nossa casa! – Rick rebate.
─Não quero ir embora pai, sabe disso, mas não vamos ficar esperando, não quero um outro governador derrubando nossas cercas, vamos atacar antes, ela não espera por isso.
─Carl...
─Eu concordo, na verdade é isso que eu vou fazer! – Tommy se pronuncia cortando Rick e nos colocando em alerta.
─Atacar? Reunir um grupo e ir até a comunidade deles? – Glenn questiona – Mas e isso não nos deixa mais fracos, com menos munição e em campo inimigo, não sei.
─Vou até lá e vou matar aquele Tom! – Tommy se pronuncia, mais uma vez firme.
─Não está pensando direito Tommy, não é apenas sobre acabar com esse canalha, é sobre nossa vila, e todos nós, matar o Tom é só uma das questões! – Eu tento convencê-lo.
─Tom não vai ficar em Horizonte! – Jay comunica e todos o encaram – Eu não vim com vocês para me esconder aqui, quando me disseram que eram vocês que Carol caçava eu decidi vir para ajudar, para vingar a morte do meu pai e ajuda-los, mas vão ter que confiar em mim, eu os conheço.
Confiança era algo difícil para todos nós, nunca se sabia bem de onde viria a traição a covardia, quem era quem e do que éramos capazes, fizemos coisas que nunca sonhamos fazer, fomos a lugares que nunca achamos que iriamos, e mais uma vez a vida nos empurrava para uma guerra, dessa vez o inimigo era íntimo, já dividimos comida e teto, se isso era uma vantagem para um dos lados só o tempo nos responderia.
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